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1 de novembro de 2013

Marcha Nacional Pela Humanização do Parto Em Porto Velho Rondônia


por Cariny Cielo

Dia 19 de outubro, em Porto Velho, rolou uma movimentação em prol do respeito ao nascimento. Foi a Marcha Nacional Pela Humanização do Parto que ocorreu simultaneamente em várias cidades do país.

É a terceira vez que Porto Velho organiza marcha e cada vez ela fica mais visível e envolve mais pessoas. Já falamos de marcha por aqui.

Ano passado, tivemos  Marcha do Parto em Casa em Cacoal e em Porto Velho, um movimento igualmente nacional em resposta às represarias sofridas pelo médico humanista Jorge Kluhn e, depois, Porto Velho organizou a primeira Marcha Nacional Pela Humanização do Parto.

Aos poucos as mulheres - e homens - de nosso Estado vão se dando conta de que o parto mais científico é o parto menos tecnológico e de que a mudança tem que partir das sujeitas do direito: nós mulheres!

A barriga que ilustra este post é da Helena que trouxe seu relato aqui. Ela é uma mulher que vem galgando cada vez mais respeito para si, desde quando se deu conta de que a forma de atendimento que recebeu no nascimento de seu primeiro filho foi uma terrível violência obstétrica!

Te espero na próxima marcha... até lá, emocione-se com as fotos!!!




Marido da Mileide orgulhando-nos ao se
envolver na causa e a filhota, ativista mirim...






Mais um ativista mirim... 



A doula Alyssa da Slingue, Helena e sua
bebê e a doula Izabela, da Bello Parto




Helena gestando e já lutando pelos seus direitos.





Ativistas mirim!!!
"Se a mamãe marcha eu vou também!"




Olha que show!!!




Preparativos... 




Pausa para um mamá... 




Turma animada!

25 de setembro de 2013

A amamentação e as chagas do patriarcado



por Cariny Cielo


Aí você nasce, vindo de um meio que é conforto puro. Conforto térmico, conforto gravitacional, conforto auditivo, conforto visual, um toque gostoso, o sacolejo ritmado, a explosão de sons que tranquilizam, a paz profunda...

Alimentava-se quase que ininterruptamente, sem nenhuma ressalva. Assim que queria, como bem lhe aprouvesse, dava goladas generosas de líquido amniótico. Não havia dia, nem noite. Era o tempo sem hora.

Passada a tensão que todo o ritual traz, seja ele de partida ou de chegada, você conhece, enfim, sua mãe.

Mas agora o tempo é outro! É o tempo dos relógios, é o tempo das medidas, dos padrões. É o tempo do engessamento, do reto, do limpo, do direito... é o tempo da razão. E assim, surgem as regras, a rotina imposta. Surge a distancia, o silêncio, a inércia.

Você é, então, deixado em um berço, sem aquele som, sem movimento, sem alimento. E você busca, em completo desespero, aquele conforto que vivenciou e que te trazia tanta paz. Você estava no paraíso e agora... Bem vindo! Você chegou na sociedade patriarcal!

A invenção do patriarcado foi a negação do ventre materno, do seu dom de dar a vida e de tudo mais relacionado ao feminino: a emoção, o instinto, o calor, o conforto, o contato, a empatia, o colo, o doar-se. Mulheres e homens sufocados, buscando na razão, o que só a emoção explica... e é por isso que você sofre.

Sua mãe provavelmente não tem na própria mãe um esteio para apoiar-se nesta jornada. Ela também não amamentou. E não há mais mulheres ao redor, não há tias, primas, irmãs... as famílias são agora núcleos fechados, valoriza-se o indivíduo e não o coletivo. Não existe comunidade pois estão todos distantes, fechados em suas próprias paredes.

Você não sabe falar, é um bebê fisiologicamente prematuro e busca desesperadamente por aquele ambiente de paz que tem em seus registros de memória mais primitivos. E aí você chora. Chora por ser a única forma que conhece de se fazer visto e ouvido. Você carrega os milhões de anos que o tornaram um ser humano e sabe que chorar é a chance de ser acalentado, de ser livrado do perigo... são registros muito primitivos, do instinto, da chama essencial do que que nos faz humanos, da fagulha divina.

Ela sabe que você é um grande presente, mas, distante que está de seus instintos femininos por tê-los sufocados a vida toda para encaixar-se nos ideais impostos, acha que é nos livros que aprenderá como lhe acalentar. Ingênua ignorância. Você está aqui para lembrá-la de que ela é instinto, ela é mamífera, ela é bicho, ela é mais um ser vivo neste vasto planeta... com toda a fisiologia à serviço da vida. E é aí que ela racha. Racha porque não sabe mais ser natural. Realizamos grandiosos feitos com nosso maravilhoso neocórtex, mas o nosso primitivo ainda grita dentro de nós... grita por respeito, por validação, por liberdade. Muitas vezes é só no momento do conceber, gestar, parir e amamentar, que a mulher se dá conta, enfim, de que é um ser mamífero, dotado de razão, de intelecto caminhando lado a lado com a emoção e o instinto.

Sua mãe busca os anseios femininos, mas nem sempre os encontra. Sua mãe está confusa, perdida, ama com o corpo e alma, mas não consegue se conectar com a alma feminina, essencial para as tarefas de cuidado e empatia.

Seu pai também passou anos recebendo mensagens de que emoções são sinais de fraqueza e, por isso, ele quer ser forte, ele quer compreender com a cabeça, não com o coração. O coração foi calado, endurecido e posto sem segundo plano. Talvez por isto mesmo, por ser o macho, o homem, o pai, ele tenha ainda mais dificuldade em exercer a empatia com você... que chora, clamando por um colo.

Qualquer livro que diga algo diferente de 'ouça seu filho'; ouça o que este bebê quer dizer'; 'esqueça todas as regras e seja pai e mãe desta criança que é única no mundo todo' é inimigo do aleitamento, é inimigo do feminino, é inimigo do natural, é inimigo da vida.

Eu sei que é impossível para você aguardar por três longas horas para saciar sua fome de alimento e de vida. Eu sei que é insuportável mamar e ser privado do seio pela arbítrio do relógio, de um tempo que até poucos dias você sequer conhecia. Nem eu consigo ficar 3 horas sem comer ou beber algo, imagino como deve ser desesperador para você que acabou de chegar por aqui e está em período de simbiose profunda com a sua mãe. Você acha que é o que ela é, sequer se compreende indivíduo. Eu entendo, entendo porque lhe é impossível aceitar a separação dos corpos. Entendo seu grito. Separar te soa como morrer.

Eu sei que você precisa mamar o leite anterior, que te mata a sede, mamar o leite posterior, que te mata a fome e, mais ainda, eu sei que você precisa mamar para sentir que está vivo, eu sei que você precisa daquela bolha de amor, daquela energia pulsante te dando boas vindas. Sei que o leite posterior é produzido quando a amamentação está disponível em sua plenitude, sem regras, sem rigidez.

Mas regra e rigidez são ferramentas do patriarcado. Esse modo de vida contrário a própria vida. E é por isso que ela não consegue te ouvir. Ela é amor, mas é um amor sem pernas e braços para ir ao teu encontro e te pegar no colo.

Eu sei como é a solidão fria, silenciosa e inerte do berço e que isto não se parece em nada com aquele estado de deleite em que vivias. É preciso um ouvido carinhoso e alguém que cuide de sua mãe para que ela possa, enfim, te ouvir e, se entregando a ti, te compreender. Ela foi educada para ser invencível, para ser perfeita e tua insistente exigência soa para ela como uma espoliação. 

Seu choro motiva nela culpa e derrota... mas ninguém tem culpa. Nem tu que está sendo apenas o que é, nem ela que está fazendo aquilo pelo qual foi talhada para fazer. 

Quanto à derrota, bom... todos perdem... perdem a vivência única de bem receber um recém chegado, cheio de mistérios e encantos. Perdem de viver com leveza o bom e o ruim deste grande encontro. Perdem a delícia de desfrutar e se conectar com aquela energia que é pura inocência. E perde você que, não se alimentando bem, perde peso, perde sossego e pode perder o seio, assim que um médico pouco comprometido lhe receitar leite artificial...

Como curar esta chaga? É justamente no momento de cisma da mulher - quando ela se vê mãe - que esta ferida mais dói. Surge a dor da saudade que se sente na nossa parcela mulher mais verdadeira e livre, aquela que levamos anos para sufocar. E a cura? A cura, nos dizeres de Mirela Faur, virá com encontros de homens e mulheres em círculos e vivências comunitárias, para despertar e alinhar mentes, corações e espíritos em ações que visem a cura e a transmutação das feridas da psique, infligidas pelo patriarcado.

