8 de agosto de 2012

Relato: Estreando... Lorenna, que aprendeu a cuidar...



Eu estava sedenta por um espaço onde pudéssemos mostrar a cara - ou seria a barriga? - das gestantes rondonienses. Quem são essas mulheres, o que pensam, o que querem, como se submetem ao que Rondônia tem a oferecer em termos de atendimento obstétrico e, claro!, quem são esses rondonienses que estão a caminho...

Hoje começa minha saga por ouvir essas mulheres.

Estreamos com a Lorenna Melo! Aos 29 anos e trabalhando na área da saúde, ela é a feliz mãe do Samuel (que ela lindamente fala que foi seu "pedido de Deus") e gesta o Henrique, segundo ela, o príncipe poderoso.

Sua estória chegou até mim por coincidências da vida, pois nossas avós foram amigas de infância. O depoimento dela é recheado de emoção, bem à flor da pele, como costuma ser tudo que uma mulher se propõe a fazer de coração...

Me chama a atenção em seu relato a sensação de que "não deveria ser assim" que, ao que parece, acomete muitas mães que vivem um nascimento com intervenções (mesmo as necessárias) e que se sentem tolhidas de parir... o 'não parto' é muito doloroso.

O que ela tem de destaque é a visão linda de, como num passe de mágica, perceber que não precisa 'ser cuidada' por ninguém; precisa é cuidar! Essa mudança dramática de paradigma que, no caso dela, foi impulsionada por uma experiência ruim, é o que define nossos conceitos de protagonismo feminino. Antes uma figurante, agora, a protagonista! Protagonista mãe, mulher...

Assume corajosamente que tem medos, mas que não vai se deixar ser engolida por eles. Ela aprendeu a colocar o medo em seu devido lugar! Abaixo da fé, abaixo do amor...

O medo e a dor são conceitos reais pelos quais passam as mulheres, hoje, quando se veem grávidas. O mundo masculino nos ensina, de cedo, que somos incapazes de conceber, gestar, parir e amamentar sem ajuda e, internalizamos isso de uma forma tão profunda, que quando precisamos daquela mulher forte, capaz e cheia de vida, ela não responde.

A Lorenna tem medo, dúvidas e sabe que o trabalho de parto é, realmente, um trabalho! A quem ela deve desaguar essas dúvidas, esses medos? Não, não é no médico. Deixem pros médicos as facetas físicas da gestação e dediquem tempo para investigar com outras mulheres, com sua fé, com o que acredita, todos os prismas emocionais e espirituais que envolvem sua gestação...

Muito importante ver que ela alerta as mulheres a não entregarem o parto ao médico, por melhor e mais bem conceituado que ele seja. Realmente, os únicos verdadeiramente interessados em que experiência seja feliz são o bebê e a mãe. São eles os sujeitos, os que sentem na carne o bom e o ruim... Então, eles é que devem assumir a luta pelo bom. A isto chamamos de empoderamento feminino. Saber que é capaz, saber que tem direitos e assumir escolhas. Os médicos não vão mudar sozinhos (salvo raríssimas excessões). Quem os empurra para as mudanças são as mulheres que demandam o melhor...

Lorenna espera seu Henrique de alma aberta. Fecha o olhos e entrega-se ao desconhecido com a fé que a anima e já se sente uma mulher melhor por saber que é preciso sempre mais, é preciso luta, é preciso dedicação, é preciso ação e não passividade... ser mãe, como ela diz, é buscar conhecimento, experiências, tomar decisões e lutar por elas.

Como eu costumo dizer, e já disse por aqui, o tempo é de luta para que um dia nossas netas possam ter na gravidez e parto uma experiência verdadeiramente feminina e respeitosa.

E que venha o Henrique, feliz e sorrindo, conhecer aquela que se faz e se refaz na ânsia de ser melhor a cada dia... sua mãe, Lorenna.



"Esse ano já começou cheio de boas novas, entre elas a confirmação do que já queriamos alguns meses, mais um membro para o corpo na nossa família. Não há como não sentir que algo novo faz parte de mim, acho que a transformação começa na alma até se tornar algo detectável! Mas o corpo que gesta já passou há tempos por sincronias de ciclos hormonais, emocionais, espirituais... a concepção é algo divino.

