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7 de maio de 2014

Maternidade Ativa: Eu conserto: o quebrado e a jornada...


 por Cariny Cielo


Ele veio com aquelas mãozinhas gordinhas de crianças de 5 anos e me mostrou o estrago: "você me desculpa?" Disse ele, que havia estragado um presente que ganhei de uma amiga, lindo, feito em madeira e pintado à mão.

A frustração invadiu-me de imediato e, não, eu não consegui desculpar, nem esconder o aborrecimento, nem oferecer compreensão ou entendimento, sequer fui sincera, apenas me chateei e me afastei... é... eu achei que já estava curada de todas as dores e de todas as marcas que o patriarcado deixa nas mulheres e que, muitas vezes, não deixam que nasçamos prontas para a maternidade, mas não estava. Minhas emoções procuraram empatia e harmonia dentro de mim, mas não encontraram e eu fracassei.

Foi então que eu fui me dando conta de que eu poderia ter rido alto, pensado rápido em colar ou remendar, e fazer mais um troféu, em memória da infância gostosa e das emoções em montanha russa que é a energia da vida crescendo em meio à nossa vida. Diante da magnitude que é despir-se, na alma, para receber verdadeiramente um filho em nossas vidas, um bibelô é só um bibelô. E foi então que eu chorei.

Chorei, pensando nas mulheres pelo mundo que adorariam ter um filho para contar suas estripulias por aí... e não podem. E pensei nas infinitas coisas de meus pais, das que lembro e das que não lembro, que eu provavelmente destruí, sem remorso, e que viraram pó na história gostosa da minha infância...

Me veio na lembrança a dor dilacerante que vi nos olhos de amigas que perderam um filho ainda na tenra infância, antes mesmo dele ser capaz de te invadir a vida e estragar coisinhas, fazer artes pela casa. Percebi a angústia de tantas que dormem todas as noites sem saber onde estão seus filhos pequenos, levados pela maldade do mundo, quando poderiam estar em casa, riscando paredes e quebrando enfeites pras mães contarem no trabalho, orgulhosas, o quanto são arteiros.

E pensei nos milhões de meninos e meninas que têm a infância roubada seja pela guerra, seja pela fome, pela exploração de seus corpos e de suas almas inocentes e que não têm deixado registros nas memórias de suas mães. Quanta perda irreparável, quanto débito, quanta carência... registros precisos que serão buscados no futuro e de onde só se poderá retirar o silêncio e a dor.

Tirando todo o resto, se pudéssemos apagar, arrumar, remendar tudo... a única coisa que fica é a emoção. E a emoção vira sentimento que, por sua vez, cria registros profundos. Se forem emoções boas, lembraremos com alegria e êxtase; se forem emoções ruins, teremos o amargor a assombrar na memória.

E eu me dei conta de que quero lembranças boas, eu quero aquela nostalgia gostosa que dá paz no peito e enriquecerá minha velhice e por isso, eu olho esse filho, e me olho, e me reviro e, então, me encontro.

E é aí que eu cresço, e é aí que eu vejo que não está tão ruim assim. E eu o desculpo e perdôo a mim. E eu colo o que foi quebrado. Colo fisicamente, numa bela metáfora, o conserto que faço na alma, constatando que a jornada está sendo bem caminhada, sim! E me orgulho, e respiro.

Começa tudo outra vez, estamos indo de volta pro amor...

27 de maio de 2013

Reflexões: O amor e o sexo na era do espetáculo

Imagem daqui!

por Cariny Cielo

Uma pessoa muito querida me mostrou um texto interessante – e polemico – sobre os benefícios da relação extraconjugal. Eu acredito que textos têm uma vida própria e, de algum lugar mágico, eles clamam por serem escritos, por serem expostos e explodirem, tornando-se concretos, ganhando vida...

Há tempos um texto sobre amor e traição grita dentro de mim, rogando ser escrito... Eu li o texto da Navarro e milhões de palavras explodiram na minha mente... segundo ela, relações fora do casamento seriam boas para a manutenção do casamento. Vamos pensar? Eu sou profundamente fiel, monogâmica e estável. Consigo amar e sentir atração sexual, paixão pela mesma pessoa, sem problemas, sem ser uma frustrada ou estar bloqueando algum desejo.

Acho que a nossa sociedade estragou o sexo e o transformou num espetáculo. Não é mais o sexo pra conexão, pra brincadeira, pra união do casal, pra descarga de carmas, pra relaxamento, pra meditação. É o sexo da quantidade, dos acessórios, das metas, do ranking...

Todos monitoram a vida de um casal e imaginam se eles transam sempre, se transam bem, se usam brinquedinhos, se fazem de tudo e mais um pouco... os próprios casais não tão seguros de suas escolhas e preocupados também com esse excesso de publicidade, talvez acabam por questionar, e muito, a própria vida sexual que levam, imaginando que a dos solteiros ou a dos que tem casamentos 'abertos' sejam infinitamente melhor e mais gratificante... mas será?

