11 de julho de 2012

Puerpério: bem vindo sangue...sangue bem vindo...


por Cariny Cielo

Lá se foram nove meses do meu cisma! O nascimento, meu e do meu filho, passou como flash, num piscar de olhos. Em termos hormonais - e muitos acreditam, em termos energéticos também - o meu puerpério terminou agora, com a volta dos meus ciclos menstruais.

Menstruei orgulhosa e saudosa nove meses depois do parto e dezoito meses depois da vida se aninhar no meu útero! Orgulhosa por receber novamente os banhos de renovação que as fases dão só a nós, mulheres. E saudosa por, enfim, despedir-me daquilo que foi a verdadeira libertação da minha fêmea.

Deixo pra trás meus dias de puérpera, de corpo dedicado unicamente à cria, de simbiose profunda com o universo encantado do filho recém chegado... os dias de altos e baixos emocionais, de vazio estrógeno, de noites truncadas e apetite variante... deixo uma sombra: a que enfrentei com coragem para nascer e renascer como mãe, novamente.

Recebo o cio, a enxurrada de hormônios, o viço de mulher fêmea e não mais de mulher mãe. Que venha a beleza tão lindamente projetada pela natureza, finamente desenhada pela divina força... aquela que gera, que cria! A dona do mundo. O ciclo chega assim, dizendo-me: sejas tu, mulher, fêmea! E eu sigo, criadora e criatura...

Aquilo que ouvi a vida toda que era feio, sujo, fétido... que era para esconder, disfarçar, lamentar: meu sangue! Meus sinais, minhas fases. Presa que eu era num calabouço masculino, minha única saída era lembrar, todos os meses, que havia uma mulher ali dentro... sedenta de vida! Uma "mulher brava", diria Clarissa Pinkola.

E talvez por isso eu sempre gostei de menstruar... da cor, do cheiro, das ondas de sensações que vinham com a ovulação. Não me incomodava, não me doía, não me limitava... eu não queria esconder ou mentir... era algo muito, muito simbólico para mim. Eu ainda não sabia o que o futuro me reservava mas já sentia que esse sangue era sagrado.

Essa semana precisei responder uma pergunta bem simples sobre o nascimento do meu filho caçula: "o que mais te marcou no parto?" Que difícil dizer! No entanto, de tudo que me vinha a mente, uma coisa havia em comum: as sensações corpóreas, de maneira geral, me marcaram muito. Ver, tocar, conhecer a minha placenta. Ver, tocar, sentir o cordão umbilical. O barulho que ouvi quando a bolsa d'água estourou. O bebê mexendo dentro de mim, querendo nascer, depois coroando e enfim, escorregando quentinho pro meu colo. Aquele cheirinho de bombom no quarto que perdurou por dias.

Todas sensações de carne, osso e sangue! Dizem que a placenta é nossa 'mãe interna'. E eu fiquei impressionada em ver como é grande, corpulenta, cor de sangue enegrecido...

E, por gostar sempre tanto de tudo que pertencia à minha intimidade, eu não poderia ter vivido a jornada do nascimento de outra maneira, a não ser a minha maneira!

Tinha quer ser assim... a menina que gostava do sangue que a avó insistia em dizer que ela deveria ter asco. A menina que se olhava e se investigava onde se dizia ser imoral tocar. A menina que tinha certeza que havia mais do que aquilo que o mundo apresentava como sendo das mulheres.

Não é nosso: a dor, o fardo, o peso ou a vergonha!

Nosso é o gozo, a vida, o riso solto, a renovação e a expressão...

A natureza não foi injusta com as mulheres! Quem transformou os eventos fisiológicos femininos em dores e patologias foi o modelo patriarcal que conquistou o mundo desde séculos atrás. E isso é tão forte e pujante que nós mesmas, as maiores vítimas, perpetuamos...

Menstruação não é vergonha, nem nojo. Não é para doer! Parto não é coisa de índia, é coisa de mulher. Não é para doer! Amamentar não é coisa de pobre, é natural. Não é para doer! Envelhecer não é coisa de mulher relaxada, é a ordem natural do mundo. Não é para doer! Chorar não é perder! Sentir não é ser fraco! Dar não é espoliar-se!

O que dói não é o sangramento mensal, nem a gravidez, nem o parto, nem a menopausa... dói a mulher, por querer desesperadamente ser fêmea num mundo de falos.

Hoje eu dei mais um passo na minha jornada pela mulher que nasci para ser...

Bem vindo, sangue; dores não me servem mais!





