17 de agosto de 2012

Amamentação: Por quê eu sou ativista?


por Cariny Cielo

Fui convidada a participar da Blogagem Coletiva proposta pelo blog Desabafo de Mãe em comemoração à Semana Mundial de Aleitamento Materno e pensei: Por quê alguém que não ganha absolutamente nada com algo, se dedicaria a promover este algo? Sim, pois, que eu sabia, eu não recebo uma nota de cem reais para cada peito de mãe que um bebê abocanha.

Aliás, seria imensamente mais vantajoso ser ativista da indústria de leite artificial! Eu exigiria alguns % em cada venda de leite de vaca enlatadinho e, nos dias de hoje, de fato, eu ficaria rica, pois se vende MUITO leite artificial. Eu viajaria pelo Brasil, ganharia subornos (OPS!) presentes maravilhosos, férias em resorts e iria a magníficos congressos na Europa... um luxo só.

Mas então, o que raios eu tenho na cabeça para querer tanto promover a amamentação numa era onde o que importa é o dinheiro? O filho não é meu e a mãe, muitas vezes, eu nem conheço.

Foi respondendo esta pergunta que eu me dei conta de quê espaço eu quero ocupar!

Quero chegar até a família que deseja profundamente que o bebê recém chegado mame, mas encontra dificuldades já que vive num tempo contrário ao natural. Num mundo onde, nos dizeres de Sonia Hirsch , a “saúde é subversiva porque não dá lucro a ninguém”. Numa era que dá, a todo instante, mensagens de incentivo ao consumo, ao lucro, à competição, ao espetáculo e pouco ou nada promove ao que é fisiológico, natural, verdadeiro e de qualidade.

Não me importam as mães e suas escolhas em não amamentar. (Em que pese eu entender que aleitamento materno seja questão de saúde pública – mas isto é assunto para outro post).


Mas me importa, e muito, a mãe que quer amamentar, e não tem apoio nenhum. É por ela, tudo isso! Eu já fui uma delas e, cheia de olheiras e mamilos esfolados, olhei prum lado, olhei pro outro e... nada de ajuda! Banco de Leite? Privilégio da Capital: Porto Velho, e só!

Lembro do ódio que eu tinha dos cartazes nos postos de saúde quando eu ia vacinar meu filho. “Como ela consegue e ainda faz essa cara de Diva?”. Eu segui cambaleando até acertar e, ao final, o Emiliano mamou feliz até mais de um ano, mas eu poderia ter desistido naquela noite em que se somou meu esgotamento, a dificuldade de pega dele e toda uma coletiva de imprensa me dizendo que o bebê era muito magrelinho.

A mulher que quer amamentar o filho encontra, hoje, uma verdadeira campanha contra! (E pra quem vai dizer que, ‘Imagine! Que exagero! O Ministério da Saúde promove a amamentação escrevendo isso em todas as embalagens de leite e mamadeira e fazendo belas campanhas com atrizes famosas, eu digo: “aham!”).

- Em cada farmácia e supermercado existem gôndolas de mamadeiras desenhadinhas, além de latas e latas de leite, de todos os tipos, com uma informação nutricional de dá inveja!;
- Em todo consultório tem um médico receitando o leitinho enlatado ‘caso o leite da mãezinha seja fraco’;
- Em toda família tem vovós que adorariam dar mamadeira pro netinho e, assim, se sentirem cuidando também da cria;
- Em toda cama de casal tem um marido que se sente ‘perdendo’ os peitos da mulher pro filho.
- Em todo muro tem uma vizinha dizendo que seu filho tá magro ou chora de fome;
- E, em toda mulher moderna, existe, em algum grau, uma sensação de inadequação com os processos naturais e fisiológicos femininos fruto do modelo masculino e racional em que se organizou a sociedade. Carregamos uma anti-mulher dentro de nós que diz que não vamos conseguir, que aleitar dá trabalho demais, que é dedicação demais, que é feio demais, que vai nos espoliar, nos estragar o corpo, nos privar da vida social, nos prejudicar o casamento e, finalmente, que o que é comprado é melhor, mais bonito e limpinho.

O desafio é: como convencer alguém mergulhada num universo de consumo que, durante seis meses (!), ela não precisará comprar nada, absolutamente nada para alimentar um filho? A resposta está no ativismo! Dividindo as dificuldades, espalhando as estórias reais de mulheres reais, propondo ajustes, envolvendo a família, apresentando uma nova forma de encarar as dificuldades e um jeito novo de fazer velhas coisas.

