Mostrando postagens com marcador feminismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador feminismo. Mostrar todas as postagens

4 de dezembro de 2012

Maternidade Ativa: Ela é índia. E eu, sou o que?


por Cariny Cielo

Participei de uma ação com indígenas da região de Cacoal, Rondônia, há uns meses. A etnia era Cinta Larga e Suruí. Fui a trabalho, mas carreguei meu filho mais velho e, enxerida curiosa que sou, não pude deixar de aproveitar a oportunidade para bater um papo de mulher e mãe, com mulheres que vivem realidade tão completamente diferente da minha.

E é diferente mesmo! Praticamente outro mundo; o mundo dos brasileiros por essência. Para saber mais e nunca mais pagar mico, vale a pesquisa aqui.

Comecei meio sem jeito de como se referir a quem não é índio. Se ela é índia (o correto é falar ‘indígena’), eu sou o quê? Afinal, ‘Cara Pálida’ me pareceu americano demais, apesar de o ‘pálida’ caber perfeitamente com a minha cara. ‘Homem branco’ é pior, parece saído daqueles livros de história do ensino fundamental e além do mais, nem branca eu sou...

Parece que o brasileiro que tem tudo misturado ficou num limbo entre tantos povos. De um extremo ao outro tem uma porção de versões para nós, mas em todos corre a mesma mistureba de sangue. Tá, chega de aula fajuta de história e geografia, não é aqui que você encontrará referências de qualidade para o tema.

O que me interessou foram as mães e mulheres indígenas, todas carregando seus bebês em lindas faixas coloridas. Eu mostrei a faixa que uso (o famoso sling de argolas) e uma delas achou o máximo. Mas fiz sucesso mesmo quando disse que meu caçula havia nascido em casa. Abalei geral, virei estrela... (mentira, parir em casa é normal... nada de mais pra elas, exceto o fato de eu ser: branca!).

Continuamos conversando e ouvi coisas terríveis, dignas de denúncia, como por exemplo, elas me dizerem que são orientadas a parir no hospital, mas chegando lá, não são respeitadas (que novidade!) em suas escolhas sobre posição, intimidade, liberdade de movimentos... enfim, sofrendo, inclusive, episiotomia... Eu disse que existem mulheres em todo país lutando contra esta falta de respeito no atendimento obstétrico. Pelo jeito, a violência com elas é ainda maior, pois é cultural e social também: ouvem piadinhas quanto ao número de filhos, quanto à dor durante as contrações, quanto ao aleitamento, quanto aos seus costumes...

E ouvi coisas interessantes sobre crianças indígenas. Eu perguntei se elas apanhavam, se ficam de castigo, se tinham problemas para dormir, se tinham problema para amamentar ou para o desmame, se era agitadas ou rebeldes (todos aqueles adjetivos que a criança ‘branca’ recebe).

Fiz esse tanto de questionamento e elas ficaram meio se entreolhando, com cara de dúvida, no melhor estilo de sequer entendendo bem o que a ‘cara pálida’ queria saber...

- “A gente não liga pra isso não”. Soltou uma. Eu entendi como “a gente deixa as crianças serem o que são: crianças”.

De fato, as crianças delas não apanham, nem ficam de castigo. Nem elas, tão pouco, apanharam quando crianças. Elas não sabem dizer quando desmamaram, nem de quanto em quanto tempo mamavam, por quantos minutos e em que têta primeiro (há!)...

Para nós, isso tudo soaria como uma completa bagunça, sem regra, uma anarquia! (deixa a Super Nanny saber disso! Ou ainda, mais na moda agora, o deseducador Marcelo Bueno, num quadro de péssimo gosto do programa 'Mais Você'.

E os filhos quando chegam à adolescência, eu perguntei, ficam rebeldes? Desrespeitam tudo e todos? Explodem, feito vulcões, em fúria contra a vida?

“Não... normal”, disse outra. Eles começam a se interessar em namorar, ir morar na cidade, estudar... questionam, claro, afinal, assim caminha a humanidade, mas não se vê a ‘aborrecência’ nem seus problemas adjacentes... simples assim também! Essas coisas não são assunto por lá... não sacodem especialistas... não mobilizam a sociedade...

Existe muita coisa boa no que construímos no papel de colonizador (escrevi isso mais pra ficar bonitinho do que porque acredito mesmo...), mas existe muita coisa boa que destruímos dos povos colonizados e que precisa ser reavivado.

