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11 de abril de 2020

Relato da Ana Deise: Cesárea com doula impedida de atuar em Rolim de Moura



***alerta de violência obstétrica***

Durante a gestação sempre fiquei tentando imaginar como que seria o meu relato de parto e hoje eu tenho a missão de escrevê-lo. Era madrugada do dia 12/01/2019, lembro-me de ter acordado por volta das 04:00 horas para uma ida rotineira ao banheiro, foi quando percebi que havia perdido o tampão mucoso. Só Deus sabe como fiquei feliz naquele momento, pois sabia que o momento que eu mais almejava estava chegando, tomei um banho e tentei descansar, pois sabia que precisava de forças para o trabalho de parto.

Por voltas das 05:00 da manhã comecei sentir fortes contrações, elas variavam em um espaço de tempo, então constatei que estava nos pródomos. Minha alegria era imensa, primeiro avisei ao meu esposo, que tentou se manter calmo naquele momento e me dar todo apoio necessário, em seguida avisei minha doula Suelen Leal e logo em seguida minha amiga e também enfermeira Elisandra. Elas ficaram felizes e me passaram todo apoio e tranquilidade que eu precisava naquele momento e me pediram para descansar o máximo que eu pudesse.

Às 10:30 da manhã do dia 12/01 minha doula foi ver como eu estava, ouvimos os batimentos fetais que estavam em 147 por minutos, ela me examinou e viu que eu estava bem e feliz e o mais importante, meu bebê estava muito bem. Ela disse: “Deise, sabe que pode demorar então se alimente e descanse, logo você entrará em trabalho de parto, precisará estar bem”. E foi o que fizemos, almocei, descansei e até dormi um pouquinho, eu estava tranquila afinal, tínhamos nos preparado para aquele momento.

Às 15:00 minha amiga Elisandra chegou em minha casa. É importante ressaltar que houve sim um planejamento de parto, tanto que eu tinha uma doula e uma enfermeira me dando suporte. Faríamos o trabalho de parto em casa e só iríamos para o hospital na fase latente do trabalho de parto. Assim que a Elisandra chegou ouvimos os batimentos do bebê e ele estava muito bem, se mexia com frequência, era como se quisesse me dizer que aquele era o momento. Logo em seguida minha doula chegou, sentamos, conversamos e demos risadas, o momento era de felicidade, todos estavam com o coração cheio de alegria.

Foi então que as contrações ritmadas começaram, e junto com elas o trabalho da Suelen que era me orientar e me apoiar em relação a tudo que eu devia fazer naquele momento. A cada contração eu agachava e minha doula fazia massagens em minhas costas, isso me ajudava relaxar, mas não parava por aí, em todo momento eu estava ativa, caminhei, agachei, fiz exercícios com a bola, tomei banho morno, descansei, comi... Ufa, como trabalhamos! Mas em meio a tudo isso, não havia tristeza, sofrimento, angustia e desespero, pelo contrario, era só felicidade.

Meu filho estava chegando e durante os nove meses de gestação eu havia me preparado para aquele momento, fiz o possível com relação ao que se tratava de saúde e de preparo. Durante a gestação me alimentei corretamente, fiz atividade física e sempre pensei em fazer o melhor para o meu filho, tanto que esperei o momento dele.

Por volta das 20:30 da noite o processo do trabalho de parto já estava significativamente evoluído, então resolvemos que era o momento de irmos para o hospital. Tomei um banho morno e relaxei meu corpo, meu esposo e a enfermeira colocaram as malas no carro. Eu me troquei, penteei o cabelo, então disse “estou pronta”! Não consigo descrever o que se passava na minha mente naquele momento, era uma mistura de dor das contrações com alegria do momento de ver meu filho chegando.

Então as 21:00 horas da noite demos entrada no hospital, passamos pela triagem e logo em seguida fomos encaminhados para a ala das gestantes, e foi ali que toda minha tranquilidade e felicidade acabaram. O medo, pavor e angustia tomaram conta de mim em frações de segundo. A enfermeira que estava no plantão chamou pelo meu nome para o médico me examinar, minha doula, que tem entrada permitida pela Lei Das Doulas, entrou comigo. Porém, assim que entramos e o medico a viu.. o circo dos horrores começou.

Primeiro, que a falta de educação era maior que qualquer coisa e, segundo, que quando entrei na sala de parto o médico não me cumprimentou, apenas me disse para tirar a calcinha e deitar para ele me examinar. Então eu disse: “Boa noite Dr., eu já estou em trabalho de parto”. Ele, como se não tivesse me ouvido, olhou para a doula e disse grosseiramente, “Quero que você saia e fique lá fora, pois eu preciso trabalhar”. Ela disse: “Dr. eu sou a doula dela, posso acompanhá-la”. Ele muito friamente, sem se importar em me respeitar, sem se importar com o que eu estava sentindo disse: “Não me importa o que você é, só quero que saia”. Eu que já estava deitada na maca para ser examinada indaguei: “Mas Dr. ela é minha doula, deixa ela ficar”, mas ele continuou dizendo que se ela continuasse, ela que faria meu parto, queria até que ela assinasse que ela era responsável por mim e pelo meu parto.

Juro que tentei me manter calma, mas pelo teor da situação, naquele momento o medo já havia tomado conta de mim, eu fiquei com medo do que ele poderia fazer comigo ou com meu bebê. Porém não havia mais para onde ir, nem o que se fazer. Deixei-o me examinar e ele por pura implicância disse que eu só havia dilatado 2 cm e que seria impossível eu ter parto normal. O único alivio foi ouvir o coraçãozinho do meu bebê, que se mantinha normal e saudável.

Assim que saímos da sala do médico, cogitamos a ideia de ir para outra cidade, mas vários medos rondavam minha cabeça, as contrações já eram bem fortes e eu tinha medo de não conseguir chegar até outro hospital. Eu já não era mais a mesma, meu corpo deu os sinais de que havia algo de errado comigo. A adrenalina tomou conta de mim e toda minha tranquilidade começou ir embora.

A adrenalina ativa a atividade do neocortex e inibe o processo de parto! O desencadeia a adrenalina? Medo, mau humor, conflitos, dúvidas, inseguranças, excesso de toques, preocupações e etc.

Foram todos esses sentimentos que começaram a me assombrar naquele momento. Demos entrada no leito, porém uma crise de choro tomou conta de mim, eu sentia medo de toda aquela situação. Comecei chorar e uma crise de tremores se espalhou pelas minhas pernas, eu não conseguia controlar aquele tremor, fiquei assim por mais ou menos 1 hora, sendo assim, meu trabalho de parto retroagiu, minhas contrações simplesmente pararam. Eu me lembro de ter cochilado por um tempo, o tremor havia passado e as contrações voltaram, foi então que decidi continuar lutando.