Apaziguar a si mesmo, harmonizar seus relacionamentos, vencer o separatismo, reconhecer e honrar a interdependência de todos os seres, evitar qualquer forma de violência, dominação, competição ou discriminação são desafios do ser humano contemporâneo, no nível pessoal, coletivo e global. Incentivando a parceria e a integração entre os gêneros.

Mas hoje, agora, já, eu digo que é preciso mais contato, mais toque. É preciso mais devoção, é preciso mais entrega despretensiosa. É preciso mais linguagem de mãe. É preciso mais ajuda sincera e sem julgamentos. É preciso um amor despido, um amor de carne, osso e alma. É preciso um 'colocar-se do lugar de'.

É preciso mais colo sem tempo e um seio sem relógios...

Eu sei o quanto você deseja calor, embalo e colo, mas você chegou por aqui em tempos difíceis...


Imagem: arquivo pessoal

9 de setembro de 2013

Cesárea ou parto normal? Cinco 'petit' respostas para mulheres que querem saber mais...


por Cariny Cielo

É todo dia que recebo questionamentos sobre cesárea ou parto normal. Eu queria demais poder dar a resposta acima, mas enquanto o filme não estreia por aqui, eu resolvi tornar pública a carta que costumo mandar pra quem me pergunta: "O que é melhor, cesárea ou parto normal?"

Vamos lá:

A primeira coisa: nosso cenário nacional e, principalmente, estadual (Rondônia) de prestação de serviços de obstetrícia é precário. Hoje, a mulher sente-se na obrigação de escolher OU uma cesárea (cirurgia de grande porte com 5 vezes mais riscos para o binômio mãe-bebê) OU um parto normal violento (ceivado de violência obstétrica). Em resumo, se você quiser ter uma experiência positiva de parto, de empoderamento feminino, de saúde e segurança para você e para seu bebê, terá que brigar. É bom brigar e lutar estando grávida? Não, não é... mas estamos bem numa era de transição de valores e, provavelmente nossas netas não precisarão passar por isto. (Oremos!)

Segundo: Tudo que você conhece a já ouviu falar de 'parto normal' provavelmente é o parto normal 'tecnocrata', ou seja, onde práticas de rotina da medicina são utilizadas como se as mulheres fossem linhas de montagem. É a fisiologia à serviço da tecnologia e não o inverso, como deveria ser. Vivemos uma época remota em que morriam mesmo muitas mulheres e bebês em partos sem assistência e rumamos pro extremo oposto disto, acreditando que as intervenções médicas no nascimento seriam a garantia de segurança. Hoje, grandes movimentos internacionais de Humanização do Nascimento e Parto concluíram estudos dizendo que não, mecanizar o nascimento não fez bem e agora vimos que podemos/devemos ter o melhor dos dois mundos: o respeito ao fisiológico e a segurança dos avanços médicos. O principal disto tudo é que a Org. Mundial de Saúde já rechaçou a grande maioria das práticas 'de rotina', mas somos nós que devemos lembrar isto ao médico. Exemplos: episiotomia (o famoso pique, não deve ser feito). Soro na veia, lavagem intestinal, posição deitada, corte abrupto do cordão umbilical, ocitocina sintética, manobra de kristeler (empurrar a barriga da mãe pro bebê nascer), ácido nos olhos do bebê (este eles fazem até nos nascidos de cesárea).

Terceiro: a 'escolha' pela cesárea não pode ser uma escolha baseada na segurança do bebê e da mãe já que ela é mais arriscada que um parto normal (dados! não é o que eu acho). No entanto, as mulheres escolhem a cesárea para fugir de um parto normal violento. Existem inúmeros benefícios ao bb que nasce de parto normal (mesmo um parto normal violento é mais saudável do ponto de vista físico pro bb do que uma cesárea), embora os médicos vão lhe dizer que não exista diferença nenhuma. E esta é a outra parte: os médicos mentem muito pras mulheres, seja por má fé, seja por arrogante ignorância mesmo. Uma reflexão quanto a isto: Temos a taxa número 1 de cesáreas do mundo e também é nossa a taxa de maior número de bebês nascidos prematuros (12%) (que precisam de UTI neonatal ou alguma ajuda inicial pra respirar). Estamos tirando os bebês antes da hora e engordando os bolsos dos hospitais! Nenhum bebê está pronto para nascer enquanto não disparar mensagem químicas que dão início ao trabalho de parto. Qualquer coisa antes disto, é tirar um bebê com o pulmão ainda não 100% preparado para respirar. As implicações disto, muitas vezes, não são vistas de início, mas podemos observar um 'booom' de alergias e doenças na primeira infância que praticamente são uma pandemia nacional. Novamente, os laboratórios e hospitais agradecem!

Quarto: O feto que passou pelo canal do parto é 'colonizado' pelas bactérias necessárias à formação do sistema imunológico. Ao que parece, a ciência está apontando para o grande e maior problema das cesarianas: o fato de não haver colonização imediata do bebê pelas bactérias do canal de parto. A ausência dessas bactérias no momento do parto trazem repercussões para o resto da vida, desde obesidade, doenças auto-imunes, entre outros. Estamos, no Brasil, recebendo uma nação de bebês que virarão adultos com doenças crônicas. O sistema privado já pode começar a contabilizar os lucros. A OMS recomenda que as taxas de cesárea girem em torno de 10 a 15%, RO está com quase 70%... são raros os casos em que a mulher realmente precisa de uma cirurgia. Nenhum médico que conheço em Porto Velho vai saber disto tudo... E te garanto que para QUALQUER argumento dele, eu te mostrarei dados reais da Ciência Baseada em Evidências Científicas. Nada disto é minha opinião pessoal, embora eu seja uma entusiasta do nascimento digno, são dados científicos. Nenhuma mulher que pariu e teve uma experiência ruim vai te recomendar. Todos vão dizer que a cesárea é a 'evolução' do parto. Você ouvirá contos aterrorizantes de partos trágicos e de cesáreas salvadoras... Eu estou aqui pra te contar a outra história disto tudo!

Quinto. Eu não te conheço mas, agora, vou arriscar um papo de mulher, de emoção e não de razão! O parto é um evento sexual da vida da mulher, ele não só não irá comprometer sua saúde sexual, como pode melhorá-la. Parir nos traz novamente ao posto de fêmea. Conhecer o próprio corpo, como ele funciona, como fazer ele funcionar em benefício do fisiológico. E ser fêmea é aquele posto que a gente costuma precisar sufocar - muitas vezes a vida toda - para sobreviver numa sociedade que pede mulheres sempre lindas, cheirosas e sorridentes, que tudo conseguem, que tudo suportam... É no parto que a gente se lembra que somos mamíferas, gestamos, parirmos e amamentamos nossa criar... Te garanto que o parto pode ser um evento empoderador e digno e que o nascimento deve ser, precipuamente, um momento de manifestação do amor. Te empresto livros, tenhos DVDs excelentes, te indico leituras na blogosfera materna para que sua escolha final, seja, realmente, informada. E não vendida pelo médico, pelo sistema ou pelo inconsciente coletivo. Fico aguardando teus contatos, se vc quiser.

E chega! Você pode achar que eu sou desequilibrada e talvez seja mesmo! hahaha"

9 de agosto de 2013

Maternidade Ativa: Guia bem humorado para vencer o mau humor decorrente de cuidar da própria sujeira: PARTE I: Rol não exauriente!


Eu e o meu balde rolante: um caso de amor

por Cariny Cielo

Hoje faz um mês que estamos cuidando da nossa própria sujeira!

Não é algo que nos dê um Nobel (esse fica pro futuro), mas é algo que percebi que é recheado de conceitos e pré-conceitos. No Brasil parece ser cultural que ter alguém para cuidar da nossa sujeira é chique! E este ‘parece’ tem dados reais: o Brasil é o país numero um do mundo em empregados domésticos...

A ideia de ter alguém cuidando das minhas imundices enquanto eu trabalho e toco a vida era simplesmente absoluta e nada ao meu redor me fazia pensar que poderia ser diferente. Até que essa coisa toda de ser mãe e começar a questionar tudo (e ter um irmão mais novo pentelho que mora do exterior e me traz papos fresquinhos sobre o outro lado de muitas coisas), fez-me parar para questionar também isso: 
Péraí-páratudo! Eu fui criada dependente de terceirizar o serviço doméstico! Culturalmente moldada, entalhada e esculpida para depender de terceirização de serviços domésticos. E estou perpetuando esta ideia criando meus filhos igualmente dependentes deste modelo.

Com o pontapé inicial que partiu do macho alfa e os empurrões que recebi do meu irmão, eu comecei a desenvolver questões profundíssimas que nem valem contar aqui... 

