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6 de agosto de 2012

A Marcha Nacional Pela Humanização do Parto em Rondônia... e as mulheres dançando...

"E os que dançavam foram considerados loucos 

por aqueles que não ouviam a música". 

(Nietzsche)






por Cariny Cielo


Esta frase é sucesso garantido quando estamos vivendo uma revolução. Geral, local, gradativa ou radical, não importa... sempre combina, sempre veste muito bem e, se você acha que consegue, vale a pena ler Nietzsche (quem é esse?) para, no mínimo, fazer cosquinha no cérebro.
Bailaram, no último domingo, algumas anônimas e corajosas mulheres em Rondônia! A Marcha Nacional pela Humanização do Parto teve em Porto Velho sua pincelada talvez mais singular.

Se há um lugar no Brasil onde mulheres defendendo humanização do parto seriam mais consideradas loucas, esse lugar certamente é Rondônia. Somos nós o único Estado da região norte do país onde os nascimentos por cirurgia superam os por parto normal.

Por aqui, todo esse papo ainda é delírio! Exceto pela Maternidade Pública Municipal de Porto Velho (que em 2010 recebeu o selo de Hospital Amigo da Criança pelo Ministério da Saúde, e onde trabalha uma das que Marcharam - a Enfermeira Sandra Schultz) todo o resto fala outra língua.

O grave de falar outra língua, no entanto, é que esse outro idioma é ouvido e 'entendido' todos os dias, dezenas de vezes, por inúmeras mulheres que buscam o sistema obstétrico quando se vêem grávidas.

O outro idioma, no caso, o da intervenção artificial em um evento fisiológico, entorpece de tal forma que raramente vemos as mulheres gritarem dizendo que não estão entendendo o que se diz...

O mais comum é aceitar: aceitar a gravidez excessivamente monitorada com a posição de frágil e doente da mulher, a cirurgia mais arriscada vendida como melhor por conveniência, a falta de ética, a ameaça, o medo paralisante, a mutilação vaginal, o corte abrupto do cordão umbilical, o soro na veia, a posição humilhante, o frio do ar e das pessoas, a luz forte, as vozes estranhas, as ordens, os julgamentos, o bebê que vai embora sem que sequer veja a mãe, a rapagem de pelos e lavagem intestinal, o ácido nos olhos de quem mal viu o mundo, a solidão, o isolamento, fim...

Nasceu um cidadão e nasceu uma mãe dentro de um sistema violento, mas, quem liga? Eles não estão ouvindo a música tocar... Nem eles, nem os médicos e médicas que os atenderam, nem pediatras, nem os familiares envolvidos, nem as enfermeiras ou enfermeiros e técnicos ou técnicas... ninguém... faz-se um silêncio mortal nas salas obstétricas do país e de nosso Estado.

O bom é que um dia a música toca. Sempre toca, é a ordem natural das coisas, é a Lei da Vida, é o progredir infinito do qual ninguém fugirá. Ele vem com prazer ou dor, nos empurrar topo acima...

E essa música tocou com prazer e euforia, no domingo... fazendo dançar orgulhosas, as que ouviam, com deleite, a canção.

Dançou a Paula com seu filho nascido da coragem e naturalmente. Dançou a Sandra que todos os dias molha de sangue e vida suas mãos para fazer respeitar mulheres que chegam a seu caminho. Dançou a Elis que cicatrizou um corte com um parto desafiador, feliz e em casa. Dançou a Alyssa com seus partos naturais, um domiciliar, no florescer da vida. Dançou a Silvania que traz o valor do natural correndo nas veias. Dançou a Helena que se inspirou quando grávida na música que tocava de outras mulheres. Dançou a Lorenna que, numa outra gravidez, se viu uma outra mulher. Dançou a Camila que ainda não tem filhos, mas já acredita no feminino. Dançou a Izabela que sente que essa é a música certa para se ouvir. Outras tantas anônimas talvez passaram, naquele instante, a ouvir e a dançar também...

Que bom que se ouve por aqui o som cristalino e puro da nova onda...

Que orgulho fazer parte desta estória!





23 de julho de 2012

Marcha do Parto em Casa: O que é que Rondônia tem a ver com isso?



por Cariny Cielo

O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro editou as Resoluções ns. 265 e 266 no último dia 19. Todo o movimento nacional e internacional de humanização do nascimento está chocado com a arbitrariedade e, em tese, inconstitucionalidade e ilegalidade da norma.

