19 de outubro de 2017

Relato de parto da Vanessa: parto na água em Ji-Paraná




Meu sonho de ter um parto natural estava engavetado desde a minha primeira gestação, onde meu desejo de parir não foi suficiente para vencer o sistema e acabei numa cesariana de indicação duvidosa após a ruptura espontânea da bolsa, com 37 semanas e 5 dias de gestação. Porém, a maternidade tem um poder curador e, quando me entreguei a ela, aos poucos, a frustração pela via de nascimento foi perdendo lugar para as inúmeras delícias de criar e amar um filho.

Quando nosso primogênito, Levi, estava com 1 ano e 7 meses, descobrimos que uma nova vida estava por vir. Foi uma grande surpresa, mas eu não imaginava que o “positivo” traria outras surpresas.

Tivemos algumas complicações de início. Sofri um atropelamento, tive descolamento do saco gestacional e sofri com os resultados de alguns laudos precipitados de ultrassonografias. Tinha muito medo de perder minha filha ou de ter um parto prematuro. Quando estava com 29 semanas fui convidada a participar de um grupo virtual de apoio ao parto humanizado e lá descobri que poderia sonhar de novo com um parto natural, mesmo após uma cesárea. Através desse grupo cheguei ao blog “Parto em Rondônia” e os relatos de parto que encontrei me encorajaram a lutar pelo vbac (do inglês 'Vaginal Birth After Cesarean' parto normal após cesárea).

Conversei com meu esposo, Anderson, que passou a sonhar junto comigo e concordamos que se tudo corresse bem na gestação, iríamos receber nossa filha da forma mais natural possível. Li tudo o que podia sobre o assunto, busquei apoio nas redes sociais, encontramos pessoas maravilhosas para nos ajudar. Minha xará Vanessa Rolim nos emprestou o filme “O Renascimentodo Parto”, que teve um grande impacto sobre nós.

Toda essa preparação foi dissipando os medos relacionados à gestação e eu passei a finalmente curtir o momento. Conhecemos nossa doula, Jeiéli Laís Borges, que passou a nos auxiliar em nossa jornada. Com 33 semanas de gestação, dei o grande passo: mudar de obstetra, pois sabia que essa era uma decisão essencial. Já na primeira consulta com a Dra. Adélia Pompeu ficou claro que a cesariana anterior não seria um impedimento. Algumas semanas depois, derrubados os medos levantados pelas ultrassonografias anteriores, confirmamos que estava tudo muito bem com a gestação e que o parto natural seria totalmente possível.

Comecei a fazer pilates com a linda Cristiely Oliveira Ecairo, que hoje se tornou uma amiga querida. Passei a fazer caminhadas com meu filho mais velho e segui normalmente a rotina de casa e trabalho. Eu e meu esposo continuamos nos preparando e fizemos nosso Plano de Parto.

No dia 16/07/2015 completamos 40 semanas e eu comemorei 31 anos de vida. Nervos à flor da pele, lágrimas escorrendo à toa e milhares de perguntas sobre “quando ela iria nascer”. A ansiedade das pessoas ao meu redor se tornou a minha ansiedade. Foi aí que minha doula teve uma ideia brilhante: a despedida da barriga. Marcamos para ela vir no sábado seguinte e aquilo me deu um novo ar e uma tranquilizada. Aproveitei para escrever uma carta de despedida para a barriga, avisando à minha pequena que já estava tudo pronto e que ela podia vir. “O amor está tão perto mas só no tempo certo vai chegar” (Música Escolhi te esperar – Marcela Taís).

Dra. Adélia havia feito o exame de toque pela primeira vez na consulta de 40 semanas e mencionou sua expectativa de que nossa princesa poderia chegar no final de semana seguinte. Deixamos uma consulta marcada para segunda-feira, dia 20/07, para reavaliar um pouco antes das 41 semanas.

Na sexta-feira, dia 17, meu tampão começou a sair, o que não quer dizer muita coisa mas já é suficiente para liberar uma boa dose de adrenalina. As contrações não ritmadas, que já vinham aumentando de duração e intensidade nos últimos dias, passaram a ser mais frequentes. Às vezes vinham a cada 20 minutos, no entanto, não se tornavam regulares. Nessa noite resolvi ir tomar um banho de piscina para dar uma acalmada e ficamos ali por algum tempo, eu, minha filha e Deus, entre as músicas da trilha do nosso parto, mergulhos, orações e contrações. O céu parecia estar muito perto.

