20 de agosto de 2013

Amamentação: É que amamentar deixou de ser a regra...

Ícone da 'Ala de Amamentação' de um shopping de uma capital do país. 
Poderia ser um bebê pendurado num peito, poderia ser um gota de leite, 
poderia ser um bebê sorridente... mas não! É uma mamadeira!!!

por Cariny Cielo


Ano passado eu respondi a pergunta "Porque eu sou ativista da amamentação?" proposta pelo Desabafo de Mãe, numa blogagem coletiva que reuniu um material muito precioso sobre o assunto.

Este ano, temos um novo mote: Porque as campanhas do governo não funcionam? Sim, porque campanhas não faltam, cartazes também e não conheço nenhuma pessoa que diz que o leite materno é ruim. "Todos aprovam e sabem dos benefícios, mas, então porque nossos filhos estão sem peito?"

E eu vim defender as campanhas (calma, eu explico!). Sim, as campanhas estão melhorando... só que ainda não vencem o que está arraigado no senso comum: ainda estamos presos à 'Era da Mamadeira". O resumo do meu post é o seguinte: levou tempo pro leite materno deixar de ser a regra e levará tempo para ele ganhar 'status quo' de normal, natural, simples, igual dormir, acordar, fazer cocô, comer... (e pra mim, só vai tá bom o negócio, quando amamentar for visto assim!)

Estamos falando de séculos onde foi moldada a cultura e a história da humanidade. Situando a amamentação como fenômeno sócio-histórico, torna-se evidente que essa prática sofreu (e sofre!) oscilações em diferentes momentos históricos e em distintos contextos sociais reafirmando-se que o ato de amamentar ou não ao peito, a despeito de possuir uma expressão no nível biológico, decorre de processos que transcendem este plano sendo histórica e culturalmente condicionado. 

Então, muita água tem que passar por debaixo da ponte, muitas atrizes têm que posar e fazer propaganda em horário nobre, muitos cartazes tem surgir para colocar o aleitamento como acessível - culturalmente - a todas! Estamos bem no meio da transição... Aliás, estamos bem no meio de várias transições: do nascimento, da criação dos filhos, da dedicação ao trabalho, do casamento, das amizades, do contato com as pessoas e do vínculo... Fomos aos extremos e agora buscamos caminhos alternativos que correspondam aos anseios que fundamentaram todos os extremos que conhecemos! Queremos o melhor dos mundos antagônicos. A segurança dos avanços da medicina + parir em casa é um desses 'o melhor'!!!!

Se o símbolo, o ícone, o chamariz de uma sala de amamentação do shopping (provavelmente um dos locais mais visitados de uma cidade) é uma mamadeira, esta é a prova de que pro inconsciente coletivo, dar leite artificial é o normal, é a regra! Quando postei a foto que ilustra este post no instagram, coloquei: "ache o erro". Muitas escreveram "tinha que ser um peitão", "tinha que ser um bebê no seio" e por aí vai. Como que alguém sentou e pensou: aqui é a sala de amamentação, faz um desenhozinho de mamadeira pra ilustrar... Porque pensou assim? Pensou assim porque mamadeira é normal... é a regra... é o símbolo... é o que está plasmado no inconsciente coletivo... na primeira dificuldade, na primeira falha, na primeira noite difícil (e todos sabem que virão muitas noites difíceis)... ali está ela! A postos! Presente do chá de bebê ou de alguma avó mais solícita...

Não foi preciso procurar muito. Numa saída de casa, andando pelo centro da cidade, eu pude observar o quanto a mamadeira - e com ela o leite artificial - está arraigada na nossa cultura. Mamadeira é sinônimo de infância, de maternidade... nas farmácias e mercados (dois comércios que mais se vê nas cidades!) encontramos gôndolas com mamadeiras fofas e inúmeras opções de leite... além de funcionárias treinadas a indicar os melhores modelos, os melhores bicos...

"Vendo lembrancinhas de chá de bebê" (de brinde vai a 
mensagem de que usar mamadeira é normal)


"Eu tenho aqui a de bico ortodôntico e uma importada com 
bico que imita o seio. Qual você prefere?" (eu prefiro o seio 
autêntico mesmo, é melhor e mais barato, vc não sabia?)