A questão de que 'trair' faz o casamento melhor está, na minha opinião, no vício por adrenalina, no vício por eterna angústia que algumas pessoas têm... Veja o que diz um psicoterapeuta sobre relações sexualmente abertas e amor livre:

“É fascinante, assustador, maravilhoso, doloroso, prazeroso, novo, imprevisível, incontrolável, rico, maluco, romântico, caótico, aventureiro.”

Isso não tem nada a ver comigo! Mas consigo perfeitamente compreender que tem muita gente doida por isso! Concorda?

Eu, muito particularmente falando, não vivo atrás de loucura, susto, maluquice, romance, caos e aventura... Quero pé no chão, quero o natural, sem artifícios, quero o amor real, aquele que ama o bom e o ruim, o saudável e o doente... o sexo um dia ótimo, outro dia bem comum, sem floreios, sem rebusques, sem adornos, sem adereços, sem nada de fora.

O sexo, eu costumo dizer, que é a única coisa no mundo que mesmo ruim, é bom! Até aquele dia que é básico, que você não se conecta tanto, que não está tão disponível, mesmo assim, é bom... foi fisicamente bom, ativou a circulação, conectou o casal, lavou o amor...

Tem aquele outro dia em que é espetacular e estes ficam guardadinhos na nossa memória sexual, mas nem todos os dias são assim... e nos dias que não é assim, é uma delícia também... porque tem que ser ruim? Porque esse medo do comum?

Concordo que, muitas vezes, um caso fora da relação possa dar um 'up' no relacionamento. Até porque balança as estruturas, põe em risco, faz os dois abrirem os olhos e se olharem de verdade, talvez até pela primeira vez. Às vezes a mulher passa a se cuidar mais, a se amar mais... às vezes o homem volta a se preocupar como peso, com o vigor, fica mais observador e cuidadoso da relação.
Inclusive, se o casal souber passar a adiante e compreender que só entra um terceiro numa relação a convite dos dois, ou seja que não há vítimas nem culpados, que os dois aceitaram e permitiram o ingresso do terceiro, o casamento pode progredir, e muito, depois de uma traição. O amante passar a ser, no meu entender, um bode expiatório, sabe? Para 'acordar' o amor...

Como temos dificuldade em perdoar, em lavar a alma, em viver e superar crises, como crescer dói, preferimos o divórcio, e dali uns anos estamos novamente vivendo o morno do amor, com o novo amor que, de amante, passou a ser a rotina. Acabou a adrenalina novamente, acabou a paixão... e lá vai o outro atrás, de novo, de um ‘novo’.

Eu tive uma amiga cujo marido era extremamente fetichista, tarado mesmo... a gente pode até pensar que “nossa, que legal um homem tarado que te pega na cozinha lavando louça, te joga na mesa, te chama de lagartixa”, mas ela era bem estressada com isso... sabe porque?

Porque cansa! Porque não é natural, não é 'em paz'. E a guerra, embora sirva pra catarse, ela cansa, exaure, esgota...

Ela queria um homem que a quisesse também com camiseta furada, com calcinha bege e queria não ter que pensar todos os dias no espartilho, na calcinha sexy, nas velas, enfim... Ela queria na cama fofinha e não sempre em pé no jardim... ela queria conexão com ela e não com os vibradores, os chicotes... ela queria o sexo por si só e não o sexo de performance... ela não queria ele olhando pro espelho, ela queria ele olhando pra ela, ou olhando pra dentro de si.

Eu vejo, pela minha própria vivência de sexo, que a sexualidade serve para a gente viver várias energias diferentes... ser mais loba, mais sexy, ser mais calma, mais mansa, assumir as rédeas e num outro dia se deixar levar... enfim... é uma caminhada junta, que, no meu ver, se deve fazer juntos, para que o sexo fique cada vez melhor... porque eu cresço como mulher quando me solto e meu parceiro cresce como homem. Porque eu posso surpreendê-lo e ele pode me surpreender também... porque eu não sou a mesma e não me deito com o mesmo homem todas as vezes... porque eu posso ser muitas, e porque, para o sexo, infinitas são as possibilidades do amor...

Pra quê procurar outras pessoas se podemos ter e ser várias dentro de nós mesmas em busca de proporcionar prazer ao outro? Eu entendo que deve ser difícil ficar na monogamia, porque isso envolve muita intimidade. E intimidade gera exposição e exposição gera insegurança, vulnerabilidade.

E muitos casais estão juntos, mas não tem intimidade. Não se abrem ao outro, não se expõem, não pedem, não experimentam, não mostram as feridas, não se mostram em carne viva... esse é o desafio! Arranjar outro é não me expor de verdade a nenhum dos dois... (ou dos três, dos quatro!).

