1 de fevereiro de 2011

Reflexões: recordando a chegada: o desafio do feminino...


por Cariny Cielo

Acordo e o que eu vejo é só o branco do teto de um quarto frio e sem vida. Alguém geme ao meu lado. Presa à cama pelas praxes médicas de um nascimento bruto, é minha mãe, tentando ser mãe e ficar feliz com a minha chegada depois de todas as desilusões que envolveram sua figura de mulher na vida. Infância restrita, adolescência enterrando o pai e tendo que aceitar a tirania da mãe, casamento-fuga, maternidade angustiada e um divórcio-fuga.

Todos os sonhos de expressão feminina postos de lado para manter um castelo ridículo, construído de tijolos vazios. O puritanismo castrador, o preconceito velado, o não-prazer, o não-sentir, o não-sou! “Odeio ser mulher”, assim ela dizia sempre que tinha que conversar com o espelho. Que alto preço pagamos nós, mulheres, em não escutar a natureza fêmea, a mãe-terra.

Um dia, em sua gestação, eu lhe apareci bebezinha em sonho dizendo, com a mão em punho e braço erguido: - “mamãe, eu sou é mulher”. Foi assim que eu cheguei, dizendo, sussurrando, gritando para elas todas e para o mundo: EU SOU MULHER!!! Foi assim que eu me fiz mulher, lutando contra, indo de encontro, batalhando, rebatendo, defendendo, insistindo, peregrinando... ser mulher não foi uma vivência suave e florida, como talvez deveria ser. Afinal, nós somos suaves, nós somos floridas...

O que é mulher? Vamos começar pelo que não é! Não é a executiva disputando igualdade de salários, nem a marombada da academia com coxas masculinas. Não é gritar que não precisa do masculino para se valorizar e se debulhar em lágrimas e histeria a menor desilusão amorosa. Não é, tampouco, a subserviência estúpida de entregar ao outro as rédeas da própria vida.

Mulher é um cavalo selvagem, livre, forte e feliz. É a natureza poderosa que depende e é auto-suficiente em um só ser. É aquela que sabe que quanto mais dá, mais tem e que ama como expressão de sua existência e não como moeda de troca. É a terra úmida onde em se plantando tudo dá. É a lua, misteriosa e bela. É a mata secreta e perfumada.

E porque querer a fêmea? Para preencher um feminino vazio? Para eternizar um movimento feminino? Não. Esta não seria a mulher madura que hoje sou a pensar, até porque não me entrego a devaneios tão crus. E depois, seria muita responsabilidade para um ser ter que nascer com tamanhas expectativas e idéias preconcebidas. Eu mesma, agora, mulher-mãe, sei que meus filhos nasceram para ser o que quiserem ser, sem planos, sem estereótipos, sem ‘assim seja’. Eu sou e serei para eles o primeiro abrigo, o carnal e, posteriormente, o ancoradouro espiritual e emocional para que realizem aquilo que intuitivamente aprenderem a descobrir que nasceram para fazer.

Meu rito de passagem não me permite mais olhar para trás. Agora eu sou mamífera mesmo. Sou mulher não só na carteira de identidade, mas na carne, no osso, nas entranhas. Recebo, gero, dou a luz e amamento com meu sangue e isto não me espolia, mas me empondera. E por isso eu tenho a capacidade de dar com toda a minha força e poder. Eu agora sou deusa, sou poderosa! A delícia de chamar, receber, gerar, parir e amamentar a minha semelhante e permitir que este ser floresça é a chama do meu momento. Não quero lacinhos, nem um quarto rosa, ou desfilar uma princesa-barbie.

Quero a fêmea-mulher verdadeira que ouve o que ninguém mais ouve, que vê o que está por trás de tudo, que sente com a pele e com o espírito, a do sexto, sétimo, oitavo sentido. É o que sou. Por isso, caminho solitária no meio do artificial, e minha voz sequer dá eco.

Não me fantasio de mulher, eu sou mulher! Quem me entenderia se hoje a menstruação é chamada de sangria inútil? Mas, eu sou! Sou a mulher-fêmea que ama e reverencia o sangramento sagrado mensal, que adora os seios caídos que sinalizam que amamentaram os filhos, que carrega o templo sagrado do útero como expressão da criação e da perpetuação da humanidade. Que beija os pés do masculino, pois conhece exatamente seu lugar na criação. Isso é ser mulher.

O masculino centraliza minha existência hoje, pois precisei reverenciá-lo. Era o último estágio. Agora sei quando é que preciso deles, sei onde é que eles estão. Por isso um marido não conseguiu chegar a tempo no parto natural. Era preciso reforçar as fêmeas, unir as mamíferas em torno do maior de todos os ritos, o nascimento. Agora que sei como gira o mundo e como as almas se atraem. Sei como a semente da flor precisa de solo seguro para germinar. A delicadeza, a pureza, a suavidade finalmente chegaram e invadiram meu ser...

A inspiração me bateu a porta e uma brisa trouxe-me as boas novas. Traga-me, cosmo sagrado, a criatura divina que hoje enxerga o ambiente perfeito para germinar e nascer.

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