Em nota: Difícil achar uma imagem de menstruação no google! Esta, linda, e única, que achei trouxe, de quebra, uma estória interessante: veja aqui. e divirta-se com os comentários!!!

19 de junho de 2012

A menor "Marcha do Parto em Casa" do país foi no Estado onde pior se nasce...

A experiência de participar, em Cacoal-Rondônia, de uma mobilização nacional foi muito boa. É óbvio que sentimos que estamos falando um outro idioma, mas estou certa de que sementes estão sendo plantadas neste solo rondoniense. Tivemos 22 pessoas; algumas que foram por ouvirem minha convocação na rádio comunitária, o que muito me alegrou. Fizemos paradas em dois semáforos, na avenida principal da cidade. Levamos 6 cartazes, 50 adesivos com a logo do evento e 300 panfletos explicativos foram entregues.

Em Porto Velho, nossa capital, o movimento contou com a participação de apenas 3 engajadas mulheres, entre elas Elis Freitas. Número bastante sugestivo para este Estado que é o campeão nacional em nascimentos por cirurgia. Pelo jeito, a menor marcha foi na capital onde pior se nasce!

Muito ainda temos que avançar na melhoria do atendimento à mulher. As mulheres são violentadas e desrespeitadas em um momento único da vida (maternidade) e sequer se dão conta disso! Enxergo que, por aqui, somos as maiores coniventes com tudo isso...

MUITÍSSIMO obrigada aos amigos próximos que 'vestiram' a camisa comigo! Mayara e seu irmão e cunhada. Eneas, Jair e a namorada, Washington Sobrinho, Jaqueline e Uillian.

Muito obrigada aos amigos de longe que me dão a oportunidade de servir e valorizam tanto minhas iniciativas!

Muito obrigada ao médico que, há 5 anos, me fez uma cesariana e, a partir disto, me fez conhecer o ruim para poder lutar pelo bom, através da mulher que hoje habita em mim...

As fotos estão no Comfestas!!! No link abaixo
http://www.comfestas.com.br/galeria_view.php?gft=2945














5 de junho de 2012

Reflexões: e o prêmio vai para: ... Ninguém!


por Cariny Cielo

Nossa sociedade é pautada pela competição. Tudo tem que ter uma meta, um fim, um ranking. E isso começa desde quando ainda estamos no útero e nossas mães comparam as barrigas delas às barrigas das vizinhas delas.

Esta semana, ouvi de uma pessoa que sabia que eu havia tido bebê em casa a seguinte frase: "nossa, isso sim é que é ser mãe... minha filha, aquela preguiçosa nem quis saber de parto normal, foi logo marcando cirurgia."

Ela achou que estava me elogiando, mas não, não aceito esse tipo de elogio para me vangloriar com rótulos. A frase foi ótima, não para a minha auto estima e sim para me fazer refletir sobre esta ‘panacéia desvairada’ de achar que existe "mais" mãe e "menos" mãe, conforme o parto, conforme o aleitamento, conforme o número de babás, conforme as vezes que se acorda à noite, conforme o tempo que se dedica, enfim...

Assim, se criam as legiões de mulheres-mães prisioneiras e carrascas de si mesmas e, pior! Carrascas das outras!!!

O tempo inteiro culpando-se, o tempo inteiro questionando-se, o tempo inteiro julgado-se. O tempo inteiro apontado o dedo! Fazendo do 'ser mãe' uma verdadeira maratona, com direito a medalha e troféu...
Conheço mulheres que deram o peito com desdém e distanciamento, só porque era o mais fácil e barato a ser feito. Conheço mulheres que não amamentaram, mas se vincularam profundamente com seus filhos na hora da mamadeira. Existem as que marcam a cesárea e são mães presentes e felizes ao passo que muitas que têm parto normal, sem qualquer dedicação ao filho depois.
É assim que acontece... não existem lados, não é dual, não existe bem e mal, como o cristianismo planta tão profundamente em nosso inconsciente. Existem apenas mães escolhidas por seus filhos, e vice versa, nos misteriosos arranjos da existência.
Você, mãe! Esquece tudo que ouviu a vida toda sobre como você ‘deve ser’... abandona o apelo da mídia, da família, do consumo, da empresa em que trabalha, do grupo da igreja, dos vizinhos... fecha os olhos e os ouvidos para qualquer coisa que chegue até você para te desmerecer, desmerecer suas escolhas, sua trajetória, suas formas de fazer, deixar de fazer, de ser e deixar de ser...
Nós somos a exata medida do que devemos ser. Nossos filhos, principalmente eles, chegam até nós por acordos mágicos e são o que são, assim como somos o que somos. Nos formamos, mutualmente, dia após dia. Em eternos recomeços, destruímos partes e construímos outras tantas... Estamos milimetricamente onde devemos estar, vivendo uma estória única, exclusiva e sem replay.
Ouça bem: Não tem medalha! Não tem troféu de melhor mãe, não tem primeiro, nem segundo lugar...não tem baú de ouro no fim do arco-íris.
Preste suas contas apenas a si mesma, à sua essência e a seus escolhidos... Compare-se consigo mesmo, num exercício saudável e maduro de autoconhecimento.
Bata no peito e diga: eu quis assim, eu escolhi assim, eu fiz o que entendi ser o melhor, o mais certo... só! O outro (melhor, a outra) faz, da mesma forma, o que entende e julga ser melhor. Acreditando acertar, acreditando estar livre para escolher, acreditando que 'era pra ser assim'. Ela é melhor? Ela é pior? Você é melhor que...? Você é pior que...? Pára!!!