Eu estou há 8 anos com um homem e ainda me surpreendo com ele. Ainda me surpreendo comigo mesmo e com o que ele faz de mim e eu faço dele. Será que será assim pra sempre? Daqui 20 anos estarei ainda conectada sexualmente com ele? Quem sabe?

Mas vivo pensando que nossa sexualidade é algo vivo, que evolui, que muda, que cai, que sobe, tem que ter uma maré, uma descoberta... tem o inverno, tem o verão... aceito o inverno numa boa não como um 'mau sinal', mas como parte do pacote 'ser humano'. E desfruto do verão, aposto nele...

Vários parceiros vão me dar o que? Uns 30% deles? Enquanto posso caminhar pra ter 100% de um ou, inversamente, eu me dou 20-30% pra vários, ao passo que posso traçar uma jornada para conseguir me doar 100% para um... num terreno seguro, num lugar conhecido meu e da minha psiquê. E, na medida que aceito esse um, eu cresço pois o outro me dá as ferramentas necessárias pro meu aprimoramento pessoal, pro meu crescimento...

Não adianta dizer que se ama e se entrega totalmente a alguém que acabamos de conhecer... e que isso traria satisfação pessoal e solucionaria os problemas da nossa sociedade da traição! Porque o amor é profundo... e as relações extraconjuguais estão ainda no raso do amor. Tanto prova que assim que elas se aprofundam, muitas vezes perdem a graça, perdem o glamour, e confundem os amantes que antes estavam alucinados com o novo! O novo agora é velho e lá vem a vida novamente nos chamando a amar o velho... a aceitar a calmaria...

Existe o rompante de amor? Existe! Tem a paixão avassaladora que volta e meia nos visita. Mas o amor é vertical. Ele é pra baixo, ele é fundo... ele penetra... o amor é estável, é rotineiro, mas é na vivência do amor natural que provamos da maré da paixão...

O exercício da criatividade, ativando o chacra básico, nosso centro básico de energia, o fogo kundalini, permite uma vivência de auto-conhecimento poderosíssima, principalmente para nós mulheres inseridas numa sociedade patriarcal e machista...

A criatividade está diretamente relacionada com sexualidade. Nosso fogo criativo é nosso fogo sexual. Porque será que a natureza pôs a criatividade tão intrinsecamente ligada à sexualidade? Porque o sexo é nossa conexão (com o outro, com a gente) e, ao mesmo tempo, nossa desconexão (do mundo, da razão, da casca). Ele nos eleva espiritualmente, emocionalmente, mas nos lembra que somos bicho. Nos liga e nos desliga... é o intelecto e o instintivo... a loucura dos que se amam... a diversão e o deleite do amor...

A falha não está na monogamia. Ainda que sejamos forçados a concordar que, na imensa pluralidade de indivíduos no mundo, ela pode não servir para todos, não é ela a vilã dos relacionamentos. Não é ela a destruidora de casamentos.

Não acredito que a raiz da traição esteja na obrigatoriedade da monogamia. Porque trair o outro, é, antes ainda, uma traição de si mesmo. É atestar que não se está seguindo a vida que se gostaria de seguir.

O que estraga o amor monogâmico talvez seja nós mesmos, viciados que estamos em espetáculos! Tudo, inclusive, o sexo, tem que ser adornado, enfeitado, fantasiado, ainda que o conteúdo seja de qualidade duvidosa. É isso que vemos o tempo todo nas revistas, na TV... a pornografia de baixo calão e misógina, a coisificação da mulher, a indústria do sexo maquiado. Toda uma parafernália vendida como condição necessária para se atingir um orgasmo!

Tem a posição certa, a posição melhor. O brinquedinho infalível. O gel, o óleo, a bolinha, o cheirinho. Ninguém mais quer saber do cheirinho verdadeiro e único, que só seu parceiro tem! Vamos maquiar o cheiro também. Com um é pouco? Melhor chamar mais gente. Ereção natural? Que nada, uma pílula e você fica a ponto de bala por horas. Tá com a cabeça cheia? Toma esse remedinho que o sexo fica ótimo.

Esquecemos que sexo é tão natural, tão fisiológico que beira o grosseiro...

E esta pressão do sexo maquiado recai com muito mais força e violência sobre nós, mulheres. Nossa roupa íntima deve estar a serviço do sexo e não do conforto. É nossa obrigação manter a ‘chama acessa’ do casamento. É imposta, à mulher, a responsabilidade por seduzir...

A sedução deve ser natural, inerente ao casal que se ama. Sem artifícios, sem tanto espetáculo, sem esforço, sem preocupação com performance. Volta e meia é possível maquiar? Claro que sim e é ótimo! Mas, como sempre, esquecemos a medida e partimos pro excesso... e ao que me parece o caminho de volta é bastante tortuoso!

