28 de maio de 2012

Reflexões: Exército de vadias...

Maíra Streit (Marcha das Vadias de Ponta Grossa PR)

por Cariny Cielo

Esta semana, movimentos pelo Brasil dão gritos pelo fim do machismo na sociedade. A 'Marcha das Vadias' vem para por em choque tudo que homens e mulheres entendem como democracia e igualdade de direitos.

A desigualdade talvez não exista mais nas leis, mas existe dentro de cada um de nós, principalmente de nós mulheres! Sim, somos as maiores machistas...

Eu era extremamente masculina! Carrego o útero marcado eternamente pelo bisturi como ícone de uma mulher que não acreditava no feminino e calou, por anos, todos os instintos da psiquê de fêmea. Mas, porque eu fiz isso? De onde nasce em nós, mulheres, a postura de denegrir o que é deste pólo?

Cresci castrada estudando em colégios de freiras e sonhando em ser racional, fria, forte, invencível, competitiva, 'dura de doer': era o que eu queria para mim! Acreditava que seriam estes os atributos das bem sucedidas. Mas eu não era assim e a minha dor vinha de não conseguir conquistar o posto de mulher que a sociedade esperava de mim.

Perfeita! Que, de maneira velada, significa: Magra, arrumada, saudável, disponível, super filha, super mãe, super amante, super esposa, super amiga, super profissional! A minha concepção era a de que eu só servia, se conseguisse tudo isso. O amor só apareceria se eu fosse tudo isso. O sucesso só chegaria se eu fizesse toda a lição de casa, direitinho...

Em resumo, eu não precisei ter pai, irmão, amigos ou mesmo namorados machistas, eu já carregava todo o machismo necessário para acabar com uma mulher. E, quando chamei por ela, na hora do parto do meu primeiro filho, ela estava muito longe, muito fraca, muito nebulosa para mim.

A boa notícia é que ela nunca morre! Li isso da Clarissa Pinkola no livro 'Ciranda das Mulheres sábias' e, pouco a pouco, eu fui alimentando minha mulher, meu feminino, minha essência... fui nutrindo minha raízes. Todo dia é dia de ser mulher! De chorar, de pedir, de doar, de sentir, de transformar, de motivar, de criar, de empreender, de confiar, de lutar, de matar e de morrer, de inspirar... são nossos estes verbos...

As mulheres saíram para gritar que são seres humanos! Nem melhores, nem piores... só mulheres! Que por trás das exigências de ter cintura de pilão e peito empinado, temos sentimentos, opiniões, caímos e levantamos, como todo mundo. Que valemos pelo que somos e não pela imagem que passamos. Que nossos corpos não são para diversão nem pro terror de ninguém. 

Já ouvi maridos dizendo que exigiram uma cesárea na esposa para que o 'parque de diversões' deles não fosse maculado... que amamentar seria competir com o filho pelo mesmo 'brinquedinho'. Antes de julgar os homens que falam assim, sempre em tom jocoso; penso que tipo de mulher admite ouvir isto? Porque é que rimos destas e de outras tantas piadas? Porque nos odiamos, nos invejamos, nos destruimos, umas às outras?

Porque temos filhos para preencher um vazio ou para promoção social? Porque alimentamos um casamento falido? Porque entregamos nosso corpo, no sexo, na gravidez, no parto, como se fôssemos só carne, sem alma, sem sentir? Porque sempre achamos que 'ela mereceu', que 'bem feito', que 'também, vestida assim', que 'quem mandou engordar'? Porque maldizemos e criticamos todas que rompem com este sistema superficial? Estamos todas perdidas e é preciso muito grito para mudar tudo isso...

E se ser vadia nos dias de hoje é ser mulher selvagem, então, sim, eu sou! Não quero o rótulo de destruir o masculino; mas se hoje é preciso escancarar portas, então, eu ajudo sim a chutar e grito: Sou vadia sim, é aí?

16 de maio de 2012

Movimentos pelo respeito ao nascimento e parto: O que eu quero?


por Cariny Cielo

Hoje eu dei uma entrevista sobre parto, mulher, humanização do nascimento, essas coisas. Foi uma tarde agradável ao lado de uma jornalista super divertida e muito dinâmica. Ela me contou, inclusive, a própria experiencia com o nascimento da filha, uma cesárea quase que imposta.

Eu queria uma eternidade para falar sobre parto, mas tive que me render ao tempo e ao chamado dos filhos, só que fiquei pensando em o que deixar como resumo, como informação principal...

Eu poderia dizer muitas coisas sobre ter filhos naturalmente. Poderia recomendar o parto natural, o aleitamento, uma gestação sem interferências e o mais consciente possível...

Minha estória dos últimos cinco anos, onde saí de uma menina completamente entregue à medicina, na primeira gestação (o que me rendeu um corte na barriga para fazer nasceu o meu primeiro filho), à uma mulher que pariu sozinha em casa, me permite ter muito assunto. Muitas dicas, conselhos, referências, evidências científicas, livros, exercícios, sugestões, papites... enfim... mas eu não quero nada disso. Essas vivências são muito pessoais para fazer eco em outras mulheres, eu quero mais que isso tudo!

Quero dizer às mulheres apenas uma coisa: Temos liberdade de fazer escolhas, mas estas escolhas devem ser conscientes.
Quero apenas mostrar que coragem tem que ter não quem pari em casa, sozinha, mas quem agenda uma cirurgia para fazer nascer o filho, pois morrem muito mais bebês e mulheres nestas circunstâncias do que parindo naturalmente. Isso são dados, e não 'achismos' ou estórias folclóricas...