Há quatro anos quando me vi tomando soro em um pronto-socorro por não conseguir comer e nem beber nada por dias, me via dependente, enfraquecida, fui mal atendida nas primeiras consultas do pré-natal (até reclamação por escrito fizemos ao plano de saúde, pra variar não resultou em nada). Aí a grande mudança, devido ao trabalho do meu marido fomos morar no interior, tinhamos indicação de uma médica que fez o cenário mudar um pouco, eu já estava no quinto mês de gestação, os enjoos já eram menos frequentes (duraram até o sétimo mês!). Não estava trabalhando, não conhecia ninguém na cidade, meu marido saía muito cedo e voltava só a noite! Era eu e meu bebê, apesar da presença dele ser manifestada com muitos chutes (sensação mais saborosa da gestação), o silêncio dos meus dias me trazia solidão, que me trouxe medos, dúvidas. Para mim o que restava era seguir tudo que minha GO falava, apesar de não gostar de consultas médicas de forma geral, era alguém que me ouvia, me perguntava, falava comigo!

Na escolha do parto, ela me montou uma cena de parto normal e uma cena de cesária. Já dá até para imaginar, o primeiro: muito sofrimento e dor, que poderiam durar dias, e se na hora do expulsivo não tivesse força, se fosse necessário ela gritar comigo, assim ela faria! E a cesária não! Tinha hora marcada, começo e fim determinados. Pronto! Nem vou pensar em mais nada, tá escolhido e com hora marcada! (decidi).

Uma semana antes do "combinado" fui fazer uma ultrassom, umas 7h da noite, e foi detectado pouco líquido amniótico, então, o veredicto: "daqui meia hora volte pois não podemos esperar que o bebê começe a sofrer, ele vai nascer as 21:00h!"

Eu: Mas não tem como eu esperar minha mãe vir? Esperar até o dia seguinte? E continuaram: Não, você pode começar a passar mal, e o bb tbm, e isso ainda pode ser de madrugada!

Bem, às 21h Samuel nascia livre de todo mal, sedento por uma mãe que reagia com tremores e vômitos a uma anestesia bomba! Meus pensamentos confusos diziam que não era para ser assim... a partir daí seguiram 10 dias de recuperação dos inchaços, falta de sono, e dores! Não sei se é meu organismo que realmente não suporta intervenções, ou é assim mesmo, só sei que para mim a cesareana foi muito dolorida.

Hoje revendo tudo que passou, vejo que deixei muito nas mãos de outros o que eu deveria ter feito. Demorei para perceber que não era eu quem tinha que ser cuidada, mas eu tinha que cuidar, então eu tinha que estar bem, viva, desanestesiada! O nascimento e a presença do Samuel me fizeram ver que se tornar mãe não é simples assim, é buscar conhecimento, experiências, tomar decisões e lutar por elas, escutar e ter uma "peneira" enorme nos ouvidos para saber o que ouvir. Isso tudo se inicia no bem nascer, e vai por toda nossa vida enquanto formos chamadas de mãe.

Em outubro quando nosso dia chegar quero estar presente, ativa, e feliz, passando por tudo que for necessário para trazer por mim mesma esse bebê que Deus desenhou tão perfeitamente, assim como o caminho para seu nascimento.

Não posso dizer que não tenho medo, ou dúvidas, e quem não tem?!! Mas tenho muita fé Naquele que nenhuma folha deixa cair da árvore se não for preciso, Ele sabe dos meus sonhos, e conhece todo desenrolar dos meus pensamentos, e pede para que eu não tema!! Assim será....

Moro em Porto Velho e a realidade daqui é bem distante do que se chama de humanizado, em todos os sentidos. A escassez de profissionais (não digo nem bons profissionais) leva a sobrecarregar aqueles que ainda se preocupam um pouco mais.

Estou fazendo pré-natal com um médico muito bem conceituado e que em todas as minhas dúvidas me satisfaz, mas eu digo: futuras mães por melhor que seja o curriculo deles, não esperem que eles contem tudo sobre gestação, partos, e todas as variantes que uma gestante pode passar! Até porque em consultas de que duram 15min não daria tempo para isso! Por falta de conhecimento a gente acaba aceitando muitos caminhos que talvez nem seja o melhor, mas o mais conveniente, e geralmente não para os mais interessados, mãe e bebê!"

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