Mas não estou aqui para sair fazendo discurso sobre este assunto, pois, se vc digitar no Google: cremerj + parto + casa + doula, vc consegue um banquete de informação.

Estou aqui para responder a pergunta que você que é de Rondônia pode ter feito, quando começou a ler o meu post: “o que é que eu tenho a ver com isso? Rio de Janeiro? Conselho Regional? Hein?"

Pois bem.

Um dos grandesssíssimos problemas (acabo de inventar esse adjetivo) de quem planeja melhorar qualquer coisa institucionalmente organizada (saúde, educação, política, órgãos públicos) é a falta de união para este fim. Vemos por aí que, muitas vezes, o status quo (quem fez graduação em Direito adora latim) se organiza tão bem que acaba sendo muito mais bem sucedido do que quem quer mudança. Parece que paira no ar um invisível ‘código de irmandade’ em favor de quem, por algum interesse (geralmente bem mesquinho mesmo), prefere manter as coisas como estão!

Um Conselho de Medicina deveria pensar – essa é a lógica na qual acreditamos – que, se faz bem para a mulher e faz bem para o recém-nascido, tem que mudar! Mas, estão tão 'retrogradamente' organizados que sequer cogitam discutir o assunto. Olha o status quo reinando aí...

Querem um exemplo? Meu primeiro filho nasceu há cinco anos e eu, ainda grávida, virei prum médico e disse: “gostaria que na hora do parto esperassem o cordão parar de pulsar para fazer o corte, eu já li, estudei bastante a respeito e... blá blá blá”.

Como responderia um médico aberto a mudanças?
– Interessante! Onde vc leu isso? Como funciona? Vou estudar a respeito.

Ocorre que eu aprendi a duras penas que médicos, em regra – e olha que eu detesto generalizações – não são abertos a mudanças! A medicina tradicional não é aberta a mudanças. Porque? Por que eles querem manter o tal do status quo. E porque eles querem manter? Por que está bom para eles, oras!

Mas, continuando...

Como ele me respondeu?
– HAHAHAHAHAHAHAHA. De onde vc tirou isso?

Só ele achou que era piada! E a ironia que fecha com chave de ouro este meu exemplo é que, quatro anos depois, em março de 2011, a Sociedade Brasileira de Pediatria colocou como REGRA no atendimento neonatal o “clampeamento tardio do cordão”.

Aquilo que eu pedi feito esmola em 2007, virou norma médica em 2011. (Pausa para ficar com ódio!).

Logo, as mudanças só se efetivam com união efetiva dos interessados! Se, na época, eu fizesse parte, como faço hoje, de algo maior (Rehuna, Parto do Princípio) eu não pediria esmola; eu exigiria o melhor! Tolinha, eu era...

Existem médicos em todo o Brasil e mundo que estão a todo instante se questionando para oferecer o melhor para seus pacientes. E isto sim é ser ético!

E, Rondônia tem tudo a ver com isto simplesmente porque, das últimas dez gestantes que vc viu por aí, de 7 a 8 (se for em hospital particular serão 9) vão sofrer cirurgia para o filho nascer, sendo que, em regra, apenas uma vai ter realmente precisado da intervenção. E, pior, muito pior, pior demais (!), todas vão achar que a cesárea é mais segura para ela e para o bebê!!! NÃO É!!! E não precisa ficar duvidando de mim, porque não sou eu que penso isso, ta? Ou melhor, eu penso, também, mas você vai gostar de saber que isto vem da Organização Mundial de Saúde, do Ministério da Saúde, e das evidências científicas...

E você? Quer ciência ou quer conveniência? Será que seu médico sabe o que é medicina baseada em evidências científicas? Ou será que só ele também vai achar que mudar é uma piada?

Sendo você uma gestante morando em Rondônia, o assunto das resoluções do CREMERJ tem tudo a ver contigo: o que tá ruim pode piorar! Não é porque estamos em Rondônia – o Estado número 1 em cesáreas do Brasil, sil, sil – que estamos alienadas, alheias ao que é bom, ao que vem mudando a nível nacional e mundial!