Mentira, valem sim! Como, por exemplo:

1. O serviço doméstico ser resquício da nossa cultura escravocrata;
2. Como ser absurdo que alguém que lava nossos fundos não possa usar nosso banheiro ou dividir com a gente o elevador;
3. Que uma lei que surgiu recentemente para garantir o mínimo aos empregados domésticos foi rechaçada por muitos que eram, na verdade, exploradores de pessoas;
4. Que não é justo que uma mulher deixe sua própria casa e seus próprios filhos para cuidar da limpeza da nossa casa, perpetuando as mazelas do capitalismo;
5. Que não estou educando meus filhos para a vida, se não os coloco responsáveis pela própria sujeira, pela organização de seu próprio espaço e se os ensino que o zelo pelo próprio ambiente em que vivem depende de um terceiro;
6. E algumas outras bem pessoais que guardei para o divã... ou para um livro... enfim...

Sobre isto leia o instigante texto ‘Mucamas, Criadas ou Domésticas’ do historiador Ricardo Corrêa Peixoto (Colunista do Brasil Escola, pesquisador e estudioso da História dos Marginais, autor de diversos artigos e ensaios sobre exclusão social, transição Império-república, escravismo-capitalismo.)

Eu não estou dizendo que nunca mais precisarei de ninguém (no estilo ‘nunca mais sentirei fome nesta vida’ da Scarlet do filme ‘E o Vento Levou’). Não! Afinal, eu tenho três filhos, eu trabalho fora, eu sou preguiçosa, eu blá blá blá... 

Mas uma mudança brutal processou-se dentro de mim de forma que, quando (e se) eu tiver alguém, esse alguém virá me ajudar e não cuidar-da-minha-casa-por-mim. É uma diferença abismal! Assim como acontece com nossa babá que está no seio familiar há uns 15 anos e me ajuda a cuidar dos meus filhos... não cuida deles no meu lugar. Parece bobo? Não é não... Uma faxina é muito mais valorizada e melhor remunerada do que o vínculo trabalhista doméstico.

Depois deste importante primeiro passo, descobrimos um mundo novo! Um mundo de pessoas que cuidam da própria sujeira!!! Bingo!!! Onde tava esse povo todo pra me abrir os olhos quando eu achava legal ser patroa??? Recebi ajuda de todo lado, e ainda recebo e sinto falta de não ter dado valor às dicas da minha mãe quando ela me mandava limpar o chão... (sorry mamy!).

E nessa onda eu ouvi toda sorte de coisa! De “você enlouqueceu?” a “teu marido não vai te ajudar”, “você vai fazer tudo sozinha porque homem não gosta de limpar casa”... felizmente, aqui em casa, meu marido faz até parto (pééééééém), então, uma limpadinha de banheiro, varrer, passar pano, organizar, pra ele é fichinha! Este obstáculo machista do patriarcado nós tiramos de letra...

Na verdade o maior obstáculo à vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” é a minha total falta de jeito com a dinâmica do negócio, porém, observei que isso é algo que melhora com repetições sucessivas e aprimoramentos, no método tentativa e erro... ainda com muitos erros!

E, como eu nasci vendo graça em tudo, no que eu posso contribuir com a humanidade é criando – e a partir desta data, tornando público – o inédito, o nunca antes divulgado...

Guia bem humorado para vencer o mau humor decorrente de cuidar da própria sujeira 
PARTE I: Primeiro Decênio de Regras:


DISPENSE A TERCEIRIZAÇÃO DO SERVIÇO DOMÉSTICO E: 

Art. 1º. Descobrirás que não é preciso varrer e passar pano na casa todos os dias.
Três dias havia se passado sem a empregada doméstica e eu não via necessidade de limpar o chão. É sério, não é porquice! Eu pisava no chão e não sentia grânulos e nem havia poeira. E com esta descobri o que apelidei de ‘balde rolante’. Fiquei sabendo que o pessoal mais cool não varre e passa pano, vai logo de vassoura mágica ou esfregão com balde rolante... sim, “varrer e passar pano, varria e passava pano a sua vó”.
Nesta vibe eu também resolvi ouvir a minha mãe, ao menos uma vez nestes 34 anos, e passamos a usar o aspirador de pó. É a tarefa preferida do mais velho, de seis anos, que já a faz quase sem supervisão (atenção: não tente isso em casa).

Art. 2º. Lavar banheiro de madrugada passará a ser um divertido programa a dois.
De repente, essa coisa que cuidar da própria casa pega a gente e... em plena madrugada de sexta-feira, estamos num buteco rindo da vida estamos lavando o banheiro! Sim, qualquer hora é hora de limpar e se fazer sozinho pode ser uma penitência, fazer a dois ficará divertido... tomando vinho colonial feito no quintal da casa da vó do marido então, é pura soberba!

Art. 3º. Se o cantinho atrás do sofá estiver sujo, a culpa é só sua.
Tirando raras exceções, o dono é o mais capaz de cuidar bem do que lhe pertence. Este artigo é uma a dica preciosa para quem tinha dificuldades em encontrar alguém que limpasse bem a casa (que era o meu caso!). Veja a lógica: sua casa continua meio sujinha, mas você não está alimentando a chaga do capitalismo e está economizando um dinheiro todo mês. O mais importante é a ideia de que a responsabilidade é nossa, pelo limpo e pelo sujo, que não posso dizer “Olha a imundice aqui! A fulana limpa minha casa igual a cara dela, mas todo mês tenho que pagar direitinho senão já viu, né?”. E se estiver sujo tudo bem, a casa é sua, ninguém tem nada a ver com isto e quando você estiver a fim, você limpa (eu gosto mais desta última).

Art. 4º. Verás que tu não estás só.
Uma legião levantou-se em coro pra me apoiar. Com dicas de produtos (todos caseiros, mais baratos e que não vão corroer a sua mão) e de instrumentos (existe um mundo de vassouras, pás, escovas, buchas, panos e afins ao seu dispor). Além de uma chuva de incentivos. Você vai conseguir! Você tirará de letra! Ah, e uma liberdade! Você vai aprender a gostar! É claro que rola uns “às vezes é um saco”, mas, ótimo, eu gosto mesmo é dazamigas verdadeiras, das chapas, que me falam também do lado chato, feio, fedido das coisas pra eu poder encarar o bom e o ruim. E isso me lembra de umas gentes que eu adoro quando me vêem em algum lugar sozinha com meus três meninos e, ao invés de dizerem ‘nossa, que super mãe, que lindo, que meigo, que fofo, que cor-de-rosa’... Não! Elas me dão um olhar de verdadeira empatia, como se entendessem mesmo o que eu vivo, como se também soubessem o que é criar de verdade os filhos, botar a mão na massa, como se lessem minha mente e soltam um “nossa, que dureza, né? Mas dá de se divertir!”. Essas são das minhas!
Encontrei blogs só sobre cuidar da própria sujeira aqui, aqui e aqui. E gente que também rompeu com o sistema, sobreviveu e voltou pra contar como foi!
#tamujunto

Art. 5º. Lavar a louça não é, de todos, o pior.
Era a tarefa que eu menos gostava... ao ponto de, quando morava sozinha, meu então namorado-hoje-marido lavar o que encontrava na pia com receio de crescer alguma vida não identificada e me atacar à noite... Mas, hoje, vejo com bons olhos essa coisa de lavar copos, talheres, pratos... e passamos todos a sujar menos também. Claro, se é chato limpar, a gente cuida pra não sujar supérfluos. As crianças jogam os restinhos de comida dos pratinhos na lixeira e colocam o prato na pia. Qualquer pessoa que passa pela pia e encontra algo, já lava, pra não acumular. E assim surgiu a outra regra...

Art. 6º. Não deixarás acumular
Como a vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” ainda está em fase inicial, não posso traçar muitos comentários sobre acumular e nem sobre cumprir a risca esta regra. Mas, sim, ‘não acumular’ é uma palavra de ordem quando o assunto é cuidar da própria sujeira! Como a casa tem dois pisos (aff, se eu soubresse antes...) acabamos criando pequenas mini-centrais de limpeza com produtos e ferramentas sempre à mão, nos dois andares. Não fica muito bonito, mas e daí? A casa é minha e eu faço o que eu quiser e eu uso essa frase pra quase tudo agora! Sempre que passamos e vemos algo, já limpamos na hora ou... apenas olhamos e rimos (às vezes choramos)! Hahahaha

Art. 7º. Conhecerás teu lado chantagista.
Eu já me peguei chantageando a mim mesma, tipo: “mulher, se você não limpar este banheiro, eu te acharei a pessoa mais porca do mundo”, ou ainda, “você já passou aqui três vezes só esta manha e não limpou as prateleiras, se você não limpar, vou ligar pra sua sogra vir lhe visitar hoje e justo hoje ela irá apoiar a bolsa nesta prateleira!”. 
Até antes da vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” eu não era chantagista, nem meu cônjuge. Nós jamais praticaríamos esse ato imoral ou criminoso que consiste em ameaçar ou revelar coisas ou informações sobre uma pessoa, um grupo ou corporação a não ser que a pessoa ameaçada cumpra exigências, geralmente para proveito próprio, feitas pelo ameaçador. Até que...