Porém eu não conseguia mais fazer o trabalho de parto como antes e, sabe, eu me culpava muito por isso, mas não era culpa minha, eu havia perdido toda energia na sala daquele médico. Minha doula Suelen tentava me acalmar e me animar e me dar forças, minha amiga Elisandra fazia o mesmo. Assim seguimos madrugada adentro, ali sozinhas, eu contava apenas com o apoio delas, meu esposo, coitado, não podia entrar, estava lá do lado de fora, o médico sei lá por onde andava, e as enfermeiras não gostavam da presença da doula ali.

Eu necessitava daquele momento de respeito à fisiologia do meu corpo, precisava me sentir protegida, segura, apoiada, confortável e relaxada, precisava sentir que era ali que eu devia estar, que era ali que meu filho nasceria, mas era tudo confuso. Às 02:00 da madrugada escutamos os batimentos cardíacos do bebê e estava tudo bem, 140 batimentos por minuto, e o médico fez o toque, com a rispidez de sempre e disse que estava apenas 5 cm.

Voltei para o quarto e lutei bravamente para não desistir, fiz todo o possível, não incomodamos ninguém, apenas seguimos no trabalho de parto, claro que eu já não estava como antes, com toda aquela felicidade, pois era tudo muito confuso, mas o propósito era o mesmo, eu acreditava bravamente que era possível sim meu filho nascer de um parto normal. Não era capricho, era apenas respeito ao nascimento, ao ato de parir.

Às 07:00 da manhã do dia 13/01 já na troca de plantão, uma enfermeira chegou e disse: “Nossa! Ela esta muito cansada, coitada, onde esta o médico que ainda não examinou?” Ela me levou para uma sala de espera que ficava ao lado da que o médico examinava as pacientes. Novamente ele, o médico, expulsou minha doula, meu Deus que tristeza! Que desespero eu sentia naquele momento, eu precisava de alguém comigo, precisava de um apoio, porém o médico disse para a doula sair, ele disse: “Vamos, saia daqui! Não te quero aqui! Se não sair eu não vou fazer o meu trabalho, eu não vou fazer o parto dela”.

Para não causar mais conflitos, a doula olhou com muita tristeza para mim e disse: “Deise, eu vou ter que sair, pois tenho medo do que ele pode fazer com você”. Eu estava apavorada, mas tive que aceitar, não tinha para onde ir, nem o que fazer. Então o médico mais uma enfermeira me levaram para a maca para poder ser examinada, eu mal tinha forças para subir na maca, estava apavorada, mas o sentimento de trazer meu filho ao mundo era maior.

É importante dizer que, não tenho nada contra a cesárea, assim como não tenho nada contra o parto natural, sou a favor de todas as mães terem seus filhos da forma que desejam, com respeito e sem serem coagidas.

Novamente o médico fez o toque e ele me disse que estava 9 cm dilatado, faltava apenas 1 cm, eu sentia muita dor, mas a felicidade era maior, pensei “meu Deus, sou capaz de conseguir, falta somente 1 cm”. Porém novamente ele veio com sua negatividade e disse: “Eu acho que não vai dar certo, vamos ver, não sei”. Pensei: "porque ele esta fazendo isso comigo, o que eu fiz para ele? Como pode alguém que estuda para ajudar as pessoas fazer isso?".

Ele pediu uma pinça para enfermeira e sem me informar nada, rompeu minha bolsa, assim, do nada, invadiu meu corpo como se eu não estivesse ali. Então me levaram para o quarto ao lado, o médico mandou eu deitar e apoiar os pés na cabeceira da cama, eu pensei: como assim? É aqui que fazem os partos normais? Não há uma sala separada e preparada? Pois é, não havia! Seria ali mesmo, o médico olhou para mim e disse: “olha, não sei se vai dar certo, mas você pode continuar tentando, você fez suas escolhas, preferiu ficar com elas (doula e amiga enfermeira), elas fizeram tudo errado com você e agora você terá que sofrer as consequências, talvez o seu útero tenha rompido e o seu feto não consiga". Eu super assustada perguntei se podíamos ouvir o bebê e ouvimos, estava tudo bem com o bebê, ele era forte e os batimentos cardíacos estavam em 140 por minuto.

Mas isso não foi o suficiente para o Dr. ele continuou indagando: “Olha já vou te falar, teremos que fazer a episiotomia se não você pode se rasgar toda”, a enfermeira disse a mesma coisa e ainda completou: “O seu bebê é grande será impossível não fazer”. O médico continuou dizendo: “Eu tenho mais estudo que essa menina (ele se referia a doula), tenho livros e livros de estudo e ela o que tem?"


Agora eu te pergunto, aonde foi que ele estudou que aprendeu a tratar uma paciente assim? Aonde ele aprendeu fazer uma cirurgia assim?

Enquanto eles falavam todas essas coisas, eu estava ali gritando de dor, eu pedi varias vezes para levantar, eu queria levantar, eu queria agachar, sentia meu corpo pedindo isso, então ele veio e de novo fez o toque, meu Deus eu já havia perdido as contas de quantas vezes ele já havia feito e de como era horrível, então ele disse: “Seu colo do útero ainda esta duro, não vai dar tempo, vamos ter que fazer cesárea”. Como assim, colo do útero duro? Eu não compreendia nada naquele momento, mas não tinha mais para onde ir, a não ser a mesa de cirurgia.

Fui carregada para o centro cirúrgico, lá eu mal consegui subir na mesa de cirurgia, sentia muita dor e o desespero era maior que qualquer outra coisa. Eu chorava, mas tive que engolir o choro e me calar. Lembro-me perfeitamente de ter apenas três pessoas na sala, a enfermeira, o médico e outro médico auxiliar. Foi o mesmo médico que aplicou a anestesia em mim, achei estranho, mas naquele momento a única coisa que eu queria era ver o fim de tudo aquilo, era ver meu filho bem.

Ele disse: “Fique quieta se não eu posso te machucar”, logo depois me deitaram, eu tremia muito, já na mesa de cirurgia, era uma mistura de sentimentos, lembro de que assim que me abriram ouvir o médico auxiliar disser: “Estava ou não encaixado?” Pela minha conclusão ele quis dizer que sim, quis dizer que meu filho já estava nascendo, só precisava de tempo e eu, de apoio, de ajuda.

