7 de novembro de 2013

Relato de parto da Eva: parto normal hospitalar


A Eva chama o próprio de parto de uma 'Saga'! É um termo que descreve bem tudo o que teve que lutar para conseguir um atendimento digno no momento do nascimento de sua filha. Ela sofreu desde violências verbais do médico - antes, durante e, até mesmo, depois do parto - até condutas de rotina reconhecidamente desaconselhadas pela Organização Mundial de Saúde.

Estaríamos avançando bastante na qualidade de atendimento às gestantes se houvesse a cultura do Plano de Parto. Ele é recomendado pela OMS há décadas, mas ainda é desconhecido no Brasil!

Eva, mesmo conhecedora de seus direitos, ela sofreu violência obstétrica. Como ela mesmo diz "não conseguia chorar, só olhava para onde eles estavam com a minha filha. Podia ter sido um parto lindo! Me preparei para isso. Só que cai nas mãos de um açougueiro. Mesmo com toda força e informação, ainda assim fui vítima do sistema.".

E, para quem sofre violência obstétrica, saiba aqui, como denunciar...





Eu e o meu marido, fomos namorados a 5 anos atrás. Terminamos e ficamos esses longos 5 anos sem nos ver. No dia 23 de janeiro do ano passado nos reencontramos e decidimos voltar. No meio do ano, passei por um estresse muito grande, que desencadeou uma doença que até então eu não sabia nada a respeito.

Herpes Genital, mas, além disso, também sofri um aborto espontâneo. Eu não sabia que estava grávida, não tinha sintoma nenhum de gravidez. A primeira crise de herpes, eu tratei como se fosse uma infecção urinaria. O médico nem me examinou, perguntou o que eu sentia e me receitou antibióticos para infecção. A segunda crise, eu estava com poucas semanas de gestação, (uma gestação que até então eu não sabia). Certa tarde eu senti uma cólica muito forte e de repente uma água quente saiu de mim, acompanhado de um sangue bem vivo. Liguei para um amigo enfermeiro e disse que estava sentindo, ele me disse que isso poderia ser um sintoma de aborto, passou na minha casa e me levou para a maternidade, o que confirmou a suspeita. Ao me examinar, a enfermeira notou algumas erupções na parte genital e perguntou se eu tinha herpes genital. Herpes? Como assim? Genital? Claro que não! Sempre me cuidei, isso é doença de quem tem vários parceiros sexuais. Nunca! (vim de uma família “moralista” e doenças sexualmente transmitidas, tinha essa visão. Mas aprendi que nem sempre é assim). Em fim... Era herpes, perdi um bebê, pus fim no meu relacionamento, entrei em depressão.

Mas depois de um tempo, eu e meu namorado, hoje marido, decidimos superar isso juntos. Algum tempo depois engravidei novamente, dessa vez decidimos cuidar muito dessa gravidez. Tornou-se a famosa “gravidez preciosa”. Fomos ao primeiro G.O e ele pediu uma série de exames, constatou que eu tinha DIABETES GESTACIONAL.



Fomos ao segundo G.O e ele disse que eu tinha pré disposição a ter diabetes gestacional e que tinha que controlar o açúcar. Ambos já sabiam que eu também tinha Herpes Genital. Com o passar dos meses fui ganhando peso exageradamente, tive VÁRIAS infecções urinarias, VÁRIAS crises de Herpes Genital, tive também um forte sangramento com 4 meses (não encontraram o motivo).

Lia sobre partos normais, vi que se a mulher estivesse com a herpes ativa, poderia passar para o bebê na hora do parto, isso me preocupava muito. Falei da minha aflição para uma amiga que também era enfermeira e ela me olhou com uma cara de dó e disse: se você quiser, eu consigo uma cesárea para você. E eu pensei, mas e os benefícios do parto normal para o bebê? Eu não vou nem tentar? Sou tão covarde assim?

Também ouvi uma pessoa da família dizer: você não vai ter força para parir essa criança e vai morrer você e ela entalada. (Ninguém da minha família sabe sobre a herpes).

Essa frase me assombrou por muitos meses. Até que eu e o meu marido decidimos conhecer a casa Bello Parto, meu marido ficou encantado com os vídeos e comentários sobre os benefícios do parto normal. Eu ainda estava assustada.

O primeiro G.O que consultamos disse que eu havia ganhado muito peso e isso significava que o bebê já estava muito grande. Disse: você não vai conseguir ter um parto normal assim, bebê tem que crescer é fora da barriga.

Segundo G.O: se você quiser, a gente pode marcar a cesárea a partir de 35 semanas.

