16 de maio de 2016

Relato de Parto da Maíse: Parto normal na Maternidade de Porto Velho



Quando decidi que queria um parto normal e natural, confesso que nunca me amedrontei com os relatos da dor do parto, para mim isso era o de menos. Minha preocupação se dava pela possibilidade de parir em um hospital particular e com médico plantonista, o que aumentava as chances de intervenções desnecessárias no parto ou mesmo uma cesária. Isso me causava pânico, às vezes, até me aborrecia só em imaginar.

Desde o momento que confirmei a gravidez, tratei de procurar algum grupo de apoio ao parto humanizado e encontrei a equipe Bello Parto, naquele momento, Izabela Teixeira Melo, Sandra Schulz, Maiza e a doula Bibi, na cidade de Porto Velho-RO.

Graças à Deus minha gestação ocorreu em perfeita harmonia, minha DPP estava prevista para 15 de setembro, mas considerando as grandes chances de não ser nessa data, estava pronta desde as 37 semanas, todo dia era dia!

Na reta final, estava decidida a não ter o acompanhamento do meu médico, afinal seria eu quem iria parir, estava confiante no meu corpo, decidida a esperar até a 42ª semana de gestação, mesmo meu médico dizendo que se eu chegasse na 41ª ele iria induzir e, caso eu não aceitasse, ele não iria mais me assistir.

Meu marido ficou cambaleante, medo de pôr a vida do nosso filho em perigo, isso me tirou algumas noites de sono, mas como eu ainda tinha prazo resolvi não me atormentar com a possibilidade de indução ou ficar desassistida de médico.

Ao longo dos dias toda dorzinha podia ser sinal da chegada de Samuel Estava prestes a completar as 40 semanas, quando na madrugada do dia 14 de setembro, meu bebê mexeu tanto que fiquei até com medo dele ter mudado de posição, também senti algumas cólicas leves, e fui alertada de que eram os pródromos. Na manhã do mesmo dia, arrumei a casa, dei banho no gato, fiz o que pude para ocupar o tempo e a mente, no intuito de aliviar a ansiedade de ter em breve o meu filho no colo. Aproveitei a tarde para fazer a última aula de Pilates, fui a pé ao supermercado mesmo com recomendações para eu descansar - Eu deveria ter levado a sério essa recomendação (risos)!

Minha mãe tentou me alertar sobre a dor do parto, mas pensei: "Bem... Se for parecida a cólica menstrual, eu aguento"! Queria saber quem foi o ser humano que fez esse tipo de comparação? Me iludi nela! Mas vale lembrar que estou falando da minha experiência, cada mulher e cada filho é um parto, uma dor, uma história. Tanto, que nem gosto de começar meu relato de parto, dramatizando a dor. Penso ser desnecessário este enfoque.
Chegando à noite, as cólicas estavam no mesmo ritmo, mas já tinha a sensação de que eu iria terminar aquela semana com o baby no colo. Às 21:00h o tampão saiu, para felicidade da casa, a mamãe tratou logo de avisar a família no Pará. As cólicas, rapidamente se intensificaram, não dando espaço para eu me preparar psicologicamente (hahahahaha). Meu corpo reagiu à dor com vômitos. A água quente aliviou, a massagem ajudou e o amor me deu forças, na presença de minha mãe e do meu marido.
Durante esse tempo mantivermos contato com a equipe do Bello Parto e, às 2:00h do dia 15 de setembro, a enfermeira obstétrica, Sandra Schulz, veio em casa apenas para fazer avaliação e eu já estava com 6 cm de dilatação.
O Trabalho de parto estava evoluindo tão rápido que não daria tempo nem de esperar a doula para ajudar-me nos exercícios para alívio da dor, para completar as contrações eram tão próximas que eu esqueci de toda a preparação para este momento - ainda bem que Sandra me lembrava da respiração, o que ajudou muito - eu obedecia os comandos do meu corpo, ficando nas posições mais confortáveis para ele, ou seja, queria ficar de quatro a qualquer custo.

Fui para a maternidade municipal, em torno de 3 horas da madrugada, já estava com 9 cm de dilatação. Na reta final, já estava fora de mim, os intervalos entre cada contração me levava ao céu, sentia a cabeça do meu filho indo e voltando (coroando), olhava nos olhos da Sandra e sentia mais que confiança, sentia a força de que precisava, suas palavras me lembravam da minha capacidade de parir e a presença do meu marido, seu toque, sua força, me enchia de orgulho, para quem dizia que não conseguiria assistir ao parto, até participou!


O que dizer do Lívio, meu marido? Tenho orgulho e amor por este pai tão forte e corajoso que também estava nascendo naquele dia. Nos breves intervalos entre as contrações pensava comigo, que a Sandra mentia dizendo que não ia demorar muito para nascer, eu já estava no nível de dizer que eu não tinha mais força, que eu não iria conseguir, pedi uma anestesia (quando na verdade pedia à mim mesma uma episiotomia para “acelerar” o trabalho de parto (quanto delírio!!! hahahah), mas tinha algo que eu não pedia nem a mim mesma, a cesária! Afinal, estava mais que decidida no que era melhor pro meu filho, primeiramente, e no que também era melhor pra mim.

Ao longo de duas horas e meia, as contrações eram tão intensas que vivi o paradoxo do sentimento de fraqueza e de força, ali eu estava me tornando mãe, na materialidade da coisa. Na reta final para o nascimento do meu filho, senti a queimação mais de duas vezes, pensei mais uma vez que eu não daria conta, mas também pensava que em breve iria conhecer Samuel. Eu queria morder a cama de ferro, queria me jogar de cabeça no chão e acho que eu ia caindo de verdade, mas meu marido me segurou no momento do expulsivo.
No alívio da dor, às 05:19 horas, ouvi levemente o choro do meu filho. Com 3,300 kg e 48 cm, um pedaço de mim, tão perfeito, nasceu na perfeição do meu corpo e da minha capacidade de parir, exatamente na data prevista do parto (DPP), 15 de setembro.

Samuel nasceu sem nenhuma intervenção no parto, nasceu na posição que meu corpo pediu. Eu pari meu filho e nasci novamente. Mas esse parto sem intervenções, cheio de amor, sem pressões, cercado do apoio e segurança de que eu precisava, foi resultado de muita sorte. Sim! Afinal, eu estava em um hospital, graças à Deus, longe de algum médico viciado em procedimentos rotineiros, ou de uma equipe de enfermagem desrespeitosa, que poderia aproveitar-se do meu delírio e fazer uma “episio” desnecessária.

Com todas as informações que nos cerca, com todos os discursos de amor, de respeito e igualdade, o tempo ainda é dinheiro e esse se prevalece à vida. Talvez mais sortuda seja, aquela que pari, sem nenhum empoderamento, em algum hospital público ou particular, pari tão de pressa que não tem tempo de sofrer alguma violência obstétrica. Pari sem dar o espaço para dizer que o médico fez o seu parto.
Alegro-me e lastimo esta sorte, porque a experiência que tive deveria, por direito, ser minha, sem chance alguma de me ser roubada. É por isso que ao longo de toda a minha gestação, a dor do parto não fez parte dos meus medos. Meus medos se centralizavam na possibilidade viva de eu ser agredida num momento tão especial e único, que é a chegada de um filho.







Maíse Sousa Corrêa é Graduada em Ciências Sociais/Ênfase em Sociologia pela UFPA

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...