Não sei se em todos os agrupamentos indígenas é assim, e também conversei com algumas poucas mulheres... longe de mim dizer “eles vivem assim” ou “eles não vivem assim” (tô fora de dar uma de besta igual fez o repórter Alexandre Garcia!)

Mas será que não podemos misturar uma cultura com a outra, colher o bom de cada uma? Ao invés de oprimir , apagar e ridicularizar não poderíamos mesclar?

Eles não têm uma pá de problemas que julgamos ter na criação de filhos, porque será? Há algo aí que precisa ser analisado e copiado, não? (favor concordar comigo AGORA!)

O 'carregar bebes', no meu ver, é um exemplo maravilhoso disso! Vejam Aqui e aqui os benefícios desta simples atitude da mãe e que, até pouco tempo atrás, era privilégio das crianças indígenas no Brasil (ou de alguma mãe-branca-bicho-grilo-reacionária). Tá aqui algo fácil de copiar e delicioso pro bebê.

Em Rondônia tem onde comprar, na Slingue, em Porto Velho. E custa muito mais barato que os carrinhos de bebês (que vão te manter longe do teu filho e te fazer raiva na hora de por e tirar de um carro, por exemplo).




Outro ponto que posso facilmente relacionar aqui e que podemos/DEVEMOS copiar:

Amamentação à livre demanda... conforme o fluxo de leite da mãe e o fluxo de emoções do filho.

Sem deseducação, sem indústrias de leite patrocinando eventos para pediatrias, ops!, aliás, sem pediatras dizendo como amamentar, sem leite fraco, bico raso, sem vizinha dizendo que o bebê precisa de mamadeira porque está magro, sem marido dizendo que os peitos são dele e não do filho, sem mãe precisando voltar ao trabalho depois de 4 meses enquanto a OMS manda amamentar exclusivo por 6, sem pressão sobre a mulher para voltar ao corpo e conseguir 'não parecer' que teve filho, sem pressão para a mulher voltar a trabalhar, sem pressão sobre a mulher!!!

Quer mais um ponto a copiar? Te digo agora!

Elas são mulheres que se ajudam e não que competem, como nós (bando de machista que somos! - pausa para ferver de ódio...

Mães, avós, tias, primas, irmãs, amigas... todas cuidam da puérpera, todas cuidam das crianças, todas se cuidam... todas dividem sabedorias, experiencias, e não críticas quanto ao visual da outra.

Parece que o nosso ruim está tão bem sedimentado (‘parecer’ é por pura cortesia) que sequer conseguimos questionar... e quem questiona é doida varrida! (no caso, eu que aqui vos escreve...)

Um exemplo claro da nossa incapacidade de mesclar o bom de cada mundo está no nosso sistema obstétrico. Sim, porque poderíamos ter toda a segurança que os avanços da tecnologia trouxeram e toda a intimidade que o parto, por ser um evento fisiológico e natural da mulher (lembra?), requer... juntinhos!

Mas não, ao invés disto e sob a pecha de evitar a morte e a dor, transformamos todo nascimento em uma patologia... e as gestantes, lindas e poderosas donas do mundo, perpetuadoras da humanidade, foram transformadas em bombas relógio prestes a explodir!

Eu quero conhecer mais esta cultura e trarei aqui todas as minhas impressões.

Recentemente meu filho mais velho me disse:
- puxa mãe, tadinho dos índios, devem passar frio morando na floresta

E eu: - Ué filho, claro que não... eles têm casas, à noite eles vão pras casinhas deles na floresta.

E ele continuou: - Mas como é a casa deles?

Pois é! Eu fiquei morrendo de vontade de saber e de mostrar pra ele!


26 de setembro de 2012

Maternidade Ativa: A bicicleta de menino...


por Cariny Cielo

Eu não poderia deixar para escrever sobre o que me ocorreu hoje e perder essa minha versão 'saguenozóios' que tô aqui...

Vou começar dizendo que é tudo culpa de uma bicicleta! Sim, meu filho mais velho pede uma bicicleta nova desde abril. A dele, aro 12, já ficou pequena e rendeu deliciosos 3 anos!

Fui numa cidade vizinha onde montam bicicletas de todo jeito, ao gosto do freguês. Logo na entrada vejo várias infantis e de vários tamanhos.

Segundo o macho alfa especialista em bikes daqui de casa, a bicicleta adequada ao rebento é uma aro 16 e então fomos atrás de modelos deste tamanho.

O filhote queria uma com cesto na frente e garupa, igual a do filho de uma amiga minha que foi comprada no Paraguai, azul e branca, com desenhos de bombeiro.

