24 de julho de 2013

Vinte passos para destruir um parto.


por Cariny Cielo

Simplesmente porque tem momentos em que acredito que um Conselho Nacional Anti-Mulher se reuniu por aí no passado e decidiu destruir o parto, resolvi imaginar como teria sido esta reunião e quais tópicos teriam sido discutidos. O mote seria: Relacionar tudo que de pior pode ser feito à mulher para humilhá-la, desrespeitá-la e fazê-la sentir-se vulnerável física e emocionalmente e como abusar da tecnologia e dos avanços da medicina em prejuízo da fisiologia. Vale tudo para prejudicar o decurso do trabalho de parto.

Foi assim que surgiu o Protocolo de Atendimento à Mulher para Destruir o Parto, ou #P.A.M.D.P..

Normas de base:

1. Luz na sala de parto! Muita luz, daquelas brancas e que mostram tudo, perfeitas para fazer sutura.

2. Frio! Quanto mais desconfortável a temperatura, melhor. Nada de calor quentinho, não! Vamos congelar essas mulheres.

3. Sentir fome e sede também ajuda bastante. Jejum obrigatório e de rotina!

4. Assim que ela entrar no hospital, coloquem-na logo num soro, na veia, pra ela achar que está doente e/ou que pode ficar a qualquer momento.

5. A melhor roupa é aquela que mostra a bunda e a melhor cor é a verde água. Assim que ela der entrada, faça-a vestir a roupa do hospital.

6. Raspem os pelos dela às pressas e reclamando que ela bem poderia ter feito isso em casa.

7. Para deixar o trabalho de parto bem desconfortável, façam lavagem intestinal. Será terrível ela sentir os puxos e ter receio de fazer cocô no próprio filho.

8. Aproveitem a oportunidade para liberarem todos os seus demônios. Vai ser divertido fazer gozação, chacota, chamar a atenção, repreender. As melhores frases são (anotem aí pra não esquecer): "Pra fazer você não gritou assim!". "Mãezinha, cala a boca".
9. Só pode entrar sozinha. Ou vocês querem testemunhas do nosso sadismo? O pai, a doula, o escambau... ficam do lado de fora!
10. Toques, toques e mais toques. Sempre com pessoas diferentes. Aproveitem qualquer estagiário ou residente para fazer toques. A melhor forma é a seguinte: toquem, olhem por teto, depois pro infinito e saiam sem dar informação.

11. Deitada, de barriga pra cima e pernas nos estribos é a melhor e mais feladaputa posição para a contração doer e causar sofrimento fetal. Adotem-na com suas pacientes, em todos os atendimentos.

12. Estourem a bolsa sem consulta prévia e logo no início do trabalho de parto que é para as contrações ficarem bastante dolorosas e aumentar o risco de infecções.
13. Monitorem os batimentos fetais sempre com ar de preocupação e, ao final, façam comentários entre os colegas usando termos técnicos.

14. Usem ocitocina sintética e digam que é só um remedinho pra apressar o nascimento. Se tivermos sorte, as contrações ficarão tão insuportáveis que ela vai implorar por uma cirurgia.

15. Usem anestesia – ou qualquer outro meio de alívio farmacológico da dor – com o intuito de destruir a auto-estima dela e mostrá-la que ela não dá conta das contrações. Melhor ainda é fazer isto seguido do comentário: ‘eu sabia que você ia implorar por uma peridural’.

16. Ela está cansada e sem forças na hora do expulsivo? Peçam que alguém suba na barriga dela e realize a manobra de kristeller. É proibido em alguns países e não recomendado pela OMS, mas se a ideia é destruir o parto, essa é uma boa opção.

17. Se ainda assim, com todas essas manobras desgraçadas, o trabalho de parto progredir e aquela gestante tiver a petulância de estar caminhando tranquila para um parto normal, não a deixem sair ilesa! Marquem-na, eternamente, cortando-lhe o sexo, para que se lembre que só pariu por meio de nós (by Ric Jones). Sim, usem o 'pique' rotineiramente, ignorando o que recomenda a Organização Mundial de Saúde.

18. Nascido o bebê, cortem imediatamente o cordão umbilical e privem-no do sangue que era dele por direito, a despeito do que recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria desde março de 2011. Cortando abruptamente o suprimento de oxigênio, ele dará um grito numa tentativa desesperada para respirar e, assim, o que poderia ser uma transição suave e fisiológica, será traumática e dolorosa.

19. Aspirem o bebê, mesmo que não seja recomendado para os nascidos de parto normal. Pinguem colírio de nitrato de prata presumindo que a gestante seja portadora de gonorréia e apliquem vitamina K injetável, mesmo havendo a opção da vitamina ser ministrada via oral. Façam tudo isso antes mesmo de entregá-lo para a mãe e aproveitem para manipulá-lo das mais infinitas formas para medir, pesar, esfregar, e toda sorte de procedimentos duvidosamente necessários para serem feitos imediatamente após o nascimento.

20. Não o deixe que mame. A amamentação na primeira hora deve ser evitada a todo custo e o melhor lugar pro bebê ficar é longe da mãe.

Feito isso, sintam-se vitoriosos! Vocês acabam de destruir o mais sublime evento feminino e o maior milagre na perpetuação da humanidade. Ela não vai odiar vocês, pois vai estar muito encantada com o filho recém chegado. E tem mais, ela ouvirá que não tem o direito de se sentir frustrada ou triste, afinal, o bebê nasceu, está com saúde e ela não morreu!

*Atenção para post fazendo piada de assunto sério.

Para mais, conheça o Dr. Frotinha.



Mapa da Violência Obstétrica no Brasil, aqui.

Participe da pesquisa "Desrespeito e Violência no parto", aqui.

Relatório Final da CPMI da Violência contra a Mulher, aqui

Perguntas frequentes sobre Violência Obstétrica, aqui.



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