11 de abril de 2012

Relato: 13 de abril de 2007, um corte e uma sexta-feira 13 diferente...


Eu não pensei em ser mãe e, antes que eu pudesse me decidir, lá estava ele, decidindo por mim. Tão completamente estranho e íntimo.

Recebi com susto a notícia que mudaria minha vida, que me viraria do avesso. “Eu quero ter parto normal” – essa era minha frase decorada depois que me vi grávida. Para tanto eu li livros, fiz exercícios e me mantive saudável. Hoje eu sei que não foi o suficiente.

O parto, que para mim era um evento físico, mostrou-se com a dor de um corte na barriga que é, na verdade, um evento da alma da mulher. Mas, onde estava esta mulher? Entreguei aos médicos o destino do meu corpo e, com isto, assinei a sentença de morte da minha versão fêmea. Anos aprendendo a sufocar meus sentidos, instintos e minha essência. Eu fiz a lição direito: era uma perfeita mulher moderna, mas, como eu já disse anteriormente, as mulheres modernas não parem mais... esta triste parte da minha estória, eu só fui conhecer depois: assim que me deram um bebê extraído de mim e não me deram o direito sequer de chorar. Esse foi meu não-parto que agora, 5 anos depois, sai de mim para sempre.


Dois dias antes, à noite, eu comecei a sentir desconforto ao ficar sentada. Sentia dores lombares e esperava dores no ‘pé da barriga’, como havia dito o médico. Arrumei uma filmadora emprestada, ajeitei umas coisas que ainda faltavam no quartinho e fui dormir.

Acordei cedo para trabalhar no dia seguinte e, ao contrário de todos os dias, o bebê não mexeu. Fiquei apavorada e liguei pro médico. Ele pediu um ultrassom e, claro, fui fazer. Estava tudo bem, bebê baixo e 1-2 cm de dilatação. Meu GO teve a idéia de dizer-me que duraria uma semana ou seria naquele mesmo dia. Eu, apavorada com a realidade do parto batendo à minha porta, preferi me apegar no ‘daqui uma semana.’

Não consegui trabalhar. Não ficava sentada, pois a pressão nas costas era muito forte. Eu corria pro livro ‘A Bíblia da Gravidez’ e repassava o cheklist do “chegou a hora?”, mas muita coisa não batia. Fiquei confusa e perdida. Fui pro sol e passei a tarde deitada curtindo a idéia de que seria outro dia, não aquele dia, não agora, não hoje! Hoje não, nem amanhã, talvez nunca... a barriga era tão maravilhosa, não queria me desfazer dela.

À noite ainda fiz as fotos do álbum de gravidez, entre uma foto e outra eu sentia as contrações, mas insistia em acreditar que não, não seria agora...
Não havia ninguém por mim. Meu marido também estava na jornada, igualmente perdido e sozinho. Eu sentia solidão, confusão, dor, medo, insegurança. As dores foram aumentando até que umas 02:00 da madrugada acordei meu marido e disse exatamente isso: “vamos pro hospital, não pode ser normal isso. Tem que ter alguma coisa de errada. Está doendo minhas costas demais”.

Chegamos ao hospital pedindo para tomar algo para dor. A atendente perguntou de quantos meses eu estava, meu marido disse ‘nove’. Ela ficou pálida e ligou correndo pro obstetra.

Ele chegou, me olhou com olhar de carinho e compaixão pelo meu aparente sorimento, ouviu o bebê, fez toque (eu estava com 5 cm) disse que estava tudo bem e me aplicou uma peridural. A peridural não ficou bem localizada e eu senti dor de cabeça, náuseas, mas as dores nas costas passaram imediatamente. Fiquei deitada com a peridural nas costas e um acesso venoso na veia. 

Pronto, meu parto estava, ali, ficando pra trás. Madrugada adentro ele vinha, ouvia o bebê e voltava para descansar. Às 06:00 da manhã começaram a chegar as gestantes que haviam marcado cesárea para este dia, era uma sexta-feira. Eu continuava lá, contrariando todo o protocolo médico, demorando demais, insistindo demais. O médico me apoiou acompanhando minha situação, no entanto, deitada eu não colaborava com o fisiológico. Daí, o inevitável, em uma das escutas, o bebê apresentou taquicardia. Ele disse que se continuasse assim, teríamos que fazer cirurgia, eu chorei imediatamente. Meu marido igualmente inocente, viu minha dor, e insistiu com o médico para ouvir novamente um tempo depois. Mas, nada mudou! Deitada, sofrimento fetal é conseqüência lógica, igual dois e dois são quatro. Eu não havia feito nada em meu benefício e nem em benefício do meu filho. Abri mão de parir ao fazer as escolhas erradas, um trabalho de parto 'passivo' não tem desfecho diferente...
Minutos depois ele chegou. A única coisa que fez cessar meu choro durante a cirurgia foi ouvir o choro do meu filho! Que instante mágico de constatação de que ali havia mesmo um ser alheio a mim.
E logo ele se foi! Levaram-no imediatamente para sei lá onde, depois voltaram e me mostraram aquela criaturinha enrolada numa manta, eu sequer consegui cheirá-lo. Ele foi pro quarto com meu marido que até hoje lembra dos olhos daquele garotinho medindo todo o cenário. Eles ficaram lá se conhecendo e eu fiquei quase 5 horas no centro cirúrgico.

Depois veio eu, cortada no corpo e na alma. Eu não queria ver ninguém, mas o quarto ficou lotado de gente me perguntando o que aconteceu e dizendo que o que importava era que eu e o bebê estávamos bem. Bem? Esta era, exatamente, a frase que eu não queria ouvir. Eu não queria estar bem, eu queria ter sentido meu bebê chegar ao mundo, no tempo dele, feliz e respeitado. Eu queria ter dado a luz, só.

Demorou uns dias para eu me apaixonar por ele, confesso. Eu chorava escondido na hora do banho. Minha mãe percebeu minha tristeza, eu dizia que era só saudade da barriga. Fui muito bem cuidada. Minha família e amigos fizeram uma calorosa rede de apoio e apesar da dor da frustração, meu puerpério foi gostoso, tenho boas lembranças dos aprendizados e da delícia de ser mãe pela primeira vez. A mulher pode ter quantos filhos for, mas o primeiro é sempre arrebatador. É o filho que te irrompe, que desvela teus véus, que te faz conhecer, pela primeira vez e para sempre, o amor maior.

O que me restava? Amamentar aquele menininho com meu sangue, para assim fazer cessar a cicatriz que tanto doía. Eu me dei conta de que haviam me tomado o parto porque eu o entreguei, mas com a amamentação seria diferente! Ninguém tiraria de mim! Lembro-me perfeitamente do dia em que me dei conta de que o amava tão forte que chegava a assustar. Estou certa de que amamentá-lo exclusivamente foi decisivo para isso. Ele devia estar com umas 2 semanas e eu o deitei no berço após uma mamada da manhã e fui para o computador. Não consegui fazer nada, digitar nada, pesquisar nada. Apenas fiquei olhando fotos dele, completamente enamorada... estava lá, finalmente, o vínculo...

De lá pra cá, já se foram 5 estonteantes anos e eu ainda ensaio mil e uma danças com ele. Devo toda a minha trajetória de mulher a esse meu querido primeiro menino, inclusive os maravilhosos partos que vieram em seguida. Foi ele que apostou, pela primeira vez, que havia, dentro daquela menina, uma verdadeira mulher.
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