Eu sabia que não acharia igual, mas queria encontrar uma com garupinha (para, quiçá, carregar os irmãos) e com cesto (para, quiçá, ajudar a manter alguns brinquedinhos reunidos).

Não achei nem um, nem outro! Ou melhor, achei! Todas nas cores rosa ou lilás... e o resumo do post de hoje é:

NÃO EXISTE BICICLETA 'DE MENINO' COM CESTO E GARUPA!!!!'

Exatamente! Meninos não devem carregar coisas ou pessoas... afinal, homens devem ser gregários, no melhor estilo 'sem lenço e sem documento'! Mulheres sim, devem carregar coisas e pessoas. Homens, não, de jeito nenhum!

Fiquei horrorizada com essa chatisse do mundo dividido em duas partes, a rosa e a azul. A agressiva e arrojada e a delicada e sensível! Não tem meio termo!

Não tem bicicleta azul com cesto para um menino que simplesmente gosta ou quer carregar coisas ou bicicleta rosa estilo 'montainbike' para uma garota que goste de velocidade.

Se for menina, tem que adorar rosa ou liás, carregar coisinhas e andar flutuando por aí. Se for menino, tem que querer azul ou preta e sair dando rabeada com o pneu traseiro...


Seu filho deverá escolher um lado e 'ser encaixado' nele! Digo 'ser encaixado' porque embora haja, sem dúvida, alguns padrões de comportamentos femininos e masculinos, tenho observado que muito vem das sugestões que recebemos e não da essência do indivíduo.
Outra coisa que percebo é que isso é recente! Ninguém vê fotos antigas dos nossos pais, na infância, com utensílios tão milimetricamente divididos entre o mundo encantando do rosa ou o mundo agressivo do azul.
Até a moda está assim agora. Com grifes exclusivas para meninos e outras para meninas. Mochila para meninas e para meninos. Fantasia para meninas e para meninos. Copo de plástico para menina e para meninos. Lembrancinha nos aniversários para meninos e para meninas. Comida (sim, tem salgadinho para os dois sexos, quando eu achar, fotografo e posto aqui!) para meninos e para meninas. Aff... que chato! Se você não é rosa, tem que ser azul!

Estou eu aqui com um menino que quer uma bicicleta com cesto, só isso, e... não tem! O espanto do vendedor me fez compreender que meu pedido era praticamente absurdo. Aliás, vendo um catálogo eu achei uma modelo masculino e com cesto, o que ele me disse? "Ah, quando a gente monta, a gente tira o cesto porque é bicicleta masculina". Ó CÉUS...

Aí todo mundo na oficina e na loja começou a rir do me pedido... nesta altura até o macho alfa resolveu virar machão e soltar um "ah, eu se fosse menino tirava o cesto também". Ferrou pro meu lado... e pro lado do meu menino que queria tanto uma bicicleta para carregar coisas ou pessoas!

Aí me veio a fúria que tenho guardada (tão bom soltar aqui!) sempre que passo pela seção de brinquedos do supermercado e vejo pias, tábua de passar ferro, geladeira, fogão, todos rosa... com ilustração de meninas... definitivamente, o grosso da indústria de brinquedos não evoluiu! E de bicicletas também!

Eu não quero ter que dizer pro meu menino que só bicicletas de menina têm cestos e garupa! Ou que ele tem que escolher com o quê brincar baseando-se no fato de ser menino...

Que saudade do tempo em que minha Barbie ficava presa no Quartel General dos Comandos em Ação do meu irmão. De quando eu vestia ele de mulher e o fazia desfilar comigo. De quando eu fui fantasiada de Charles Chaplin em um evento da escola... E da minha bicicleta, de menino e com garupa...



Imagens: Google e Veja São Paulo

28 de maio de 2012

Reflexões: Exército de vadias...

Maíra Streit (Marcha das Vadias de Ponta Grossa PR)

por Cariny Cielo

Esta semana, movimentos pelo Brasil dão gritos pelo fim do machismo na sociedade. A 'Marcha das Vadias' vem para por em choque tudo que homens e mulheres entendem como democracia e igualdade de direitos.

A desigualdade talvez não exista mais nas leis, mas existe dentro de cada um de nós, principalmente de nós mulheres! Sim, somos as maiores machistas...

Eu era extremamente masculina! Carrego o útero marcado eternamente pelo bisturi como ícone de uma mulher que não acreditava no feminino e calou, por anos, todos os instintos da psiquê de fêmea. Mas, porque eu fiz isso? De onde nasce em nós, mulheres, a postura de denegrir o que é deste pólo?