Escrevi pro shopping informando que amamentação é questão de saúde pública e que eles, tendo um ambiente de uso comum do povo, devem rever suas políticas e repensar na forma de 'ilustrar' uma sala de amamentação. Recebi como resposta:
Prezada Sra. Cariny
Agradecemos o seu contato e informamos que sua sugestão foi encaminhada para o setor responsável. Para nós as sugestões de nossos clientes é a melhor forma de aperfeiçoarmos os nossos serviços. Isso nos motiva e faz com que trabalhemos para oferecer sempre o que há de melhor.Seja sempre bem vinda.


Eu sigo na militância pra mostrar que mamadeira não é normal e que leite artificial é exceção, e não regra! E que, portanto, não deve ser promovida!!!

Sigo buscando empoderar as mulheres e fazê-las acreditar que num mundo de cifras, não é preciso gastar um centavo pra alimentar um bebê durante seis meses!!! Embora, muitas vezes, eu acabe num silêncio que me incomoda, eu, refém deste período de transição da história, sigo acreditando que é uma verdade que deve ser dita e repetida milhões de vezes, em todos os lugares, sem parar, carinhosamente, com apoio, com empatia, com rigor de leis, com incentivos multifatoriais...


Recebi um interessante estudo publicado nos Cadernos da Escola de Saúde Pública do Ceará. Está todo aqui e logo abaixo eu transcrevo uma parte bem didática sobre toda a história do aleitamento materno no Brasil e no mundo... (ATENÇÃO: é só para os leitores mais fervorosos ou praquela hora em que ficamos até de madrugada no facebook e não aparece mais status pra acompanhar). Vou logo adiantando que parece que foi - mais uma - herança nefasta dos 'brancos' sobre os índios e que o chique, na época, era ter ama de leite... hoje é ter mamadeira importada com bico que imita o seio!



O aleitamento materno deve ser situado como um fenômeno sócio-histórico, com repercussões na prática cultural e, não somente no plano biológico. Para tanto, julgamos oportuno retratá-lo em diversos períodos da história da humanidade, de modo a evidenciar os diferentes sentidos a ele atribuídos.

Os problemas relacionados à amamentação no contexto da alimentação infantil são muito antigos. Talvez o aleitamento artificial seja tão antigo quanto a história da civilização humana. Isso se evidencia pela grande quantidade de crianças abandonadas em instituições de caridade, ao longo de vários séculos e durante tempos economicamente difíceis, como já se verifica na Antiguidade. Tal fato se evidencia pelos registros de recipientes encontrados em vários sítios ao lado de corpos de lactentes em escavações arqueológicas (séc. V e VII), sugerindo que os gregos recebiam alimentos de outras fontes além do leite materno, por meio
de vasilhas de barro encontradas em tumbas de recém-nascidos àquela época. Esses achados nos
possibilitam afirmar que a substituição do aleitamento materno diretamente ao peito por outras formas de alimentação constitui uma prática muito antiga. Os mistérios e tabus relacionados ao tema, ao que parece, também datam do começo da civilização.

O Código de Hammurabi (cerca de 1800 a. C) já continha regulamentações sobre a prática do desmame, significando amamentar criança de outra mulher, sempre na forma de aluguel (amas-de-leite). Na Bíblia também é referida a prática das amasde-leite e do aleitamento materno, sendo comparada à palavra de Deus entendida como o leite genuíno: “Desejai ardentemente como crianças recém-nascidas o leite genuíno, não falsificado, para que por ele vades crescendo”(I Pedro 2;2). 

Nos tempos espartanos, a mulher, se esposa do rei, era obrigada a amamentar o filho mais velho; plebéias amamentavam todas as crianças. Plutarco relata que o segundo filho do rei Themistes foi preterido por seu irmão mais velho, somente porque ele não havia sido amamentado por sua mãe e sim por uma estranha. Hipócrates escrevendo sobre o objetivo da amamentação, declara que: “somente o leite da própria mãe é benéfico, (sendo) o de outras perigoso”.