Esquece tudo, abdique do falso prêmio e premie-se, com a delícia de se entregar, de corpo e alma, a si mesma e a tudo que acredita.

Imagens: Google

28 de maio de 2012

Reflexões: Exército de vadias...

Maíra Streit (Marcha das Vadias de Ponta Grossa PR)

por Cariny Cielo

Esta semana, movimentos pelo Brasil dão gritos pelo fim do machismo na sociedade. A 'Marcha das Vadias' vem para por em choque tudo que homens e mulheres entendem como democracia e igualdade de direitos.

A desigualdade talvez não exista mais nas leis, mas existe dentro de cada um de nós, principalmente de nós mulheres! Sim, somos as maiores machistas...

Eu era extremamente masculina! Carrego o útero marcado eternamente pelo bisturi como ícone de uma mulher que não acreditava no feminino e calou, por anos, todos os instintos da psiquê de fêmea. Mas, porque eu fiz isso? De onde nasce em nós, mulheres, a postura de denegrir o que é deste pólo?

Cresci castrada estudando em colégios de freiras e sonhando em ser racional, fria, forte, invencível, competitiva, 'dura de doer': era o que eu queria para mim! Acreditava que seriam estes os atributos das bem sucedidas. Mas eu não era assim e a minha dor vinha de não conseguir conquistar o posto de mulher que a sociedade esperava de mim.

Perfeita! Que, de maneira velada, significa: Magra, arrumada, saudável, disponível, super filha, super mãe, super amante, super esposa, super amiga, super profissional! A minha concepção era a de que eu só servia, se conseguisse tudo isso. O amor só apareceria se eu fosse tudo isso. O sucesso só chegaria se eu fizesse toda a lição de casa, direitinho...

Em resumo, eu não precisei ter pai, irmão, amigos ou mesmo namorados machistas, eu já carregava todo o machismo necessário para acabar com uma mulher. E, quando chamei por ela, na hora do parto do meu primeiro filho, ela estava muito longe, muito fraca, muito nebulosa para mim.

A boa notícia é que ela nunca morre! Li isso da Clarissa Pinkola no livro 'Ciranda das Mulheres sábias' e, pouco a pouco, eu fui alimentando minha mulher, meu feminino, minha essência... fui nutrindo minha raízes. Todo dia é dia de ser mulher! De chorar, de pedir, de doar, de sentir, de transformar, de motivar, de criar, de empreender, de confiar, de lutar, de matar e de morrer, de inspirar... são nossos estes verbos...

As mulheres saíram para gritar que são seres humanos! Nem melhores, nem piores... só mulheres! Que por trás das exigências de ter cintura de pilão e peito empinado, temos sentimentos, opiniões, caímos e levantamos, como todo mundo. Que valemos pelo que somos e não pela imagem que passamos. Que nossos corpos não são para diversão nem pro terror de ninguém. 

Já ouvi maridos dizendo que exigiram uma cesárea na esposa para que o 'parque de diversões' deles não fosse maculado... que amamentar seria competir com o filho pelo mesmo 'brinquedinho'. Antes de julgar os homens que falam assim, sempre em tom jocoso; penso que tipo de mulher admite ouvir isto? Porque é que rimos destas e de outras tantas piadas? Porque nos odiamos, nos invejamos, nos destruimos, umas às outras?

Porque temos filhos para preencher um vazio ou para promoção social? Porque alimentamos um casamento falido? Porque entregamos nosso corpo, no sexo, na gravidez, no parto, como se fôssemos só carne, sem alma, sem sentir? Porque sempre achamos que 'ela mereceu', que 'bem feito', que 'também, vestida assim', que 'quem mandou engordar'? Porque maldizemos e criticamos todas que rompem com este sistema superficial? Estamos todas perdidas e é preciso muito grito para mudar tudo isso...