Eu: 35 semanas? Mas o bebê já vai estar desenvolvido com 35 semanas?

Segundo G.O: sim! A partir de 35 semanas o pulmão já está maduro.

Meu marido não deixou. Ainda bem!

Resolvemos procurar uma terceira opinião.

Terceira G.O: Você tem herpes? Vou colocar essa observação no seu cartão de gestante, porque em lugar nenhum do mundo, alguém faz parto normal em uma mulher que tem herpes genital, ativa ou não. Você vai matar seu bebê se tentar, isso pode passar pra ela na hora do parto, ir para o cérebro, olhos, boca, ela pode desenvolver uma meningite e morrer! Bebê não tem imunidade, esquece essa ideia de parto normal. Quando você estiver com 39 semanas, vamos agendar sua cesárea.

Chorei muito nesse dia, me senti tão culpada. Meu Deus, o que nós fizemos, eu não devia ter engravidado, vou ter que submeter a uma cirurgia se eu quiser sair da maternidade com um bebê VIVO nos braços?

Novamente, meu marido me acalmou e disse: vamos procurar uma 4ª opinião, 5ª, 6ª,7ª, 8ª até o dia da neném nascer. E outra, se for realmente para fazer uma cesárea, vamos esperar o dia da Letícia (nome que ele escolheu para a bebê...rsrs), deixa as contrações vir e ai vamos para a maternidade. Nessa altura, eu já estava com 36 semanas de gestação.

Por indicação de uma amiga, fomos ao 4º G.O.

Chegamos lá com todos os exames em mãos, desde o primeiro beta positivo. Ele leu todos!

Eu e o meu marido: Doutor, nós temos:

"1) Herpes genital.

2) Diabetes gestacional.

3) O ultimo médico disse que o bebê está enorme

4) Na ultrassom com um médico disse que ela tá sentada.

5) Tivemos várias infecções urinaria, crise de herpes, risco de aborto e etc...

Mas ainda assim queremos um parto normal!"

O médico: "Muito bem! No parto normal a recuperação é melhor..."


O Doutor pediu novamente o exame de diabetes (que deu negativo).

Pediu uma ultrassonografia com Doppler (que mostrou que estava tudo bem com a minha princesa) .

Disse que se eu tivesse crise de herpes iríamos tratar com remédio, para que eu ficasse bem até o dia do parto. E só em último caso, se eu tivesse com erupções iríamos para a cesárea.

Fez um exame chamado streptococcus (graças a Deus estava tudo bem, também).

Fizemos as perguntinhas básicas para saber se ele era o cara certo. (risos).

Nós: doutor a epísio é necessário em todos os casos?

Dr.: Só em alguns casos.

Nós: doutor, eu posso recusar a ocitocina?

Dr.: Sim! Mas em alguns casos ela também é necessária, espero que não seja o seu. Faça bastante caminhada para estimular o trabalho de parto.

Nós: doutor e se eu quiser peridural? Vocês vão atender ao meu pedido?

Dr.: Menina, a dor do parto não é tão ruim assim não. Calma! Você aguenta. Mas se você quiser, precisa começar a procurar um anestesista, porque tem alguns que não gostam de fazer porque é complicado aplicar em mulher que está tendo contrações.

Nós: doutor, você esperar o cordão terminar de pulsar?

Dr.: se vocês quiserem, sim!

Nós: doutor, quer casar com a gente? (risos).

Mas infelizmente no dia do parto ele estava dando aula.

Quarta feira dia 23 de outubro às 5:00 da manhã, acordei com um dor de barriga leve. Resolvi virar para o lado e dormir mais um pouco. Estava com 38+6.

Às 6:00 da manhã acordei novamente com aquela dorzinha de barriga, então decidi levantar e ir ao banheiro... Tomei banho e voltei para cama. De repende uma dor diferente, vindo das costas para a barriga. Comentei isso em um grupo do facebook, o Cesárea não obrigada, elas me disseram que eu podia estar entrando em trabalho de parto. Resolvi ter certeza, liguei para aquela amiga enfermeira do inicio desse texto. Ela disse que sim! Eu estava em trabalho de parto, mandou eu ligar imediatamente para o meu G.O.

Que alegria, eu ria a cada contração, meu marido estava trabalhava a noite e ainda estava por chegar. Fui passar minha roupa, me arrumar, tomar café da manhã e não avisei à família porque não queria que ninguém entrasse em pânico. (Minha mãe só ficou sabendo depois que ela nasceu).