É para essas mães que eu dou uma de exagerada ativista e saio por aí ajudando mesmo, gastando do bolso, emprestando vídeos, livros, textos etc, visitando em casa, sugerindo alternativas, trocando experiências, gritando a toda voz...

É pela delícia de ver uma igual dar um passo em direção ao feminino através do aleitamento natural que eu tô aqui, sendo ativista da amamentação! Promovendo o bendito vínculo!

É por ela, é por mim, é por nós: mulheres...


Extra: O que é Ativismo?

13 de agosto de 2012

Paternidade Ativa: Não se carrega mais papai no bolso...


por Cariny Cielo


Esse dia dos pais me foi especial por inúmeras razões.

Quem leu a estória da Lorenna, a gestante que mostrou cara, barriga e alma no último post, emocionou-se com a participação surpreendente do pai do bebê Henrique, que está a caminho.

Fui brindada com o comentário corajoso e sensível do marido dela, um homem que descobriu a verdadeira paternidade. Ele emociona-se, pede perdão, empodera-se, assume um vínculo e ainda faz um alerta: "homens, sejam pais desde a gestação!".

Aqui o vínculo pai-bebê também tem pinceladas especiais... meus filhos meninos olham para um pai sensível e giram no entorno dele, em uma troca de amor que dá gosto de sentir.

Bem diferente do que acontecida no passado. Sem dados estatísticos para comprovar, mas acredito que a maioria dos avós viveram uma época em que o amor era 'tarefa' da mãe e a razão, do pai. Mantinham distância afetiva com receio de perder a autoridade e hoje, vemos que a liderança verdadeira vem do amor e nunca do medo.

Chega de 'carrego papai no bolso e mamãe no coração'. Estão lá, no coração dos filhos, o pai e a mãe. Quem ganhou com isso? Os filhos, sem dúvida, mas acredito que quem mais ganhou foi o homem. O homem que, ao se vincular, ao se conectar com sua cria, ativou mecanismos de satisfação pessoal e qualidade de vida. Chutou o balde da frieza, rasgou as cortinas do distanciamento... jogou fora todas as máscaras e mostrou-se: ao filho, à sua eternidade! Com isso, cresceu como ser humano...

O homem hoje que está nas consultas de pré-natal, que invadiu a sala de parto, que dá colo e dá o peito à mulher para que ela dê o peito ao filho... este é homem de carne, osso e alma masculina.

Exercitar o feminino não liberta apenas a mulher, também liberta o homem. Ele pode despir-se dos falsos conceitos sobre sua masculinidade e fugir do machismo que mina suas energias.

E ele pode, finalmente, amar...

O dia dos pais foi de festejar por muitas coisas! Festejar pelo meu pai e pelo homem que ele foi, me fazendo quem sou. Pelo pai dos meus filhos e pelo cuidador que ele, todos os dias, esforça-se em ser apenas para amar a cria. E festejar pelo pai do Henrique que aprendeu a arte de amar um filho ainda no ventre.

Vamos comemorar, que o lugar de pai é no coração também...

8 de agosto de 2012

Relato: Estreando... Lorenna, que aprendeu a cuidar...



Eu estava sedenta por um espaço onde pudéssemos mostrar a cara - ou seria a barriga? - das gestantes rondonienses. Quem são essas mulheres, o que pensam, o que querem, como se submetem ao que Rondônia tem a oferecer em termos de atendimento obstétrico e, claro!, quem são esses rondonienses que estão a caminho...

Hoje começa minha saga por ouvir essas mulheres.

Estreamos com a Lorenna Melo! Aos 29 anos e trabalhando na área da saúde, ela é a feliz mãe do Samuel (que ela lindamente fala que foi seu "pedido de Deus") e gesta o Henrique, segundo ela, o príncipe poderoso.

Sua estória chegou até mim por coincidências da vida, pois nossas avós foram amigas de infância. O depoimento dela é recheado de emoção, bem à flor da pele, como costuma ser tudo que uma mulher se propõe a fazer de coração...

Me chama a atenção em seu relato a sensação de que "não deveria ser assim" que, ao que parece, acomete muitas mães que vivem um nascimento com intervenções (mesmo as necessárias) e que se sentem tolhidas de parir... o 'não parto' é muito doloroso.

O que ela tem de destaque é a visão linda de, como num passe de mágica, perceber que não precisa 'ser cuidada' por ninguém; precisa é cuidar! Essa mudança dramática de paradigma que, no caso dela, foi impulsionada por uma experiência ruim, é o que define nossos conceitos de protagonismo feminino. Antes uma figurante, agora, a protagonista! Protagonista mãe, mulher...