Quando ouvi o choro do meu bebê, eu só queria velo, ver se estava bem, logo à enfermeira o levou e eu não via a hora de tudo terminar para eu sair dali e ver meu filho, ver como ele estava. Meu esposo que foi impedido de entrar, mesmo tendo um documento e assinado e protocolado pelo diretor do hospital, onde era permitido a sua entrada, mas é claro, isso também não foi respeitado, ele estava do lado de fora, desesperado em saber noticias nossas.

Era tão desesperador, quando sai, me senti derrotada, culpada, fracassada. Olhei para o meu esposo e chorei, pedi perdão por não ter conseguido, ele me olhou e disse: “Calma meu amor, você foi guerreira e o nosso filho é lindo”. Eu não queria encarar ninguém e dizia à todo tempo “eu não consegui, me perdoem”.

Tinha que lidar com tanta coisa, um momento era para ser de total felicidade, na minha cabeça era de total fracasso. Estava feliz e aliviada de ver meu filho bem, mas como mulher e mãe, me sentia um fracasso. No mesmo dia, muitas enfermeiras foram até o meu quarto, perguntaram sobre o parto e quando eu contava o ocorrido elas não se surpreendiam, diziam que para haver um parto ali com respeito, precisava de muita mudança.

A enfermeira que estava com o médico quando dei entrada no hospital me visitou no dia seguinte, ela me relatou que sabia que o medico não faria a cesárea só de pirraça, pois não gostava da doula e que ele me deixaria sofrer ate o último momento e depois faria à cesárea, disse também que isso já havia acontecido outras vezes e que já ate tiveram que empurrar a cabeça de bebés que estavam coroando, eu fiquei sem palavras. Quando ela saiu eu pude concluir que eu não era a primeira e não seria a última vitima a passar por todas essas atrocidades, muitas mulheres passam por coisas terríveis dentro daquele hospital, triste a nossa realidade.

Quando você passa por algo tão traumático é uma luta diária para superar, você tem que lidar com muitas dores, mais a dor maior é a da alma, essa é a mais difícil de ser curada, essa dor lateja todos os dias dentro de você. Nos primeiros dias eu chorava a todo tempo, chorava escondido porque não queria que me vissem sofrer. Olhava para aquela cirurgia horrorosa e me sentia um grande fracasso, demorei a entender que a culpa não era minha, e que na verdade eu era a grande vitima. Todo dias peço a Deus para vencer cada novo dia, fico pensando até quando vamos ser desrespeitadas e maltratadas dessa forma? Infelizmente esse não foi o relato que sonhei escrever, mas foi o que me obrigaram.

 











Ana Deise Félix Oliveira tem 29 anos, mora em Rolim de Moura e é casada. Tem um filha fruto de um relacionamento anterior e o Heitor, cuja história de nascimento trazemos aqui.

7 de novembro de 2013

Relato de parto da Eva: parto normal hospitalar


A Eva chama o próprio de parto de uma 'Saga'! É um termo que descreve bem tudo o que teve que lutar para conseguir um atendimento digno no momento do nascimento de sua filha. Ela sofreu desde violências verbais do médico - antes, durante e, até mesmo, depois do parto - até condutas de rotina reconhecidamente desaconselhadas pela Organização Mundial de Saúde.

Estaríamos avançando bastante na qualidade de atendimento às gestantes se houvesse a cultura do Plano de Parto. Ele é recomendado pela OMS há décadas, mas ainda é desconhecido no Brasil!

Eva, mesmo conhecedora de seus direitos, ela sofreu violência obstétrica. Como ela mesmo diz "não conseguia chorar, só olhava para onde eles estavam com a minha filha. Podia ter sido um parto lindo! Me preparei para isso. Só que cai nas mãos de um açougueiro. Mesmo com toda força e informação, ainda assim fui vítima do sistema.".

E, para quem sofre violência obstétrica, saiba aqui, como denunciar...





Eu e o meu marido, fomos namorados a 5 anos atrás. Terminamos e ficamos esses longos 5 anos sem nos ver. No dia 23 de janeiro do ano passado nos reencontramos e decidimos voltar. No meio do ano, passei por um estresse muito grande, que desencadeou uma doença que até então eu não sabia nada a respeito.

Herpes Genital, mas, além disso, também sofri um aborto espontâneo. Eu não sabia que estava grávida, não tinha sintoma nenhum de gravidez. A primeira crise de herpes, eu tratei como se fosse uma infecção urinaria. O médico nem me examinou, perguntou o que eu sentia e me receitou antibióticos para infecção. A segunda crise, eu estava com poucas semanas de gestação, (uma gestação que até então eu não sabia). Certa tarde eu senti uma cólica muito forte e de repente uma água quente saiu de mim, acompanhado de um sangue bem vivo. Liguei para um amigo enfermeiro e disse que estava sentindo, ele me disse que isso poderia ser um sintoma de aborto, passou na minha casa e me levou para a maternidade, o que confirmou a suspeita. Ao me examinar, a enfermeira notou algumas erupções na parte genital e perguntou se eu tinha herpes genital. Herpes? Como assim? Genital? Claro que não! Sempre me cuidei, isso é doença de quem tem vários parceiros sexuais. Nunca! (vim de uma família “moralista” e doenças sexualmente transmitidas, tinha essa visão. Mas aprendi que nem sempre é assim). Em fim... Era herpes, perdi um bebê, pus fim no meu relacionamento, entrei em depressão.

Mas depois de um tempo, eu e meu namorado, hoje marido, decidimos superar isso juntos. Algum tempo depois engravidei novamente, dessa vez decidimos cuidar muito dessa gravidez. Tornou-se a famosa “gravidez preciosa”. Fomos ao primeiro G.O e ele pediu uma série de exames, constatou que eu tinha DIABETES GESTACIONAL.



Fomos ao segundo G.O e ele disse que eu tinha pré disposição a ter diabetes gestacional e que tinha que controlar o açúcar. Ambos já sabiam que eu também tinha Herpes Genital. Com o passar dos meses fui ganhando peso exageradamente, tive VÁRIAS infecções urinarias, VÁRIAS crises de Herpes Genital, tive também um forte sangramento com 4 meses (não encontraram o motivo).

Lia sobre partos normais, vi que se a mulher estivesse com a herpes ativa, poderia passar para o bebê na hora do parto, isso me preocupava muito. Falei da minha aflição para uma amiga que também era enfermeira e ela me olhou com uma cara de dó e disse: se você quiser, eu consigo uma cesárea para você. E eu pensei, mas e os benefícios do parto normal para o bebê? Eu não vou nem tentar? Sou tão covarde assim?

Também ouvi uma pessoa da família dizer: você não vai ter força para parir essa criança e vai morrer você e ela entalada. (Ninguém da minha família sabe sobre a herpes).