Viciados que estamos em adrenalina, em olhar o do outro, em desejar o que não se tem. Nossas vidas estão todas sendo expostas através das redes, e vemos a vida de todos também. O sexo saiu do nosso quarto e está estampado pra todos os lados. A intimidade não é mais íntima, é exposta, é mostrada, é imitada e invejada! Nossa relação sexual não mais nos pertence! Vivemos angustiados na buscar pelo ‘ter’. E, nesta busca, o orgasmo também virou item de consumo... no melhor estilo: ‘quanto mais, melhor!’. O outro, por sua vez, é apenas um mecanismo de conquista do tão almejado orgasmo!

Um resumo? embora esse tema seja inesgotável e não garanto que não volto aqui pra escrever mais...

Eu gosto muito e me faz bem comer feijão com arroz de rotina, bem caseiro, bem conhecido e bem temperadinho, bem no meu paladar. Feito especialmente pra mim, pra me agradar, sem imitações, sem corantes, nem conservantes, sem estimulantes de paladar! E, volta e meia, é uma delícia se surpreender com grandes banquetes à luz de velas inesquecíveis e estasiantes...

E como vai o seu feijão com arroz?


2 de maio de 2013

Reflexões: O amor e seus votos...

Imagem daqui


por Cariny Cielo

Este texto nasceu há dois anos atrás, quando eu estava grávida do caçula e precisa de uma mão amiga pra me guiar naquela que foi a maior jornada de fé na vida que já vivi...

Estava abandonado na relação de rascunhos e, como estou escarafunchando todas as gavetas e metamorfoseando todo esse blog, resolvi trazê-lo a tona!!!

Liga o som na música 'Endless love' e pega o lenço...


Nós amamos, no cotidiano da vida, de várias maneiras. Debaixo da rotina boba do acordar-trabalhar-comer-dormir, corre, pelos subterrâneos de nossas almas, a chama do amor que temos pelo nosso homem, pelos nossos filhos, por nós mesmos, por Deus, pelo mundo. O variar dos acontecimentos, as tormentas próprias de um mundo de dualidades não alteram estes amor verdadeiro. No entanto, ele morre, nasce, cresce, diminui, muda de astral... tudo ao sabor da maré da vida eterna.

Com uma frase, talvez despretenciosa, um amor fez-me assinar votos de eternidade quando segurou minha mão e pulou, junto comigo, no ‘familiar’ abismo do desconhecido.

Cansado de me ver peregrinar pelo direito de parir um filho com dignidade, ele sentenciou: “Eu sou a única pessoa que não vai te decepcionar na hora”. Sim, a única certeza que temos hoje, eu e meu bebê, é a de que o pai dele estará lá, ele estará lá por nós, o que quer que esse "lá" signifique. E foi assim que, de repente, esse homem cresceu mais para mim, ganhou mais forma. Quem faria um voto desses? “Sim, eu vou com você rumo ao desconhecido; eu mancharei minhas mãos com o sangue do teu corpo; eu viverei contigo o evento mais feminino do universo: o parir; eu serei teu esteio naquilo que sequer conheço; eu acredito em ti; eu acredito no invisível; eu acredito no que está totalmente fora de mim”.

Foi aí que me dei conta do que dizem os livros sagrados quando trazem que homem e mulher transmutam-se em um só corpo e em um só espírito. Ainda que outro, completo e alheio a mim, ele é um comigo, na mais profunda acepção do significado de unicidade.

De onde vem esta coragem que só de eu sentir, enche-me de emoção por ver, quase que concretamente, a confiança e a fé absoluta num propósito? Nós temos o amor cotidiano. Aquele que briga, que cansa, que cai, que levanta. Aquele que exige esforço, dedicação. Aquele que se esforça para enxergar o bom, aquele que aceita o ruim, como parte do acordo. Mas, volta e meia, sou assolada por estas manifestações de amor que me foge ao entendimento concreto, ao entendimento do homem e mulher de Marte e Vênus. Aquele que nos tira do lugar-comum e nos leva para outra dimensão, onde só existe luz; e o mundo, como o vemos, não é nada mais do que poeira cósmica.

28 de maio de 2012

Reflexões: Exército de vadias...

Maíra Streit (Marcha das Vadias de Ponta Grossa PR)

por Cariny Cielo

Esta semana, movimentos pelo Brasil dão gritos pelo fim do machismo na sociedade. A 'Marcha das Vadias' vem para por em choque tudo que homens e mulheres entendem como democracia e igualdade de direitos.

A desigualdade talvez não exista mais nas leis, mas existe dentro de cada um de nós, principalmente de nós mulheres! Sim, somos as maiores machistas...