Mais tarde, embaixo do chuveiro, comecei a ouvir uma canção que dizia “Ela é forte, só não sabia” (Menina não vá desanimar – Marcela Taís) e comecei a chorar pensando no quanto aquilo era verdade a meu respeito. O meu corpo não era defeituoso, mas perfeito e forte o suficiente para trazer uma nova vida ao mundo.

O sábado chegou e o clima na casa já tinha mudado, definitivamente. Anderson tinha marcado com a filha para que ela nascesse na segunda-feira, para que ele pudesse aproveitar melhor os dias de licença-paternidade. Fomos ao supermercado pela manhã e as contrações vinham mais fortes enquanto fazíamos compras. Depois do almoço elas deram uma acalmada e dormi bastante.

No final da tarde, quando a campainha tocou anunciando a chegada da Doula Jeiéli, senti uma contração forte e intensa. Enquanto ouvia mais uma vez nossa trilha sonora, sentindo aquele aroma gostoso de canela no ambiente, recebi escalda pés, massagem e dei boas risadas. Depois disso foi o momento de desenhar nossa bebê na barriga, tirar fotos e encher a bola de pilates, que seria minha companheira inseparável nas próximas horas.

Meu coração se tranquilizou quando a Jeiéli disse que já tinha vindo da sua cidade preparada para ficar em Ji-Paraná e que pretendia permanecer até segunda-feira. Nos despedimos e fui dormir. As contrações fizeram uma graça e sumiram no domingo, retornando só no final da tarde.

Tentei dormir na noite de domingo mas quem mandava em mim nessa hora eram as contrações. Minha filha avisava que estava mais perto e eu procurava ser forte para lhe dar as boas vindas. Às 02:00 da manhã desisti de lutar para ficar deitada e resolvi ir para o chuveiro. Coloquei música e fiquei lá o tempo que pude. Depois, voltei para o quarto e tentei dormir novamente mas sentir contrações deitada é a coisa mais insuportável desse mundo. Nessa hora até parei de monitorar o intervalo entre as contrações no aplicativo do celular. Enviei uma mensagem para a Jeiéli avisando da evolução, mas ela estava dormindo e não visualizou.

Como não dava mais para ficar sozinha, acordei o marido e lá foi ele me ajudar a passar a bola de pilates pelo box minúsculo do banheiro. Esse foi o meu momento de refrigério: ficar no chuveiro em cima da bola. Quis chamar a doula mas ele pediu para esperarmos amanhecer, o que me deixou um tanto quanto brava na hora. Resiliente, me contentei em tentar dormir em cima da bola de pilates, com o tronco apoiado na cama. Deu certo e tirei alguns cochilos entre as contrações.

Quando vi que eram 5:00 da manhã, só não gritei de alegria porque não tinha forças. O marido ligou para a doula e saiu para buscá-la. Quando a Jeiéli chegou eu estava jogada na cama, me sentindo destruída. O aroma de canela no ambiente e as mãos abençoadas da doula massageando minhas costas trouxeram um novo fôlego. Consegui dormir de verdade por algum tempo. O renovo chegou. Levantei animada e fomos tomar café.

Jeiéli foi preparar o famoso chá da Naoli (Naoli Vinaver, parteira) e eu tentei comer alguma coisa enquanto observava meu filho brincando e meu esposo todo sorridente, como se soubesse de algo que eu não sabia. Depois do parto, descobri que ele e a doula vinham conversando no carro e ela havia dito que achava que nossa menina nasceria até o dia seguinte. Ele, por sua vez, tinha certeza que sua filha seria obediente e nasceria naquela segunda-feira, conforme combinado.

A manhã seguiu com chá, massagem e casa perfumada por canela e alegria. As contrações apertaram novamente e lá fomos nós – eu e a doula – para uma nova sessão de massagem e pressão na lombar. Dessa vez a massagem parecia não ter efeito, o chuveiro parecia não funcionar e senti vontade de ir ao banheiro. Voltando ao quarto, vi uma poça de água no chão. Líquido transparente e grumoso. A bolsa rompeu! Arrumei um jeito para não ficar alagando tudo por onde passasse, pois já sabia que aquela água parece não ter fim, e segui o meu dia.

Eram 12:00 e esperei a fome chegar para almoçar, pois sabia que precisava me alimentar para encarar o que estava por vir. Almocei em cima da bola de pilates, para driblar as contrações e ganhei um novo massagista: meu filho.