Essa frase me assombrou por muitos meses. Até que eu e o meu marido decidimos conhecer a casa Bello Parto, meu marido ficou encantado com os vídeos e comentários sobre os benefícios do parto normal. Eu ainda estava assustada.

O primeiro G.O que consultamos disse que eu havia ganhado muito peso e isso significava que o bebê já estava muito grande. Disse: você não vai conseguir ter um parto normal assim, bebê tem que crescer é fora da barriga.

Segundo G.O: se você quiser, a gente pode marcar a cesárea a partir de 35 semanas.

Eu: 35 semanas? Mas o bebê já vai estar desenvolvido com 35 semanas?

Segundo G.O: sim! A partir de 35 semanas o pulmão já está maduro.

Meu marido não deixou. Ainda bem!

Resolvemos procurar uma terceira opinião.

Terceira G.O: Você tem herpes? Vou colocar essa observação no seu cartão de gestante, porque em lugar nenhum do mundo, alguém faz parto normal em uma mulher que tem herpes genital, ativa ou não. Você vai matar seu bebê se tentar, isso pode passar pra ela na hora do parto, ir para o cérebro, olhos, boca, ela pode desenvolver uma meningite e morrer! Bebê não tem imunidade, esquece essa ideia de parto normal. Quando você estiver com 39 semanas, vamos agendar sua cesárea.

Chorei muito nesse dia, me senti tão culpada. Meu Deus, o que nós fizemos, eu não devia ter engravidado, vou ter que submeter a uma cirurgia se eu quiser sair da maternidade com um bebê VIVO nos braços?

Novamente, meu marido me acalmou e disse: vamos procurar uma 4ª opinião, 5ª, 6ª,7ª, 8ª até o dia da neném nascer. E outra, se for realmente para fazer uma cesárea, vamos esperar o dia da Letícia (nome que ele escolheu para a bebê...rsrs), deixa as contrações vir e ai vamos para a maternidade. Nessa altura, eu já estava com 36 semanas de gestação.

Por indicação de uma amiga, fomos ao 4º G.O.

Chegamos lá com todos os exames em mãos, desde o primeiro beta positivo. Ele leu todos!

Eu e o meu marido: Doutor, nós temos:

"1) Herpes genital.

2) Diabetes gestacional.

3) O ultimo médico disse que o bebê está enorme

4) Na ultrassom com um médico disse que ela tá sentada.

5) Tivemos várias infecções urinaria, crise de herpes, risco de aborto e etc...

Mas ainda assim queremos um parto normal!"

O médico: "Muito bem! No parto normal a recuperação é melhor..."


O Doutor pediu novamente o exame de diabetes (que deu negativo).

Pediu uma ultrassonografia com Doppler (que mostrou que estava tudo bem com a minha princesa) .

Disse que se eu tivesse crise de herpes iríamos tratar com remédio, para que eu ficasse bem até o dia do parto. E só em último caso, se eu tivesse com erupções iríamos para a cesárea.

Fez um exame chamado streptococcus (graças a Deus estava tudo bem, também).

Fizemos as perguntinhas básicas para saber se ele era o cara certo. (risos).

Nós: doutor a epísio é necessário em todos os casos?

Dr.: Só em alguns casos.

Nós: doutor, eu posso recusar a ocitocina?

Dr.: Sim! Mas em alguns casos ela também é necessária, espero que não seja o seu. Faça bastante caminhada para estimular o trabalho de parto.

Nós: doutor e se eu quiser peridural? Vocês vão atender ao meu pedido?

Dr.: Menina, a dor do parto não é tão ruim assim não. Calma! Você aguenta. Mas se você quiser, precisa começar a procurar um anestesista, porque tem alguns que não gostam de fazer porque é complicado aplicar em mulher que está tendo contrações.

Nós: doutor, você esperar o cordão terminar de pulsar?

Dr.: se vocês quiserem, sim!

Nós: doutor, quer casar com a gente? (risos).

Mas infelizmente no dia do parto ele estava dando aula.

Quarta feira dia 23 de outubro às 5:00 da manhã, acordei com um dor de barriga leve. Resolvi virar para o lado e dormir mais um pouco. Estava com 38+6.

Às 6:00 da manhã acordei novamente com aquela dorzinha de barriga, então decidi levantar e ir ao banheiro... Tomei banho e voltei para cama. De repende uma dor diferente, vindo das costas para a barriga. Comentei isso em um grupo do facebook, o Cesárea não obrigada, elas me disseram que eu podia estar entrando em trabalho de parto. Resolvi ter certeza, liguei para aquela amiga enfermeira do inicio desse texto. Ela disse que sim! Eu estava em trabalho de parto, mandou eu ligar imediatamente para o meu G.O.

Que alegria, eu ria a cada contração, meu marido estava trabalhava a noite e ainda estava por chegar. Fui passar minha roupa, me arrumar, tomar café da manhã e não avisei à família porque não queria que ninguém entrasse em pânico. (Minha mãe só ficou sabendo depois que ela nasceu).

Meu marido chegou, todo nervoso, apesar de ter se preparado tanto. Eu estava calma e feliz, sorridente e ele apressado. Eu falava: - calma amor, essas coisas levam horas. Acho melhor a gente esperar, isso demora em torno de umas 8 horas. Eu li sobre isso...

Me marido: - Não! Vamos agora para o hospital, vou ligar pro G.O

Mas como havia dito antes, ele estava em aula. Disse que assim que saísse da sala de aula, estaria indo pra lá.

Chegamos no hospital às 9:30 da manhã, contrações irregulares, leves, durava apenas um minuto e depois passava. Mas não doía tanto quanto eu imaginava.

Fomos encaminhados para o médico de plantão.

Entramos na sala, eu com um sorriso enorme, meu marido nervoso, mas com cara de felicidade e falamos que estávamos com leves contrações. Ele foi ver o meu histórico hospitalar, viu por alto.

Não viu que eu tinha herpes (eu também não falei, pois não estava com crise no momento). Não viu nada sobre a tal “diabetes gestacional” e etc...

A minha princesa estava perfeitamente encaixada, tudo uma maravilha. Ele fez o exame de toque e disse: "Está completa! Ela vai nascer agora."

Eu e o meu marido olhamos um pro outro e começamos a rir. Como assim? As contrações nem estão tão forte assim.

Médico: ela vai nascer agora, vamos levar a senhora para sala de parto, se não ela nasce aqui. Vai ser cesárea?

Eu: Não! Vai ser normal.

Médico: não existe isso de parto normal, o nome é parto transpélvico. Mas a 2 mil anos atrás inventaram a cesárea, você sabia disso?