E se ser vadia nos dias de hoje é ser mulher selvagem, então, sim, eu sou! Não quero o rótulo de destruir o masculino; mas se hoje é preciso escancarar portas, então, eu ajudo sim a chutar e grito: Sou vadia sim, é aí?

16 de maio de 2012

Movimentos pelo respeito ao nascimento e parto: O que eu quero?


por Cariny Cielo

Hoje eu dei uma entrevista sobre parto, mulher, humanização do nascimento, essas coisas. Foi uma tarde agradável ao lado de uma jornalista super divertida e muito dinâmica. Ela me contou, inclusive, a própria experiencia com o nascimento da filha, uma cesárea quase que imposta.

Eu queria uma eternidade para falar sobre parto, mas tive que me render ao tempo e ao chamado dos filhos, só que fiquei pensando em o que deixar como resumo, como informação principal...

Eu poderia dizer muitas coisas sobre ter filhos naturalmente. Poderia recomendar o parto natural, o aleitamento, uma gestação sem interferências e o mais consciente possível...

Minha estória dos últimos cinco anos, onde saí de uma menina completamente entregue à medicina, na primeira gestação (o que me rendeu um corte na barriga para fazer nasceu o meu primeiro filho), à uma mulher que pariu sozinha em casa, me permite ter muito assunto. Muitas dicas, conselhos, referências, evidências científicas, livros, exercícios, sugestões, papites... enfim... mas eu não quero nada disso. Essas vivências são muito pessoais para fazer eco em outras mulheres, eu quero mais que isso tudo!

Quero dizer às mulheres apenas uma coisa: Temos liberdade de fazer escolhas, mas estas escolhas devem ser conscientes.
Quero apenas mostrar que coragem tem que ter não quem pari em casa, sozinha, mas quem agenda uma cirurgia para fazer nascer o filho, pois morrem muito mais bebês e mulheres nestas circunstâncias do que parindo naturalmente. Isso são dados, e não 'achismos' ou estórias folclóricas...

Quero que saibamos que estamos nos expondo e expondo nossos filhos a muito mais riscos numa cesárea do que num parto natural. E, não, repito! Isso não é o que eu acho... são evidências científicas, algo que a maioria dos obstetras ignora para nos vender a cirurgia como melhor, mais fácil e mais segura! Não é!

Não me importam suas escolhas, mas me importa apenas saber se elas são livres, conscientes e informadas!
Se, a despeito de conhecer todos os riscos, você optar pela via cirúrgica, esta será uma escolha responsável e adulta. Mas o que vemos atualmente são mulheres completamente silenciadas, ocupadas com o enxoval do bebê, sem saber muito sobre o próprio feminino, enquanto o médico 'cuida' do parto.

Quero tornar público que o parto normal oferecido pelos hospitais é violento, é humilhante e desrespeitoso para a mulher. E que, ao par disto, é até compreensível que se escolha tanto a cirurgia.

Quero tão somente abrir os olhos das mulheres para a castração do feminino na sociedade em que vivemos e que durante a gestação e parto isso fica muito evidente através das práticas invasivas que fazem no corpo e na alma da mulher.

Somos desde cedo impelidas a acreditar que não funcionamos bem. Devemos silenciar nossos ovários à custa de hormônios porque menstruar dói muito. Dói mesmo... dói ser mulher num mundo de falos! Parir dói demais... dói mesmo! Dói partir-se para fazer nascer a mulher e abandonar a menina. Amamentar dói... dói mesmo abdicar do posto de receber para doar, com o sangue.

Ser mulher tem doído muito... afogar nossa essencia, dia após dia, para atender às demandas do mundo, dói demais!

Mas o que eu quero, afinal?

Meu desejo é muito singelo...

Quero que a escolha das mulheres seja consciente para, só assim, ser verdadeiramente livre.

11 de abril de 2012

Relato de cesárea de Cariny: um corte e uma sexta feira treze transformadora


Emiliano recém nascido (arquivo pessoal)




Eu não pensei em ser mãe e, antes que eu pudesse me decidir, lá estava ele, decidindo por mim. Tão completamente estranho e íntimo.

Recebi com susto a notícia que mudaria minha vida, que me viraria do avesso. “Eu quero ter parto normal” – essa era minha frase decorada depois que me vi grávida. Para tanto eu li livros, fiz exercícios e me mantive saudável. Hoje eu sei que não foi o suficiente.