Art. 8º. Aprenderás que se deve limpar sempre de cima pra baixo.
Nessa de libertar-se da dependência de terceirização do serviço doméstico, eu já fiz toda sorte de baboseiras aprendendo a limpar minha casa; mas um dia, eu me superei: limpei com esmero as prateleiras de baixo... até perceber, limpando as de cima, que a sujeira desce e suja tudo de novo. Isso vale pro teto, pras teias de aranha, pro pó que dá nos móveis... enfim. Aqui, vale um adendo: eu me considerava uma mulher inteligente, articulada, super esperta, até ser vencida pelas trapalhadas feitas, mas eu tenho me perdoado dizendo para mim mesma que não é limitação de raciocínio é só falta de prática (às vezes dá certo, e eu me convenço, às vezes não e eu me xingo: burra, burra, burra!).

Art. 9º. Necessitarás de reconhecimento imediato
Serviço doméstico é um serviço que não se vê. Só se vê quando ele não foi realizado... então, percebi que quem limpa quer ser imediatamente reconhecido pelo o grandioso feito recém realizado. É assim com quem cozinha e gosta de ouvir um sonoro ‘está delicioso!’. Notei que assim que deixei o banheiro brilhando – à custa de um vidro de vinagre (só fui aprender a economizar e dosar depois) – ninguém me elogiou, ninguém notou a belezura, mimimi. Da mesma forma, outro dia, o marido deu um grau na cozinha toda. Como eu não estava em casa e não pude ver a performance, assim que entrei em casa e passei reto sem uma palavra, ele soltou: Não vistes que limpei toda a cozinha?! Percebemos, então, que elogios e reconhecimentos devem ser adotados como moeda corrente na vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você”. A boa convivência e o casamento agradecem.

Art. 10º. Limparás a casa longe da internet
Esta regra vem como colaboração de uma amiga querida. Caso você ainda não tenha notado, é impossível limpar a casa e ser popular nas redes sócias ao-mesmo-tempo-agora e, embora saibamos que muita gente consegue fazer várias coisas e ainda compartilhar tudo ao mesmo tempo com o cybermundo... isso não se aplica à faxina. 
Eu pensei até em criar tutoriais no youtube para registrar com mais detalhes toda essa nossa saga pela libertação da dependência na terceirização dos serviços domésticos, mas percebi que: ou eu assoviava ou chupava a cana!

Fiquei chupando a cana e perdi a oportunidade de ficar super famosa e dar palestras pelo país afora. Mas tô bem, tô aqui e, logo mais, nos próximos aniversários da experiência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você”, trago outros decênios de regras.



#tadiotto&cielolaboratórios


29 de julho de 2013

Requerimento de Cópia de Prontuário Médico: tudo sobre...


por Cariny Cielo

Pegando carona na campanha lançada pela Gabi Sabit, do Dadadá, resolvi reunir informações acerca do direito à cópia do prontuário médico a que todo paciente tem direito E, especificamente no nosso caso, a que toda mulher recém parida ou recém operada tem direito!

Aqui você encontra:

1. Um artigo para você que, como eu, não tinha dado muita bola pra isso e nem sabia que era seu direito, explicando tudo sobre o Prontuário Médico.

2. Uma reunião com as principais normas que regulam a confecção, manutenção e sigilo do Prontuário Médico, lembrando que ele deve ser mantido por 20 anos!

3. Um modelo para você protocolar e requerer o seu!

Vamos lá:


REQUERIMENTO DE CÓPIA DE PRONTUÁRIO MÉDICO: Tudo sobre.

A Resolução 1638/2002 do Conselho Federal de Medicina diz que prontuário médico é "o documento único constituído de um conjunto de informações, sinais e imagens registradas, geradas a partir de fatos, acontecimentos e situações sobre a saúde do paciente e a assistência a ele prestada, de caráter legal, sigiloso e científico, que possibilita a comunicação entre membros da equipe multiprofissional e a continuidade da assistência prestada ao indivíduo."

O prontuário do paciente é o documento único constituído de um conjunto de informações, sinais e imagens registradas, geradas a partir de fatos, acontecimentos e situações sobre a saúde do paciente e a assistência a ele prestada, de caráter legal, sigiloso e científico, que possibilita a comunicação entre membros da equipe multiprofissional e a continuidade da assistência prestada ao indivíduo. O prontuário do paciente (e não do médico, como erroneamente é chamado) é o documento que deverá ser utilizado como prova para instruir processos disciplinares e judiciais, visando identificar as ações ou omissões da equipe multiprofissional e a responsabilidade (ou não) da instituição onde o atendimento ocorreu. Ou seja, se o prontuário estiver mal feito, a defesa ficará prejudicada ou a acusação será facilitada.

Por determinação do Código de Ética Médica (CEM), o médico tem o dever de criar o prontuário antes de iniciar a anamnese, sob pena de processo ético-disciplinar perante o Conselho Regional de Medicina (CRM).

Ao médico é proibido receitar ou atestar de forma secreta ou ilegível. O bom senso indica que o prontuário deve ser elaborado de maneira completa e com letra legível, sob pena de sanções disciplinares perante o CRM, em razão de transgressão do CEM.


Conteúdo: Deverão constar obrigatoriamente do prontuário:

1. Identificação completa do paciente, sexo, nome dos pais, naturalidade e endereço.

2. Anamnese, exames físicos e complementares e seus respectivos resultados, hipóteses diagnósticas, diagnóstico definitivo e tratamento efetuado.

3. Evolução clínica diária, discriminação dos procedimentos, prescrições e identificação dos profissionais que os realizaram, com data, hora, nome e número de inscrição no respectivo conselho de classe.

4. Tipo de alta.


Responsabilidade: A responsabilidade pelo prontuário do paciente cabe:

1. Ao médico assistente e aos demais profissionais que compartilham do atendimento.

2. À hierarquia médica da instituição, nas suas respectivas áreas de atuação, que tem como dever zelar pela qualidade da prática médica ali desenvolvida.

3. À hierarquia médica constituída pelas chefias de equipe, chefias da clínica, do setor até o diretor da divisão médica e/ou ao diretor técnico.

Comissões: Resoluções do Conselho Federal de Medicina (CFM) determinam que são obrigatórias a criação da Comissão de Revisão de Prontuários e a implantação da Comissão Permanente de Avaliação de Documentos nos locais onde se presta assistência médica.


A quem pertence?

Paciente: O paciente é o alvo dos serviços prestados pelos profissionais e pela instituição. No prontuário constam informações sobre sua saúde, seu corpo, sua intimidade física, emocional, mental e até sobre sua vida social e privada.

Médico: O prontuário retrata a atividade profissional desempenhada pelo médico e pelos demais componentes da equipe multidisciplinar que atenderam o paciente.

Instituição: O prontuário comprova a efetiva prestação de serviços pela instituição e seus prepostos, servindo, inclusive, como base para elaboração do faturamento. Ele é guardado sob a custódia da instituição de saúde. Quem desejar e possuir legitimidade, poderá solicitar cópia dele, que não poderá ser negada pela instituição.

Sigilo: O prontuário é secreto e protegido pelo segredo profissional. É proibida a divulgação de fatos conhecidos no desempenho da profissão e cuja revelação acarretaria danos à reputação, à honra, à vida privada e aos interesses moral ou econômico do paciente ou de seus familiares. Seu conteúdo não pode ser revelado sem autorização escrita do paciente, sob pena de cometimento de crime, infração ético-disciplinar e de responsabilização civil.

Cópias:

Paciente: Obviamente que o próprio paciente pode obter cópia do seu prontuário. Basta solicitar por escrito. Porém, se o conteúdo do prontuário colocar a saúde do paciente em risco, deve-se substituir sua cópia por um laudo que contenha informações genéricas sobre sua saúde e as providências que deverão ser adotadas. Cabe aos Diretores Clínicos e Técnicos ou à Comissão de Ética Médica analisar os prontuários e fazer este exercício de inteligência e de interpretação das informações contidas no prontuário.

Familiares: O sigilo da relação médico/paciente impede que qualquer familiar tenha acesso ao prontuário. Isso somente será possível se o paciente autorizar por escrito. Se o paciente for menor de idade ou incapaz, o acesso deve ser permitido ao seu representante legal, desde que provada tal condição documentalmente. Na hipótese de o paciente estar inconsciente ou ter ido a óbito, as informações devem ser passadas pelo médico sob a forma de laudo.