Assume corajosamente que tem medos, mas que não vai se deixar ser engolida por eles. Ela aprendeu a colocar o medo em seu devido lugar! Abaixo da fé, abaixo do amor...

O medo e a dor são conceitos reais pelos quais passam as mulheres, hoje, quando se veem grávidas. O mundo masculino nos ensina, de cedo, que somos incapazes de conceber, gestar, parir e amamentar sem ajuda e, internalizamos isso de uma forma tão profunda, que quando precisamos daquela mulher forte, capaz e cheia de vida, ela não responde.

A Lorenna tem medo, dúvidas e sabe que o trabalho de parto é, realmente, um trabalho! A quem ela deve desaguar essas dúvidas, esses medos? Não, não é no médico. Deixem pros médicos as facetas físicas da gestação e dediquem tempo para investigar com outras mulheres, com sua fé, com o que acredita, todos os prismas emocionais e espirituais que envolvem sua gestação...

Muito importante ver que ela alerta as mulheres a não entregarem o parto ao médico, por melhor e mais bem conceituado que ele seja. Realmente, os únicos verdadeiramente interessados em que experiência seja feliz são o bebê e a mãe. São eles os sujeitos, os que sentem na carne o bom e o ruim... Então, eles é que devem assumir a luta pelo bom. A isto chamamos de empoderamento feminino. Saber que é capaz, saber que tem direitos e assumir escolhas. Os médicos não vão mudar sozinhos (salvo raríssimas excessões). Quem os empurra para as mudanças são as mulheres que demandam o melhor...

Lorenna espera seu Henrique de alma aberta. Fecha o olhos e entrega-se ao desconhecido com a fé que a anima e já se sente uma mulher melhor por saber que é preciso sempre mais, é preciso luta, é preciso dedicação, é preciso ação e não passividade... ser mãe, como ela diz, é buscar conhecimento, experiências, tomar decisões e lutar por elas.

Como eu costumo dizer, e já disse por aqui, o tempo é de luta para que um dia nossas netas possam ter na gravidez e parto uma experiência verdadeiramente feminina e respeitosa.

E que venha o Henrique, feliz e sorrindo, conhecer aquela que se faz e se refaz na ânsia de ser melhor a cada dia... sua mãe, Lorenna.



"Esse ano já começou cheio de boas novas, entre elas a confirmação do que já queriamos alguns meses, mais um membro para o corpo na nossa família. Não há como não sentir que algo novo faz parte de mim, acho que a transformação começa na alma até se tornar algo detectável! Mas o corpo que gesta já passou há tempos por sincronias de ciclos hormonais, emocionais, espirituais... a concepção é algo divino.

Há quatro anos quando me vi tomando soro em um pronto-socorro por não conseguir comer e nem beber nada por dias, me via dependente, enfraquecida, fui mal atendida nas primeiras consultas do pré-natal (até reclamação por escrito fizemos ao plano de saúde, pra variar não resultou em nada). Aí a grande mudança, devido ao trabalho do meu marido fomos morar no interior, tinhamos indicação de uma médica que fez o cenário mudar um pouco, eu já estava no quinto mês de gestação, os enjoos já eram menos frequentes (duraram até o sétimo mês!). Não estava trabalhando, não conhecia ninguém na cidade, meu marido saía muito cedo e voltava só a noite! Era eu e meu bebê, apesar da presença dele ser manifestada com muitos chutes (sensação mais saborosa da gestação), o silêncio dos meus dias me trazia solidão, que me trouxe medos, dúvidas. Para mim o que restava era seguir tudo que minha GO falava, apesar de não gostar de consultas médicas de forma geral, era alguém que me ouvia, me perguntava, falava comigo!

Na escolha do parto, ela me montou uma cena de parto normal e uma cena de cesária. Já dá até para imaginar, o primeiro: muito sofrimento e dor, que poderiam durar dias, e se na hora do expulsivo não tivesse força, se fosse necessário ela gritar comigo, assim ela faria! E a cesária não! Tinha hora marcada, começo e fim determinados. Pronto! Nem vou pensar em mais nada, tá escolhido e com hora marcada! (decidi).

Uma semana antes do "combinado" fui fazer uma ultrassom, umas 7h da noite, e foi detectado pouco líquido amniótico, então, o veredicto: "daqui meia hora volte pois não podemos esperar que o bebê começe a sofrer, ele vai nascer as 21:00h!"