Quero que saibamos que estamos nos expondo e expondo nossos filhos a muito mais riscos numa cesárea do que num parto natural. E, não, repito! Isso não é o que eu acho... são evidências científicas, algo que a maioria dos obstetras ignora para nos vender a cirurgia como melhor, mais fácil e mais segura! Não é!

Não me importam suas escolhas, mas me importa apenas saber se elas são livres, conscientes e informadas!
Se, a despeito de conhecer todos os riscos, você optar pela via cirúrgica, esta será uma escolha responsável e adulta. Mas o que vemos atualmente são mulheres completamente silenciadas, ocupadas com o enxoval do bebê, sem saber muito sobre o próprio feminino, enquanto o médico 'cuida' do parto.

Quero tornar público que o parto normal oferecido pelos hospitais é violento, é humilhante e desrespeitoso para a mulher. E que, ao par disto, é até compreensível que se escolha tanto a cirurgia.

Quero tão somente abrir os olhos das mulheres para a castração do feminino na sociedade em que vivemos e que durante a gestação e parto isso fica muito evidente através das práticas invasivas que fazem no corpo e na alma da mulher.

Somos desde cedo impelidas a acreditar que não funcionamos bem. Devemos silenciar nossos ovários à custa de hormônios porque menstruar dói muito. Dói mesmo... dói ser mulher num mundo de falos! Parir dói demais... dói mesmo! Dói partir-se para fazer nascer a mulher e abandonar a menina. Amamentar dói... dói mesmo abdicar do posto de receber para doar, com o sangue.

Ser mulher tem doído muito... afogar nossa essencia, dia após dia, para atender às demandas do mundo, dói demais!

Mas o que eu quero, afinal?

Meu desejo é muito singelo...

Quero que a escolha das mulheres seja consciente para, só assim, ser verdadeiramente livre.

11 de abril de 2012

Relato de cesárea de Cariny: um corte e uma sexta feira treze transformadora


Emiliano recém nascido (arquivo pessoal)




Eu não pensei em ser mãe e, antes que eu pudesse me decidir, lá estava ele, decidindo por mim. Tão completamente estranho e íntimo.

Recebi com susto a notícia que mudaria minha vida, que me viraria do avesso. “Eu quero ter parto normal” – essa era minha frase decorada depois que me vi grávida. Para tanto eu li livros, fiz exercícios e me mantive saudável. Hoje eu sei que não foi o suficiente.

O parto, que para mim era um evento físico, mostrou-se com a dor de um corte na barriga que é, na verdade, um evento da alma da mulher. Mas, onde estava esta mulher? Entreguei aos médicos o destino do meu corpo e, com isto, assinei a sentença de morte da minha versão fêmea. Anos aprendendo a sufocar meus sentidos, instintos e minha essência. Eu fiz a lição direito: era uma perfeita mulher moderna, mas, como eu já disse anteriormente, as mulheres modernas não parem mais... esta triste parte da minha estória, eu só fui conhecer depois: assim que me deram um bebê extraído de mim e não me deram o direito sequer de chorar.

Esse foi meu não-parto que agora, 5 anos depois, sai de mim para sempre.

Dois dias antes, à noite, eu comecei a sentir desconforto ao ficar sentada. Sentia dores lombares e esperava dores no ‘pé da barriga’, como havia dito o médico. Arrumei uma filmadora emprestada, ajeitei umas coisas que ainda faltavam no quartinho e fui dormir.

Acordei cedo para trabalhar no dia seguinte e, ao contrário de todos os dias, o bebê não mexeu. Fiquei apavorada e liguei pro médico. Ele pediu um ultrassom e, claro, fui fazer. Estava tudo bem, bebê baixo e 1-2 cm de dilatação. Meu obstetra teve a ideia de dizer-me que duraria uma semana ou seria naquele mesmo dia. Eu, apavorada com a realidade do parto batendo à minha porta, preferi me apegar no ‘daqui uma semana.’

Não consegui trabalhar. Não ficava sentada, pois a pressão nas costas era muito forte. Eu corria pro livro ‘A Bíblia da Gravidez’ e repassava o chek-list do “chegou a hora?”, mas muita coisa não batia. Fiquei confusa e perdida. Fui pro sol e passei a tarde deitada curtindo a ideia de que seria outro dia, não aquele dia, não agora, não hoje! Hoje não, nem amanhã, talvez nunca... a barriga era tão maravilhosa, não queria me desfazer dela.


(arquivo pessoal)

À noite ainda fiz as fotos do álbum de gravidez, entre uma foto e outra eu sentia as contrações, mas insistia em acreditar que não, não seria agora...

Não havia ninguém por mim. Meu marido também estava na jornada, igualmente perdido e sozinho. Eu sentia solidão, confusão, dor, medo, insegurança. As dores foram aumentando até que umas 02:00 da madrugada acordei meu marido e disse exatamente isso: “vamos pro hospital, não pode ser normal isso. Tem que ter alguma coisa de errada. Está doendo minhas costas demais”.

Chegamos ao hospital pedindo para tomar algo para dor. A atendente perguntou de quantos meses eu estava, meu marido disse ‘nove’. Ela ficou pálida e ligou correndo pro obstetra.

Ele chegou, me olhou com olhar de carinho e compaixão que nunca vou esquecer... ouviu o bebê, fez toque (eu estava com 5 cm) disse que estava tudo bem e me aplicou uma peridural. A peridural não ficou bem localizada e eu senti dor de cabeça, náuseas, mas as dores nas costas passaram imediatamente. Fiquei deitada com a peridural nas costas e um acesso venoso na veia.