O parto, que para mim era um evento físico, mostrou-se com a dor de um corte na barriga que é, na verdade, um evento da alma da mulher. Mas, onde estava esta mulher? Entreguei aos médicos o destino do meu corpo e, com isto, assinei a sentença de morte da minha versão fêmea. Anos aprendendo a sufocar meus sentidos, instintos e minha essência. Eu fiz a lição direito: era uma perfeita mulher moderna, mas, como eu já disse anteriormente, as mulheres modernas não parem mais... esta triste parte da minha estória, eu só fui conhecer depois: assim que me deram um bebê extraído de mim e não me deram o direito sequer de chorar.

Esse foi meu não-parto que agora, 5 anos depois, sai de mim para sempre.

Dois dias antes, à noite, eu comecei a sentir desconforto ao ficar sentada. Sentia dores lombares e esperava dores no ‘pé da barriga’, como havia dito o médico. Arrumei uma filmadora emprestada, ajeitei umas coisas que ainda faltavam no quartinho e fui dormir.

Acordei cedo para trabalhar no dia seguinte e, ao contrário de todos os dias, o bebê não mexeu. Fiquei apavorada e liguei pro médico. Ele pediu um ultrassom e, claro, fui fazer. Estava tudo bem, bebê baixo e 1-2 cm de dilatação. Meu obstetra teve a ideia de dizer-me que duraria uma semana ou seria naquele mesmo dia. Eu, apavorada com a realidade do parto batendo à minha porta, preferi me apegar no ‘daqui uma semana.’

Não consegui trabalhar. Não ficava sentada, pois a pressão nas costas era muito forte. Eu corria pro livro ‘A Bíblia da Gravidez’ e repassava o chek-list do “chegou a hora?”, mas muita coisa não batia. Fiquei confusa e perdida. Fui pro sol e passei a tarde deitada curtindo a ideia de que seria outro dia, não aquele dia, não agora, não hoje! Hoje não, nem amanhã, talvez nunca... a barriga era tão maravilhosa, não queria me desfazer dela.


(arquivo pessoal)

À noite ainda fiz as fotos do álbum de gravidez, entre uma foto e outra eu sentia as contrações, mas insistia em acreditar que não, não seria agora...

Não havia ninguém por mim. Meu marido também estava na jornada, igualmente perdido e sozinho. Eu sentia solidão, confusão, dor, medo, insegurança. As dores foram aumentando até que umas 02:00 da madrugada acordei meu marido e disse exatamente isso: “vamos pro hospital, não pode ser normal isso. Tem que ter alguma coisa de errada. Está doendo minhas costas demais”.

Chegamos ao hospital pedindo para tomar algo para dor. A atendente perguntou de quantos meses eu estava, meu marido disse ‘nove’. Ela ficou pálida e ligou correndo pro obstetra.

Ele chegou, me olhou com olhar de carinho e compaixão que nunca vou esquecer... ouviu o bebê, fez toque (eu estava com 5 cm) disse que estava tudo bem e me aplicou uma peridural. A peridural não ficou bem localizada e eu senti dor de cabeça, náuseas, mas as dores nas costas passaram imediatamente. Fiquei deitada com a peridural nas costas e um acesso venoso na veia.

Pronto, meu parto estava, ali, ficando pra trás. Madrugada adentro a equipe vinha e ouvia o bebê. Às 06:00 da manhã começaram a chegar as gestantes que haviam marcado cesárea para este dia, era uma sexta-feira. Eu continuava lá, contrariando todo o protocolo médico, demorando demais, insistindo demais. O médico me apoiou acompanhando minha situação, no entanto, deitada eu não colaborava com o fisiológico! 

Daí, o inevitável: em uma das escutas, o bebê apresentou taquicardia. Ele disse que se continuasse assim, teríamos que fazer cirurgia, eu chorei imediatamente. Meu marido igualmente inocente, viu minha dor, e insistiu com o médico para ouvir novamente um tempo depois. Mas, nada mudou! Deitada, sofrimento fetal é conseqüência lógica, igual dois e dois são quatro. Eu não havia feito nada em meu benefício e nem em benefício do meu filho. Abri mão de parir ao fazer as escolhas erradas, um trabalho de parto 'passivo' não tem desfecho diferente...

A única coisa que fez cessar meu choro durante a cirurgia foi ouvir o choro do meu filho! Que instante mágico de constatação de que ali havia mesmo um ser alheio a mim.