Eu: Mas não tem como eu esperar minha mãe vir? Esperar até o dia seguinte? E continuaram: Não, você pode começar a passar mal, e o bb tbm, e isso ainda pode ser de madrugada!

Bem, às 21h Samuel nascia livre de todo mal, sedento por uma mãe que reagia com tremores e vômitos a uma anestesia bomba! Meus pensamentos confusos diziam que não era para ser assim... a partir daí seguiram 10 dias de recuperação dos inchaços, falta de sono, e dores! Não sei se é meu organismo que realmente não suporta intervenções, ou é assim mesmo, só sei que para mim a cesareana foi muito dolorida.

Hoje revendo tudo que passou, vejo que deixei muito nas mãos de outros o que eu deveria ter feito. Demorei para perceber que não era eu quem tinha que ser cuidada, mas eu tinha que cuidar, então eu tinha que estar bem, viva, desanestesiada! O nascimento e a presença do Samuel me fizeram ver que se tornar mãe não é simples assim, é buscar conhecimento, experiências, tomar decisões e lutar por elas, escutar e ter uma "peneira" enorme nos ouvidos para saber o que ouvir. Isso tudo se inicia no bem nascer, e vai por toda nossa vida enquanto formos chamadas de mãe.

Em outubro quando nosso dia chegar quero estar presente, ativa, e feliz, passando por tudo que for necessário para trazer por mim mesma esse bebê que Deus desenhou tão perfeitamente, assim como o caminho para seu nascimento.

Não posso dizer que não tenho medo, ou dúvidas, e quem não tem?!! Mas tenho muita fé Naquele que nenhuma folha deixa cair da árvore se não for preciso, Ele sabe dos meus sonhos, e conhece todo desenrolar dos meus pensamentos, e pede para que eu não tema!! Assim será....

Moro em Porto Velho e a realidade daqui é bem distante do que se chama de humanizado, em todos os sentidos. A escassez de profissionais (não digo nem bons profissionais) leva a sobrecarregar aqueles que ainda se preocupam um pouco mais.

Estou fazendo pré-natal com um médico muito bem conceituado e que em todas as minhas dúvidas me satisfaz, mas eu digo: futuras mães por melhor que seja o curriculo deles, não esperem que eles contem tudo sobre gestação, partos, e todas as variantes que uma gestante pode passar! Até porque em consultas de que duram 15min não daria tempo para isso! Por falta de conhecimento a gente acaba aceitando muitos caminhos que talvez nem seja o melhor, mas o mais conveniente, e geralmente não para os mais interessados, mãe e bebê!"

6 de agosto de 2012

A Marcha Nacional Pela Humanização do Parto em Rondônia... e as mulheres dançando...

"E os que dançavam foram considerados loucos 

por aqueles que não ouviam a música". 

(Nietzsche)






por Cariny Cielo


Esta frase é sucesso garantido quando estamos vivendo uma revolução. Geral, local, gradativa ou radical, não importa... sempre combina, sempre veste muito bem e, se você acha que consegue, vale a pena ler Nietzsche (quem é esse?) para, no mínimo, fazer cosquinha no cérebro.
Bailaram, no último domingo, algumas anônimas e corajosas mulheres em Rondônia! A Marcha Nacional pela Humanização do Parto teve em Porto Velho sua pincelada talvez mais singular.

Se há um lugar no Brasil onde mulheres defendendo humanização do parto seriam mais consideradas loucas, esse lugar certamente é Rondônia. Somos nós o único Estado da região norte do país onde os nascimentos por cirurgia superam os por parto normal.

Por aqui, todo esse papo ainda é delírio! Exceto pela Maternidade Pública Municipal de Porto Velho (que em 2010 recebeu o selo de Hospital Amigo da Criança pelo Ministério da Saúde, e onde trabalha uma das que Marcharam - a Enfermeira Sandra Schultz) todo o resto fala outra língua.

O grave de falar outra língua, no entanto, é que esse outro idioma é ouvido e 'entendido' todos os dias, dezenas de vezes, por inúmeras mulheres que buscam o sistema obstétrico quando se vêem grávidas.

O outro idioma, no caso, o da intervenção artificial em um evento fisiológico, entorpece de tal forma que raramente vemos as mulheres gritarem dizendo que não estão entendendo o que se diz...