Convênios: O prontuário não pode sair das dependências físicas da instituição de saúde. O convênio ou seguradora deverão identificar profissional médico para lá se dirigir a fim de auditar, conferir ou analisá-lo, desde que haja autorização escrita do paciente. Na prática, porém, sabemos que os hospitais mandam cópia do prontuário para os convênios. Quem age assim deve suportar os riscos de eventual vazamento de informação pessoal do paciente e responder por processo em que se questionar eventual dano, material ou moral.

Autoridades: O ofício de autoridade policial ou judiciária deve ser encarado da mesma forma que o de outras pessoas, pois, nesse assunto, delegados e juízes não têm prerrogativas e nem há normas específicas nesse sentido, mesmo que eles pensem de forma diferente. A postura a ser adotada é a mesma: requerer a nomeação de perito médico para que vá até a instituição de saúde e colha a informação que a autoridade desejar, pois, enquanto médico, ele também está obrigado ao compromisso do segredo profissional. Isso é burocrático e nem sempre as autoridades agem assim. Todavia, é o que a legislação manda fazer, cabendo aos cidadãos cumpri-la e ao Judiciário fazer que ela seja cumprida, inclusive quando lhe disser respeito. Se a legislação é burocrática, o problema é do Poder Legislativo e não do hospital. Caberá ao advogado do médico ou da instituição de saúde explicar por escrito os motivos pelos quais não se cumprirá a ordem de encaminhar cópia do prontuário quando não houver autorização escrita do paciente.


Prazo de arquivamento

Papel: O prazo para arquivamento dos prontuários em papel é vinte anos. Decorrido esse prazo e colhidos pareceres escritos das comissões acima mencionadas, os prontuários em papel que contiverem informações relevantes dos pontos de vista médico-científico, histórico, epidemiológico, social ou legal devem continuar arquivados definitiva-mente.
Os que não forem assim classificados, mediante critérios de amostragem predefinidos pelas comissões, e transcorridos vinte anos, poderão ser destruídos, eliminados ou incinerados.

O prazo de vinte anos é maior que os previstos em outras normas legais, devendo ele ser observado como regra geral para manutenção em arquivo dos prontuários em papel. À medida que a instituição passar a utilizar meios eletrônicos de arquivo, o que não é obrigatório e dependerá do seu fôlego financeiro, ela poderá destruir os respectivos prontuários em papel.

Meio eletrônico: Os prontuários que já foram transformados em meio eletrônico, óptico ou magnético (digitalização, microfilmagem etc.), e os que assim já foram diretamente criados, sem utilização de papel e desde que respeitada a rigorosa legislação arquivística, deverão ser guardados de forma definitiva e ininterrupta pela instituição. Mais, aqui.


Obrigações: São (algumas) obrigações dos médicos:

1. Elaborar prontuário para cada paciente que atender.

2. Fornecer cópia do prontuário, desde que solicitado pelo paciente ou requisitado pelo CFM ou CRM.

3. Fornecer cópia do prontuário às autoridades, desde que autorizado por escrito pelo paciente.

4. Disponibilizar o prontuário ao perito que for nomeado por autoridade para nele realizar perícia, que deve se restringir aos fatos em questionamento.

5. Apresentar o prontuário em juízo para elaboração de sua defesa, devendo requerer que a matéria seja mantida em segredo de justiça.

6. Consultar o CRM por escrito sobre a postura a ser por ele adotada nos casos não previstos na lei e resoluções.

7. Comunicar compulsoriamente casos de doença, quando a lei assim determinar, não podendo ser enviada cópia do prontuário.


Proibições: É proibido ao médico, dentre outras ações:

1. Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por justa causa, dever legal ou autorização escrita do paciente.

2. Revelar informações confidenciais obtidas quando do exame de trabalhadores, mesmo que exigida pelos dirigentes de empresas ou instituições, salvo se o silêncio puser em risco a saúde dos empregados ou da comunidade.

3. Revelar segredo que possa expor o paciente a processo criminal.

4. Deixar de orientar seus auxiliares e de zelar para que respeitem o segredo profissional a que estão obrigados por lei.

5. Facilitar o manuseio e conhecimento dos prontuários por pessoas que não estão obrigadas ao compromisso do segredo profissional.

Daqui. 


NORMAS

1) Resolução da Diretoria Colegia, ou RDC, n. 63/2011


Seção IV: Do Prontuário do Paciente

Art. 24 A responsabilidade pelo registro em prontuário cabe aos profissionais de saúde que prestam o atendimento.

Art. 25 A guarda do prontuário é de responsabilidade do serviço de saúde devendo obedecer às normas vigentes.
§ 1º O serviço de saúde deve assegurar a guarda dos prontuários no que se refere à confidencialidade e integridade.
§ 2º O serviço de saúde deve manter os prontuários em local seguro, em boas condições de conservação e organização, permitindo o seu acesso sempre que necessário.

Art. 26 O serviço de saúde deve garantir que o prontuário contenha registros relativos à identificação e a todos os procedimentos prestados ao paciente.

Art. 27 O serviço de saúde deve garantir que o prontuário seja preenchido de forma legível por todos os profissionais envolvidos diretamente na assistência ao paciente, com aposição de assinatura e carimbo em caso de prontuário em meio físico.

Art. 28 Os dados que compõem o prontuário pertencem ao paciente e devem estar permanentemente disponíveis aos mesmos ou aos seus representantes legais e à autoridade sanitária, quando necessário.


2) Código de Ética Médica

Capítulo X: DOCUMENTOS MÉDICOS

É vedado ao médico:

Art. 80. Expedir documento médico sem ter praticado ato profissional que o justifique, que seja tendencioso ou que não corresponda à verdade.

Art. 81. Atestar como forma de obter vantagens.

Art. 82. Usar formulários de instituições públicas para prescrever ou atestar fatos verificados na clínica privada.

Art. 83. Atestar óbito quando não o tenha verificado pessoalmente, ou quando não tenha prestado assistência ao paciente, salvo, no último caso, se o fizer como plantonista, médico substituto ou em caso de necropsia e verificação médico-legal.

Art. 84. Deixar de atestar óbito de paciente ao qual vinha prestando assistência, exceto quando houver indícios de morte violenta.

Art. 85. Permitir o manuseio e o conhecimento dos prontuários por pessoas não obrigadas ao sigilo profissional quando sob sua responsabilidade.

Art. 86. Deixar de fornecer laudo médico ao paciente ou a seu representante legal quando aquele for encaminhado ou transferido para continuação do tratamento ou em caso de solicitação de alta.

Art. 87. Deixar de elaborar prontuário legível para cada paciente.
§ 1º O prontuário deve conter os dados clínicos necessários para a boa condução do caso, sendo preenchido, em cada avaliação, em ordem cronológica com data, hora, assinatura e número de registro do médico no Conselho Regional de Medicina.
§ 2º O prontuário estará sob a guarda do médico ou da instituição que assiste o paciente.

Art. 88. Negar, ao paciente, acesso a seu prontuário, deixar de lhe fornecer cópia quando solicitada, bem como deixar de lhe dar explicações necessárias à sua compreensão, salvo quando ocasionarem riscos ao próprio paciente ou a terceiros.


3) RESOLUÇÃO Conselho Federal de Medicina nº 1.605/2000

Art. 1º - O médico não pode, sem o consentimento do paciente, revelar o conteúdo do prontuário ou ficha médica.

Art. 2º - Nos casos do art. 269 do Código Penal, onde a comunicação de doença é compulsória, o dever do médico restringe-se exclusivamente a comunicar tal fato à autoridade competente, sendo proibida a remessa do prontuário médico do paciente.

Art. 3º - Na investigação da hipótese de cometimento de crime o médico está impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo criminal.

Art. 4º - Se na instrução de processo criminal for requisitada, por autoridade judiciária competente, a apresentação do conteúdo do prontuário ou da ficha médica, o médico disponibilizará os documentos ao perito nomeado pelo juiz, para que neles seja realizada perícia restrita aos fatos em questionamento.

Art. 5º - Se houver autorização expressa do paciente, tanto na solicitação como em documento diverso, o médico poderá encaminhar a ficha ou prontuário médico diretamente à autoridade requisitante.

Art. 6º - O médico deverá fornecer cópia da ficha ou do prontuário médico desde que solicitado pelo paciente ou requisitado pelos Conselhos Federal ou Regional de Medicina.

Art. 7º - Para sua defesa judicial, o médico poderá apresentar a ficha ou prontuário médico à autoridade competente, solicitando que a matéria seja mantida em segredo de justiça.

Art. 8º - Nos casos não previstos nesta resolução e sempre que houver conflito no tocante à remessa ou não dos documentos à autoridade requisitante, o médico deverá consultar o Conselho de Medicina, onde mantém sua inscrição, quanto ao procedimento a ser adotado.

