11 de abril de 2020

Relato da Ana Deise: Cesárea com doula impedida de atuar em Rolim de Moura



***alerta de violência obstétrica***

Durante a gestação sempre fiquei tentando imaginar como que seria o meu relato de parto e hoje eu tenho a missão de escrevê-lo. Era madrugada do dia 12/01/2019, lembro-me de ter acordado por volta das 04:00 horas para uma ida rotineira ao banheiro, foi quando percebi que havia perdido o tampão mucoso. Só Deus sabe como fiquei feliz naquele momento, pois sabia que o momento que eu mais almejava estava chegando, tomei um banho e tentei descansar, pois sabia que precisava de forças para o trabalho de parto.

Por voltas das 05:00 da manhã comecei sentir fortes contrações, elas variavam em um espaço de tempo, então constatei que estava nos pródomos. Minha alegria era imensa, primeiro avisei ao meu esposo, que tentou se manter calmo naquele momento e me dar todo apoio necessário, em seguida avisei minha doula Suelen Leal e logo em seguida minha amiga e também enfermeira Elisandra. Elas ficaram felizes e me passaram todo apoio e tranquilidade que eu precisava naquele momento e me pediram para descansar o máximo que eu pudesse.

Às 10:30 da manhã do dia 12/01 minha doula foi ver como eu estava, ouvimos os batimentos fetais que estavam em 147 por minutos, ela me examinou e viu que eu estava bem e feliz e o mais importante, meu bebê estava muito bem. Ela disse: “Deise, sabe que pode demorar então se alimente e descanse, logo você entrará em trabalho de parto, precisará estar bem”. E foi o que fizemos, almocei, descansei e até dormi um pouquinho, eu estava tranquila afinal, tínhamos nos preparado para aquele momento.

Às 15:00 minha amiga Elisandra chegou em minha casa. É importante ressaltar que houve sim um planejamento de parto, tanto que eu tinha uma doula e uma enfermeira me dando suporte. Faríamos o trabalho de parto em casa e só iríamos para o hospital na fase latente do trabalho de parto. Assim que a Elisandra chegou ouvimos os batimentos do bebê e ele estava muito bem, se mexia com frequência, era como se quisesse me dizer que aquele era o momento. Logo em seguida minha doula chegou, sentamos, conversamos e demos risadas, o momento era de felicidade, todos estavam com o coração cheio de alegria.

Foi então que as contrações ritmadas começaram, e junto com elas o trabalho da Suelen que era me orientar e me apoiar em relação a tudo que eu devia fazer naquele momento. A cada contração eu agachava e minha doula fazia massagens em minhas costas, isso me ajudava relaxar, mas não parava por aí, em todo momento eu estava ativa, caminhei, agachei, fiz exercícios com a bola, tomei banho morno, descansei, comi... Ufa, como trabalhamos! Mas em meio a tudo isso, não havia tristeza, sofrimento, angustia e desespero, pelo contrario, era só felicidade.

Meu filho estava chegando e durante os nove meses de gestação eu havia me preparado para aquele momento, fiz o possível com relação ao que se tratava de saúde e de preparo. Durante a gestação me alimentei corretamente, fiz atividade física e sempre pensei em fazer o melhor para o meu filho, tanto que esperei o momento dele.

Por volta das 20:30 da noite o processo do trabalho de parto já estava significativamente evoluído, então resolvemos que era o momento de irmos para o hospital. Tomei um banho morno e relaxei meu corpo, meu esposo e a enfermeira colocaram as malas no carro. Eu me troquei, penteei o cabelo, então disse “estou pronta”! Não consigo descrever o que se passava na minha mente naquele momento, era uma mistura de dor das contrações com alegria do momento de ver meu filho chegando.

Então as 21:00 horas da noite demos entrada no hospital, passamos pela triagem e logo em seguida fomos encaminhados para a ala das gestantes, e foi ali que toda minha tranquilidade e felicidade acabaram. O medo, pavor e angustia tomaram conta de mim em frações de segundo. A enfermeira que estava no plantão chamou pelo meu nome para o médico me examinar, minha doula, que tem entrada permitida pela Lei Das Doulas, entrou comigo. Porém, assim que entramos e o medico a viu.. o circo dos horrores começou.