Eu: sabia! Mas o meu parto vai ser normal, ou transpélvico como o senhor disse.

Médico: tudo bem, então vou encaminhar a senhora para a sala de parto enquanto seu marido vai ajeitar os documentos da sua internação.

Minutos depois entra um pessoal com uma maca e me manda vestir a roupa do hospital.

Eu disse: - não posso ir andando? Preciso caminhar para ajudar na hora do parto.

Médico: eita mulher corajosa, quero ver até onde vai durar essa coragem toda. (risos).

Pois bem! Fui na maca e o circo dos horrores começou.

Chegamos na sala de parto me mandaram deitar na cama e colocar as pernas nos apoios.

Uma posição extremamente desconfortável.

Eu disse: quero me sentar!

A enfermeira: essa posição é melhor mãe.

Eu: melhor pra quem? Sobe essa cama agora, eu estou com falta de ar. (a falta de ar, era desculpa pra elas me ajeitarem naquela cama)

Uma enfermeira veio com o soro para por em mim.

Eu disse: soro? Mas eu preciso ter mobilidade e se eu quiser andar, ou levantar? Moça eu não quero ocitocina. Ok? Por favor!

A enfermeira: é só soro, caso você precise ir para a cesárea, já vai estar puncionada.

Aquilo me deu um medo...

Eu: enfermeira, cadê meu marido?

Enfermeira: está ajeitando os documentos da sua internação.

Mas eu não entendia porque ele estava demorando tanto. Elas estouraram minhas duas veias boas, obs. Eu mesmo já aplique soro em mim por essas veias. Enquanto isso, nada do meu marido chegar. De repente o médico entra na sala, o que só me deixa mais nervosa.

Eu: - o que o senhor tá fazendo aqui, cadê o meu G.O? Onde está o meu marido?

Médico: eu não sei de nada, só sou funcionário aqui.

Eu : - se o meu marido não entrar por essa porta, eu saio daqui e vou atrás dele.

Eles achavam que eu estava blefando até eu começar a me levantar. Uma enfermeira, falou: calma, nós vamos atrás do seu marido, ele vai vestir uma roupa e já ele chegar aqui. Mas a senhora precisa se acalmar.

Eu: eu estava calma até vocês estourarem as únicas veias boas que eu tinha, para colocar esse soro inútil aqui. Acho melhor meu marido entrar nessa sala, vocês não sabem do que sou capaz.

Minutos depois meu amado marido chega na sala... Aquilo foi um tranquilizante. Eu me sentia um pedaço de carne em um açougue e sem testemunha. Mas ele finalmente estava ali, como prometeu, do meu lado para receber a nossa filha.

De repente eu escuto a enfermeira perguntar para o médico.

Doutor você vai querer bisturi ou tesoura para fazer a epísio?

Médico: tesoura!

Eu: epísio? Não, eu não quero epísio. Não precisa! (pensei, nós nem tentamos ver se ela passa ou não, porque fazer antes?)

Médico: vou fazer sim! Aqui quem manda sou eu.

Eu: eu não quero epísio! No meu corpo mando EU! Você não vai fazer epísio em mim.

Médico: olha depois a senhora vai aparecer no meu consultório falando que seu marido tá dizendo que você parece uma canoa.

Eu olhei pro meu marido e ele disse: não doutor! O senhor não vai fazer epísio nela, não é necessário.

Médico: tudo bem! Mas vou usar esses quatro enfermeiros aqui como testemunhas de que a senhora se recusou a um procedimento médico.

Eu: tudo bem!

Quando ele começou a me limpar, imaginei ele vai fazer a epísio. Mas graças a Deus ele não fez.

Minutos depois eu começo a sentir uma aceleração no coração e as dores da contração voltam com toda a intensidade do mundo, minha bolsa estoura. Eu olho para o meu braço que estava com soro e pergunto: o que vocês fizeram comigo.

Uma enfermeira responde: calma mãezinha, isso é só um remédio para acelerar o parto.

Eu: mas eu disse que não queria... Olhei pro meu marido aterrorizada com a dor, comecei a chamar o nome dele e ele foi me acalmando e pedindo pra eu respirar fundo quando viesse as contrações. Comecei a fazer o que o meu marido disse.

O médico começo a tentar me abrir com as duas mãos. Sim! A palavra é essa. Parecia que ele queria me rasgar.

Eu sentia as suas luvas secas tentando me abrir. As dores das contrações só aumentavam, parecia uma tortura. Eu sentia a pele da minha vagina se esticando com os puxões do médico, ele usava as duas mãos. E eu gritava! Gritava de dor. O medico dizia, você pode gritar, desde que faça força.

Então eu fiz força! Muita força. Força para aquela dor acabar, força para ver minha filha nos meus braços... de repente uma coisa boa... eu senti, juro que senti! Era maravilhoso... senti a cabeça da minha filha passando pelo meu canal, ela se encolhia, estava bem apertada... Tão suave, um momento tão nosso. Ouvi meu marido dizendo a cabeça dela tá saindo amor, força!

Por um instante, parecia que só havia eu, ela e o meu marido naquela sala. Eu estava vivendo o nosso momento...

Mas depois senti as luvas secas do doutor novamente dentro de mim, ele já conseguia tocar nos cabelos da minha filha, então começou a tentar me rasgar de novo. Tentava abrir espaço com aquelas luvas secas, como se realmente quisesse me rasgar ao meio.

Meu marido falava, empurra amor, ela já tá nascendo, estou vendo a cabeça.

Eu empurrei com toda força que eu tinha. Eu gritava de dor, de raiva daquele médico, de amor pela minha filha. Era uma explosão de sentimentos e no fim, ela nasceu.

Toda essa tortura durou 5 minutos, horário 10:20 da manhã, mas parecia uma eternidade.

Quando ela nasceu eu pedi calma, calma, não cortem o umbigo dela agora. Mas eles cortaram imediatamente, eu disse: dá ela pra mim, me dá ela aqui.

O médico: não, você está suja.

Só depois de aspirarem ela, dar injeção foi que um enfermeiro ouviu meu pedido e entregou ela pra mim.

Apesar do esforços do médico, NÃO HOUVE LACERAÇÃO, NÃO PRECISEI DE PONTOS.

Minha filha, Letícia Brasil da Cruz veio ao mundo através de um parto “transpélvico”, porque com toda certeza isso não foi um parto normal. Minha filha ficou alguns dias na incubadora porque estava com dificuldade de respirar sozinha, segundo o pediatra, isso foi por conta de uma infecção urinaria que tive 30 dias antes do parto, passou para a neném ainda na gestação e não durante o parto. Amém!