Art. 9º - Ficam revogadas as disposições em contrário, em especial a Resolução CFM nº 999/80.

Mais normas aqui.





******MODELO DE REQUERIMENTO DE CÓPIA DE PRONTUÁRIO MÉDICO******


Ilustríssimo Senhor Diretor do Hospital ou Unidade de saúde .............




Assunto: Requer cópia de Prontuário Médico.


FULANA DA SILVA SAURO, brasileira, casada/solteira, portadora do CPF tal e do RG tal, residente e domiciliada à Rua tal, no município tal, vem à presença de vossa senhoria expor QUE foi paciente do médico tal, e, em tal dia, foi submetida a procedimento cirúrgico cesariana OU foi assistida em parto normal no Hospital/Maternidade tal. Assim, por motivo de foro íntimo (ou se quiser colocar motivo) REQUER:

1. Cópia do Prontuário Médico do referido procedimento, conforme previsão legal dos artigos 87 e 88 do Código de Ética Médica e artigo 6º da Resolução 1602/2000; fazendo constar os exames complementares solicitados, no período, se houver. (OU cópia do Prontuário Médico desde a primeira consulta, em ...... até a última, em .............).

Local, data.

Assinatura 
Fulana da Silva Sauro
Requerente




*imprimir em duas vias, juntar cópia de documentos, se quiser, exemplo: carteirinha da gestante, cartão do SUS, enfim... e protocolar no setor administrativo do hospital ou maternidade.


Ah, e se você chegou até aqui (já é vitorioso!), se pegou o modelinho acima, se protocolou o requerimento, se recebeu seu prontuário, não deixe de compartilhar! Eu vou lá pedir os meus...



27 de maio de 2013

Reflexões: O amor e o sexo na era do espetáculo

Imagem daqui!

por Cariny Cielo

Uma pessoa muito querida me mostrou um texto interessante – e polemico – sobre os benefícios da relação extraconjugal. Eu acredito que textos têm uma vida própria e, de algum lugar mágico, eles clamam por serem escritos, por serem expostos e explodirem, tornando-se concretos, ganhando vida...

Há tempos um texto sobre amor e traição grita dentro de mim, rogando ser escrito... Eu li o texto da Navarro e milhões de palavras explodiram na minha mente... segundo ela, relações fora do casamento seriam boas para a manutenção do casamento. Vamos pensar? Eu sou profundamente fiel, monogâmica e estável. Consigo amar e sentir atração sexual, paixão pela mesma pessoa, sem problemas, sem ser uma frustrada ou estar bloqueando algum desejo.

Acho que a nossa sociedade estragou o sexo e o transformou num espetáculo. Não é mais o sexo pra conexão, pra brincadeira, pra união do casal, pra descarga de carmas, pra relaxamento, pra meditação. É o sexo da quantidade, dos acessórios, das metas, do ranking...

Todos monitoram a vida de um casal e imaginam se eles transam sempre, se transam bem, se usam brinquedinhos, se fazem de tudo e mais um pouco... os próprios casais não tão seguros de suas escolhas e preocupados também com esse excesso de publicidade, talvez acabam por questionar, e muito, a própria vida sexual que levam, imaginando que a dos solteiros ou a dos que tem casamentos 'abertos' sejam infinitamente melhor e mais gratificante... mas será?

A questão de que 'trair' faz o casamento melhor está, na minha opinião, no vício por adrenalina, no vício por eterna angústia que algumas pessoas têm... Veja o que diz um psicoterapeuta sobre relações sexualmente abertas e amor livre:

“É fascinante, assustador, maravilhoso, doloroso, prazeroso, novo, imprevisível, incontrolável, rico, maluco, romântico, caótico, aventureiro.”

Isso não tem nada a ver comigo! Mas consigo perfeitamente compreender que tem muita gente doida por isso! Concorda?

Eu, muito particularmente falando, não vivo atrás de loucura, susto, maluquice, romance, caos e aventura... Quero pé no chão, quero o natural, sem artifícios, quero o amor real, aquele que ama o bom e o ruim, o saudável e o doente... o sexo um dia ótimo, outro dia bem comum, sem floreios, sem rebusques, sem adornos, sem adereços, sem nada de fora.

O sexo, eu costumo dizer, que é a única coisa no mundo que mesmo ruim, é bom! Até aquele dia que é básico, que você não se conecta tanto, que não está tão disponível, mesmo assim, é bom... foi fisicamente bom, ativou a circulação, conectou o casal, lavou o amor...

Tem aquele outro dia em que é espetacular e estes ficam guardadinhos na nossa memória sexual, mas nem todos os dias são assim... e nos dias que não é assim, é uma delícia também... porque tem que ser ruim? Porque esse medo do comum?

Concordo que, muitas vezes, um caso fora da relação possa dar um 'up' no relacionamento. Até porque balança as estruturas, põe em risco, faz os dois abrirem os olhos e se olharem de verdade, talvez até pela primeira vez. Às vezes a mulher passa a se cuidar mais, a se amar mais... às vezes o homem volta a se preocupar como peso, com o vigor, fica mais observador e cuidadoso da relação.
Inclusive, se o casal souber passar a adiante e compreender que só entra um terceiro numa relação a convite dos dois, ou seja que não há vítimas nem culpados, que os dois aceitaram e permitiram o ingresso do terceiro, o casamento pode progredir, e muito, depois de uma traição. O amante passar a ser, no meu entender, um bode expiatório, sabe? Para 'acordar' o amor...

Como temos dificuldade em perdoar, em lavar a alma, em viver e superar crises, como crescer dói, preferimos o divórcio, e dali uns anos estamos novamente vivendo o morno do amor, com o novo amor que, de amante, passou a ser a rotina. Acabou a adrenalina novamente, acabou a paixão... e lá vai o outro atrás, de novo, de um ‘novo’.

Eu tive uma amiga cujo marido era extremamente fetichista, tarado mesmo... a gente pode até pensar que “nossa, que legal um homem tarado que te pega na cozinha lavando louça, te joga na mesa, te chama de lagartixa”, mas ela era bem estressada com isso... sabe porque?

Porque cansa! Porque não é natural, não é 'em paz'. E a guerra, embora sirva pra catarse, ela cansa, exaure, esgota...

Ela queria um homem que a quisesse também com camiseta furada, com calcinha bege e queria não ter que pensar todos os dias no espartilho, na calcinha sexy, nas velas, enfim... Ela queria na cama fofinha e não sempre em pé no jardim... ela queria conexão com ela e não com os vibradores, os chicotes... ela queria o sexo por si só e não o sexo de performance... ela não queria ele olhando pro espelho, ela queria ele olhando pra ela, ou olhando pra dentro de si.

Eu vejo, pela minha própria vivência de sexo, que a sexualidade serve para a gente viver várias energias diferentes... ser mais loba, mais sexy, ser mais calma, mais mansa, assumir as rédeas e num outro dia se deixar levar... enfim... é uma caminhada junta, que, no meu ver, se deve fazer juntos, para que o sexo fique cada vez melhor... porque eu cresço como mulher quando me solto e meu parceiro cresce como homem. Porque eu posso surpreendê-lo e ele pode me surpreender também... porque eu não sou a mesma e não me deito com o mesmo homem todas as vezes... porque eu posso ser muitas, e porque, para o sexo, infinitas são as possibilidades do amor...

Pra quê procurar outras pessoas se podemos ter e ser várias dentro de nós mesmas em busca de proporcionar prazer ao outro? Eu entendo que deve ser difícil ficar na monogamia, porque isso envolve muita intimidade. E intimidade gera exposição e exposição gera insegurança, vulnerabilidade.

E muitos casais estão juntos, mas não tem intimidade. Não se abrem ao outro, não se expõem, não pedem, não experimentam, não mostram as feridas, não se mostram em carne viva... esse é o desafio! Arranjar outro é não me expor de verdade a nenhum dos dois... (ou dos três, dos quatro!).

Eu estou há 8 anos com um homem e ainda me surpreendo com ele. Ainda me surpreendo comigo mesmo e com o que ele faz de mim e eu faço dele. Será que será assim pra sempre? Daqui 20 anos estarei ainda conectada sexualmente com ele? Quem sabe?

Mas vivo pensando que nossa sexualidade é algo vivo, que evolui, que muda, que cai, que sobe, tem que ter uma maré, uma descoberta... tem o inverno, tem o verão... aceito o inverno numa boa não como um 'mau sinal', mas como parte do pacote 'ser humano'. E desfruto do verão, aposto nele...

Vários parceiros vão me dar o que? Uns 30% deles? Enquanto posso caminhar pra ter 100% de um ou, inversamente, eu me dou 20-30% pra vários, ao passo que posso traçar uma jornada para conseguir me doar 100% para um... num terreno seguro, num lugar conhecido meu e da minha psiquê. E, na medida que aceito esse um, eu cresço pois o outro me dá as ferramentas necessárias pro meu aprimoramento pessoal, pro meu crescimento...