Mesmo que vc não esteja grávida; ou nem queira saber de filhos; ou, ainda, que seja homem... cuidado: Mais dia, menos dia, vc pode precisar que o atendimento obstétrico de Rondônia seja melhor!!!

E, se como diz nosso amado (idolatrado salve, salve) Michel Odent: “para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer”; então, para mudar Rondônia, é preciso mudar a forma como nossos rondonienses nascem...

Vai dizer que isso não tem nada a ver com você?

...

Agora é aquela hora em que vc me pergunta, empolgadíssimo, ou empolgadíssima:

– “Como eu posso participar?”

Aí vai:

1. Compartilhando este post! Espalha aí e põe lenha na fogueira...

2. Assinando o abaixo-assinado:
http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=265266RJ

3. Denunciando ao Ministério Público Federal:

http://pfdc.pgr.mpf.gov.br/informacao-e-comunicacao/contato/como_encaminhar_denuncia/
“Eu quero manifestação do Ministério Público acerca das resoluções baixadas pelo CREMERJ, pois entendo que são inconstitucionais (contra a Constituição Federal) e ilegais (contra a Lei do Acompanhante) e receio que isto tenha reflexos também em meu Estado.”




QUER SE INTEIRAR MAIS? Leia as resoluções na íntegra!



Fica com medo de clicar não... dá de ler rapidinho:
http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=714&item=1

http://www.cremerj.org.br/legislacao/detalhes.php?id=715&item=1

20 de junho de 2011

ALERTA: Rondônia foi o campeão nacional de nascimentos por cesariana


Em recente resultado fornecido pelo DATASUS do Governo Federal, Rondônia restou com um destaque preocupante. Em 2008*, fomos o Estado com o maior número de nascimentos por via cirúrgica do país. Ficamos em último lugar no ranking de partos por via vaginal. Somente 40% dos bebês nascem de parto normal, sendo que, segundo a Organização Mundial de Saúde, este índice deveria ficar em no mínimo 85%.

Acredita-se que este número é infinitamente maior na rede de saúde suplementar, onde hospitais particulares praticam índices ainda mais alarmantes de cirurgias cesarianas. A questão do excesso de “medicalização” do nascimento é nacional, sendo que Rondônia ficou em último lugar! Da região norte e nordeste do país fomos o único Estado em que o número de cesarianas superou o de partos.

Quantos destes mais de 15 mil nascimentos por cesariana (contra 10 mil de parto vaginal) foram fruto de real necessidade advindos de risco iminente para a mãe e para o bebê (lembrando-se que esta é a razão pela qual a cirurgia deve ser indicada)?

Por outro turno, cabe aqui uma reflexão. O parto vaginal oferecido pelas maternidades parece que em nada atrai as gestantes mesmo com as vantagens inegáveis de recuperação rápida. As poses das atrizes dizendo “deixe a vida acontecer naturalmente” nas campanhas do Governo Federal parece que não têm convencido as parturientes. Qual seria a razão disto?

A resposta a esta questão possui esferas físicas e emocionais profundas mas é fácil imaginar que o parto oferecido como normal em nada se parece com a vivência verdadeira de nascimento a que todas as mulheres, mesmo que ainda no plano inconsciente, anseiam profundamente.

A começar pelo atendimento frio e distante, os comentários inoportunos, o acesso venoso, o uso indiscriminado de ocitocina sintética que torna as contrações insuportáveis, lavagem intestinal, corte dos pelos pubianos, roupa de hospital, isolamento, posição litotômica (deitada), que pressiona as veias cavas e causa grande desconforto para a gestante podendo resultar em deficiência de oxigênio para o feto. Não menos contraditório ainda tem o alívio farmacológico da dor que limita a movimentação da mulher através do acesso espinhal para peridural, sendo que já existem evidências de inúmeros meios não fármacos de alívio da dor fisiológica do parto. Digo fisiológica porque aquela dor proveniente do uso de hormônio sintético, ocitocina, não é fisiológica e torna-se, inúmeras vezes, insuportável para a mulher. Por fim, como que para assinar o grande final tecnocrata de ‘gestão do nascimento’, cortam-lhe o sexo, por meio da episiotomia, e fazem a cessão abrupta do cordão umbilical, com a pecha de apressar o nascimento. Mas, quem tem pressa?