Pronto, meu parto estava, ali, ficando pra trás. Madrugada adentro a equipe vinha e ouvia o bebê. Às 06:00 da manhã começaram a chegar as gestantes que haviam marcado cesárea para este dia, era uma sexta-feira. Eu continuava lá, contrariando todo o protocolo médico, demorando demais, insistindo demais. O médico me apoiou acompanhando minha situação, no entanto, deitada eu não colaborava com o fisiológico! 

Daí, o inevitável: em uma das escutas, o bebê apresentou taquicardia. Ele disse que se continuasse assim, teríamos que fazer cirurgia, eu chorei imediatamente. Meu marido igualmente inocente, viu minha dor, e insistiu com o médico para ouvir novamente um tempo depois. Mas, nada mudou! Deitada, sofrimento fetal é conseqüência lógica, igual dois e dois são quatro. Eu não havia feito nada em meu benefício e nem em benefício do meu filho. Abri mão de parir ao fazer as escolhas erradas, um trabalho de parto 'passivo' não tem desfecho diferente...

A única coisa que fez cessar meu choro durante a cirurgia foi ouvir o choro do meu filho! Que instante mágico de constatação de que ali havia mesmo um ser alheio a mim.

E logo ele se foi! Levaram-no imediatamente para sei lá onde, depois voltaram e me mostraram aquela criaturinha enrolada numa manta, eu sequer consegui cheirá-lo. Ele foi pro quarto com meu marido que até hoje lembra dos olhos daquele garotinho medindo todo o cenário. Eles ficaram lá se conhecendo e eu fiquei quase 5 horas no centro cirúrgico.

Depois veio eu, cortada no corpo e na alma. Eu não queria ver ninguém, mas o quarto ficou lotado de gente me perguntando o que aconteceu e dizendo que o que importava era que eu e o bebê estávamos bem. Bem? Esta era, exatamente, a frase que eu não queria ouvir. Eu não queria estar bem, eu queria ter sentido meu bebê chegar ao mundo, no tempo dele, feliz e respeitado. Eu queria ter dado a luz, só.

Demorou uns dias para eu me vincular, confesso. Eu chorava escondido na hora do banho por não ter conseguido parir. Minha mãe percebeu minha tristeza, eu dizia que era só saudade da barriga. Fui muito bem cuidada. Minha família e amigos fizeram uma calorosa rede de apoio e apesar da dor da frustração do não parto, meu puerpério foi gostoso, tenho boas lembranças dos aprendizados e da delícia de ser mãe pela primeira vez. A mulher pode ter quantos filhos for, mas o primeiro é sempre arrebatador. É o filho que te irrompe, que desvela teus véus, que te faz conhecer, pela primeira vez e para sempre, o amor maior.

O que me restava? Amamentar aquele menininho com meu sangue, para assim fazer cessar a cicatriz que tanto doía. Eu me dei conta de que haviam me tomado o parto porque eu o entreguei, mas com a amamentação seria diferente! Ninguém tiraria de mim! Lembro-me perfeitamente do dia em que me dei conta de que o amava tão forte que chegava a assustar. Para mim, amamentá-lo exclusivamente foi decisivo para tornar isso tão forte. Ele devia estar com umas 2 semanas e eu o deitei no berço após uma mamada da manhã e fui para o computador. Não consegui fazer nada, digitar nada, pesquisar nada. Apenas fiquei olhando fotos dele, completamente enamorada... estava lá, finalmente, o vínculo...



De lá pra cá, já se foram tantos estonteantes anos e eu ainda ensaio mil e uma danças com ele. Devo toda a minha trajetória de mulher a esse meu querido primeiro menino, inclusive os maravilhosos partos que vieram em seguida. Foi ele que apostou, pela primeira vez, que havia, dentro daquela menina, uma grande mulher.


14 de março de 2012

Reflexões: A invisível burca... e o dia internacional da mulher


por Cariny Cielo

Dia internacional da Mulher!!! Comemoramos grandes avanços na redução da violência e na conquista da liberdade deste gênero que, há séculos, foi oprimido pelo crescimento de uma cultura patriarcal.

Comemoramos o poder do voto, a participação política, a inserção no mercado de trabalho, a chefia das famílias, ao passo que, num momento único, talvez mais importante, de nossas vidas – a gestação e parto – abrimos mão, deliberadamente, da liberdade individual tão acirradamente defendida e seguimos, qual boiada pro abate, fazendo o que dizem ser melhor para nós.

Sim! Votamos e somos votadas. Podemos ser chefes de Estado, concorrer à Presidência do País. Estamos no Congresso Nacional, nas assembléias e câmara de vereadores do Brasil afora. Chefiamos famílias. Somos, muitas vezes, as únicas a trazer renda em casa. Entramos em todas as profissões, mesmo a eminentemente tidas como masculinas. Somos poderosas, mas, a partir do momento que ficamos grávidas e vamos parir, perdemos todos os nossos poderes, auto-estima e deixamos que tutelem nosso corpo, ferindo de morte nosso feminino.

É! Nós deixamos que nos digam como viver nossa sexualidade, como gestar, como alimentar e educar nossa cria, deixamos que monitorem nosso bebê no sagrado claustro uterino; que nos imponham um medo paralisante quando deveríamos estar em época de graça e encantamento por perpetuar a humanidade. Não somos mais as poderosas donas da Vida. Somos as coitadinhas correndo perigo e carregando um estorvo que nos tira a sensualidade e a vida social.