Dias depois Médico vem à minha sala para me dar alta e diz ao meu marido: "se eu fosse você, comprava um cinto, dava 4 dobras nele e acertava essa mulher. Porque era pra ter tirado esse bebê a uma semana atrás, com 38 semanas. Ela não estaria assim, se tivesse feito uma cesárea."

Eu disse: ah tá! Então quer dizer que se eu tivesse tirado minha filha antes do tempo, através de uma cirurgia, ela não estaria em uma incubadora?

Médico: não é antes do tempo, era o tempo certo. Ela só está assim, porque a senhora ficou segurando ela.

Eu: Mas na ultima quinta-feira é que estaríamos completando 39 semanas de gestação. Tá bom doutor, obrigada, você já me deu alta. Valeu mesmo. Tchau! Vou ali ver minha filha.

FIM DA SAGA.!





24 de julho de 2013

Vinte passos para destruir um parto.


por Cariny Cielo

Simplesmente porque tem momentos em que acredito que um Conselho Nacional Anti-Mulher se reuniu por aí no passado e decidiu destruir o parto, resolvi imaginar como teria sido esta reunião e quais tópicos teriam sido discutidos. O mote seria: Relacionar tudo que de pior pode ser feito à mulher para humilhá-la, desrespeitá-la e fazê-la sentir-se vulnerável física e emocionalmente e como abusar da tecnologia e dos avanços da medicina em prejuízo da fisiologia. Vale tudo para prejudicar o decurso do trabalho de parto.

Foi assim que surgiu o Protocolo de Atendimento à Mulher para Destruir o Parto, ou #P.A.M.D.P..

Normas de base:

1. Luz na sala de parto! Muita luz, daquelas brancas e que mostram tudo, perfeitas para fazer sutura.

2. Frio! Quanto mais desconfortável a temperatura, melhor. Nada de calor quentinho, não! Vamos congelar essas mulheres.

3. Sentir fome e sede também ajuda bastante. Jejum obrigatório e de rotina!

4. Assim que ela entrar no hospital, coloquem-na logo num soro, na veia, pra ela achar que está doente e/ou que pode ficar a qualquer momento.

5. A melhor roupa é aquela que mostra a bunda e a melhor cor é a verde água. Assim que ela der entrada, faça-a vestir a roupa do hospital.

6. Raspem os pelos dela às pressas e reclamando que ela bem poderia ter feito isso em casa.

7. Para deixar o trabalho de parto bem desconfortável, façam lavagem intestinal. Será terrível ela sentir os puxos e ter receio de fazer cocô no próprio filho.

8. Aproveitem a oportunidade para liberarem todos os seus demônios. Vai ser divertido fazer gozação, chacota, chamar a atenção, repreender. As melhores frases são (anotem aí pra não esquecer): "Pra fazer você não gritou assim!". "Mãezinha, cala a boca".
9. Só pode entrar sozinha. Ou vocês querem testemunhas do nosso sadismo? O pai, a doula, o escambau... ficam do lado de fora!
10. Toques, toques e mais toques. Sempre com pessoas diferentes. Aproveitem qualquer estagiário ou residente para fazer toques. A melhor forma é a seguinte: toquem, olhem por teto, depois pro infinito e saiam sem dar informação.

11. Deitada, de barriga pra cima e pernas nos estribos é a melhor e mais feladaputa posição para a contração doer e causar sofrimento fetal. Adotem-na com suas pacientes, em todos os atendimentos.

12. Estourem a bolsa sem consulta prévia e logo no início do trabalho de parto que é para as contrações ficarem bastante dolorosas e aumentar o risco de infecções.
13. Monitorem os batimentos fetais sempre com ar de preocupação e, ao final, façam comentários entre os colegas usando termos técnicos.

14. Usem ocitocina sintética e digam que é só um remedinho pra apressar o nascimento. Se tivermos sorte, as contrações ficarão tão insuportáveis que ela vai implorar por uma cirurgia.

15. Usem anestesia – ou qualquer outro meio de alívio farmacológico da dor – com o intuito de destruir a auto-estima dela e mostrá-la que ela não dá conta das contrações. Melhor ainda é fazer isto seguido do comentário: ‘eu sabia que você ia implorar por uma peridural’.

16. Ela está cansada e sem forças na hora do expulsivo? Peçam que alguém suba na barriga dela e realize a manobra de kristeller. É proibido em alguns países e não recomendado pela OMS, mas se a ideia é destruir o parto, essa é uma boa opção.

17. Se ainda assim, com todas essas manobras desgraçadas, o trabalho de parto progredir e aquela gestante tiver a petulância de estar caminhando tranquila para um parto normal, não a deixem sair ilesa! Marquem-na, eternamente, cortando-lhe o sexo, para que se lembre que só pariu por meio de nós (by Ric Jones). Sim, usem o 'pique' rotineiramente, ignorando o que recomenda a Organização Mundial de Saúde.

18. Nascido o bebê, cortem imediatamente o cordão umbilical e privem-no do sangue que era dele por direito, a despeito do que recomenda a Sociedade Brasileira de Pediatria desde março de 2011. Cortando abruptamente o suprimento de oxigênio, ele dará um grito numa tentativa desesperada para respirar e, assim, o que poderia ser uma transição suave e fisiológica, será traumática e dolorosa.

19. Aspirem o bebê, mesmo que não seja recomendado para os nascidos de parto normal. Pinguem colírio de nitrato de prata presumindo que a gestante seja portadora de gonorréia e apliquem vitamina K injetável, mesmo havendo a opção da vitamina ser ministrada via oral. Façam tudo isso antes mesmo de entregá-lo para a mãe e aproveitem para manipulá-lo das mais infinitas formas para medir, pesar, esfregar, e toda sorte de procedimentos duvidosamente necessários para serem feitos imediatamente após o nascimento.

20. Não o deixe que mame. A amamentação na primeira hora deve ser evitada a todo custo e o melhor lugar pro bebê ficar é longe da mãe.

Feito isso, sintam-se vitoriosos! Vocês acabam de destruir o mais sublime evento feminino e o maior milagre na perpetuação da humanidade. Ela não vai odiar vocês, pois vai estar muito encantada com o filho recém chegado. E tem mais, ela ouvirá que não tem o direito de se sentir frustrada ou triste, afinal, o bebê nasceu, está com saúde e ela não morreu!

*Atenção para post fazendo piada de assunto sério.

Para mais, conheça o Dr. Frotinha.



Mapa da Violência Obstétrica no Brasil, aqui.

Participe da pesquisa "Desrespeito e Violência no parto", aqui.