Publicações europeias do final do período medieval e início da era moderna também exaltam a importância do aleitamento materno para a infância. No século XII, havia uma atitude de indiferença em relação à criança, retratando que a arte medieval desconhecia a infância ou não tentava representá-la, pois não havia registro de nascimentos e mortes e raramente no diário da família fazia-se referência aos infantes. As crianças eram representadas por homens de tamanho reduzido, expressando o sentimento vigente de que esta se diferenciava do adulto apenas no seu tamanho e na sua força. Essa concepção predominou até o fim do século XIII, quando passaram a ser reconhecidas por sua proximidade com os anjos e o menino
Jesus cujas formas aproximavam-se da morfologia infantil. Com o advento da modernidade, essa “descoberta da infância” expande-se e torna-se particularmente significativa no final do século XVI e durante o século XVII, caracterizando um período de grande avanço na discussão de temas da primeira infância 

De 1500 a 1700, mulheres inglesas saudáveis não amamentavam seus filhos. Embora o aleitamento materno fosse reconhecido como um regulador de nova gravidez, essas mulheres preferiam dar à luz de 12 a 20 bebês, do que amamentá-los. Elas acreditavam que a amamentação espoliava seus corpos e as tornavam velhas antes do tempo, crença que parece sobreviver até os dias atuais. Com isso, o desmame era iniciado precocemente, sendo utilizados, em substituição, cereais ou massas oferecidas em colher.

Existiam, ainda, as normas médicas e religiosas que iam ao encontro desse propósito, pois proibia-se a relação sexual durante o período de amamentação,que deveria ser de 18 a 24 meses, por entenderem que isso tornaria o leite humano mais fraco e com risco de envenenamento em caso de nova gravidez. O conhecimento médico vigente também considerava que o colostro era um leite ruim e que não deveria ser oferecido à criança. A alimentação das crianças era à base de leite de animais e de um alimento chamado “panado”, feito à base de pão (farinha) e água. Àquela época, havia um dispositivo na Constituição Francesa, que visava a proteger crianças nascidas de famílias ditas indigentes: amas-de-leite não poderiam amamentar mais do que duas crianças além da própria e, cada criança deveria ter um berço, a fim de que não corresse o risco de ser levado à cama pela mãe e morresse sufocado durante o sono.

De acordo com diários de chefes de família da grande burguesia parlamentar, as mães do século XVI amamentavam seus filhos e somente no final deste século ao início do século XVII, a moda de enviar os filhos para casa de uma ama conquistou as famílias de uma maneira irreversível.

No século XVIII, o envio das crianças para casa de amas se estende por todas as camadas da sociedade urbana. Ocorre nesse período um aumento crescente de mortes infantis, associadas às doenças adquiridas pelas amas de leite. Suas enfermidades contaminavam os bebês e muitas dessas amas, com receio de que estivessem “repassando afeto” aos bebês, passaram a oferecer o leite de vaca em pequenos chifres furados (precursores das mamadeiras) porque acreditava-se “que sugando o leite, sugava-se também o caráter e as paixões de quem os amamentava”. Além disso, esse procedimento passaria a acarretar importantes riscos à saúde das crianças, pois além da oferta em um recipiente não estéril, as mulheres desconheciam a quantidade exata de água que deveria ser misturada ao leite, sem considerar o risco de contaminação dessa água”.

No Brasil, existem relatos dos séculos XVI e XVII, imprecisos e contraditórios, ao tratar dos antigos Tupinambás. Os filhos das indígenas eram amamentados durante um ano e meio e, neste período, eram transportados em pedaços de pano conhecidos por typoia ou typyia. Mesmo se as mulheres tivessem que trabalhar nas roças, não largavam seus filhos: carregavam as crianças nas costas ou encaixavam-nas nos quadris. Do mesmo modo que os animais, as índias nutriam e defendiam seus filhos de todos os perigos. Se soubessem que o bebê tinha mamado em outra mulher, não sossegavam enquanto a criança não colocasse para fora todo o leite estranho .

Esses documentos são muito valiosos quando relatam a história da influência européia sobre as sociedades indígenas, radicadas no litoral do Brasil. Havia uma cultura indígena no Brasil colonial, mas os viajantes adotavam uma visão típica da tradição cristã, estando pouco preocupados com os habitantes do Novo Mundo.