Por volta das 14:00, Anderson ligou para a Dra. Adélia para informar em detalhes o ocorrido. A essa altura eu já estava tão conectada com Deus e com meu corpo que nem lembrei do episódio da primeira gestação e não tive medo de uma nova cesariana. As palavras da obstetra vieram confirmar meu sentimento de que tudo daria certo: “não precisam ter pressa, se tudo continuar como está, deixem para vir ao consultório mais tarde”. O consultório e a maternidade ficavam a 400 metros do nosso apartamento.

Nesse instante as contrações resolveram brincar de esconder e o processo desacelerou. Subi e desci as escadas do prédio, caminhei pelo estacionamento, recebi a visita da minha irmã mais nova (morrendo de medo de ela se assustar com as caras que eu fazia durante as contrações). Fiz o esposo sair de casa para comprar um guaraná, do qual só conseguir tomar um gole...

No final da tarde checamos as bolsas de maternidade e fomos para a consulta. Nosso filho ficou em casa com a Lola, minha amiga e filha espiritual. Fizemos tudo tão devagar que chegamos lá quase às 19:00, no horário da consulta. As contrações haviam retomado o intervalo de 7 minutos (estavam assim desde a madrugada do domingo). Quando cheguei à sala de espera elas desaceleram de novo. Entrei no consultório sem contrações e a Dra. Adélia me examinou, fez o toque e disse que era hora de internar.

Adrenalina correndo novamente! Recebi algumas orientações da equipe do hospital e continuei conforme meus instintos. Devido o parto humanizado ser algo novo no hospital, a equipe de enfermagem ficou tensa ao receber a cópia do Plano de parto, mesmo já tendo a assinatura prévia da minha obstetra e da pediatra. Plano de parto parece soar como processo aos ouvidos de uma instituição hospitalar mas espero que mude na medida em que as práticas hospitalares forem sendo submetidas à humanização do nascimento.

Já na suíte de parto, nossa trilha sonora começou a tocar “Quando o mundo cai ao meuredor” (André Valadão). A enfermeira conhecia a música e cantarolou junto, parece que a música serviu para quebrar o clima chato do início e nos unificar como equipe.

Uma conhecida nossa estava na recepção do hospital e, ao ver meu esposo dando entrada na minha internação, pediu para ir me ver. Ele sabia que isso estava totalmente fora de cogitação em nosso plano de parto mas ficou sem jeito de dizer não. Quando ele subiu, a conhecida foi atrás e fez aquela cara de horror ao me encontrar. Que dó, que pena, finalizando com a frase: “ih, o primeiro foi cesárea, então esse não vai vir normal, não”. Diante de tal afirmação, apenas sorri, confiante e me senti grata quando ela foi embora.

Ficamos na suíte apenas eu, Anderson e nossa doula. Meu esposo já estava cansado da jornada e tentava se distrair um pouco no celular, o que me fazia querer atirar o aparelho pela janela. Fiquei um tempo na bola de pilates, quando os plantonistas do hospital vieram se apresentar.

O momento não era muito propício e eles logo foram embora. Decidi ir para o chuveiro, mesmo com uma enfermeira dizendo que aquilo poderia atrasar o trabalho de parto e, conforme diziam meus instintos, saí de lá com o trabalho de parto realmente engrenado. As contrações vinham uma atrás da outra, tão próximas que a doula nem quis cronometrar o intervalo.

Passei a pedir pressão no quadril constantemente. Jeiéli já não dava conta de pressionar sozinha e meu esposo começou a ajudá-la. A contração vinha e cada um pressionava de um lado. Agachei ao lado da banheira e me senti menos desconfortável durante as contrações. Ouvi o som dos sapatos da Dra. Adélia e me senti um pouco temerosa, pois sabia que ia rolar o exame de toque e, se eu pudesse abolir alguma coisa da experiência do parto, certamente o tal toque seria eliminado.

O exame foi feito comigo na banqueta de parto. Essa parte não foi legal. Continuei na banqueta e a Dra. disse que a bebê teria que nascer até meia-noite. Conversando depois, ela me explicou que a frase seria para expressar que, com aquele andamento do TP, se não nascesse até meia-noite é porque tinha algo atrapalhando o parto. Na hora, porém, ouvir o até meia-noite me deixou nervosa por alguns segundos. Eram por volta de 22h. Respirei fundo, relaxei o máximo possível e sorri para mim mesma dizendo em pensamento: sim, ela nascerá até meia-noite.