Deixamos que mintam para nos, descaradamente. Que digam que não iremos conseguir fazer algo para o qual nossos corpos foram moldados há milhares de anos para fazer, sem auxílio. Permitimos que transformem em patologias e regras, todas as exceções fisiológicas que acompanham os eventos sexuais femininos.

Realizam em nós a única cirurgia do mundo feita sem o consentimento do paciente: a episiotomia. Deixamos que nos digam em que posição ficar, a despeito do que o nosso corpo pede. Ouvimos piadinhas, brincadeiras de mal gosto, palavras de ordem, termos chulos e até cantadas, quando estamos suscetíveis e vulneráveis, em pleno trabalho de parto.

Sob a pecha de ‘fazer o que é melhor para nós’, tomam de nós nossos corpos e manipulam o nascimento de nossos filhos com drogas, manobras violentas, profilaxias duvidosas.

Permitimos que levem de nós nosso bebê recém-nascido, tão carinhosamente gerado e carregado no ventre por meses, para ser maltratado, ops!, analisado e deixado em solidão, correndo riscos os mais diversos. Permitimos que tratem nossa cria, para nós única e especial, como apenas só mais um entre dezenas de outros. Deixamos que deem a ela glicose ou leite artificial e não o nosso vital colostro.

Ficamos mudas, enquanto vemos propagandas que humilham e insultam a mulher, tratando-nos como objeto. Rimos dos gracejos machistas. Modificamos nossos corpos, muitas vezes a qualquer custo, para atender uma demanda opressora de beleza ou simplesmente agradar um homem. Ouvimos uma voz dentro de nós nos inclinar a dizer ‘bem que ela mereceu’ se vemos uma mulher pouco vestida sofrer violência sexual.

Deixamos nossos filhos com poucos meses de vida aos cuidados de outros, dilacerando nossos corações de mãe, mas porque não podemos sair do mercado de trabalho. Tiramos-lhes o peito porque alguém diz que seios são para pôr silicone e não armazenar leite.

Ainda usamos a maternidade como uma forma de promoção social ou, pior, como moeda de troca para manter um casamento infeliz. Casamento? Ainda sobrevivemos a casamentos por não suportar os olhares reprovadores lançados sobre uma mulher sozinha. Permitimos que um homem – seja ele pai, marido, irmão ou médico – seja responsável pelas nossas vidas, escolhas, saúde e felicidade.

Achamos absurdo o uso de burca em algumas culturas do Oriente Médio? Por aqui, a burca existe, só não é de tecido. É invisível, é dissimulada, vem sorrateira e, com nossa ajuda, nos toma a alma feminina.

E pasmem: não oferecemos nenhum tipo de resistência. Não gritamos, nem xingamos, nem nos revoltamos. Não denunciamos o médico que nos cortou o sexo sem nos consultar; não questionamos as indicações (cada vez mais folclóricas e menos científicas) de cirurgias para o nascimento dos nossos filhos. Não damos queixa do marido que violentamente nos oprime, dia após dia, pelas mais diferentes razões. Pior, vestimos a máscara da conivência com as mentiras, com o silêncio mortal, com a castração, ainda que velada, do feminino em nossas vidas.

Enfim. É triste, mas somos nós as maiores ‘machistas’ do mundo moderno.

Dia 8 de março? Nosso internacional dia...

Dia de tomar posse das nossas aptidões, da nossa liberdade constitucionalmente tutelada e exercê-la física e emocionalmente. Exercê-la no campo das idéias, das indignações, dos questionamentos.

Dia de nos libertarmos da cultura patriarcal que nos faz achar normal a mulher-objeto. Dia de chamar para nós a responsabilidade pelas nossas escolhas, pelas nossas vontades, pelas nossas opções e assumir o risco disto tudo.

Dia de promover o feminino, não para sub-julgar o masculino, caso contrário entraríamos, novamente, em desequilíbrio, repetindo o mesmo erro, na eterna guerra dos sexos.
É dia de celebrar, sim, com certeza! Por tudo que conquistamos até aqui. E é dia também de rasgar a invisível burca que nos oprime.


Imagem: Mulher afegã olhando através de sua burca.
Foto Natalie Behring-Chisholm (daqui)

14 de fevereiro de 2012

Amamentação: O desmame e a angústia do não falar...



por Cariny Cielo

eu poderia ter dito àquela mãe que quem estava perdendo era, principalmente, ela. Nada do manjado papo de que o 'leite materno é o melhor alimento'... todo mundo já sabe disso.

depois de cerca de 4-5 meses de amamentação exclusiva, estava ela, à minha frente, dizendo que havia desmamado seu bebê e que estava tomando medicamentos para parar a produção do leite materno.

quem perdeu? os dois, certamente! O bebê não receberá mais sua dose diária de vacina, nem aquele colinho único de peito de mãe... mas a mãe perdeu mais!

eu poderia dizer para ela que a amamentação, nos dias de hoje, seria uma das poucas vivências femininas autênticas que ela teria para desfrutar. Num mundo de cortes na barriga para nascer e gestações monitoradas, amamentar é o que resta para muitas mulheres...

eu poderia ter insistido com ela que todas aquelas mastites de repetição no seio direito, em verdade, queriam dizer alguma coisa, mas nunca que ela deveria suspender a amamentação natural.

não, não era a mastite. Era seu bebê desesperadamente clamando por contato. Não digo nem contato físico, ele queria conexão emocional, espiritual, energética com essa mãe. Eu poderia ter dito isso a ela.