Não, esta não é a vida acontecendo naturalmente. Essa série de condutas adotadas rotineiramente em grande parte das maternidades do país são fruto de uma única e sinistra síntese: o parto não pertence mais à mulher. O ato de parir, antes um evento feminino, ativo e importante da vida sexual passou a ser passivo, um ato médico, completamente entregue à tecnologia. A mulher, antes protagonista, virou paciente. Seu útero agora é alvo de investidas cada vez mais poderosas que começam com as ultrassonografias de rotina e findam em seu corte, sua e exposição, no nascimento por cirurgia. O feto, um ser humano, virou algo a ser expelido do corpo gravídico o mais rápido possível... restando novamente a pergunta: de quem é a pressa?

O que antes era aterrorizante – o numero de mulheres e crianças que morriam no parto – findou por aterrorizar de tal forma a sociedade que durante décadas passou-se a acreditar que a solução para as trágicas mortes seria gerenciar completamente o nascimento.

Hoje, no entanto, temos a oportunidade de parir naturalmente, com dignidade e respeito, mas com toda a tecnologia disponível para agir, de pronto, se necessário. A problemática surgiu em se utilizar o “se necessário” como regra, transformando todas as intervenções médicas em rotinas obstétricas. O nascimento, maior encontro de nossas vidas – o de nós, recém-humanos de fato, com nossa origem – virou frio, distante e, em muitos casos, traumático para o bebê que ingressa na vida independente com registros negativos de isolamentos e violações, além de causar horror também a mulher que ingressa na maternidade sem viver, plenamente, seu rito de passagem ao universo feminino.

Se for necessário que se faça uma cirurgia, que ela seja humanizada e não mecânica tal qual se extrai uma vesícula. Para os médicos é apenas mais um dos inúmeros procedimentos que farão no dia, mas para os pais e para o feto é o momento único de formação de uma família e perpetuação da humanidade.

O movimento pela humanização do nascimento já está muito bem formado no Brasil e no mundo. Resta às mulheres tomar conhecimento desta tendência e lutar pelos direitos de parir com dignidade e garantir um nascimento respeitoso para seus filhos. Em novembro passado, houve a Conferência Internacional da Rede Pela Humanização do Nascimento, em Brasília, com autoridades de vários países, todos apresentando dados alarmantes de violência à mulher e ao feto na hora do parto, mas também apontado experiências de sucesso e evidências científicas de que a humanização do nascimento pode andar de mãos dadas com a tecnologia conquistada pela medicina moderna. (www.rehuna.org.br)

A Sociedade Brasileira de Pediatria, recentemente, emitiu mudanças nas normas de reanimação neonatal incluindo o corte tardio do cordão umbilical como melhor prática a ser adotada nos nascimentos. Comprovou-se por estudos que o sangue que o bebê recebe após o nascimento durante alguns minutos em que a placenta ainda funciona garante-lhe uma rica reserva de oxigênio e nutrientes, entre eles o ferro.

Gradativamente, graças à força que os movimentos de respeito ao parto e nascimento proliferam em todo o mundo e à adesão por profissionais das mais diversas áreas, muitas das ações que antes precisavam ser exigidas no momento do parto, agora é regra médica ou garantida por lei, e isto é digno de comemoração. No Brasil temos a Parto do Princípio, uma rede formada por mulheres de todas as regiões que militam pelos direitos relativos ao feminino, realizando diversas ações locais e nacionais. A onda é mundial e no Brasil temos grandes nomes de respeito entre obstetras, pediatras, enfermeiros e terapeutas nos mais diversos campos. No entanto, muito trabalho ainda precisa ser feito, principalmente por nós, mulheres, que queremos o melhor para nós mesmas e para nossos filhos. (www.partodoprincipio.com.br).

Não, ainda não dá para, parafraseando a campanha do governo federal, “deixar” a vida acontecer naturalmente, porque o cenário para permitir este evento ainda não está montado! Hoje, costumo dizer, ainda estamos nos tempos de “lutar” para que a vida aconteça naturalmente; principalmente em nosso Estado, como os números vergonhosamente nos apontaram.


Vamos à luta então!

*Adendo: Fonte DATASUS: Em 2009 e em 2010 também continuamos em primeiro lugar. O post é de 2011, mas o assunto continua alarmante, como o gráfico demonstra! Em 15/07/2013
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