Cresci castrada estudando em colégios de freiras e sonhando em ser racional, fria, forte, invencível, competitiva, 'dura de doer': era o que eu queria para mim! Acreditava que seriam estes os atributos das bem sucedidas. Mas eu não era assim e a minha dor vinha de não conseguir conquistar o posto de mulher que a sociedade esperava de mim.

Perfeita! Que, de maneira velada, significa: Magra, arrumada, saudável, disponível, super filha, super mãe, super amante, super esposa, super amiga, super profissional! A minha concepção era a de que eu só servia, se conseguisse tudo isso. O amor só apareceria se eu fosse tudo isso. O sucesso só chegaria se eu fizesse toda a lição de casa, direitinho...

Em resumo, eu não precisei ter pai, irmão, amigos ou mesmo namorados machistas, eu já carregava todo o machismo necessário para acabar com uma mulher. E, quando chamei por ela, na hora do parto do meu primeiro filho, ela estava muito longe, muito fraca, muito nebulosa para mim.

A boa notícia é que ela nunca morre! Li isso da Clarissa Pinkola no livro 'Ciranda das Mulheres sábias' e, pouco a pouco, eu fui alimentando minha mulher, meu feminino, minha essência... fui nutrindo minha raízes. Todo dia é dia de ser mulher! De chorar, de pedir, de doar, de sentir, de transformar, de motivar, de criar, de empreender, de confiar, de lutar, de matar e de morrer, de inspirar... são nossos estes verbos...

As mulheres saíram para gritar que são seres humanos! Nem melhores, nem piores... só mulheres! Que por trás das exigências de ter cintura de pilão e peito empinado, temos sentimentos, opiniões, caímos e levantamos, como todo mundo. Que valemos pelo que somos e não pela imagem que passamos. Que nossos corpos não são para diversão nem pro terror de ninguém. 

Já ouvi maridos dizendo que exigiram uma cesárea na esposa para que o 'parque de diversões' deles não fosse maculado... que amamentar seria competir com o filho pelo mesmo 'brinquedinho'. Antes de julgar os homens que falam assim, sempre em tom jocoso; penso que tipo de mulher admite ouvir isto? Porque é que rimos destas e de outras tantas piadas? Porque nos odiamos, nos invejamos, nos destruimos, umas às outras?

Porque temos filhos para preencher um vazio ou para promoção social? Porque alimentamos um casamento falido? Porque entregamos nosso corpo, no sexo, na gravidez, no parto, como se fôssemos só carne, sem alma, sem sentir? Porque sempre achamos que 'ela mereceu', que 'bem feito', que 'também, vestida assim', que 'quem mandou engordar'? Porque maldizemos e criticamos todas que rompem com este sistema superficial? Estamos todas perdidas e é preciso muito grito para mudar tudo isso...

E se ser vadia nos dias de hoje é ser mulher selvagem, então, sim, eu sou! Não quero o rótulo de destruir o masculino; mas se hoje é preciso escancarar portas, então, eu ajudo sim a chutar e grito: Sou vadia sim, é aí?

14 de março de 2012

Reflexões: A invisível burca... e o dia internacional da mulher


por Cariny Cielo

Dia internacional da Mulher!!! Comemoramos grandes avanços na redução da violência e na conquista da liberdade deste gênero que, há séculos, foi oprimido pelo crescimento de uma cultura patriarcal.

Comemoramos o poder do voto, a participação política, a inserção no mercado de trabalho, a chefia das famílias, ao passo que, num momento único, talvez mais importante, de nossas vidas – a gestação e parto – abrimos mão, deliberadamente, da liberdade individual tão acirradamente defendida e seguimos, qual boiada pro abate, fazendo o que dizem ser melhor para nós.

Sim! Votamos e somos votadas. Podemos ser chefes de Estado, concorrer à Presidência do País. Estamos no Congresso Nacional, nas assembléias e câmara de vereadores do Brasil afora. Chefiamos famílias. Somos, muitas vezes, as únicas a trazer renda em casa. Entramos em todas as profissões, mesmo a eminentemente tidas como masculinas. Somos poderosas, mas, a partir do momento que ficamos grávidas e vamos parir, perdemos todos os nossos poderes, auto-estima e deixamos que tutelem nosso corpo, ferindo de morte nosso feminino.