é, eu poderia sim ter dito que amamentar é se fazer fêmea, selvagem e única e que isso tem um preço. Que era preciso despir-se das inúmeras máscaras que colocamos todos os dias para os mais diferentes tipos de pessoas e situações e sermos apenas nós, assustadoramente verdadeiras, em carne-viva.

eu poderia ter falado que o puerpério desvela em nós os véus que colocamos para maquiar nossas vidas e nos expõe nua, em pelo. Que nossa sombra, aquela parcela de nós que não gostamos, não queremos ver, vem com força arrebatadora, construindo e destruindo... e, para quem quiser aproveitar a tsunami, é o momento de salvar a si mesma e ser mulher, talvez pela primeira vez na vida.

e eu deveria ter dito que amamentar dá medo. Sim, é assustador constatar a simplicidade da vida em tempos de artificialidade. Assusta ver que eles vivem e crescem durante seis meses a despeito de qualquer coisa criada pelo homem! "Como isso?", diriam algumas. "Eu precisei de artifícios para engravidar; eu fui analisada mês a mês com aparelhos de ultrasom; no dia determinado pelo médico eu fui cortada e me entregaram um bebê avaliado, pesado, medido, asseado; e, agora, eu não preciso de mais nada para criá-lo? Só o leite que me verte?".

dá medo confiar num seio tão diferente da mamadeira graduada. Quanto ele mamou? Como mamou? Não importa... a natureza fez de uma maneira que fosse irrelevante fazer estas perguntas.

eu poderia ter argumentado ainda que o bebê não mama apenas leite, ele mama amor, energia, fluidos sutis da mãe, quando está no seio. Não é só leite; é amor, confiança, resiliência, fé na vida... assim ele mama. Alimenta seu corpo e sua alma.

é, eu talvez tinha que ter dito que se tratava, ali, do início de uma separação que deveria ocorrer somente por volta dos dois anos. Que, com alguns meses, o bebê ainda é fusão pura, simbiose pura. Ele é o que ela é. Ele está como ela está e que isto seria um maravilhoso mecanismo de crescimento pessoal.

seria um passo sem volta, eu diria a ela. um passo que provavelmente vá doer quando este mesmo filho, já adolescente, mostrar completo distanciamento desta mãe, enquanto ela volta a linha do tempo na cabeça e se pergunta onde errou.

eu poderia dizer que choro de culpa que ela demostra agora na minha frente por "tadinho", "tirar o leitinho dele" é, na verdade, o choro da mulher que ela poderia ser. O choro de todo o potencial de amadurecimento, de libertação, do que ela deveria perseguir e não quis. É o choro, na verdade, da vergonha de não enfrentar, de não fazer as perguntas difíceis, de optar pelo mais fácil e mais cômodo. É a dor de não crescer. Esta sim, mais doída e muito mais exigente do que a dor de enfrentar e seguir adiante.

dentro daquela mulher cheia de argumentos superficiais e paliativos médicos para desmamar sua cria, uivava uma loba sedenta de feminino...

mas eu não disse nada.

ouvi toda a estória das mastites, dos antibióticos, do bebê não querer 'mamá', dos bicos escoriados, do início das papinhas e do leite artificial, do veredicto médico...

ouvi tudo, muda, sem tecer uma só palavra, apenas assistindo, com pesar, o desmoronar da fêmea... talvez deveria ter dito algo. Talvez deveria ter, como 'procuradora constituída', falado em prol do bebê. Quem sabe eu deveria ter gritado com ela, batido na mesa, arregalado aqueles olhos, rosnado... mas não, só consegui fazer sair um "eu entendo" minguado e atônito.

minha tristeza não foi nem tanto pelo bebê; ele escolheu a mãe que tem e, do ponto de vista nutricional, ele vai seguir muito bem. Será um bebê amado e feliz.

doeu-me a amiga, a mulher, a mãe que estava ali na minha frente, presa em uma armadilha sutil, abrindo mão, deliberadamente, de crescer.




Imagem daqui

30 de janeiro de 2012

Maternidade Atvida: Quando é que aprendemos a fingir?


por Cariny Cielo

Minha mãe diz que meu filhos caem muito... eu prefiro achar que eles brincam muito. Realmente, é dodói para todo lado. Raladinho, topada, arranhões, galos na cabeça enfim. Criança selvagem. Lembro bem de quando criança não poder brincar com os meninos de rouba bandeira ou de pega-pega porque eu era uma moça e tinha que preservar a estética das minhas pernas. Claro que eu não obedecia e estou aqui crescida, mulher e cheia de lembranças sapecas de infância.

É difícil o mundo asséptico e preciso aceitar um menino selvagem e autêntico! Menina então, nem pensar. A sociedade quer crianças que durmam cedo, acordem bem, comam tudo do prato sem se sujar, não gritem, não corram, digam bom dia-obrigada-com licença e não incomodem. No entanto, vamos combinar que nem mesmo nós, adultos, conseguimos dizer um 'bom dia' todos os dias, mas aprendemos uma tática infalível que vem com a idade: fingir!

Agregamos anos à vida e adquirimos, como que por mágica, a capacidade de fingir. Quando isso acontece? Quando é que aprendemos que a mentira é melhor, o disfarce é mais fácil e a dissimulação é a bola da vez?

Porque, convenhamos, o que incomoda na criança não é nada mais, nada menos do que sua autenticidade. A criança é assim, pura e verdadeira, ainda sem as carapaças 'politicamente corretas' que o tempo trará.

Se estão bem dizem sorrindo; se estão mal, ficam quietas emburradas. Se querem cumprimentar, dizem 'olá'; senão, demonstram que não querem conversa. Não ligam pra roupa nova e branca que a mãe colocou, querem é pular nas poças d'água - é mais legal. Se a comida está ruim, não comem. Se não gostaram de uma coisa, vão dizer... simplesmente assim.