Eu era extremamente masculina! Carrego o útero marcado eternamente pelo bisturi como ícone de uma mulher que não acreditava no feminino e calou, por anos, todos os instintos da psiquê de fêmea. Mas, porque eu fiz isso? De onde nasce em nós, mulheres, a postura de denegrir o que é deste pólo?

Cresci castrada estudando em colégios de freiras e sonhando em ser racional, fria, forte, invencível, competitiva, 'dura de doer': era o que eu queria para mim! Acreditava que seriam estes os atributos das bem sucedidas. Mas eu não era assim e a minha dor vinha de não conseguir conquistar o posto de mulher que a sociedade esperava de mim.

Perfeita! Que, de maneira velada, significa: Magra, arrumada, saudável, disponível, super filha, super mãe, super amante, super esposa, super amiga, super profissional! A minha concepção era a de que eu só servia, se conseguisse tudo isso. O amor só apareceria se eu fosse tudo isso. O sucesso só chegaria se eu fizesse toda a lição de casa, direitinho...

Em resumo, eu não precisei ter pai, irmão, amigos ou mesmo namorados machistas, eu já carregava todo o machismo necessário para acabar com uma mulher. E, quando chamei por ela, na hora do parto do meu primeiro filho, ela estava muito longe, muito fraca, muito nebulosa para mim.

A boa notícia é que ela nunca morre! Li isso da Clarissa Pinkola no livro 'Ciranda das Mulheres sábias' e, pouco a pouco, eu fui alimentando minha mulher, meu feminino, minha essência... fui nutrindo minha raízes. Todo dia é dia de ser mulher! De chorar, de pedir, de doar, de sentir, de transformar, de motivar, de criar, de empreender, de confiar, de lutar, de matar e de morrer, de inspirar... são nossos estes verbos...

As mulheres saíram para gritar que são seres humanos! Nem melhores, nem piores... só mulheres! Que por trás das exigências de ter cintura de pilão e peito empinado, temos sentimentos, opiniões, caímos e levantamos, como todo mundo. Que valemos pelo que somos e não pela imagem que passamos. Que nossos corpos não são para diversão nem pro terror de ninguém. 

Já ouvi maridos dizendo que exigiram uma cesárea na esposa para que o 'parque de diversões' deles não fosse maculado... que amamentar seria competir com o filho pelo mesmo 'brinquedinho'. Antes de julgar os homens que falam assim, sempre em tom jocoso; penso que tipo de mulher admite ouvir isto? Porque é que rimos destas e de outras tantas piadas? Porque nos odiamos, nos invejamos, nos destruimos, umas às outras?

Porque temos filhos para preencher um vazio ou para promoção social? Porque alimentamos um casamento falido? Porque entregamos nosso corpo, no sexo, na gravidez, no parto, como se fôssemos só carne, sem alma, sem sentir? Porque sempre achamos que 'ela mereceu', que 'bem feito', que 'também, vestida assim', que 'quem mandou engordar'? Porque maldizemos e criticamos todas que rompem com este sistema superficial? Estamos todas perdidas e é preciso muito grito para mudar tudo isso...

E se ser vadia nos dias de hoje é ser mulher selvagem, então, sim, eu sou! Não quero o rótulo de destruir o masculino; mas se hoje é preciso escancarar portas, então, eu ajudo sim a chutar e grito: Sou vadia sim, é aí?

14 de março de 2012

Reflexões: A invisível burca... e o dia internacional da mulher


por Cariny Cielo

Dia internacional da Mulher!!! Comemoramos grandes avanços na redução da violência e na conquista da liberdade deste gênero que, há séculos, foi oprimido pelo crescimento de uma cultura patriarcal.

Comemoramos o poder do voto, a participação política, a inserção no mercado de trabalho, a chefia das famílias, ao passo que, num momento único, talvez mais importante, de nossas vidas – a gestação e parto – abrimos mão, deliberadamente, da liberdade individual tão acirradamente defendida e seguimos, qual boiada pro abate, fazendo o que dizem ser melhor para nós.

Sim! Votamos e somos votadas. Podemos ser chefes de Estado, concorrer à Presidência do País. Estamos no Congresso Nacional, nas assembléias e câmara de vereadores do Brasil afora. Chefiamos famílias. Somos, muitas vezes, as únicas a trazer renda em casa. Entramos em todas as profissões, mesmo a eminentemente tidas como masculinas. Somos poderosas, mas, a partir do momento que ficamos grávidas e vamos parir, perdemos todos os nossos poderes, auto-estima e deixamos que tutelem nosso corpo, ferindo de morte nosso feminino.