É! Nós deixamos que nos digam como viver nossa sexualidade, como gestar, como alimentar e educar nossa cria, deixamos que monitorem nosso bebê no sagrado claustro uterino; que nos imponham um medo paralisante quando deveríamos estar em época de graça e encantamento por perpetuar a humanidade. Não somos mais as poderosas donas da Vida. Somos as coitadinhas correndo perigo e carregando um estorvo que nos tira a sensualidade e a vida social.

Deixamos que mintam para nos, descaradamente. Que digam que não iremos conseguir fazer algo para o qual nossos corpos foram moldados há milhares de anos para fazer, sem auxílio. Permitimos que transformem em patologias e regras, todas as exceções fisiológicas que acompanham os eventos sexuais femininos.

Realizam em nós a única cirurgia do mundo feita sem o consentimento do paciente: a episiotomia. Deixamos que nos digam em que posição ficar, a despeito do que o nosso corpo pede. Ouvimos piadinhas, brincadeiras de mal gosto, palavras de ordem, termos chulos e até cantadas, quando estamos suscetíveis e vulneráveis, em pleno trabalho de parto.

Sob a pecha de ‘fazer o que é melhor para nós’, tomam de nós nossos corpos e manipulam o nascimento de nossos filhos com drogas, manobras violentas, profilaxias duvidosas.

Permitimos que levem de nós nosso bebê recém-nascido, tão carinhosamente gerado e carregado no ventre por meses, para ser maltratado, ops!, analisado e deixado em solidão, correndo riscos os mais diversos. Permitimos que tratem nossa cria, para nós única e especial, como apenas só mais um entre dezenas de outros. Deixamos que deem a ela glicose ou leite artificial e não o nosso vital colostro.

Ficamos mudas, enquanto vemos propagandas que humilham e insultam a mulher, tratando-nos como objeto. Rimos dos gracejos machistas. Modificamos nossos corpos, muitas vezes a qualquer custo, para atender uma demanda opressora de beleza ou simplesmente agradar um homem. Ouvimos uma voz dentro de nós nos inclinar a dizer ‘bem que ela mereceu’ se vemos uma mulher pouco vestida sofrer violência sexual.

Deixamos nossos filhos com poucos meses de vida aos cuidados de outros, dilacerando nossos corações de mãe, mas porque não podemos sair do mercado de trabalho. Tiramos-lhes o peito porque alguém diz que seios são para pôr silicone e não armazenar leite.

Ainda usamos a maternidade como uma forma de promoção social ou, pior, como moeda de troca para manter um casamento infeliz. Casamento? Ainda sobrevivemos a casamentos por não suportar os olhares reprovadores lançados sobre uma mulher sozinha. Permitimos que um homem – seja ele pai, marido, irmão ou médico – seja responsável pelas nossas vidas, escolhas, saúde e felicidade.

Achamos absurdo o uso de burca em algumas culturas do Oriente Médio? Por aqui, a burca existe, só não é de tecido. É invisível, é dissimulada, vem sorrateira e, com nossa ajuda, nos toma a alma feminina.

E pasmem: não oferecemos nenhum tipo de resistência. Não gritamos, nem xingamos, nem nos revoltamos. Não denunciamos o médico que nos cortou o sexo sem nos consultar; não questionamos as indicações (cada vez mais folclóricas e menos científicas) de cirurgias para o nascimento dos nossos filhos. Não damos queixa do marido que violentamente nos oprime, dia após dia, pelas mais diferentes razões. Pior, vestimos a máscara da conivência com as mentiras, com o silêncio mortal, com a castração, ainda que velada, do feminino em nossas vidas.

Enfim. É triste, mas somos nós as maiores ‘machistas’ do mundo moderno.

Dia 8 de março? Nosso internacional dia...

Dia de tomar posse das nossas aptidões, da nossa liberdade constitucionalmente tutelada e exercê-la física e emocionalmente. Exercê-la no campo das idéias, das indignações, dos questionamentos.

Dia de nos libertarmos da cultura patriarcal que nos faz achar normal a mulher-objeto. Dia de chamar para nós a responsabilidade pelas nossas escolhas, pelas nossas vontades, pelas nossas opções e assumir o risco disto tudo.

Dia de promover o feminino, não para sub-julgar o masculino, caso contrário entraríamos, novamente, em desequilíbrio, repetindo o mesmo erro, na eterna guerra dos sexos.
É dia de celebrar, sim, com certeza! Por tudo que conquistamos até aqui. E é dia também de rasgar a invisível burca que nos oprime.


Imagem: Mulher afegã olhando através de sua burca.
Foto Natalie Behring-Chisholm (daqui)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...