A vida seria bem mais simples se aprendêssemos a SER como as crianças, mas parece que vamos embrutecendo com o tempo...

Aprendemos a dizer sim, querendo dizer não. A tratar da vida do outro, sem o outro estar presente. A odiar, a julgar, a maldizer sem o devido direito de defesa. Fazemos isso todos os dias, automaticamente. Acharíamos um absurdo alguém ir para cadeira sem ser processado pelo judiciário, mas fazemos isso todos os dias, o tempo todo, com todo mundo. Com o desconhecido, com o irmão, com o amigo, com o inimigo, com o colega do trabalho... que lixo carregamos!

Se essa não é nossa essência, pois não vemos crianças fazendo isso, quando é que nossas vidas são corroídas pelo falso? Quando é que a criança começa a dar lugar ao fingidor? Quando é que a mentira ou, pior, o silêncio venenoso, passam a ser a melhor saída?

Uma coisa é certa! Tomaríamos menos remédios se apenas exercitássemos a capacidade de dizer a verdade. Uma velha sábia, amiga minha, disse-me algo certa vez que tem todo sentido: "se todos no mundo cuidassem tão somente de suas próprias vidas e se preocupassem em fazer sempre o melhor e mais verdadeiro para si mesmos, todos os problemas estariam resolvidos". Cada qual caminharia no seu nível de evolução, com suas escolhas, sendo autênticos.

O mundo precisa de terapia! Não num plano geral, mas quero dizer num nível nuclear, dentro do seio da família, dentro de cada um... é questão de saúde pública! Inúmeras doenças seriam extintas se as pessoas aprendessem a ser verdadeiras, a falar, a se comunicar de maneira saudável. Livres de preconceitos, julgamentos e mágoas, como as crianças. O a mentira que vive nos subterrâneos dos corações das pessoas as envenena, dia após dia... não surpreende que, anos depois, um câncer tenha se instalado naquele corpo envenenado. Muito pior que os agrotóxicos, que nicotina, que cocaína, que monóxido de carbono!!! O que nos mata vem de dentro, bem de dentro de nós. A guerra mundial nasce no coração envenenado pela mentira, pelo julgamento, pelo rancor, pela dissimulação de cada um. Pagamos com nossa vida o preço alto de não sermos autênticos.

Agora se tudo isso é tão ruim, é tão nocivo, quando e como aprendemos a viver desta maneira?

O mundo capitalista valoriza sempre mais o que está por fora, em detrimento da essência das coisas. Quando crianças somos bombardeados por mensagens deste tipo. As mulheres, então, mais ainda. Crescemos e vamos aprendendo na escola, na família, no círculo de amigos, que a sociedade só bem aceita alguém que sabe mentir. É como se essa pessoa tivesse o poder mágico de nunca demonstrar o que realmente tá sentido, tá pensando, tá querendo... e isso a fizesse ter sucesso no meio social.

Claro! De cedo, nos mostram que dizer a verdade é ruim. De cedo, deixam de se interessar pelo que realmente estamos sentido. Ainda crianças vemos que a ninguém interessa quem realmente somos, mas quem aparentamos ser. E assim, ano após anos vamos agregando fingimentos e falsidades na nossa existência... ao preço de nos afastar de nossa essência! Que saudade de ser verdadeira e livre como as crianças!

Essa saudade, que vem da alma, se manifesta em nossos corpos das mais diferentes formas, com os mais diversos sintomas e, seguimos assim: falsos e medicados!

A vontade de se conhecer e de ser verdadeiros é tão grande que muitos enlouquecem e mergulham nas patologias modernas... afinal, é muito mais fácil esquecer uma vida inteira de mentiras através de um mal de Alzheimer, do que admitir que nunca tivemos a capacidade - ou mesmo a oportunidade - de ser nós mesmos.

Outros sentem esse chamado do fundo da alma e seguem em busca de auto-conhecimento, de tratamento, de cura, mas é a minoria. A grande massa ainda prefere tomar um comprimido e seguir empurrando a falsa vida ano afora...

Se hoje eu pudesse desejar algo, se fosse minha única prece, eu desejaria ter o dom de me manter criança verdadeira e selvagem, como meus meninos, a despeito do que a hipocrisia do mundo me apresentasse.

Criança linda que dança no vento
Desejo teus olhos puros que só veem luz
Almejo tua jovem boca sábia
Cheia de sabedoria, fala o que vem do coração.

Quero tuas mãos belas e autênticas
que dizem sim aos chamados da alma.

Que meu respirar seja como o teu
que sente o inebriante perfume de tudo
E que meus ouvidos vibrem pelo que é bom.

Delícia de ser genuíno, tua verdade me encanta.
Faz-me bela em palavras, pensamentos e ações
assim como és, por essência.

15 de janeiro de 2012

Maternidade Ativa: “Calcem os chinelos!”


por Cariny Cielo

Certo dia, dei-me conta de que o que mais meus meninos ouvem de mim, durante um dia comum, é: “calcem os chinelos!”. Bem mais do que “eu te amo”. Bem mais do que “você é muito querido”. Bem mais do que tantos elogios e palavras carinhosas que posso, como mãe que ama, dizer.
Mas, se todas as mães como eu, amam, porque não dizem tanto? Porque nosso cootidiano não é açucarado de palavras amorosas e declarações de amor?