Primeiro, que a falta de educação era maior que qualquer coisa e, segundo, que quando entrei na sala de parto o médico não me cumprimentou, apenas me disse para tirar a calcinha e deitar para ele me examinar. Então eu disse: “Boa noite Dr., eu já estou em trabalho de parto”. Ele, como se não tivesse me ouvido, olhou para a doula e disse grosseiramente, “Quero que você saia e fique lá fora, pois eu preciso trabalhar”. Ela disse: “Dr. eu sou a doula dela, posso acompanhá-la”. Ele muito friamente, sem se importar em me respeitar, sem se importar com o que eu estava sentindo disse: “Não me importa o que você é, só quero que saia”. Eu que já estava deitada na maca para ser examinada indaguei: “Mas Dr. ela é minha doula, deixa ela ficar”, mas ele continuou dizendo que se ela continuasse, ela que faria meu parto, queria até que ela assinasse que ela era responsável por mim e pelo meu parto.

Juro que tentei me manter calma, mas pelo teor da situação, naquele momento o medo já havia tomado conta de mim, eu fiquei com medo do que ele poderia fazer comigo ou com meu bebê. Porém não havia mais para onde ir, nem o que se fazer. Deixei-o me examinar e ele por pura implicância disse que eu só havia dilatado 2 cm e que seria impossível eu ter parto normal. O único alivio foi ouvir o coraçãozinho do meu bebê, que se mantinha normal e saudável.

Assim que saímos da sala do médico, cogitamos a ideia de ir para outra cidade, mas vários medos rondavam minha cabeça, as contrações já eram bem fortes e eu tinha medo de não conseguir chegar até outro hospital. Eu já não era mais a mesma, meu corpo deu os sinais de que havia algo de errado comigo. A adrenalina tomou conta de mim e toda minha tranquilidade começou ir embora.

A adrenalina ativa a atividade do neocortex e inibe o processo de parto! O desencadeia a adrenalina? Medo, mau humor, conflitos, dúvidas, inseguranças, excesso de toques, preocupações e etc.

Foram todos esses sentimentos que começaram a me assombrar naquele momento. Demos entrada no leito, porém uma crise de choro tomou conta de mim, eu sentia medo de toda aquela situação. Comecei chorar e uma crise de tremores se espalhou pelas minhas pernas, eu não conseguia controlar aquele tremor, fiquei assim por mais ou menos 1 hora, sendo assim, meu trabalho de parto retroagiu, minhas contrações simplesmente pararam. Eu me lembro de ter cochilado por um tempo, o tremor havia passado e as contrações voltaram, foi então que decidi continuar lutando.

Porém eu não conseguia mais fazer o trabalho de parto como antes e, sabe, eu me culpava muito por isso, mas não era culpa minha, eu havia perdido toda energia na sala daquele médico. Minha doula Suelen tentava me acalmar e me animar e me dar forças, minha amiga Elisandra fazia o mesmo. Assim seguimos madrugada adentro, ali sozinhas, eu contava apenas com o apoio delas, meu esposo, coitado, não podia entrar, estava lá do lado de fora, o médico sei lá por onde andava, e as enfermeiras não gostavam da presença da doula ali.

Eu necessitava daquele momento de respeito à fisiologia do meu corpo, precisava me sentir protegida, segura, apoiada, confortável e relaxada, precisava sentir que era ali que eu devia estar, que era ali que meu filho nasceria, mas era tudo confuso. Às 02:00 da madrugada escutamos os batimentos cardíacos do bebê e estava tudo bem, 140 batimentos por minuto, e o médico fez o toque, com a rispidez de sempre e disse que estava apenas 5 cm.

Voltei para o quarto e lutei bravamente para não desistir, fiz todo o possível, não incomodamos ninguém, apenas seguimos no trabalho de parto, claro que eu já não estava como antes, com toda aquela felicidade, pois era tudo muito confuso, mas o propósito era o mesmo, eu acreditava bravamente que era possível sim meu filho nascer de um parto normal. Não era capricho, era apenas respeito ao nascimento, ao ato de parir.