O mais comum é aceitar: aceitar a gravidez excessivamente monitorada com a posição de frágil e doente da mulher, a cirurgia mais arriscada vendida como melhor por conveniência, a falta de ética, a ameaça, o medo paralisante, a mutilação vaginal, o corte abrupto do cordão umbilical, o soro na veia, a posição humilhante, o frio do ar e das pessoas, a luz forte, as vozes estranhas, as ordens, os julgamentos, o bebê que vai embora sem que sequer veja a mãe, a rapagem de pelos e lavagem intestinal, o ácido nos olhos de quem mal viu o mundo, a solidão, o isolamento, fim...

Nasceu um cidadão e nasceu uma mãe dentro de um sistema violento, mas, quem liga? Eles não estão ouvindo a música tocar... Nem eles, nem os médicos e médicas que os atenderam, nem pediatras, nem os familiares envolvidos, nem as enfermeiras ou enfermeiros e técnicos ou técnicas... ninguém... faz-se um silêncio mortal nas salas obstétricas do país e de nosso Estado.

O bom é que um dia a música toca. Sempre toca, é a ordem natural das coisas, é a Lei da Vida, é o progredir infinito do qual ninguém fugirá. Ele vem com prazer ou dor, nos empurrar topo acima...

E essa música tocou com prazer e euforia, no domingo... fazendo dançar orgulhosas, as que ouviam, com deleite, a canção.

Dançou a Paula com seu filho nascido da coragem e naturalmente. Dançou a Sandra que todos os dias molha de sangue e vida suas mãos para fazer respeitar mulheres que chegam a seu caminho. Dançou a Elis que cicatrizou um corte com um parto desafiador, feliz e em casa. Dançou a Alyssa com seus partos naturais, um domiciliar, no florescer da vida. Dançou a Silvania que traz o valor do natural correndo nas veias. Dançou a Helena que se inspirou quando grávida na música que tocava de outras mulheres. Dançou a Lorenna que, numa outra gravidez, se viu uma outra mulher. Dançou a Camila que ainda não tem filhos, mas já acredita no feminino. Dançou a Izabela que sente que essa é a música certa para se ouvir. Outras tantas anônimas talvez passaram, naquele instante, a ouvir e a dançar também...

Que bom que se ouve por aqui o som cristalino e puro da nova onda...

Que orgulho fazer parte desta estória!





25 de julho de 2012

Maternidade ativa: Dia Mundial do Perdão e a cura das feridas.


por Cariny Cielo


Hoje é o dia mundial do perdão e meu pedido de perdão vai para meu filho.



Filho querido, me perdoa?

Você me teve tão despreparada, tão alheia e perdida.

Quanto te ouvi, gritando em desespero, recém-nascido, dei-me conta de que, enfim, você havia mesmo me escolhido. E você foi tão corajoso por isto pois faltava tanto de mãe e de mulher em mim para merecer teu sorriso lindo de criança.

Perdão por não te dar o primeiro abraço assim que nascestes e por deixar te levarem de mim a caminho da solidão fria de um berço...

Perdão por não exigir que te deixassem receber o sangue que ainda vertia de mim pra ti, e que era teu por direito. Cortaram-te de mim, sem rodeios, sem simbologia, sem reverência...

Perdão pela pressa, filho, com que te manusearam, te empurraram, te vestiram, te violaram... pelo ardor do ácido nos olhos, pela angústia das sucções e injeções.

Me desculpa a sala fria e sem vida e aquela luz tão forte que feriram teus olhos que, até então, buscavam a mim, só a mim. E me perdoa por todas aquelas mãos te tocando, quando só o meu toque importava...

Perdão pelas horas eternas em que tu esperou para conhecer meu seio, saciar tua fome, de leite e de vida, enquanto eu ainda procurava os pedaços de mim que haviam se perdido.

Perdão por tudo aquilo que você teria direito e não teve por estar, eu, ainda tão ausente de mim mesma. Por não te ouvir e por não me ouvir...

Me perdoa por eu não ter sido tua no exato instante em que chegastes a este mundo. Por não ter gritado e exigido o respeito que merecias por ser meu filho.

Pelo cheirinho que não senti e o banho que não te dei...

Perdão, depois, pelas noites mal dormidas, em que te neguei comida, ainda tão distante de ti.

Pelo longo escuro da noite e aquele vazio no quarto que eu te fiz sentir. Tão vazia, eu sim, de mim mesma.

Desculpe todos os beijos que não te dei e os abraços que te neguei, quando gritavas por mim.

Quero te lembrar que isso tudo passou e, embora carreguemos nossas marcas, você estava certo em me escolher. Não posso ser mais nada que não sua mãe.