E logo ele se foi! Levaram-no imediatamente para sei lá onde, depois voltaram e me mostraram aquela criaturinha enrolada numa manta, eu sequer consegui cheirá-lo. Ele foi pro quarto com meu marido que até hoje lembra dos olhos daquele garotinho medindo todo o cenário. Eles ficaram lá se conhecendo e eu fiquei quase 5 horas no centro cirúrgico.

Depois veio eu, cortada no corpo e na alma. Eu não queria ver ninguém, mas o quarto ficou lotado de gente me perguntando o que aconteceu e dizendo que o que importava era que eu e o bebê estávamos bem. Bem? Esta era, exatamente, a frase que eu não queria ouvir. Eu não queria estar bem, eu queria ter sentido meu bebê chegar ao mundo, no tempo dele, feliz e respeitado. Eu queria ter dado a luz, só.

Demorou uns dias para eu me vincular, confesso. Eu chorava escondido na hora do banho por não ter conseguido parir. Minha mãe percebeu minha tristeza, eu dizia que era só saudade da barriga. Fui muito bem cuidada. Minha família e amigos fizeram uma calorosa rede de apoio e apesar da dor da frustração do não parto, meu puerpério foi gostoso, tenho boas lembranças dos aprendizados e da delícia de ser mãe pela primeira vez. A mulher pode ter quantos filhos for, mas o primeiro é sempre arrebatador. É o filho que te irrompe, que desvela teus véus, que te faz conhecer, pela primeira vez e para sempre, o amor maior.

O que me restava? Amamentar aquele menininho com meu sangue, para assim fazer cessar a cicatriz que tanto doía. Eu me dei conta de que haviam me tomado o parto porque eu o entreguei, mas com a amamentação seria diferente! Ninguém tiraria de mim! Lembro-me perfeitamente do dia em que me dei conta de que o amava tão forte que chegava a assustar. Para mim, amamentá-lo exclusivamente foi decisivo para tornar isso tão forte. Ele devia estar com umas 2 semanas e eu o deitei no berço após uma mamada da manhã e fui para o computador. Não consegui fazer nada, digitar nada, pesquisar nada. Apenas fiquei olhando fotos dele, completamente enamorada... estava lá, finalmente, o vínculo...



De lá pra cá, já se foram tantos estonteantes anos e eu ainda ensaio mil e uma danças com ele. Devo toda a minha trajetória de mulher a esse meu querido primeiro menino, inclusive os maravilhosos partos que vieram em seguida. Foi ele que apostou, pela primeira vez, que havia, dentro daquela menina, uma grande mulher.


14 de março de 2012

Reflexões: A invisível burca... e o dia internacional da mulher


por Cariny Cielo

Dia internacional da Mulher!!! Comemoramos grandes avanços na redução da violência e na conquista da liberdade deste gênero que, há séculos, foi oprimido pelo crescimento de uma cultura patriarcal.

Comemoramos o poder do voto, a participação política, a inserção no mercado de trabalho, a chefia das famílias, ao passo que, num momento único, talvez mais importante, de nossas vidas – a gestação e parto – abrimos mão, deliberadamente, da liberdade individual tão acirradamente defendida e seguimos, qual boiada pro abate, fazendo o que dizem ser melhor para nós.

Sim! Votamos e somos votadas. Podemos ser chefes de Estado, concorrer à Presidência do País. Estamos no Congresso Nacional, nas assembléias e câmara de vereadores do Brasil afora. Chefiamos famílias. Somos, muitas vezes, as únicas a trazer renda em casa. Entramos em todas as profissões, mesmo a eminentemente tidas como masculinas. Somos poderosas, mas, a partir do momento que ficamos grávidas e vamos parir, perdemos todos os nossos poderes, auto-estima e deixamos que tutelem nosso corpo, ferindo de morte nosso feminino.

É! Nós deixamos que nos digam como viver nossa sexualidade, como gestar, como alimentar e educar nossa cria, deixamos que monitorem nosso bebê no sagrado claustro uterino; que nos imponham um medo paralisante quando deveríamos estar em época de graça e encantamento por perpetuar a humanidade. Não somos mais as poderosas donas da Vida. Somos as coitadinhas correndo perigo e carregando um estorvo que nos tira a sensualidade e a vida social.

Deixamos que mintam para nos, descaradamente. Que digam que não iremos conseguir fazer algo para o qual nossos corpos foram moldados há milhares de anos para fazer, sem auxílio. Permitimos que transformem em patologias e regras, todas as exceções fisiológicas que acompanham os eventos sexuais femininos.