Às 07:00 da manhã do dia 13/01 já na troca de plantão, uma enfermeira chegou e disse: “Nossa! Ela esta muito cansada, coitada, onde esta o médico que ainda não examinou?” Ela me levou para uma sala de espera que ficava ao lado da que o médico examinava as pacientes. Novamente ele, o médico, expulsou minha doula, meu Deus que tristeza! Que desespero eu sentia naquele momento, eu precisava de alguém comigo, precisava de um apoio, porém o médico disse para a doula sair, ele disse: “Vamos, saia daqui! Não te quero aqui! Se não sair eu não vou fazer o meu trabalho, eu não vou fazer o parto dela”.

Para não causar mais conflitos, a doula olhou com muita tristeza para mim e disse: “Deise, eu vou ter que sair, pois tenho medo do que ele pode fazer com você”. Eu estava apavorada, mas tive que aceitar, não tinha para onde ir, nem o que fazer. Então o médico mais uma enfermeira me levaram para a maca para poder ser examinada, eu mal tinha forças para subir na maca, estava apavorada, mas o sentimento de trazer meu filho ao mundo era maior.

É importante dizer que, não tenho nada contra a cesárea, assim como não tenho nada contra o parto natural, sou a favor de todas as mães terem seus filhos da forma que desejam, com respeito e sem serem coagidas.

Novamente o médico fez o toque e ele me disse que estava 9 cm dilatado, faltava apenas 1 cm, eu sentia muita dor, mas a felicidade era maior, pensei “meu Deus, sou capaz de conseguir, falta somente 1 cm”. Porém novamente ele veio com sua negatividade e disse: “Eu acho que não vai dar certo, vamos ver, não sei”. Pensei: "porque ele esta fazendo isso comigo, o que eu fiz para ele? Como pode alguém que estuda para ajudar as pessoas fazer isso?".

Ele pediu uma pinça para enfermeira e sem me informar nada, rompeu minha bolsa, assim, do nada, invadiu meu corpo como se eu não estivesse ali. Então me levaram para o quarto ao lado, o médico mandou eu deitar e apoiar os pés na cabeceira da cama, eu pensei: como assim? É aqui que fazem os partos normais? Não há uma sala separada e preparada? Pois é, não havia! Seria ali mesmo, o médico olhou para mim e disse: “olha, não sei se vai dar certo, mas você pode continuar tentando, você fez suas escolhas, preferiu ficar com elas (doula e amiga enfermeira), elas fizeram tudo errado com você e agora você terá que sofrer as consequências, talvez o seu útero tenha rompido e o seu feto não consiga". Eu super assustada perguntei se podíamos ouvir o bebê e ouvimos, estava tudo bem com o bebê, ele era forte e os batimentos cardíacos estavam em 140 por minuto.

Mas isso não foi o suficiente para o Dr. ele continuou indagando: “Olha já vou te falar, teremos que fazer a episiotomia se não você pode se rasgar toda”, a enfermeira disse a mesma coisa e ainda completou: “O seu bebê é grande será impossível não fazer”. O médico continuou dizendo: “Eu tenho mais estudo que essa menina (ele se referia a doula), tenho livros e livros de estudo e ela o que tem?"


Agora eu te pergunto, aonde foi que ele estudou que aprendeu a tratar uma paciente assim? Aonde ele aprendeu fazer uma cirurgia assim?

Enquanto eles falavam todas essas coisas, eu estava ali gritando de dor, eu pedi varias vezes para levantar, eu queria levantar, eu queria agachar, sentia meu corpo pedindo isso, então ele veio e de novo fez o toque, meu Deus eu já havia perdido as contas de quantas vezes ele já havia feito e de como era horrível, então ele disse: “Seu colo do útero ainda esta duro, não vai dar tempo, vamos ter que fazer cesárea”. Como assim, colo do útero duro? Eu não compreendia nada naquele momento, mas não tinha mais para onde ir, a não ser a mesa de cirurgia.