Meu marido chegou, todo nervoso, apesar de ter se preparado tanto. Eu estava calma e feliz, sorridente e ele apressado. Eu falava: - calma amor, essas coisas levam horas. Acho melhor a gente esperar, isso demora em torno de umas 8 horas. Eu li sobre isso...

Me marido: - Não! Vamos agora para o hospital, vou ligar pro G.O

Mas como havia dito antes, ele estava em aula. Disse que assim que saísse da sala de aula, estaria indo pra lá.

Chegamos no hospital às 9:30 da manhã, contrações irregulares, leves, durava apenas um minuto e depois passava. Mas não doía tanto quanto eu imaginava.

Fomos encaminhados para o médico de plantão.

Entramos na sala, eu com um sorriso enorme, meu marido nervoso, mas com cara de felicidade e falamos que estávamos com leves contrações. Ele foi ver o meu histórico hospitalar, viu por alto.

Não viu que eu tinha herpes (eu também não falei, pois não estava com crise no momento). Não viu nada sobre a tal “diabetes gestacional” e etc...

A minha princesa estava perfeitamente encaixada, tudo uma maravilha. Ele fez o exame de toque e disse: "Está completa! Ela vai nascer agora."

Eu e o meu marido olhamos um pro outro e começamos a rir. Como assim? As contrações nem estão tão forte assim.

Médico: ela vai nascer agora, vamos levar a senhora para sala de parto, se não ela nasce aqui. Vai ser cesárea?

Eu: Não! Vai ser normal.

Médico: não existe isso de parto normal, o nome é parto transpélvico. Mas a 2 mil anos atrás inventaram a cesárea, você sabia disso?

Eu: sabia! Mas o meu parto vai ser normal, ou transpélvico como o senhor disse.

Médico: tudo bem, então vou encaminhar a senhora para a sala de parto enquanto seu marido vai ajeitar os documentos da sua internação.

Minutos depois entra um pessoal com uma maca e me manda vestir a roupa do hospital.

Eu disse: - não posso ir andando? Preciso caminhar para ajudar na hora do parto.

Médico: eita mulher corajosa, quero ver até onde vai durar essa coragem toda. (risos).

Pois bem! Fui na maca e o circo dos horrores começou.

Chegamos na sala de parto me mandaram deitar na cama e colocar as pernas nos apoios.

Uma posição extremamente desconfortável.

Eu disse: quero me sentar!

A enfermeira: essa posição é melhor mãe.

Eu: melhor pra quem? Sobe essa cama agora, eu estou com falta de ar. (a falta de ar, era desculpa pra elas me ajeitarem naquela cama)

Uma enfermeira veio com o soro para por em mim.

Eu disse: soro? Mas eu preciso ter mobilidade e se eu quiser andar, ou levantar? Moça eu não quero ocitocina. Ok? Por favor!

A enfermeira: é só soro, caso você precise ir para a cesárea, já vai estar puncionada.

Aquilo me deu um medo...

Eu: enfermeira, cadê meu marido?

Enfermeira: está ajeitando os documentos da sua internação.

Mas eu não entendia porque ele estava demorando tanto. Elas estouraram minhas duas veias boas, obs. Eu mesmo já aplique soro em mim por essas veias. Enquanto isso, nada do meu marido chegar. De repente o médico entra na sala, o que só me deixa mais nervosa.

Eu: - o que o senhor tá fazendo aqui, cadê o meu G.O? Onde está o meu marido?

Médico: eu não sei de nada, só sou funcionário aqui.

Eu : - se o meu marido não entrar por essa porta, eu saio daqui e vou atrás dele.

Eles achavam que eu estava blefando até eu começar a me levantar. Uma enfermeira, falou: calma, nós vamos atrás do seu marido, ele vai vestir uma roupa e já ele chegar aqui. Mas a senhora precisa se acalmar.

Eu: eu estava calma até vocês estourarem as únicas veias boas que eu tinha, para colocar esse soro inútil aqui. Acho melhor meu marido entrar nessa sala, vocês não sabem do que sou capaz.

Minutos depois meu amado marido chega na sala... Aquilo foi um tranquilizante. Eu me sentia um pedaço de carne em um açougue e sem testemunha. Mas ele finalmente estava ali, como prometeu, do meu lado para receber a nossa filha.

De repente eu escuto a enfermeira perguntar para o médico.

Doutor você vai querer bisturi ou tesoura para fazer a epísio?

Médico: tesoura!

Eu: epísio? Não, eu não quero epísio. Não precisa! (pensei, nós nem tentamos ver se ela passa ou não, porque fazer antes?)

