22 de fevereiro de 2011

Maternidade Ativa: Sobre febre e sobre a dor...



Esta semana fomos todos em casa pegos por uma gripe! Febre, moleza no corpo e todas aquelas melecas de nariz que parecem adorar nariz de criança. Nos dizeres de Eleanor Luzes, citando a Nova Medicina Germânica, os vírus, bactérias e fungos são nossos aliados, então, procurei administrar os sintomas com tranquilidade, certa de que havia uma razão imunológica para tantos espirros, tosses e denguinhos...

Ouvi a seguinte frase que me fez discorrer mentalmente durante dias sobre a questão da dor e nosso mundo. Me perguntaram se eu havia dado remédio para a febre do Emiliano, eu disse que não, aliás, os dois livros mais modernos de pediatria que tenho em casa, não recomendam baixar a febre a qualquer custo (A Saúde dos Nossos Filhos e O que esperar dos Primeiros Anos). "Mas você vai deixar ele passando dor à toa?, contadinho...". Daí, pensei: será que a dor é mesmo à toa, desnecessária, em vão? Lembrei que li há uns 2 anos um livro chamado "A dádiva da dor", de um médico que observava chocado a tristeza que viviam pessoas que sofriam com hanseníase sem tratamento. O que aconteciam com elas é que elas passavam a não sentir mais nada em suas peles. As crianças corriam com cotos no lugar dos pés, sofrendo cortes, alheias à dor.

No caso, ele verificava o quanto era importante sentir dor. A dor é o sinal que nosso corpo usa para nos impelir a mudar. Mudar de posição, mudar de alimento, mudar de pensamento, mudar... oxigenar... dor é sinal de falta de oxigênio, de falta de vida... Pensando assim, a dor não deve ser combatida a todo custo, deve ser recebida e analisada, como um sintoma, não um mal em si mesmo.

No entanto, vemos o ocidente mergulhado num mar de dor e de analgésicos. Já existe até o medo de sentir dor, catalogado e estudado pela psicanálise. Fibromialgia, dor de coluna, enxaqueca, cólicas... dor que irradia, que martela, que dá pontada, que não pára... ai que dor! Cada um tem uma dor para chamar de sua.

Ao invés de reagimos à dor como deveríamos, por ser ela um sintoma, nós a combatemos. "Não me interessa saber porque minha cabeça dói, quero apenas que pare de doer", para alegria geral da nação de laboratórios de remédios, essa é a sentença de morte de todo mundo. Os médicos estão programados para tratar sintomas e se o paciente chega queixando de dor, nada mais natural que receitar um alívio imediato para essa dor. O alívio imediato infelizmente não significa alívio verdadeiro e profundo pois este muitas vezes dói muito mais que a dor. Sim, dói investigar as razões ocultas da dor pois isto envolve expor nossas fraquezas (fraco, eu?!), mexer na nossa lama... quem quer?
É difícil mesmo imaginar porque razão uma mulher, no alto dos seus 30 anos, quando for ter seu primeiro filho, não querer sentir dor. Passou anos recebendo mensagens fortíssimas de que dor não é bom, dor não serve para nada, dor é inútil, dor deve ser combatida. Então, como encarar um rito de passagem como o parto que tem a fama de ter a 'pior dor do mundo'? Ficou todos os anos de seus ciclos menstruais sentindo cólicas e tomando analgésicos para elas, sem contudo procurar descobrir porque seu útero gritava todos os meses. Claro, assim fazia sua mãe, suas tias, suas amigas. Quando a enxaqueca a acometia, corria para a farmácia e não para dentro de si. Porque razão esta mulher iria aceitar a dor do parto? "Não! De jeito nenhum, isto é grotesco, selvagem, animal... eu quero parto sem dor, quero filho sem dor". Ledo engano, o filho doerá de qualquer jeito, pois nossos filhos nos jogam na cara tudo aquilo que somos e o que não somos.

Já se disse por aí que a dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional. Sim, escutem isto: a dor é inevitável! Repitam isto para dentro de si: a dor é inevitável. Vai doer, é o ônus assumido por estarmos aqui encarnados, mas nós podemos escolher se queremos ou não sofrer com esta dor. Este mistério da dor é fortíssimo quando lembramos da dor do parto. Já ouvi mulheres que dizem que não doeu, mas o meu parto doeu, mas eu não sofri. Eu estava feliz, entregue, recebendo a dor como minha aliada na dilatação e na transposição do meu rio da vida...

No livro 'Quando o corpo consente', uma das escritoras que é terapeuta diz que "a dor do parto é a dor que carregamos dentro de si", esta frase ecoou dentro de mim e fez todo sentido. Eu havia chegado às portas da maternidade com muitas dores, cicatrizes mal curadas, e tudo aquilo viria a mim, de qualquer jeito, de uma forma ou de outra. Foi então que eu pensei: se a dor é minha, então ela é minha parceira de vida, vou trazê-la, vou exorcizá-la, vou vomitá-la... e assim, eu recebi a dor como uma dádiva de Deus, uma ferramenta esplêndida da natureza.

Eu não procuro evitar a dor aos meus filhos, pois acredito que assim estou ensinando-os que a dor é inevitável. Mas mostro para eles a todo instante que sofrer sim é uma escolha e pode ser evitado.

Eles podem escalar suas montanhas imaginárias, surfar pelo quintal, pular seus obstáculos sabendo que podem cair e se machucar nestes percursos... é o ônus de brincar. Lembram? É como o ônus de estarmos aqui vivos e encarnados. Machucou? Doeu? É assim mesmo, brincando a gente às vezes se machuca; aliás, vivendo a gente às vezes se machuca. O que devemos evitar não é a dor e sim o sofrer. Todo mundo tem suas dores, mas nem todo mundo sofre.

Não enxergo como um coitado aquele que sente dor e sim aquele que sofre. Anos a fio preso às amarras do sofrimento, arrastando suas correntes, carregando suas cruzes. Tomando seus analgésicos: enriquecendo os laboratórios e empobrecendo sua alma.

Seja bem vida, bendita dor... quando te dói é sinal de que você está diante de uma maravilhosa oportunidade de encontro com seu eu interior. Não mascare nem encubra este magnífico momento.

Meu filho tem febre? Que maravilhoso! "Febre é tudo aquilo que um antibiótico gostaria de ser" (Ricardo Herbert Jones). Assim como a dor, a febre é só um sintoma, não um mal em si. Na maioria dos casos não precisa de tratamento convencional. Mas ele vai ficar com dor? Sim, a dor é maravilhosa! É o sinal de que ele deve recolher-se e deixar que seu corpo faça seu papel de agente de cura. Ele vai ficar com a dor, enquanto ela for dor e estiver ensinando seu corpo a se curar. Mas e sofrer? Ele vai sofrer? Não, se aprender que a dor é bem vinda e que vai passar.

Bom... o sofrimento, este sim, é em vão...

Imagem daqui


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