É! Nós deixamos que nos digam como viver nossa sexualidade, como gestar, como alimentar e educar nossa cria, deixamos que monitorem nosso bebê no sagrado claustro uterino; que nos imponham um medo paralisante quando deveríamos estar em época de graça e encantamento por perpetuar a humanidade. Não somos mais as poderosas donas da Vida. Somos as coitadinhas correndo perigo e carregando um estorvo que nos tira a sensualidade e a vida social.

Deixamos que mintam para nos, descaradamente. Que digam que não iremos conseguir fazer algo para o qual nossos corpos foram moldados há milhares de anos para fazer, sem auxílio. Permitimos que transformem em patologias e regras, todas as exceções fisiológicas que acompanham os eventos sexuais femininos.

Realizam em nós a única cirurgia do mundo feita sem o consentimento do paciente: a episiotomia. Deixamos que nos digam em que posição ficar, a despeito do que o nosso corpo pede. Ouvimos piadinhas, brincadeiras de mal gosto, palavras de ordem, termos chulos e até cantadas, quando estamos suscetíveis e vulneráveis, em pleno trabalho de parto.

Sob a pecha de ‘fazer o que é melhor para nós’, tomam de nós nossos corpos e manipulam o nascimento de nossos filhos com drogas, manobras violentas, profilaxias duvidosas.

Permitimos que levem de nós nosso bebê recém-nascido, tão carinhosamente gerado e carregado no ventre por meses, para ser maltratado, ops!, analisado e deixado em solidão, correndo riscos os mais diversos. Permitimos que tratem nossa cria, para nós única e especial, como apenas só mais um entre dezenas de outros. Deixamos que deem a ela glicose ou leite artificial e não o nosso vital colostro.

Ficamos mudas, enquanto vemos propagandas que humilham e insultam a mulher, tratando-nos como objeto. Rimos dos gracejos machistas. Modificamos nossos corpos, muitas vezes a qualquer custo, para atender uma demanda opressora de beleza ou simplesmente agradar um homem. Ouvimos uma voz dentro de nós nos inclinar a dizer ‘bem que ela mereceu’ se vemos uma mulher pouco vestida sofrer violência sexual.

Deixamos nossos filhos com poucos meses de vida aos cuidados de outros, dilacerando nossos corações de mãe, mas porque não podemos sair do mercado de trabalho. Tiramos-lhes o peito porque alguém diz que seios são para pôr silicone e não armazenar leite.

Ainda usamos a maternidade como uma forma de promoção social ou, pior, como moeda de troca para manter um casamento infeliz. Casamento? Ainda sobrevivemos a casamentos por não suportar os olhares reprovadores lançados sobre uma mulher sozinha. Permitimos que um homem – seja ele pai, marido, irmão ou médico – seja responsável pelas nossas vidas, escolhas, saúde e felicidade.

Achamos absurdo o uso de burca em algumas culturas do Oriente Médio? Por aqui, a burca existe, só não é de tecido. É invisível, é dissimulada, vem sorrateira e, com nossa ajuda, nos toma a alma feminina.

E pasmem: não oferecemos nenhum tipo de resistência. Não gritamos, nem xingamos, nem nos revoltamos. Não denunciamos o médico que nos cortou o sexo sem nos consultar; não questionamos as indicações (cada vez mais folclóricas e menos científicas) de cirurgias para o nascimento dos nossos filhos. Não damos queixa do marido que violentamente nos oprime, dia após dia, pelas mais diferentes razões. Pior, vestimos a máscara da conivência com as mentiras, com o silêncio mortal, com a castração, ainda que velada, do feminino em nossas vidas.

Enfim. É triste, mas somos nós as maiores ‘machistas’ do mundo moderno.

Dia 8 de março? Nosso internacional dia...

Dia de tomar posse das nossas aptidões, da nossa liberdade constitucionalmente tutelada e exercê-la física e emocionalmente. Exercê-la no campo das idéias, das indignações, dos questionamentos.

Dia de nos libertarmos da cultura patriarcal que nos faz achar normal a mulher-objeto. Dia de chamar para nós a responsabilidade pelas nossas escolhas, pelas nossas vontades, pelas nossas opções e assumir o risco disto tudo.

Dia de promover o feminino, não para sub-julgar o masculino, caso contrário entraríamos, novamente, em desequilíbrio, repetindo o mesmo erro, na eterna guerra dos sexos.
É dia de celebrar, sim, com certeza! Por tudo que conquistamos até aqui. E é dia também de rasgar a invisível burca que nos oprime.


Imagem: Mulher afegã olhando através de sua burca.
Foto Natalie Behring-Chisholm (daqui)

1 de outubro de 2011

Reflexões: Sobre partos e sobre riscos...


por Cariny Cielo

"Ah, você não tem ideia dos riscos que se corre tendo um bebê em casa". É o que se ouve por aí...