Médico: vou fazer sim! Aqui quem manda sou eu.

Eu: eu não quero epísio! No meu corpo mando EU! Você não vai fazer epísio em mim.

Médico: olha depois a senhora vai aparecer no meu consultório falando que seu marido tá dizendo que você parece uma canoa.

Eu olhei pro meu marido e ele disse: não doutor! O senhor não vai fazer epísio nela, não é necessário.

Médico: tudo bem! Mas vou usar esses quatro enfermeiros aqui como testemunhas de que a senhora se recusou a um procedimento médico.

Eu: tudo bem!

Quando ele começou a me limpar, imaginei ele vai fazer a epísio. Mas graças a Deus ele não fez.

Minutos depois eu começo a sentir uma aceleração no coração e as dores da contração voltam com toda a intensidade do mundo, minha bolsa estoura. Eu olho para o meu braço que estava com soro e pergunto: o que vocês fizeram comigo.

Uma enfermeira responde: calma mãezinha, isso é só um remédio para acelerar o parto.

Eu: mas eu disse que não queria... Olhei pro meu marido aterrorizada com a dor, comecei a chamar o nome dele e ele foi me acalmando e pedindo pra eu respirar fundo quando viesse as contrações. Comecei a fazer o que o meu marido disse.

O médico começo a tentar me abrir com as duas mãos. Sim! A palavra é essa. Parecia que ele queria me rasgar.

Eu sentia as suas luvas secas tentando me abrir. As dores das contrações só aumentavam, parecia uma tortura. Eu sentia a pele da minha vagina se esticando com os puxões do médico, ele usava as duas mãos. E eu gritava! Gritava de dor. O medico dizia, você pode gritar, desde que faça força.

Então eu fiz força! Muita força. Força para aquela dor acabar, força para ver minha filha nos meus braços... de repente uma coisa boa... eu senti, juro que senti! Era maravilhoso... senti a cabeça da minha filha passando pelo meu canal, ela se encolhia, estava bem apertada... Tão suave, um momento tão nosso. Ouvi meu marido dizendo a cabeça dela tá saindo amor, força!

Por um instante, parecia que só havia eu, ela e o meu marido naquela sala. Eu estava vivendo o nosso momento...

Mas depois senti as luvas secas do doutor novamente dentro de mim, ele já conseguia tocar nos cabelos da minha filha, então começou a tentar me rasgar de novo. Tentava abrir espaço com aquelas luvas secas, como se realmente quisesse me rasgar ao meio.

Meu marido falava, empurra amor, ela já tá nascendo, estou vendo a cabeça.

Eu empurrei com toda força que eu tinha. Eu gritava de dor, de raiva daquele médico, de amor pela minha filha. Era uma explosão de sentimentos e no fim, ela nasceu.

Toda essa tortura durou 5 minutos, horário 10:20 da manhã, mas parecia uma eternidade.

Quando ela nasceu eu pedi calma, calma, não cortem o umbigo dela agora. Mas eles cortaram imediatamente, eu disse: dá ela pra mim, me dá ela aqui.

O médico: não, você está suja.

Só depois de aspirarem ela, dar injeção foi que um enfermeiro ouviu meu pedido e entregou ela pra mim.

Apesar do esforços do médico, NÃO HOUVE LACERAÇÃO, NÃO PRECISEI DE PONTOS.

Minha filha, Letícia Brasil da Cruz veio ao mundo através de um parto “transpélvico”, porque com toda certeza isso não foi um parto normal. Minha filha ficou alguns dias na incubadora porque estava com dificuldade de respirar sozinha, segundo o pediatra, isso foi por conta de uma infecção urinaria que tive 30 dias antes do parto, passou para a neném ainda na gestação e não durante o parto. Amém!




Dias depois Médico vem à minha sala para me dar alta e diz ao meu marido: "se eu fosse você, comprava um cinto, dava 4 dobras nele e acertava essa mulher. Porque era pra ter tirado esse bebê a uma semana atrás, com 38 semanas. Ela não estaria assim, se tivesse feito uma cesárea."

Eu disse: ah tá! Então quer dizer que se eu tivesse tirado minha filha antes do tempo, através de uma cirurgia, ela não estaria em uma incubadora?

Médico: não é antes do tempo, era o tempo certo. Ela só está assim, porque a senhora ficou segurando ela.

Eu: Mas na ultima quinta-feira é que estaríamos completando 39 semanas de gestação. Tá bom doutor, obrigada, você já me deu alta. Valeu mesmo. Tchau! Vou ali ver minha filha.

FIM DA SAGA.!





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