Aquela chaga nunca foi esquecida e foi ela que me impulsionou a sair da frieza e da razão e mergulhar no mar do amor.

E isso, a cada dia, ganha uma dimensão que até então eu não conhecia. Continuo te aprendendo, mas desta vez sou eu uma completa enamorada de ti...

Todo dia é de perdão e eu relembro e me liberto!

Perdoa-me, filho, tu és meu amor eterno.


Imagem: Anne Guedes. Álbum do bebê, arquivo pessoal 

23 de julho de 2012

Marcha do Parto em Casa: O que é que Rondônia tem a ver com isso?



por Cariny Cielo

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro editou as Resoluções ns. 265 e 266 no último dia 19. Todo o movimento nacional e internacional de humanização do nascimento está chocado com a arbitrariedade e, em tese, inconstitucionalidade e ilegalidade da norma.

Mas não estou aqui para sair fazendo discurso sobre este assunto, pois, se vc digitar no Google: cremerj + parto + casa + doula, vc consegue um banquete de informação.

Estou aqui para responder a pergunta que você que é de Rondônia pode ter feito, quando começou a ler o meu post: “o que é que eu tenho a ver com isso? Rio de Janeiro? Conselho Regional? Hein?"

Pois bem.

Um dos grandesssíssimos problemas (acabo de inventar esse adjetivo) de quem planeja melhorar qualquer coisa institucionalmente organizada (saúde, educação, política, órgãos públicos) é a falta de união para este fim. Vemos por aí que, muitas vezes, o status quo (quem fez graduação em Direito adora latim) se organiza tão bem que acaba sendo muito mais bem sucedido do que quem quer mudança. Parece que paira no ar um invisível ‘código de irmandade’ em favor de quem, por algum interesse (geralmente bem mesquinho mesmo), prefere manter as coisas como estão!

Um Conselho de Medicina deveria pensar – essa é a lógica na qual acreditamos – que, se faz bem para a mulher e faz bem para o recém-nascido, tem que mudar! Mas, estão tão 'retrogradamente' organizados que sequer cogitam discutir o assunto. Olha o status quo reinando aí...

Querem um exemplo? Meu primeiro filho nasceu há cinco anos e eu, ainda grávida, virei prum médico e disse: “gostaria que na hora do parto esperassem o cordão parar de pulsar para fazer o corte, eu já li, estudei bastante a respeito e... blá blá blá”.

Como responderia um médico aberto a mudanças?
– Interessante! Onde vc leu isso? Como funciona? Vou estudar a respeito.

Ocorre que eu aprendi a duras penas que médicos, em regra – e olha que eu detesto generalizações – não são abertos a mudanças! A medicina tradicional não é aberta a mudanças. Porque? Por que eles querem manter o tal do status quo. E porque eles querem manter? Por que está bom para eles, oras!

Mas, continuando...

Como ele me respondeu?
– HAHAHAHAHAHAHAHA. De onde vc tirou isso?

Só ele achou que era piada! E a ironia que fecha com chave de ouro este meu exemplo é que, quatro anos depois, em março de 2011, a Sociedade Brasileira de Pediatria colocou como REGRA no atendimento neonatal o “clampeamento tardio do cordão”.

Aquilo que eu pedi feito esmola em 2007, virou norma médica em 2011. (Pausa para ficar com ódio!).

Logo, as mudanças só se efetivam com união efetiva dos interessados! Se, na época, eu fizesse parte, como faço hoje, de algo maior (Rehuna, Parto do Princípio) eu não pediria esmola; eu exigiria o melhor! Tolinha, eu era...

Existem médicos em todo o Brasil e mundo que estão a todo instante se questionando para oferecer o melhor para seus pacientes. E isto sim é ser ético!

E, Rondônia tem tudo a ver com isto simplesmente porque, das últimas dez gestantes que vc viu por aí, de 7 a 8 (se for em hospital particular serão 9) vão sofrer cirurgia para o filho nascer, sendo que, em regra, apenas uma vai ter realmente precisado da intervenção. E, pior, muito pior, pior demais (!), todas vão achar que a cesárea é mais segura para ela e para o bebê!!! NÃO É!!! E não precisa ficar duvidando de mim, porque não sou eu que penso isso, ta? Ou melhor, eu penso, também, mas você vai gostar de saber que isto vem da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde, e das evidências científicas...

E você? Quer ciência ou quer conveniência? Será que seu médico sabe o que é medicina baseada em evidências científicas? Ou será que só ele também vai achar que mudar é uma piada?