Dra. Daniele, pediatra do hospital com quem eu havia conversado sobre meu plano de parto dias antes, era a plantonista da noite (Yesss! Deus é perfeito!) e passou no quarto para ver como estava o TP. Ao me ver ali na banqueta, não conseguiu disfarçar a empolgação e soltou um “mas já?”. Dali em diante foi tudo muito rápido. Equipe enchendo a banheira. Eu sentindo os puxos, tentando escolher entre banqueta ou banheira e minha filha querendo muito vir ao mundo. Dra. Adélia perguntou ao Anderson se ele entraria na banheira e já deu a roupa para ele trocar, sem nem dar tempo de ele pensar (sou grata a ela por isso, pois se ele tivesse tempo de pensar, teria desistido).

No plano de parto eu havia decidido que escolheria o lugar e posição de parir durante o TP, da maneira que me sentisse mais confortável, por isso os puxos me pegaram de surpresa e eu até esqueci que o parto na água era o meu sonho acalentado e engavetado. Dra Adélia auxiliou minha memória me convidando a ir para a banheira, que daria tempo de eu entrar lá.

Entramos na água, eu e Anderson. A iluminação da suíte não ajudava muito e me senti incomodada quando tiveram que ascender as luzes. O silêncio também não estava absoluto como eu queria, mas tentei ir ouvindo nossas músicas e me concentrando no momento. Foram dois ou três puxos e, no último, às 23:45, Ana Leticia veio numa força só, ao som de “pra maior festa da vida quem convida é o amor”.









Ela veio virada para mim, saindo da água na minha direção e com o bracinho estendido como que pedindo para eu pegá-la. Minha emoção não me deixou ser tão rápida. Dra Adélia a amparou pelas costas para que ela chegasse na minha perna e daí eu a peguei. Quentinha, com aquele cheiro inesquecível, de olhinhos abertos, serena, sem chorar.

Éramos nós quatro na água: Deus, Ana Leticia, eu e o pai. A equipe assistia do lado de fora. Ninguém tocou nela enquanto estava no meu colo. Dra. Daniele pediu para que eu visse se ela estava respirando. Ficamos ali, com o tempo suspenso, aproveitando o momento. Depois que o cordão parou de pulsar, meu esposo foi pego novamente de surpresa com a pergunta se queria cortá-lo. Entre o medo e o desejo, ele optou por fazê-lo.

Senti um novo puxo e imaginei que era a placenta que nasceria. Com o auxílio da equipe, Anderson e Ana Leticia saíram da água primeiro, em seguida eu saí para a expulsão da placenta. Fui para a mesa para ser examinada. Tive alguma laceração e precisei de pontos. Enquanto isso, minha filha estava no berço ao meu lado, sendo aquecida e vestida com a roupa que escolhi, recebendo os primeiros cuidados com todo o respeito, sob o olhar dos pais, sem intervenções desnecessárias.

De volta ao meu colo, ela mamou como quem já nasce especialista no assunto. A vitamina K foi aplicada gentilmente pela pediatra durante a mamada. Dra. Daniele e a enfermeira Daiane estavam ali para orientar a pega correta. Anderson e Dra. Adélia elogiavam a obediência da Ana Leticia por ter nascido antes da meia-noite.

Após a sutura (sim, essa parte é bastante incômoda mas a equipe ajudou muito a suavizar o processo), fui ao banheiro tomar um banho rápido. Daiane estava ali me encorajando e pronta a dar apoio caso eu pedisse. Jeiéli seguia nos observando e dando o suporte necessário. De banho tomado e vestida com minha própria roupa, senti uma fome do tamanho do mundo inteiro e pedi um lanche.

Fomos para o nosso quarto e optei pelo suporte da cadeira de rodas no trajeto, pois estava cansada da longa maratona. Nos despedimos da nossa doula e ficamos ali na atividade que Ana Leticia mais gosta até hoje: mamar.

Há dois anos essa princesa alegre, bagunceira e cheia de personalidade chegou na nossa família e meu coração transborda de amor, de gratidão a Deus, ao meu esposo e a todos que fizeram parte desse momento. No dia 20/07/2015, às 23:45, Ana Leticia nasceu e eu renasci como mulher e como mãe.


por Vanessa, esposa do Anderson, mãe do Levi, da Ana Leticia e esperando a Liz. 





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