Com a chegada das caravelas, muitas doenças foram aparecendo nas tribos, contaminando os índios que não possuíam qualquer defesa orgânica. Esse fato acabou produzindo uma multidão de órfãos desamparados, o que findou por levar os jesuítas a criar instituições destinadas a abrigar legiões de indiozinhos sem pais.

No século XVII, o abandono de crianças passou a ser percebido entre a população de origem portuguesa. Ao longo do século XVIII, a população dos principais centros portuários aumentou significativamente, dobrando ou quadruplicando as modestas cifras do início do século.

Quando a razão da acolhida correspondia a um interesse meramente financeiro, a estada na residência das amas quase sempre colocava em risco a vida dos bebês, pois, aos recém-nascidos era oferecido, além do leite materno, leite in natura, acrescido de carbohidratos.

Os profissionais responsáveis pela assistência também referiam a utilização de práticas “modernas” para alimentar as crianças, como o emprego de mamadeiras de vidro e pequenos bules que tinham um bico de borracha adaptado à ponta de saída.

Muitos médicos da época, no entanto, atribuíam as doenças comuns à infância aos contatos dos instrumentos citados com os miasmas atmosféricos . Nos séculos XVII e XVIII, a sociedade brasileira admitia como fato corriqueiro a morte de bebês. Àquela época, 20 a 30% morriam antes de completar o primeiro ano de vida. Aceitavam a morte como a crença da transformação de crianças em anjos, o que contribuía para que as famílias suportassem a dor da perda e a considerassem como uma benção do céu .

Formadas dentro dessa tradição, as mulheres anunciavam a morte das crianças em verdadeiras festas, o que deixavam escandalizados os visitantes da época.Esses rituais eram marcados por antigas tradições africanas e as autoridades religiosas escandalizavam-se diante daquilo que consideravam uma grosseira deturpação dos ensinamentos cristãos. Interessante observar que a morte de crianças estava relacionada com a miséria e o aumento do número de crianças mortas na Roda (Roda dos Expostos: dispositivo bastante difundido em Portugal, a Roda consistia num cilindro que unia a rua ao interior da Casa de Misericórdia. No Brasil, apenas Salvador, Recife e Rio de Janeiro estabeleceram tais Rodas no período colonial...a Roda funcionava
dia e noite, e qualquer um, furtivamente ou não, podia deixar um pequerrucho no cilindro sem ser notado ou muito menos incomodado). 

Concomitante a essa crescente mortalidade, verificava-se a negação da maternidade entre a sociedade burguesa, através da gravidez indesejada, ou o abandono das crianças pelas mulheres escravas, por falta de condições para a criá-las. Isso levou à prática de mães mercenárias e mães escravas de aluguel, que empregavam desastrosas técnicas de alimentação artificial, levando milhares de bebês à morte. Outra prática substitutiva do aleitamento materno diretamente ao peito era a utilização de ama de leite. No entanto, a partir de 1800, o número de crianças encaminhadas às amas através da Direção Mundial das Amas-deleite declinou substancialmente.

No séc. XIX, com a implantação das faculdades e academias de medicina, surgiram vários projetos destinados a combater as altas taxas de mortalidade dos expostos. As mulheres que não podiam amamentar e que tinham recursos eram orientadas a contratar uma ama-de-leite em domicílio, fiscalizando todos os cuidados proporcionados ao bebê. Ressaltavam que “essa conduta só deveria ser adotada em casos desesperados e que a babá- uma segunda mãe - seria o personagem central da família burguesa, que logo adquire autoridade sobre a mãe ignorante. Pensava-se àquela época que o simples fato de contrariá-la, poderia azedar o leite e preferia-se calar a arriscar a saúde do bebê.

As amas-de-leite, no entanto, “simulavam ser boas mães” e, visando a conservar sua remuneração, apropriavam-se das crianças, estimulando-as a permanecer a maior parte do tempo com elas. O sistema de amas-de-leite prosperou até fins do século XIX. 

Depois disso, o aleitamento artificial, sob forma de mamadeira com leite de vaca, possibilitado pelo progresso de esterilização, viria a substituir a amamentação mercenária. (E essa cultura do leite artificial perdura até hoje)



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