Sendo você uma gestante morando em Rondônia, o assunto das resoluções do CREMERJ tem tudo a ver contigo: o que tá ruim pode piorar! Não é porque estamos em Rondônia – o Estado número 1 em cesáreas do Brasil, sil, sil – que estamos alienadas, alheias ao que é bom, ao que vem mudando a nível nacional e mundial!

Mesmo que vc não esteja grávida; ou nem queira saber de filhos; ou, ainda, que seja homem... cuidado: Mais dia, menos dia, vc pode precisar que o atendimento obstétrico de Rondônia seja melhor!!!

E, se como diz nosso amado (idolatrado salve, salve) Michel Odent: “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”; então, para mudar Rondônia, é preciso mudar a forma como nossos rondonienses nascem...

Vai dizer que isso não tem nada a ver com você?

...

Agora é aquela hora em que vc me pergunta, empolgadíssimo, ou empolgadíssima:

– “Como eu posso participar?”

Aí vai:

1. Compartilhando este post! Espalha aí e põe lenha na fogueira...

2. Assinando o abaixo-assinado:
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=265266RJ

3. Denunciando ao Ministério Público Federal:

http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/informacao-e-comunicacao/contato/como_encaminhar_denuncia/
“Eu quero manifestação do Ministério Público acerca das resoluções baixadas pelo CREMERJ, pois entendo que são inconstitucionais (contra a Constituição Federal) e ilegais (contra a Lei do Acompanhante) e receio que isto tenha reflexos também em meu Estado.”




QUER SE INTEIRAR MAIS? Leia as resoluções na íntegra!



Fica com medo de clicar não... dá de ler rapidinho:
http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

22 de julho de 2012

Maternidade Ativa: estratégias inteligentes para 'netos irresistíveis'...


por Cariny Cielo

Eu ainda não sei se é mais difícil convencer uma vó de que ela é capaz de ficar com seus três amados netinhos em idades de 0 a 5 anos por um domingo inteiro sem enlouquecer ou aplacar a minha culpa materna... a duas são beeeeeem difíceis. Já falei por aqui sobre isto! Xô culpa e competição!

Mâââs, por achar que mãe também é gente (vc não sabia?!) e que sinto uma imensa paz interior por supor que faço direitinho toda a minha tarefa-de-casa-de-mãe (mentira...) resolvi sair sozinha com o marido por um domingo inteiro com a nossa paixão: a moto!

A estratégia para isso tudo é a seguinte:

1. coloque a roupinha mais fofa do guarda-roupa! Isto é especialmente importante para o rebento mais novo, ainda na categoria "bebê"
2. ..lamordedeus, não os mande para a casa da vovó com unhas não cortadas, cocô na fralda, barriga cheia (eles sempre tem que chegar 'famintos' para os avós se deliciarem com o apetite de leão), pés descalços e sem umas mudas de roupinhas para trocar.

3. Passe bastante hidratante - aquele que você compra e deixa no trocador para passar quando lembra ou quando dá tempo. Explico: a estratégia aqui é deixá-los irresistivelmente cheirosinhos e macios pois (eu inocentemente acredito) num momento de birra, se o vovô sentir o cheirinho ou a fofura da pela, vai relevar qualquer ataque histérico...

4. lugar de passar perfume em criança é no cabelo... a cabecinha deles fica irresistível e os vovôs adoram beijar cabecinhas de netinhos anjinhos.

5. se você achar importante (eu sempre acho, faz bem pro meu ego), fala para eles: 'obedeça o vovô', 'ouça a vovó', 'toma banho sem gritar e na hora que te chamarem', 'não briguem'... e, por favor, o mais importante de tudo na casa de vó 'RASPEM OS PRATOS'... comam tudo que a vovó oferecer, mas tem que ser com o vovô olhando!

6. comenta que eles parecem outras crianças quando ficam na casa da vovó e que sempre falam em casa que a vovó faz coisas deliciosas para o lanche.

7. tire fotos do passeio para mostrar pros rebentos quando chegar... eles adoram saber dos feitos dos pais e é ótima pedida para a estorinha da hora de dormir.

8. feito tudo isso, repita para si mesma, durante todo o passeio: "eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main. eu não sou menas main."... (500 vezes, se for preciso)

11 de julho de 2012

Puerpério: bem vindo sangue...sangue bem vindo...


por Cariny Cielo

Lá se foram nove meses do meu cisma! O nascimento, meu e do meu filho, passou como flash, num piscar de olhos. Em termos hormonais - e muitos acreditam, em termos energéticos também - o meu puerpério terminou agora, com a volta dos meus ciclos menstruais.