Não adianta dizer que se ama e se entrega totalmente a alguém que acabamos de conhecer... e que isso traria satisfação pessoal e solucionaria os problemas da nossa sociedade da traição! Porque o amor é profundo... e as relações extraconjuguais estão ainda no raso do amor. Tanto prova que assim que elas se aprofundam, muitas vezes perdem a graça, perdem o glamour, e confundem os amantes que antes estavam alucinados com o novo! O novo agora é velho e lá vem a vida novamente nos chamando a amar o velho... a aceitar a calmaria...

Existe o rompante de amor? Existe! Tem a paixão avassaladora que volta e meia nos visita. Mas o amor é vertical. Ele é pra baixo, ele é fundo... ele penetra... o amor é estável, é rotineiro, mas é na vivência do amor natural que provamos da maré da paixão...

O exercício da criatividade, ativando o chacra básico, nosso centro básico de energia, o fogo kundalini, permite uma vivência de auto-conhecimento poderosíssima, principalmente para nós mulheres inseridas numa sociedade patriarcal e machista...

A criatividade está diretamente relacionada com sexualidade. Nosso fogo criativo é nosso fogo sexual. Porque será que a natureza pôs a criatividade tão intrinsecamente ligada à sexualidade? Porque o sexo é nossa conexão (com o outro, com a gente) e, ao mesmo tempo, nossa desconexão (do mundo, da razão, da casca). Ele nos eleva espiritualmente, emocionalmente, mas nos lembra que somos bicho. Nos liga e nos desliga... é o intelecto e o instintivo... a loucura dos que se amam... a diversão e o deleite do amor...

A falha não está na monogamia. Ainda que sejamos forçados a concordar que, na imensa pluralidade de indivíduos no mundo, ela pode não servir para todos, não é ela a vilã dos relacionamentos. Não é ela a destruidora de casamentos.

Não acredito que a raiz da traição esteja na obrigatoriedade da monogamia. Porque trair o outro, é, antes ainda, uma traição de si mesmo. É atestar que não se está seguindo a vida que se gostaria de seguir.

O que estraga o amor monogâmico talvez seja nós mesmos, viciados que estamos em espetáculos! Tudo, inclusive, o sexo, tem que ser adornado, enfeitado, fantasiado, ainda que o conteúdo seja de qualidade duvidosa. É isso que vemos o tempo todo nas revistas, na TV... a pornografia de baixo calão e misógina, a coisificação da mulher, a indústria do sexo maquiado. Toda uma parafernália vendida como condição necessária para se atingir um orgasmo!

Tem a posição certa, a posição melhor. O brinquedinho infalível. O gel, o óleo, a bolinha, o cheirinho. Ninguém mais quer saber do cheirinho verdadeiro e único, que só seu parceiro tem! Vamos maquiar o cheiro também. Com um é pouco? Melhor chamar mais gente. Ereção natural? Que nada, uma pílula e você fica a ponto de bala por horas. Tá com a cabeça cheia? Toma esse remedinho que o sexo fica ótimo.

Esquecemos que sexo é tão natural, tão fisiológico que beira o grosseiro...

E esta pressão do sexo maquiado recai com muito mais força e violência sobre nós, mulheres. Nossa roupa íntima deve estar a serviço do sexo e não do conforto. É nossa obrigação manter a ‘chama acessa’ do casamento. É imposta, à mulher, a responsabilidade por seduzir...

A sedução deve ser natural, inerente ao casal que se ama. Sem artifícios, sem tanto espetáculo, sem esforço, sem preocupação com performance. Volta e meia é possível maquiar? Claro que sim e é ótimo! Mas, como sempre, esquecemos a medida e partimos pro excesso... e ao que me parece o caminho de volta é bastante tortuoso!

Viciados que estamos em adrenalina, em olhar o do outro, em desejar o que não se tem. Nossas vidas estão todas sendo expostas através das redes, e vemos a vida de todos também. O sexo saiu do nosso quarto e está estampado pra todos os lados. A intimidade não é mais íntima, é exposta, é mostrada, é imitada e invejada! Nossa relação sexual não mais nos pertence! Vivemos angustiados na buscar pelo ‘ter’. E, nesta busca, o orgasmo também virou item de consumo... no melhor estilo: ‘quanto mais, melhor!’. O outro, por sua vez, é apenas um mecanismo de conquista do tão almejado orgasmo!

Um resumo? embora esse tema seja inesgotável e não garanto que não volto aqui pra escrever mais...

Eu gosto muito e me faz bem comer feijão com arroz de rotina, bem caseiro, bem conhecido e bem temperadinho, bem no meu paladar. Feito especialmente pra mim, pra me agradar, sem imitações, sem corantes, nem conservantes, sem estimulantes de paladar! E, volta e meia, é uma delícia se surpreender com grandes banquetes à luz de velas inesquecíveis e estasiantes...

E como vai o seu feijão com arroz?


4 de dezembro de 2012

Maternidade Ativa: Ela é índia. E eu, sou o que?


por Cariny Cielo

Participei de uma ação com indígenas da região de Cacoal, Rondônia, há uns meses. A etnia era Cinta Larga e Suruí. Fui a trabalho, mas carreguei meu filho mais velho e, enxerida curiosa que sou, não pude deixar de aproveitar a oportunidade para bater um papo de mulher e mãe, com mulheres que vivem realidade tão completamente diferente da minha.

E é diferente mesmo! Praticamente outro mundo; o mundo dos brasileiros por essência. Para saber mais e nunca mais pagar mico, vale a pesquisa aqui.

Comecei meio sem jeito de como se referir a quem não é índio. Se ela é índia (o correto é falar ‘indígena’), eu sou o quê? Afinal, ‘Cara Pálida’ me pareceu americano demais, apesar de o ‘pálida’ caber perfeitamente com a minha cara. ‘Homem branco’ é pior, parece saído daqueles livros de história do ensino fundamental e além do mais, nem branca eu sou...

Parece que o brasileiro que tem tudo misturado ficou num limbo entre tantos povos. De um extremo ao outro tem uma porção de versões para nós, mas em todos corre a mesma mistureba de sangue. Tá, chega de aula fajuta de história e geografia, não é aqui que você encontrará referências de qualidade para o tema.

O que me interessou foram as mães e mulheres indígenas, todas carregando seus bebês em lindas faixas coloridas. Eu mostrei a faixa que uso (o famoso sling de argolas) e uma delas achou o máximo. Mas fiz sucesso mesmo quando disse que meu caçula havia nascido em casa. Abalei geral, virei estrela... (mentira, parir em casa é normal... nada de mais pra elas, exceto o fato de eu ser: branca!).

Continuamos conversando e ouvi coisas terríveis, dignas de denúncia, como por exemplo, elas me dizerem que são orientadas a parir no hospital, mas chegando lá, não são respeitadas (que novidade!) em suas escolhas sobre posição, intimidade, liberdade de movimentos... enfim, sofrendo, inclusive, episiotomia... Eu disse que existem mulheres em todo país lutando contra esta falta de respeito no atendimento obstétrico. Pelo jeito, a violência com elas é ainda maior, pois é cultural e social também: ouvem piadinhas quanto ao número de filhos, quanto à dor durante as contrações, quanto ao aleitamento, quanto aos seus costumes...

E ouvi coisas interessantes sobre crianças indígenas. Eu perguntei se elas apanhavam, se ficam de castigo, se tinham problemas para dormir, se tinham problema para amamentar ou para o desmame, se era agitadas ou rebeldes (todos aqueles adjetivos que a criança ‘branca’ recebe).

Fiz esse tanto de questionamento e elas ficaram meio se entreolhando, com cara de dúvida, no melhor estilo de sequer entendendo bem o que a ‘cara pálida’ queria saber...

- “A gente não liga pra isso não”. Soltou uma. Eu entendi como “a gente deixa as crianças serem o que são: crianças”.

De fato, as crianças delas não apanham, nem ficam de castigo. Nem elas, tão pouco, apanharam quando crianças. Elas não sabem dizer quando desmamaram, nem de quanto em quanto tempo mamavam, por quantos minutos e em que têta primeiro (há!)...

Para nós, isso tudo soaria como uma completa bagunça, sem regra, uma anarquia! (deixa a Super Nanny saber disso! Ou ainda, mais na moda agora, o deseducador Marcelo Bueno, num quadro de péssimo gosto do programa 'Mais Você'.

E os filhos quando chegam à adolescência, eu perguntei, ficam rebeldes? Desrespeitam tudo e todos? Explodem, feito vulcões, em fúria contra a vida?