Fui carregada para o centro cirúrgico, lá eu mal consegui subir na mesa de cirurgia, sentia muita dor e o desespero era maior que qualquer outra coisa. Eu chorava, mas tive que engolir o choro e me calar. Lembro-me perfeitamente de ter apenas três pessoas na sala, a enfermeira, o médico e outro médico auxiliar. Foi o mesmo médico que aplicou a anestesia em mim, achei estranho, mas naquele momento a única coisa que eu queria era ver o fim de tudo aquilo, era ver meu filho bem.

Ele disse: “Fique quieta se não eu posso te machucar”, logo depois me deitaram, eu tremia muito, já na mesa de cirurgia, era uma mistura de sentimentos, lembro de que assim que me abriram ouvir o médico auxiliar disser: “Estava ou não encaixado?” Pela minha conclusão ele quis dizer que sim, quis dizer que meu filho já estava nascendo, só precisava de tempo e eu, de apoio, de ajuda.

Quando ouvi o choro do meu bebê, eu só queria velo, ver se estava bem, logo à enfermeira o levou e eu não via a hora de tudo terminar para eu sair dali e ver meu filho, ver como ele estava. Meu esposo que foi impedido de entrar, mesmo tendo um documento e assinado e protocolado pelo diretor do hospital, onde era permitido a sua entrada, mas é claro, isso também não foi respeitado, ele estava do lado de fora, desesperado em saber noticias nossas.

Era tão desesperador, quando sai, me senti derrotada, culpada, fracassada. Olhei para o meu esposo e chorei, pedi perdão por não ter conseguido, ele me olhou e disse: “Calma meu amor, você foi guerreira e o nosso filho é lindo”. Eu não queria encarar ninguém e dizia à todo tempo “eu não consegui, me perdoem”.

Tinha que lidar com tanta coisa, um momento era para ser de total felicidade, na minha cabeça era de total fracasso. Estava feliz e aliviada de ver meu filho bem, mas como mulher e mãe, me sentia um fracasso. No mesmo dia, muitas enfermeiras foram até o meu quarto, perguntaram sobre o parto e quando eu contava o ocorrido elas não se surpreendiam, diziam que para haver um parto ali com respeito, precisava de muita mudança.

A enfermeira que estava com o médico quando dei entrada no hospital me visitou no dia seguinte, ela me relatou que sabia que o medico não faria a cesárea só de pirraça, pois não gostava da doula e que ele me deixaria sofrer ate o último momento e depois faria à cesárea, disse também que isso já havia acontecido outras vezes e que já ate tiveram que empurrar a cabeça de bebés que estavam coroando, eu fiquei sem palavras. Quando ela saiu eu pude concluir que eu não era a primeira e não seria a última vitima a passar por todas essas atrocidades, muitas mulheres passam por coisas terríveis dentro daquele hospital, triste a nossa realidade.

Quando você passa por algo tão traumático é uma luta diária para superar, você tem que lidar com muitas dores, mais a dor maior é a da alma, essa é a mais difícil de ser curada, essa dor lateja todos os dias dentro de você. Nos primeiros dias eu chorava a todo tempo, chorava escondido porque não queria que me vissem sofrer. Olhava para aquela cirurgia horrorosa e me sentia um grande fracasso, demorei a entender que a culpa não era minha, e que na verdade eu era a grande vitima. Todo dias peço a Deus para vencer cada novo dia, fico pensando até quando vamos ser desrespeitadas e maltratadas dessa forma? Infelizmente esse não foi o relato que sonhei escrever, mas foi o que me obrigaram.

 











Ana Deise Félix Oliveira tem 29 anos, mora em Rolim de Moura e é casada. Tem um filha fruto de um relacionamento anterior e o Heitor, cuja história de nascimento trazemos aqui.

Um comentário:

  1. Ana Deise, isso que aconteceu com vc é violência obstétrica, se vc tiver testemunha pode processar esses médicos, pois só dessa maneira (processo) outras mulheres não passaram por isso.

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