A institucionalização da cultura do 'hospital risco-zero' é tão grande que perdeu-se completamente a lógica nas análise. Quantas mulheres ouvem dos médicos, da família, da comunidade que ao se submeter a uma cesárea eletiva ela está assumindo um índice de riscos maior do que ter um parto natural em casa? Nenhuma! Ela caminha orgulhosa, certa de estar fazendo o melhor para si e para seu bebê. Não está!

Estatisticamente, os riscos de uma cesárea eletiva são cinco vezes maiores que o de ter um parto natural em casa. Interessante, não? Todos comentam horrorizados sobre a coragem de se ter um filho em casa! Mas, não se trata de coragem, se trata de bom senso. O parto resultante de uma gravidez de baixo risco será muito mais seguro em casa do que em um ambiente hospitalar.

É preciso coragem, sim, para se submeter a uma cirurgia de alta complexidade por pura comodidade, conveniência... É curioso observar que em todos os outros aspectos do tratamento humano, a opção pela via cirúrgica é sempre em último caso, depois de se tentar todas as outras formas de atuação, ao passo que, para nascer (um evento puramente fisiológico), escolhe-se logo: cirurgia!

Se as mulheres tivessem real conhecimento dos ricos, a cirurgia voltaria a ser ministrada nos índices sugeridos pela Organização Mundial de Saúde, por volta de 10-15%, e não nos assombrosos 67% que tivemos em Rondônia, por exemplo.

A distorção está em acreditar que a cirurgia é o caminho mais seguro! Não é. Talvez seja o mais cômodo para os obstetras que deixaram de ser parteiros para serem cirurgiões. Mas duvido que algum tenha coragem dizer que a cirurgia é o melhor caminho para a mãe e o bebê: se disser, está sendo, no mínimo, anti-ético.
Curioso observar que os riscos de ter bebê em casa são infinitamente menores do que sofrer um acidente de carro, mas, mesmo assim, todo mundo continua viajando e ninguém faz um testamento a cada vez que enfrenta uma rodovia para viajar. Que distorção é esta? Corre-se riscos em tudo, não existe 'risco-zero', como querem fazer crer muitos médicos. A única diferença é que, no hospital, eles estão protegidos pelo espectro: qualquer morte no hospital é fatalidade, 'tinha que ser'; ao passo que qualquer morte em um parto domiciliar será sempre negligência! Uma completa distorção de valores e de análise de riscos.
O hospital como o vemos hoje, acreditem, não é o local mais seguro para uma gestante de baixo risco ter seu bebê. É o local mais seguro para tratar do que fugir do fisiológico, mas o menos adequado para garantir a fluidez do parto. Talvez com o tempo e a melhoria da qualidade no atendimento obstétrico, o hospital passe a ser um local apto a dar assistência ao parto natural e com a garantia de atendimento médico, se necessário.

O que vem destruindo o nascimento nos hospitais é a 'manipulação' que se faz deste. É o atendimento rotineiro, é transformar a exceção em regra.
Mesmo com todas as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde e com as evidências científicas, ainda se faz episiotomia de rotina, corte abrupto do cordão umbilical, separação da mãe e bebê após o nascimento, posição deitada para o momento expulsivo do parto, analgesia, isolamento da mãe, enema, tricotomia, jejum, limitação de movimentos, acesso venoso, roupinha de doente, violência verbal, descaso e desamparo da gestante. E, se depois de todo esse 'kit anti-fisiológico', a mulher não conseguir parir (o que acontece na maioria dos casos) dão-lhe a cirurgia como opção salvadora! Foi assim que o Brasil conseguiu se transformar em um fabuloso 'fazedor de cesarianas"...

Em muitos lugares do mundo as mães são assistidas em casa, onde se sentem mais seguras. A propóstio, a Organização Mundial de Saúde recomenda que a gestante seja atendida onde se sente melhor. Pode ser em casa, pode ser em um hospital, pode ser em casas de parto...
Com o devido apoio e respeito a grande maioria das mulheres preferiria parir, a serem operadas. No meu caso. Eu sabia exatamente onde eu estava. Conhecia as hipóteses, as alternativas... estava em terreno seguro.

Se eu corri riscos? Sim, corri riscos.

- Muito menores do que se tivesse escolhido fazer uma cirurgia; e 
- Menores do que sofrer um acidente automobilístico

Então, eu vou continuar buscando atendimento obstétrico para meu parto no local onde me sinto mais segura, particularmente, em minha casa.

Ah, e vou continuar tendo coragem de viajar de carro pelo Brasil afora, a despeito dos terríveis números anuais de mortes e acidentes!

Não, não se trata de coragem...  Estamos falando de fé!