Relatório Final da CPMI da Violência contra a Mulher, aqui

Perguntas frequentes sobre Violência Obstétrica, aqui.



23 de julho de 2012

Marcha do Parto em Casa: O que é que Rondônia tem a ver com isso?



por Cariny Cielo

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro editou as Resoluções ns. 265 e 266 no último dia 19. Todo o movimento nacional e internacional de humanização do nascimento está chocado com a arbitrariedade e, em tese, inconstitucionalidade e ilegalidade da norma.

Mas não estou aqui para sair fazendo discurso sobre este assunto, pois, se vc digitar no Google: cremerj + parto + casa + doula, vc consegue um banquete de informação.

Estou aqui para responder a pergunta que você que é de Rondônia pode ter feito, quando começou a ler o meu post: “o que é que eu tenho a ver com isso? Rio de Janeiro? Conselho Regional? Hein?"

Pois bem.

Um dos grandesssíssimos problemas (acabo de inventar esse adjetivo) de quem planeja melhorar qualquer coisa institucionalmente organizada (saúde, educação, política, órgãos públicos) é a falta de união para este fim. Vemos por aí que, muitas vezes, o status quo (quem fez graduação em Direito adora latim) se organiza tão bem que acaba sendo muito mais bem sucedido do que quem quer mudança. Parece que paira no ar um invisível ‘código de irmandade’ em favor de quem, por algum interesse (geralmente bem mesquinho mesmo), prefere manter as coisas como estão!

Um Conselho de Medicina deveria pensar – essa é a lógica na qual acreditamos – que, se faz bem para a mulher e faz bem para o recém-nascido, tem que mudar! Mas, estão tão 'retrogradamente' organizados que sequer cogitam discutir o assunto. Olha o status quo reinando aí...

Querem um exemplo? Meu primeiro filho nasceu há cinco anos e eu, ainda grávida, virei prum médico e disse: “gostaria que na hora do parto esperassem o cordão parar de pulsar para fazer o corte, eu já li, estudei bastante a respeito e... blá blá blá”.

Como responderia um médico aberto a mudanças?
– Interessante! Onde vc leu isso? Como funciona? Vou estudar a respeito.

Ocorre que eu aprendi a duras penas que médicos, em regra – e olha que eu detesto generalizações – não são abertos a mudanças! A medicina tradicional não é aberta a mudanças. Porque? Por que eles querem manter o tal do status quo. E porque eles querem manter? Por que está bom para eles, oras!

Mas, continuando...

Como ele me respondeu?
– HAHAHAHAHAHAHAHA. De onde vc tirou isso?

Só ele achou que era piada! E a ironia que fecha com chave de ouro este meu exemplo é que, quatro anos depois, em março de 2011, a Sociedade Brasileira de Pediatria colocou como REGRA no atendimento neonatal o “clampeamento tardio do cordão”.

Aquilo que eu pedi feito esmola em 2007, virou norma médica em 2011. (Pausa para ficar com ódio!).

Logo, as mudanças só se efetivam com união efetiva dos interessados! Se, na época, eu fizesse parte, como faço hoje, de algo maior (Rehuna, Parto do Princípio) eu não pediria esmola; eu exigiria o melhor! Tolinha, eu era...

Existem médicos em todo o Brasil e mundo que estão a todo instante se questionando para oferecer o melhor para seus pacientes. E isto sim é ser ético!

E, Rondônia tem tudo a ver com isto simplesmente porque, das últimas dez gestantes que vc viu por aí, de 7 a 8 (se for em hospital particular serão 9) vão sofrer cirurgia para o filho nascer, sendo que, em regra, apenas uma vai ter realmente precisado da intervenção. E, pior, muito pior, pior demais (!), todas vão achar que a cesárea é mais segura para ela e para o bebê!!! NÃO É!!! E não precisa ficar duvidando de mim, porque não sou eu que penso isso, ta? Ou melhor, eu penso, também, mas você vai gostar de saber que isto vem da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde, e das evidências científicas...

E você? Quer ciência ou quer conveniência? Será que seu médico sabe o que é medicina baseada em evidências científicas? Ou será que só ele também vai achar que mudar é uma piada?

Sendo você uma gestante morando em Rondônia, o assunto das resoluções do CREMERJ tem tudo a ver contigo: o que tá ruim pode piorar! Não é porque estamos em Rondônia – o Estado número 1 em cesáreas do Brasil, sil, sil – que estamos alienadas, alheias ao que é bom, ao que vem mudando a nível nacional e mundial!

Mesmo que vc não esteja grávida; ou nem queira saber de filhos; ou, ainda, que seja homem... cuidado: Mais dia, menos dia, vc pode precisar que o atendimento obstétrico de Rondônia seja melhor!!!

E, se como diz nosso amado (idolatrado salve, salve) Michel Odent: “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”; então, para mudar Rondônia, é preciso mudar a forma como nossos rondonienses nascem...

Vai dizer que isso não tem nada a ver com você?

...

Agora é aquela hora em que vc me pergunta, empolgadíssimo, ou empolgadíssima:

– “Como eu posso participar?”

Aí vai:

1. Compartilhando este post! Espalha aí e põe lenha na fogueira...

2. Assinando o abaixo-assinado:
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=265266RJ

3. Denunciando ao Ministério Público Federal:

http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/informacao-e-comunicacao/contato/como_encaminhar_denuncia/
“Eu quero manifestação do Ministério Público acerca das resoluções baixadas pelo CREMERJ, pois entendo que são inconstitucionais (contra a Constituição Federal) e ilegais (contra a Lei do Acompanhante) e receio que isto tenha reflexos também em meu Estado.”




QUER SE INTEIRAR MAIS? Leia as resoluções na íntegra!



Fica com medo de clicar não... dá de ler rapidinho:
http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

11 de abril de 2012

Relato de cesárea de Cariny: um corte e uma sexta feira treze transformadora


Emiliano recém nascido (arquivo pessoal)




Eu não pensei em ser mãe e, antes que eu pudesse me decidir, lá estava ele, decidindo por mim. Tão completamente estranho e íntimo.

Recebi com susto a notícia que mudaria minha vida, que me viraria do avesso. “Eu quero ter parto normal” – essa era minha frase decorada depois que me vi grávida. Para tanto eu li livros, fiz exercícios e me mantive saudável. Hoje eu sei que não foi o suficiente.

O parto, que para mim era um evento físico, mostrou-se com a dor de um corte na barriga que é, na verdade, um evento da alma da mulher. Mas, onde estava esta mulher? Entreguei aos médicos o destino do meu corpo e, com isto, assinei a sentença de morte da minha versão fêmea. Anos aprendendo a sufocar meus sentidos, instintos e minha essência. Eu fiz a lição direito: era uma perfeita mulher moderna, mas, como eu já disse anteriormente, as mulheres modernas não parem mais... esta triste parte da minha estória, eu só fui conhecer depois: assim que me deram um bebê extraído de mim e não me deram o direito sequer de chorar.