Afastadas de nossa feminilidade – que nos daria doçura – entramos na maternidade coroadas pela razão, ou seja, masculinas. Assim, multiplicam-se os livros, manuais, cartilhas, palpites e orientações de profissionais que estão, quase sempre, acima do nosso sentimento mais primitivo de mãe.

Essas orientações tomam conta da maternagem. Não faltam instruções sobre como, quando e quanto o bebê deve dormir; como, quando e quanto os filhos devem comer; como, quando e quanto devem chorar. Jeito de ir para a escola, jeito de largar as fraldas, jeito de se vestir, jeito de tudo... Não! Hoje, não criamos nossos filhos como queremos e sentimos, na essência, que devemos criar. Criamos como nos dizem. Fazemos, mesmo que inconscientes, uma salada de tudo que ouvimos, lemos e... voila, está pronto nosso jeitinho masculino de ser mãe.

Eu me orgulhava de dizer que meu primeiro filho dormia sozinho e hoje estou eu a ser acordada todas as noites com ele me requisitando, já com quase 5 anos. O outro, que teve seu tempo de ser bebê, de ser ninado em nossa cama, dorme, agora sim, a noite toda! Infelizmente, deixei-me levar pelos manuais, apesar do coração dilacerado e achar tudo um contrasenso. Mas, eu queria acertar! Queria ser perfeita! Queria cumprir as regras!

Ledo engano! Maternar é não ter regras, é não querer ser perfeita, reta, angulosa, matemática. Pois isto é do masculino. Feminino é irregular, imprevisível, cíclico, novo, é redondo, é quente, é do toque, do contato...
Hoje, vejo, atônita, a infância de meus filhos passando por mim e eu com sede de provar de cada bocadinho, com aquela sensação de que vai acabar logo algo muito, muito bom.

Sim, vai acabar, vai passar! Não nos pertence, é do mundo das lembranças. Assim como foi a nossa para nossos pais. Assim como é a infância da humanidade para o mundo. A infância deles terá passado enquanto a gente ficou preocupada com que calcem os chinelos, durmam cedo, comam o bastante, não xinguem e não se sujam. E nós? Nós ficaremos com aquela sensação amarga de que faltaram muitos beijos naqueles cabelos fininhos. De que não olhamos o suficiente a boquinha linda tentando articular uma estória e nos contar com entusiasmo. Enquanto estivermos quebrando a cabeça para fazê-los dormir ‘conforme os manuais’, perderemos de ver e curtir o quanto ficam desajeitadamente fofos de pijama e não sentiremos o calor que emana de seus corpos, nem aqueles olhinhos lindos fechados.

O que dizer dos bebês então? Anotando mamadas, deixando chorar... tudo no afã de discipliná-lo. Logo, logo passará a maior de todas as experiências: a de cuidar de um bebê! Seu filho, na versão totalmente dependente e simbiótico. O que é considerado trabalhoso e cansativo só o é porque a puérpera vive bombardeada com ‘como criar um bebê’ e não se entrega, verdadeiramente, àquela vivência. Ver um filho, bebê, dormir ao colo, adormecer lentamente, entregar-se ao soninho dos anjos é a mais profunda, maravilhosa e prazerosa experiência. Um privilégio, um presente sagrado... por muitas mulheres deixado de lado para cumprirem a regra de ‘nunca dormir no colo’. Porque não dormir no colo? É uma delícia! Que mulher não adoraria adormecer no colo do amado? Ouvindo o som do coração, o calor do corpo, o ritmo da respiração. 

Mas não, nunca deixe seu bebê amado, aquela obra perfeita da natureza, sua imortalidade, dormir ao som do seu respirar!!! Quanta bobagem!!! Eu diria mais: é a morte do feminino que produz tais absurdos. Diga a uma mãe que nunca ouviu nem leu conselhos que faça o que sentir que é certo com seu bebê e ela seguirá confiante e feliz. Agora entregue a ela um livro e coloque os especialistas para dizerem o que é melhor para o bebê e você terá uma mãe angustiada, falida, sem auto-estima.

Seu bebê vai crescer e, um belo dia, quando você, nostálgica, quiser colocá-lo no colo para niná-lo ele não caberá mais nos seus braços ou pior, não se sentirá conectado com você ao ponto de se entregar ao carinho caloroso. Vemos muitas mães queixando-se de seus adolescentes com atitudes frias, distantes, desconectados da família... será que estes mesmos adolescentes não choraram sem consolo em um berço? Será que não perderam uma fase preciosa de contato, de calor humano, de reforço do afeto? Quem sabe... ninguém jamais saberá...

Não se está aqui fazendo apologia à total anarquia, e sim lembrando que existe uma delícia na infância em não se fazer tudo exatamente como a mãe manda ou o pai obriga. Caso contrário, onde estarão aquelas memórias deliciosas do bolo que comemos quente, da chuva que tomamos mesmo gripados, de fugir pra debaixo da cama dos pais? E até mesmo de pisar na pedra, machucar o pé e ouvir da mãe: “eu falei para calçar os chinelos...”.

Eu decidi falar mais “eu amo você” e menos “calce os chinelos, raspe o prato, vá dormir, vista a roupa, tome banho”. Escolhi ninar mais, colocar no colo, beijar, cheirar... resolvi, corajosamente, deixar correr solta aquela infância gostosa que nos faz reviver a nossa própria e nos faz rir, rir de nós mesmos, rir do óbvio, rir do mundo.