Menstruei orgulhosa e saudosa nove meses depois do parto e dezoito meses depois da vida se aninhar no meu útero! Orgulhosa por receber novamente os banhos de renovação que as fases dão só a nós, mulheres. E saudosa por, enfim, despedir-me daquilo que foi a verdadeira libertação da minha fêmea.

Deixo pra trás meus dias de puérpera, de corpo dedicado unicamente à cria, de simbiose profunda com o universo encantado do filho recém chegado... os dias de altos e baixos emocionais, de vazio estrógeno, de noites truncadas e apetite variante... deixo uma sombra: a que enfrentei com coragem para nascer e renascer como mãe, novamente.

Recebo o cio, a enxurrada de hormônios, o viço de mulher fêmea e não mais de mulher mãe. Que venha a beleza tão lindamente projetada pela natureza, finamente desenhada pela divina força... aquela que gera, que cria! A dona do mundo. O ciclo chega assim, dizendo-me: sejas tu, mulher, fêmea! E eu sigo, criadora e criatura...

Aquilo que ouvi a vida toda que era feio, sujo, fétido... que era para esconder, disfarçar, lamentar: meu sangue! Meus sinais, minhas fases. Presa que eu era num calabouço masculino, minha única saída era lembrar, todos os meses, que havia uma mulher ali dentro... sedenta de vida! Uma "mulher brava", diria Clarissa Pinkola.

E talvez por isso eu sempre gostei de menstruar... da cor, do cheiro, das ondas de sensações que vinham com a ovulação. Não me incomodava, não me doía, não me limitava... eu não queria esconder ou mentir... era algo muito, muito simbólico para mim. Eu ainda não sabia o que o futuro me reservava mas já sentia que esse sangue era sagrado.

Essa semana precisei responder uma pergunta bem simples sobre o nascimento do meu filho caçula: "o que mais te marcou no parto?" Que difícil dizer! No entanto, de tudo que me vinha a mente, uma coisa havia em comum: as sensações corpóreas, de maneira geral, me marcaram muito. Ver, tocar, conhecer a minha placenta. Ver, tocar, sentir o cordão umbilical. O barulho que ouvi quando a bolsa d'água estourou. O bebê mexendo dentro de mim, querendo nascer, depois coroando e enfim, escorregando quentinho pro meu colo. Aquele cheirinho de bombom no quarto que perdurou por dias.

Todas sensações de carne, osso e sangue! Dizem que a placenta é nossa 'mãe interna'. E eu fiquei impressionada em ver como é grande, corpulenta, cor de sangue enegrecido...

E, por gostar sempre tanto de tudo que pertencia à minha intimidade, eu não poderia ter vivido a jornada do nascimento de outra maneira, a não ser a minha maneira!

Tinha quer ser assim... a menina que gostava do sangue que a avó insistia em dizer que ela deveria ter asco. A menina que se olhava e se investigava onde se dizia ser imoral tocar. A menina que tinha certeza que havia mais do que aquilo que o mundo apresentava como sendo das mulheres.

Não é nosso: a dor, o fardo, o peso ou a vergonha!

Nosso é o gozo, a vida, o riso solto, a renovação e a expressão...

A natureza não foi injusta com as mulheres! Quem transformou os eventos fisiológicos femininos em dores e patologias foi o modelo patriarcal que conquistou o mundo desde séculos atrás. E isso é tão forte e pujante que nós mesmas, as maiores vítimas, perpetuamos...

Menstruação não é vergonha, nem nojo. Não é para doer! Parto não é coisa de índia, é coisa de mulher. Não é para doer! Amamentar não é coisa de pobre, é natural. Não é para doer! Envelhecer não é coisa de mulher relaxada, é a ordem natural do mundo. Não é para doer! Chorar não é perder! Sentir não é ser fraco! Dar não é espoliar-se!

O que dói não é o sangramento mensal, nem a gravidez, nem o parto, nem a menopausa... dói a mulher, por querer desesperadamente ser fêmea num mundo de falos.

Hoje eu dei mais um passo na minha jornada pela mulher que nasci para ser...

Bem vindo, sangue; dores não me servem mais!





Em nota: Difícil achar uma imagem de menstruação no google! Esta, linda, e única, que achei trouxe, de quebra, uma estória interessante: veja aqui. e divirta-se com os comentários!!!
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