Esse foi meu não-parto que agora, 5 anos depois, sai de mim para sempre.

Dois dias antes, à noite, eu comecei a sentir desconforto ao ficar sentada. Sentia dores lombares e esperava dores no ‘pé da barriga’, como havia dito o médico. Arrumei uma filmadora emprestada, ajeitei umas coisas que ainda faltavam no quartinho e fui dormir.

Acordei cedo para trabalhar no dia seguinte e, ao contrário de todos os dias, o bebê não mexeu. Fiquei apavorada e liguei pro médico. Ele pediu um ultrassom e, claro, fui fazer. Estava tudo bem, bebê baixo e 1-2 cm de dilatação. Meu obstetra teve a ideia de dizer-me que duraria uma semana ou seria naquele mesmo dia. Eu, apavorada com a realidade do parto batendo à minha porta, preferi me apegar no ‘daqui uma semana.’

Não consegui trabalhar. Não ficava sentada, pois a pressão nas costas era muito forte. Eu corria pro livro ‘A Bíblia da Gravidez’ e repassava o chek-list do “chegou a hora?”, mas muita coisa não batia. Fiquei confusa e perdida. Fui pro sol e passei a tarde deitada curtindo a ideia de que seria outro dia, não aquele dia, não agora, não hoje! Hoje não, nem amanhã, talvez nunca... a barriga era tão maravilhosa, não queria me desfazer dela.


(arquivo pessoal)

À noite ainda fiz as fotos do álbum de gravidez, entre uma foto e outra eu sentia as contrações, mas insistia em acreditar que não, não seria agora...

Não havia ninguém por mim. Meu marido também estava na jornada, igualmente perdido e sozinho. Eu sentia solidão, confusão, dor, medo, insegurança. As dores foram aumentando até que umas 02:00 da madrugada acordei meu marido e disse exatamente isso: “vamos pro hospital, não pode ser normal isso. Tem que ter alguma coisa de errada. Está doendo minhas costas demais”.

Chegamos ao hospital pedindo para tomar algo para dor. A atendente perguntou de quantos meses eu estava, meu marido disse ‘nove’. Ela ficou pálida e ligou correndo pro obstetra.

Ele chegou, me olhou com olhar de carinho e compaixão que nunca vou esquecer... ouviu o bebê, fez toque (eu estava com 5 cm) disse que estava tudo bem e me aplicou uma peridural. A peridural não ficou bem localizada e eu senti dor de cabeça, náuseas, mas as dores nas costas passaram imediatamente. Fiquei deitada com a peridural nas costas e um acesso venoso na veia.

Pronto, meu parto estava, ali, ficando pra trás. Madrugada adentro a equipe vinha e ouvia o bebê. Às 06:00 da manhã começaram a chegar as gestantes que haviam marcado cesárea para este dia, era uma sexta-feira. Eu continuava lá, contrariando todo o protocolo médico, demorando demais, insistindo demais. O médico me apoiou acompanhando minha situação, no entanto, deitada eu não colaborava com o fisiológico! 

Daí, o inevitável: em uma das escutas, o bebê apresentou taquicardia. Ele disse que se continuasse assim, teríamos que fazer cirurgia, eu chorei imediatamente. Meu marido igualmente inocente, viu minha dor, e insistiu com o médico para ouvir novamente um tempo depois. Mas, nada mudou! Deitada, sofrimento fetal é conseqüência lógica, igual dois e dois são quatro. Eu não havia feito nada em meu benefício e nem em benefício do meu filho. Abri mão de parir ao fazer as escolhas erradas, um trabalho de parto 'passivo' não tem desfecho diferente...

A única coisa que fez cessar meu choro durante a cirurgia foi ouvir o choro do meu filho! Que instante mágico de constatação de que ali havia mesmo um ser alheio a mim.

E logo ele se foi! Levaram-no imediatamente para sei lá onde, depois voltaram e me mostraram aquela criaturinha enrolada numa manta, eu sequer consegui cheirá-lo. Ele foi pro quarto com meu marido que até hoje lembra dos olhos daquele garotinho medindo todo o cenário. Eles ficaram lá se conhecendo e eu fiquei quase 5 horas no centro cirúrgico.

Depois veio eu, cortada no corpo e na alma. Eu não queria ver ninguém, mas o quarto ficou lotado de gente me perguntando o que aconteceu e dizendo que o que importava era que eu e o bebê estávamos bem. Bem? Esta era, exatamente, a frase que eu não queria ouvir. Eu não queria estar bem, eu queria ter sentido meu bebê chegar ao mundo, no tempo dele, feliz e respeitado. Eu queria ter dado a luz, só.

Demorou uns dias para eu me vincular, confesso. Eu chorava escondido na hora do banho por não ter conseguido parir. Minha mãe percebeu minha tristeza, eu dizia que era só saudade da barriga. Fui muito bem cuidada. Minha família e amigos fizeram uma calorosa rede de apoio e apesar da dor da frustração do não parto, meu puerpério foi gostoso, tenho boas lembranças dos aprendizados e da delícia de ser mãe pela primeira vez. A mulher pode ter quantos filhos for, mas o primeiro é sempre arrebatador. É o filho que te irrompe, que desvela teus véus, que te faz conhecer, pela primeira vez e para sempre, o amor maior.

O que me restava? Amamentar aquele menininho com meu sangue, para assim fazer cessar a cicatriz que tanto doía. Eu me dei conta de que haviam me tomado o parto porque eu o entreguei, mas com a amamentação seria diferente! Ninguém tiraria de mim! Lembro-me perfeitamente do dia em que me dei conta de que o amava tão forte que chegava a assustar. Para mim, amamentá-lo exclusivamente foi decisivo para tornar isso tão forte. Ele devia estar com umas 2 semanas e eu o deitei no berço após uma mamada da manhã e fui para o computador. Não consegui fazer nada, digitar nada, pesquisar nada. Apenas fiquei olhando fotos dele, completamente enamorada... estava lá, finalmente, o vínculo...



De lá pra cá, já se foram tantos estonteantes anos e eu ainda ensaio mil e uma danças com ele. Devo toda a minha trajetória de mulher a esse meu querido primeiro menino, inclusive os maravilhosos partos que vieram em seguida. Foi ele que apostou, pela primeira vez, que havia, dentro daquela menina, uma grande mulher.


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