1 de fevereiro de 2011

Reflexões: recordando a chegada: o desafio do feminino...


por Cariny Cielo

Acordo e o que eu vejo é só o branco do teto de um quarto frio e sem vida. Alguém geme ao meu lado. Presa à cama pelas praxes médicas de um nascimento bruto, é minha mãe, tentando ser mãe e ficar feliz com a minha chegada depois de todas as desilusões que envolveram sua figura de mulher na vida. Infância restrita, adolescência enterrando o pai e tendo que aceitar a tirania da mãe, casamento-fuga, maternidade angustiada e um divórcio-fuga.

Todos os sonhos de expressão feminina postos de lado para manter um castelo ridículo, construído de tijolos vazios. O puritanismo castrador, o preconceito velado, o não-prazer, o não-sentir, o não-sou! “Odeio ser mulher”, assim ela dizia sempre que tinha que conversar com o espelho. Que alto preço pagamos nós, mulheres, em não escutar a natureza fêmea, a mãe-terra.

Um dia, em sua gestação, eu lhe apareci bebezinha em sonho dizendo, com a mão em punho e braço erguido: - “mamãe, eu sou é mulher”. Foi assim que eu cheguei, dizendo, sussurrando, gritando para elas todas e para o mundo: EU SOU MULHER!!! Foi assim que eu me fiz mulher, lutando contra, indo de encontro, batalhando, rebatendo, defendendo, insistindo, peregrinando... ser mulher não foi uma vivência suave e florida, como talvez deveria ser. Afinal, nós somos suaves, nós somos floridas...

O que é mulher? Vamos começar pelo que não é! Não é a executiva disputando igualdade de salários, nem a marombada da academia com coxas masculinas. Não é gritar que não precisa do masculino para se valorizar e se debulhar em lágrimas e histeria a menor desilusão amorosa. Não é, tampouco, a subserviência estúpida de entregar ao outro as rédeas da própria vida.

Mulher é um cavalo selvagem, livre, forte e feliz. É a natureza poderosa que depende e é auto-suficiente em um só ser. É aquela que sabe que quanto mais dá, mais tem e que ama como expressão de sua existência e não como moeda de troca. É a terra úmida onde em se plantando tudo dá. É a lua, misteriosa e bela. É a mata secreta e perfumada.

E porque querer a fêmea? Para preencher um feminino vazio? Para eternizar um movimento feminino? Não. Esta não seria a mulher madura que hoje sou a pensar, até porque não me entrego a devaneios tão crus. E depois, seria muita responsabilidade para um ser ter que nascer com tamanhas expectativas e idéias preconcebidas. Eu mesma, agora, mulher-mãe, sei que meus filhos nasceram para ser o que quiserem ser, sem planos, sem estereótipos, sem ‘assim seja’. Eu sou e serei para eles o primeiro abrigo, o carnal e, posteriormente, o ancoradouro espiritual e emocional para que realizem aquilo que intuitivamente aprenderem a descobrir que nasceram para fazer.

Meu rito de passagem não me permite mais olhar para trás. Agora eu sou mamífera mesmo. Sou mulher não só na carteira de identidade, mas na carne, no osso, nas entranhas. Recebo, gero, dou a luz e amamento com meu sangue e isto não me espolia, mas me empondera. E por isso eu tenho a capacidade de dar com toda a minha força e poder. Eu agora sou deusa, sou poderosa! A delícia de chamar, receber, gerar, parir e amamentar um semelhante e permitir que este ser floresça é a chama do meu momento. 

Quero ser a fêmea-mulher verdadeira que ouve o que ninguém mais ouve, que vê o que está por trás de tudo, que sente com a pele e com o espírito, a do sexto, sétimo, oitavo sentido. É o que sou. Por isso, caminho solitária no meio do artificial, e minha voz sequer dá eco.

Não me fantasio de mulher, eu sou mulher! Quem me entenderia se hoje a menstruação é chamada de sangria inútil? Mas, eu sou! Sou a mulher-fêmea que ama e reverencia o sangramento sagrado mensal, que adora os seios caídos que sinalizam que amamentaram os filhos, que carrega o templo sagrado do útero como expressão da criação e da perpetuação da humanidade. Que beija os pés do masculino, pois conhece exatamente seu lugar na criação. Isso é ser mulher.

O masculino centraliza minha existência hoje, pois precisei reverenciá-lo. Era o último estágio. Agora sei quando é que preciso deles, sei onde é que eles estão. Por isso um marido não conseguiu chegar a tempo no parto natural. Era preciso reforçar as fêmeas, unir as mamíferas em torno do maior de todos os ritos, o nascimento. Agora que sei como gira o mundo e como as almas se atraem. A delicadeza, a pureza, a suavidade finalmente chegaram e invadiram meu ser...

A inspiração me bateu a porta e uma brisa trouxe-me as boas novas. Traga-me, cosmo sagrado, a criatura divina que hoje enxerga o ambiente perfeito para germinar e nascer.

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