“Não... normal”, disse outra. Eles começam a se interessar em namorar, ir morar na cidade, estudar... questionam, claro, afinal, assim caminha a humanidade, mas não se vê a ‘aborrecência’ nem seus problemas adjacentes... simples assim também! Essas coisas não são assunto por lá... não sacodem especialistas... não mobilizam a sociedade...

Existe muita coisa boa no que construímos no papel de colonizador (escrevi isso mais pra ficar bonitinho do que porque acredito mesmo...), mas existe muita coisa boa que destruímos dos povos colonizados e que precisa ser reavivado.

Não sei se em todos os agrupamentos indígenas é assim, e também conversei com algumas poucas mulheres... longe de mim dizer “eles vivem assim” ou “eles não vivem assim” (tô fora de dar uma de besta igual fez o repórter Alexandre Garcia!)

Mas será que não podemos misturar uma cultura com a outra, colher o bom de cada uma? Ao invés de oprimir , apagar e ridicularizar não poderíamos mesclar?

Eles não têm uma pá de problemas que julgamos ter na criação de filhos, porque será? Há algo aí que precisa ser analisado e copiado, não? (favor concordar comigo AGORA!)

O 'carregar bebes', no meu ver, é um exemplo maravilhoso disso! Vejam Aqui e aqui os benefícios desta simples atitude da mãe e que, até pouco tempo atrás, era privilégio das crianças indígenas no Brasil (ou de alguma mãe-branca-bicho-grilo-reacionária). Tá aqui algo fácil de copiar e delicioso pro bebê.

Em Rondônia tem onde comprar, na Slingue, em Porto Velho. E custa muito mais barato que os carrinhos de bebês (que vão te manter longe do teu filho e te fazer raiva na hora de por e tirar de um carro, por exemplo).




Outro ponto que posso facilmente relacionar aqui e que podemos/DEVEMOS copiar:

Amamentação à livre demanda... conforme o fluxo de leite da mãe e o fluxo de emoções do filho.

Sem deseducação, sem indústrias de leite patrocinando eventos para pediatrias, ops!, aliás, sem pediatras dizendo como amamentar, sem leite fraco, bico raso, sem vizinha dizendo que o bebê precisa de mamadeira porque está magro, sem marido dizendo que os peitos são dele e não do filho, sem mãe precisando voltar ao trabalho depois de 4 meses enquanto a OMS manda amamentar exclusivo por 6, sem pressão sobre a mulher para voltar ao corpo e conseguir 'não parecer' que teve filho, sem pressão para a mulher voltar a trabalhar, sem pressão sobre a mulher!!!

Quer mais um ponto a copiar? Te digo agora!

Elas são mulheres que se ajudam e não que competem, como nós (bando de machista que somos! - pausa para ferver de ódio...

Mães, avós, tias, primas, irmãs, amigas... todas cuidam da puérpera, todas cuidam das crianças, todas se cuidam... todas dividem sabedorias, experiencias, e não críticas quanto ao visual da outra.

Parece que o nosso ruim está tão bem sedimentado (‘parecer’ é por pura cortesia) que sequer conseguimos questionar... e quem questiona é doida varrida! (no caso, eu que aqui vos escreve...)

Um exemplo claro da nossa incapacidade de mesclar o bom de cada mundo está no nosso sistema obstétrico. Sim, porque poderíamos ter toda a segurança que os avanços da tecnologia trouxeram e toda a intimidade que o parto, por ser um evento fisiológico e natural da mulher (lembra?), requer... juntinhos!

Mas não, ao invés disto e sob a pecha de evitar a morte e a dor, transformamos todo nascimento em uma patologia... e as gestantes, lindas e poderosas donas do mundo, perpetuadoras da humanidade, foram transformadas em bombas relógio prestes a explodir!

Eu quero conhecer mais esta cultura e trarei aqui todas as minhas impressões.

Recentemente meu filho mais velho me disse:
- puxa mãe, tadinho dos índios, devem passar frio morando na floresta

E eu: - Ué filho, claro que não... eles têm casas, à noite eles vão pras casinhas deles na floresta.

E ele continuou: - Mas como é a casa deles?

Pois é! Eu fiquei morrendo de vontade de saber e de mostrar pra ele!


13 de setembro de 2012

Diário de Grávida: Dias 10... 14 de setembro de 2011...

Há um ano eu completava as 38 semanas! Para os GOs anti-éticos, é o dia perfeito para marcar a cirurgia...

Eles dizem "seu bebê já está maduro", mas meu raciocínio - que eu nada modestamente acho bem coerente - diz: se ele estiver pronto mesmo, vai avisar, obrigada!

Grávidas que me leem, é simples: se o bebê está pronto ele não vai ficar perdendo tempo dentro da barriga, nem se enforcando no cordão, nem envelhecendo sua placenta, nem nada... ele nasce! Simples, mas imensamente mal compreendido.
Só não entra em trabalho de parto, a mulher que é operada antes. Simples assim mesmo, insisto!
Como aqui eu posso falar, vou tentar te convencer de que escolher o dia do teu filho nascer não é bom para ele, nem pra ti! "Quem ela pensa que é?", você vai dizer daí e eu me defendo dizendo que vou usar a lista da Médica Obstetra Doutora (com doutorado) Melania Amorim!

Melhorou, né?

Um nascimento programado por cesariana eletiva (ou seja, antes de entrar em trabalho de parto) pode acarretar problemas de saúde no bebê, por exemplo (o rol não é se esgota, tá?):

1. Maior frequência de problemas respiratórios, de admissão em UTI neonatal e pequeno, porém significativo aumento, do risco relativo de morte neonatal;

2. Maiores dificuldades para estabelecer amamentação;

3. Maior chance de afastamento mãe-bebê e todas as sequelas decorrentes;

4. Nascimento prematuro por erro de datação de idade gestacional ou simplesmente, por retirar antes da hora um bebê que, mesmo a termo, não estava biologicamente programado para nascer;

5. Aumento do nascimento de recém-nascidos "termo precoce", entre 37 e 38 semanas, com maior morbidade em relação aos recém-nascidos com 39 e 40 semanas;

6. Aumento do risco de alergias, atopias, no futuro;

7. Aumento do risco de obesidade na infância e idade adulta;

Isso tudo falando somente do ponto de vista do bebê, ainda têm as complicações maternas.
Dia 12, há um ano, eu tive consulta pré-natal! Minha cara de paisagem nas consultas era comédia pura! Lembro do médico perguntar:
Alguma dor, alguma queixa, sangramento, pressão irregular???
E eu: nada..

Meu marido brincava dizendo que provavelmente os médicos detestavam me atender pois eu os fazia se sentir impotentes! ha ha ha

Discuti com 3 médicos sobre a questão da episiotomia, o 'pique'. Mesmo eu dizendo que não queria, todos diziam que só iriam poder decidir isso na hora. O que em bom português significa "se eu quiser, eu vou fazer sim".
Ao que parece, o índice de episiotomia em Rondônia gira em torno de algo como 110%, tem mais 'pique' do que vagina por aqui...


Dia de consulta, pra mim, era um dia triste de constatar que eu caminhava para um tratamento frio e distante e que meu bebê sofreria todas as intervenções horrorosas que já são desaconselhadas pela OMS... como a questão do corte abrupto do cordão umbilical, que eu já falei aqui.

Acabo de constatar que se eu fiz o diário para mostrar pros filhos quando estiverem maiores, eu já comecei com o pé esquerdo! Não sei que meleca que deu na caneta que usei... borrou tudo, pra todo lado...enfim, mas grávida tem que ter diário...


Teve Conferência de Políticas Públicas para Mulher aqui em Cacoal ano passado. Eu fui representando a Rede Parto do Princípio. Consegui a palavra, falei do não cumprimento da Lei do Acompanhante, das episiotomias de rotina, do excesso de cesáreas, do não apoio à amamentação... parecia outro idioma! Ponto negativo pra Rondônia... snif snif snif
Eu leio este singelo diário e, ao que parece, vejo que eu não conseguia me permitir dizer "quero parir sozinhaaaaa".
Sim, vejo em mim uma eterna ambivalência entre me submeter ao que os hospitais podiam me oferecer e ao desejo profundo da minha alma de ficar em casa e receber meu filho assim, com naturalidade.

Eu chamei pela força, eu chamei pela Deusa do Parto, Ártemis, e ela foi devagarzinho invadindo meu ser e me formando como mulher. Quando penso, hoje, em como eu estava focada, direcionada, segura, tranquila, até assusta... de fato, eu estava assustadoramente calma e serena.

Lia os livros 'Empoderando as Mulheres' e 'Origens Mágicas' e tudo aqui me dava ainda mais certeza do meu feminino...

Há um ano eu estava prestes a viver a maior aventura da minha vida...
Alguém duvida?
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