Realizam em nós a única cirurgia do mundo feita sem o consentimento do paciente: a episiotomia. Deixamos que nos digam em que posição ficar, a despeito do que o nosso corpo pede. Ouvimos piadinhas, brincadeiras de mal gosto, palavras de ordem, termos chulos e até cantadas, quando estamos suscetíveis e vulneráveis, em pleno trabalho de parto.

Sob a pecha de ‘fazer o que é melhor para nós’, tomam de nós nossos corpos e manipulam o nascimento de nossos filhos com drogas, manobras violentas, profilaxias duvidosas.

Permitimos que levem de nós nosso bebê recém-nascido, tão carinhosamente gerado e carregado no ventre por meses, para ser maltratado, ops!, analisado e deixado em solidão, correndo riscos os mais diversos. Permitimos que tratem nossa cria, para nós única e especial, como apenas só mais um entre dezenas de outros. Deixamos que deem a ela glicose ou leite artificial e não o nosso vital colostro.

Ficamos mudas, enquanto vemos propagandas que humilham e insultam a mulher, tratando-nos como objeto. Rimos dos gracejos machistas. Modificamos nossos corpos, muitas vezes a qualquer custo, para atender uma demanda opressora de beleza ou simplesmente agradar um homem. Ouvimos uma voz dentro de nós nos inclinar a dizer ‘bem que ela mereceu’ se vemos uma mulher pouco vestida sofrer violência sexual.

Deixamos nossos filhos com poucos meses de vida aos cuidados de outros, dilacerando nossos corações de mãe, mas porque não podemos sair do mercado de trabalho. Tiramos-lhes o peito porque alguém diz que seios são para pôr silicone e não armazenar leite.

Ainda usamos a maternidade como uma forma de promoção social ou, pior, como moeda de troca para manter um casamento infeliz. Casamento? Ainda sobrevivemos a casamentos por não suportar os olhares reprovadores lançados sobre uma mulher sozinha. Permitimos que um homem – seja ele pai, marido, irmão ou médico – seja responsável pelas nossas vidas, escolhas, saúde e felicidade.

Achamos absurdo o uso de burca em algumas culturas do Oriente Médio? Por aqui, a burca existe, só não é de tecido. É invisível, é dissimulada, vem sorrateira e, com nossa ajuda, nos toma a alma feminina.

E pasmem: não oferecemos nenhum tipo de resistência. Não gritamos, nem xingamos, nem nos revoltamos. Não denunciamos o médico que nos cortou o sexo sem nos consultar; não questionamos as indicações (cada vez mais folclóricas e menos científicas) de cirurgias para o nascimento dos nossos filhos. Não damos queixa do marido que violentamente nos oprime, dia após dia, pelas mais diferentes razões. Pior, vestimos a máscara da conivência com as mentiras, com o silêncio mortal, com a castração, ainda que velada, do feminino em nossas vidas.

Enfim. É triste, mas somos nós as maiores ‘machistas’ do mundo moderno.

Dia 8 de março? Nosso internacional dia...

Dia de tomar posse das nossas aptidões, da nossa liberdade constitucionalmente tutelada e exercê-la física e emocionalmente. Exercê-la no campo das idéias, das indignações, dos questionamentos.

Dia de nos libertarmos da cultura patriarcal que nos faz achar normal a mulher-objeto. Dia de chamar para nós a responsabilidade pelas nossas escolhas, pelas nossas vontades, pelas nossas opções e assumir o risco disto tudo.

Dia de promover o feminino, não para sub-julgar o masculino, caso contrário entraríamos, novamente, em desequilíbrio, repetindo o mesmo erro, na eterna guerra dos sexos.
É dia de celebrar, sim, com certeza! Por tudo que conquistamos até aqui. E é dia também de rasgar a invisível burca que nos oprime.


Imagem: Mulher afegã olhando através de sua burca.
Foto Natalie Behring-Chisholm (daqui)

14 de fevereiro de 2012

Amamentação: O desmame e a angústia do não falar...



por Cariny Cielo

eu poderia ter dito àquela mãe que quem estava perdendo era, principalmente, ela. Nada do manjado papo de que o 'leite materno é o melhor alimento'... todo mundo já sabe disso.

depois de cerca de 4-5 meses de amamentação exclusiva, estava ela, à minha frente, dizendo que havia desmamado seu bebê e que estava tomando medicamentos para parar a produção do leite materno.

quem perdeu? os dois, certamente! O bebê não receberá mais sua dose diária de vacina, nem aquele colinho único de peito de mãe... mas a mãe perdeu mais!

eu poderia dizer para ela que a amamentação, nos dias de hoje, seria uma das poucas vivências femininas autênticas que ela teria para desfrutar. Num mundo de cortes na barriga para nascer e gestações monitoradas, amamentar é o que resta para muitas mulheres...

eu poderia ter insistido com ela que todas aquelas mastites de repetição no seio direito, em verdade, queriam dizer alguma coisa, mas nunca que ela deveria suspender a amamentação natural.

não, não era a mastite. Era seu bebê desesperadamente clamando por contato. Não digo nem contato físico, ele queria conexão emocional, espiritual, energética com essa mãe. Eu poderia ter dito isso a ela.