Costumamos dizer que ser mãe é doação. Que nada! São eles, nossos filhos, que nos dão a oportunidade única de concebê-los, gerá-los e apoiá-los na jornada desta vida. São eles que nos dão, todos os dias, infinitas oportunidades de crescimento pessoal. São eles que nos mostram quem realmente somos, sem máscaras. São eles que nos dão sua deliciosa infância para a gente rir no final de um dia nada fácil neste mundo… nada fácil. São eles que nos aceitam como somos e nos fazem evoluir por não ser como gostaríamos que fossem. São eles que nos brindam com a juventude e a delícia de se ver em continuação. São eles que coroam nossa existência, eternamente e sempre e sempre…

De qualquer maneira, sob qualquer prisma, eles terão sempre nos dado muito mais.

23 de dezembro de 2011

Puerpério: O dia depois do parir...


por Cariny Cielo

Demorou! Demorou bastante para eu me sentir novamente e traçar palavras. O parto é um ápice dilacerante que nos parte, nos reparte, dos divide e, no paradoxo da vida, nos une ao que somos verdadeiramente e ao ser que colocamos no mundo.

Embora a sensação inebriante de conquista e felicidade esteja permanentemente guardada dentro da gente, para todo o sempre, o dia depois do parir traz mudanças muito pontuais na vida da mulher. Somos impelidas a estar magras, lindas, sorridentes, disponível, cuidando de tudo, como sempre fomos. Mas não! Não é assim... Não é para ser assim. A natureza planejou diferente. Criou um bebê prematuro e um esquema de amamentação continuada que vincula fortemente a mãe a sua cria e à necessidade de parar, de frear, de largar tudo e virar bicho, de novo.

Depois de parir ainda estamos em simbiose com um ser totalmente novo. Os três primeiros meses são recheados de vivências. É o quarto trimestre. Curiosamente, quando fomos se aproximando dos 3 meses, eu e o Cassiano começamos a sentir coisas diferentes. Eu passei a me reconhecer novamente, aos poucos, a relembrar o parto, a relembrar a gravidez, a olhar no espelho e dizer: Essa sou eu! Eu passei a sentir na carne a mesma vivência dos exatos três meses atrás e depois relembrar o dia que, feito mágica, o Cassiano pediu-me permissão para vir...

Toda a minha jornada da gravidez foi refeita. As lutas para gestar e para parir. Tudo que construí e tudo que se destruiu na minha frente, a despeito de mim...

Ontem, há 3 meses, o Cassiano nasceu em paz. E somente hoje, 12 semanas depois, eu consigo juntar os pedacinhos de mãe, mulher, ser humano e fechar mais este ciclo. Ele continua minha sombra. Mostrando-me e apontando-me, no 'quê' de tudo.

Meu jardim não está tão bem cuidado como quando eu estava grávida. Também não consigo mais me imaginar bordando bonequinhas como fiz no chá de bebê. O guarda-roupa não está em ordem. As unhas ainda estão por fazer. Nem sempre eu lembro de passar batom ou o blush. As roupas ainda me caem estranhas, como que saídas de outro mundo. Ora estou sem apetite, ora faminta. Quase sempre não sei ao certo o que exatamente quero comer. O sono ainda é saltado, mesmo quando o bebê sequer me chama. À noite os sonhos me deixam louca, embora eles não me trazem tanto impacto como quando eu estava gestando. Ainda não consegui começar a ler nada. Foram meses de leituras dirigidas ao meu momento grávida e para o parto, agora, falta-me opção. As músicas me envolvem diferente também. Quando escuto as seleções de quando estava gestante elas me soam distante de mim, embora guardem uma calorosa lembrança.

A barriga nos protege. É como um escudo mágico e com ela vivemos em outra dimensão. Levamos meses para nos acostumar com a ideia da gravidez mas com o parto é diferente. Em um instante somos uma, piscamos os olhos, e lá estão dois seres. Não há etapa, não temos tempo para ir assimilando a ideia... não! Só há a rasguidão do parto.

E depois, desprotegidas e vulneráveis, cai em nossas mãos aquele bebê mágico, tão lindo quanto completamente estranho. Tão íntimo por sair de nosso claustro, mas tão completamente individual e único. É, ele está aqui! E a mãe? Onde está? Está no puerpério... nome estranho para uma época igualmente estranha. No limbo feminino entre ser mulher e ser mãe. Ainda não somos nós, mas não somos mais grávidas. Está tudo em carne-viva, como me diria uma amiga! Podemos ter quantos filhos for, mas sempre um novo parto nos levará para um novo 'xeque-mate' de vida! Não mais a grávida e seu escudo protetor, nem ainda a mulher de sempre. Uma mãe. Somente e totalmente.

Viverei assim? Poderei gerar? Poderei parir? Conseguirei cuidar dos filhos? Darei conta do meu trabalho ou das minhas vocações? Será que ainda quero isso? Ou será que ainda quero aquilo? Que bicho doido que vira uma mulher no pós-parto...

Mulheres! Não atendam à demanda patriarcal de sair do pós-parto e virar mulher-maravilha! Mergulhem dentro de si, sem medos. Façam-se as perguntas devidas, mesmo as mais difíceis. Adocem a voz, a pele, o olhar e ninem seu bebê. Ninem a si mesmas sabendo dizer 'não' e respeitando-se.

Deixem que a louça espere, o jardim siga sozinho, o corpo se adapte, o sono venha em qualquer horário, a fome seja desregulada, o sexo vire namoro... enfim... deixe o mundo correr no ritmo dele e você, imprima o seu próprio ritmo!

O dia depois do parir é assim! Voltam a nós todas as nossa profundas questões. O que sou, exatamente? Ainda não sei. Mas, hoje, só posso dizer que sou uma puérpera...
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