7 de maio de 2014

Maternidade Ativa: Eu conserto: o quebrado e a jornada...


 por Cariny Cielo


Ele veio com aquelas mãozinhas gordinhas de crianças de 5 anos e me mostrou o estrago: "você me desculpa?" Disse ele, que havia estragado um presente que ganhei de uma amiga, lindo, feito em madeira e pintado à mão.

A frustração invadiu-me de imediato e, não, eu não consegui desculpar, nem esconder o aborrecimento, nem oferecer compreensão ou entendimento, sequer fui sincera, apenas me chateei e me afastei... é... eu achei que já estava curada de todas as dores e de todas as marcas que o patriarcado deixa nas mulheres e que, muitas vezes, não deixam que nasçamos prontas para a maternidade, mas não estava. Minhas emoções procuraram empatia e harmonia dentro de mim, mas não encontraram e eu fracassei.

Foi então que eu fui me dando conta de que eu poderia ter rido alto, pensado rápido em colar ou remendar, e fazer mais um troféu, em memória da infância gostosa e das emoções em montanha russa que é a energia da vida crescendo em meio à nossa vida. Diante da magnitude que é despir-se, na alma, para receber verdadeiramente um filho em nossas vidas, um bibelô é só um bibelô. E foi então que eu chorei.

Chorei, pensando nas mulheres pelo mundo que adorariam ter um filho para contar suas estripulias por aí... e não podem. E pensei nas infinitas coisas de meus pais, das que lembro e das que não lembro, que eu provavelmente destruí, sem remorso, e que viraram pó na história gostosa da minha infância...

Me veio na lembrança a dor dilacerante que vi nos olhos de amigas que perderam um filho ainda na tenra infância, antes mesmo dele ser capaz de te invadir a vida e estragar coisinhas, fazer artes pela casa. Percebi a angústia de tantas que dormem todas as noites sem saber onde estão seus filhos pequenos, levados pela maldade do mundo, quando poderiam estar em casa, riscando paredes e quebrando enfeites pras mães contarem no trabalho, orgulhosas, o quanto são arteiros.

E pensei nos milhões de meninos e meninas que têm a infância roubada seja pela guerra, seja pela fome, pela exploração de seus corpos e de suas almas inocentes e que não têm deixado registros nas memórias de suas mães. Quanta perda irreparável, quanto débito, quanta carência... registros precisos que serão buscados no futuro e de onde só se poderá retirar o silêncio e a dor.

Tirando todo o resto, se pudéssemos apagar, arrumar, remendar tudo... a única coisa que fica é a emoção. E a emoção vira sentimento que, por sua vez, cria registros profundos. Se forem emoções boas, lembraremos com alegria e êxtase; se forem emoções ruins, teremos o amargor a assombrar na memória.

E eu me dei conta de que quero lembranças boas, eu quero aquela nostalgia gostosa que dá paz no peito e enriquecerá minha velhice e por isso, eu olho esse filho, e me olho, e me reviro e, então, me encontro.

E é aí que eu cresço, e é aí que eu vejo que não está tão ruim assim. E eu o desculpo e perdôo a mim. E eu colo o que foi quebrado. Colo fisicamente, numa bela metáfora, o conserto que faço na alma, constatando que a jornada está sendo bem caminhada, sim! E me orgulho, e respiro.

Começa tudo outra vez, estamos indo de volta pro amor...

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