é, eu poderia sim ter dito que amamentar é se fazer fêmea, selvagem e única e que isso tem um preço. Que era preciso despir-se das inúmeras máscaras que colocamos todos os dias para os mais diferentes tipos de pessoas e situações e sermos apenas nós, assustadoramente verdadeiras, em carne-viva.

eu poderia ter falado que o puerpério desvela em nós os véus que colocamos para maquiar nossas vidas e nos expõe nua, em pelo. Que nossa sombra, aquela parcela de nós que não gostamos, não queremos ver, vem com força arrebatadora, construindo e destruindo... e, para quem quiser aproveitar a tsunami, é o momento de salvar a si mesma e ser mulher, talvez pela primeira vez na vida.

e eu deveria ter dito que amamentar dá medo. Sim, é assustador constatar a simplicidade da vida em tempos de artificialidade. Assusta ver que eles vivem e crescem durante seis meses a despeito de qualquer coisa criada pelo homem! "Como isso?", diriam algumas. "Eu precisei de artifícios para engravidar; eu fui analisada mês a mês com aparelhos de ultrasom; no dia determinado pelo médico eu fui cortada e me entregaram um bebê avaliado, pesado, medido, asseado; e, agora, eu não preciso de mais nada para criá-lo? Só o leite que me verte?".

dá medo confiar num seio tão diferente da mamadeira graduada. Quanto ele mamou? Como mamou? Não importa... a natureza fez de uma maneira que fosse irrelevante fazer estas perguntas.

eu poderia ter argumentado ainda que o bebê não mama apenas leite, ele mama amor, energia, fluidos sutis da mãe, quando está no seio. Não é só leite; é amor, confiança, resiliência, fé na vida... assim ele mama. Alimenta seu corpo e sua alma.

é, eu talvez tinha que ter dito que se tratava, ali, do início de uma separação que deveria ocorrer somente por volta dos dois anos. Que, com alguns meses, o bebê ainda é fusão pura, simbiose pura. Ele é o que ela é. Ele está como ela está e que isto seria um maravilhoso mecanismo de crescimento pessoal.

seria um passo sem volta, eu diria a ela. um passo que provavelmente vá doer quando este mesmo filho, já adolescente, mostrar completo distanciamento desta mãe, enquanto ela volta a linha do tempo na cabeça e se pergunta onde errou.

eu poderia dizer que choro de culpa que ela demostra agora na minha frente por "tadinho", "tirar o leitinho dele" é, na verdade, o choro da mulher que ela poderia ser. O choro de todo o potencial de amadurecimento, de libertação, do que ela deveria perseguir e não quis. É o choro, na verdade, da vergonha de não enfrentar, de não fazer as perguntas difíceis, de optar pelo mais fácil e mais cômodo. É a dor de não crescer. Esta sim, mais doída e muito mais exigente do que a dor de enfrentar e seguir adiante.

dentro daquela mulher cheia de argumentos superficiais e paliativos médicos para desmamar sua cria, uivava uma loba sedenta de feminino...

mas eu não disse nada.

ouvi toda a estória das mastites, dos antibióticos, do bebê não querer 'mamá', dos bicos escoriados, do início das papinhas e do leite artificial, do veredicto médico...

ouvi tudo, muda, sem tecer uma só palavra, apenas assistindo, com pesar, o desmoronar da fêmea... talvez deveria ter dito algo. Talvez deveria ter, como 'procuradora constituída', falado em prol do bebê. Quem sabe eu deveria ter gritado com ela, batido na mesa, arregalado aqueles olhos, rosnado... mas não, só consegui fazer sair um "eu entendo" minguado e atônito.

minha tristeza não foi nem tanto pelo bebê; ele escolheu a mãe que tem e, do ponto de vista nutricional, ele vai seguir muito bem. Será um bebê amado e feliz.

doeu-me a amiga, a mulher, a mãe que estava ali na minha frente, presa em uma armadilha sutil, abrindo mão, deliberadamente, de crescer.




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