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11 de abril de 2020

Relato da Ana Deise: Cesárea com doula impedida de atuar em Rolim de Moura



***alerta de violência obstétrica***

Durante a gestação sempre fiquei tentando imaginar como que seria o meu relato de parto e hoje eu tenho a missão de escrevê-lo. Era madrugada do dia 12/01/2019, lembro-me de ter acordado por volta das 04:00 horas para uma ida rotineira ao banheiro, foi quando percebi que havia perdido o tampão mucoso. Só Deus sabe como fiquei feliz naquele momento, pois sabia que o momento que eu mais almejava estava chegando, tomei um banho e tentei descansar, pois sabia que precisava de forças para o trabalho de parto.

Por voltas das 05:00 da manhã comecei sentir fortes contrações, elas variavam em um espaço de tempo, então constatei que estava nos pródomos. Minha alegria era imensa, primeiro avisei ao meu esposo, que tentou se manter calmo naquele momento e me dar todo apoio necessário, em seguida avisei minha doula Suelen Leal e logo em seguida minha amiga e também enfermeira Elisandra. Elas ficaram felizes e me passaram todo apoio e tranquilidade que eu precisava naquele momento e me pediram para descansar o máximo que eu pudesse.

Às 10:30 da manhã do dia 12/01 minha doula foi ver como eu estava, ouvimos os batimentos fetais que estavam em 147 por minutos, ela me examinou e viu que eu estava bem e feliz e o mais importante, meu bebê estava muito bem. Ela disse: “Deise, sabe que pode demorar então se alimente e descanse, logo você entrará em trabalho de parto, precisará estar bem”. E foi o que fizemos, almocei, descansei e até dormi um pouquinho, eu estava tranquila afinal, tínhamos nos preparado para aquele momento.

Às 15:00 minha amiga Elisandra chegou em minha casa. É importante ressaltar que houve sim um planejamento de parto, tanto que eu tinha uma doula e uma enfermeira me dando suporte. Faríamos o trabalho de parto em casa e só iríamos para o hospital na fase latente do trabalho de parto. Assim que a Elisandra chegou ouvimos os batimentos do bebê e ele estava muito bem, se mexia com frequência, era como se quisesse me dizer que aquele era o momento. Logo em seguida minha doula chegou, sentamos, conversamos e demos risadas, o momento era de felicidade, todos estavam com o coração cheio de alegria.

Foi então que as contrações ritmadas começaram, e junto com elas o trabalho da Suelen que era me orientar e me apoiar em relação a tudo que eu devia fazer naquele momento. A cada contração eu agachava e minha doula fazia massagens em minhas costas, isso me ajudava relaxar, mas não parava por aí, em todo momento eu estava ativa, caminhei, agachei, fiz exercícios com a bola, tomei banho morno, descansei, comi... Ufa, como trabalhamos! Mas em meio a tudo isso, não havia tristeza, sofrimento, angustia e desespero, pelo contrario, era só felicidade.

Meu filho estava chegando e durante os nove meses de gestação eu havia me preparado para aquele momento, fiz o possível com relação ao que se tratava de saúde e de preparo. Durante a gestação me alimentei corretamente, fiz atividade física e sempre pensei em fazer o melhor para o meu filho, tanto que esperei o momento dele.

Por volta das 20:30 da noite o processo do trabalho de parto já estava significativamente evoluído, então resolvemos que era o momento de irmos para o hospital. Tomei um banho morno e relaxei meu corpo, meu esposo e a enfermeira colocaram as malas no carro. Eu me troquei, penteei o cabelo, então disse “estou pronta”! Não consigo descrever o que se passava na minha mente naquele momento, era uma mistura de dor das contrações com alegria do momento de ver meu filho chegando.

Então as 21:00 horas da noite demos entrada no hospital, passamos pela triagem e logo em seguida fomos encaminhados para a ala das gestantes, e foi ali que toda minha tranquilidade e felicidade acabaram. O medo, pavor e angustia tomaram conta de mim em frações de segundo. A enfermeira que estava no plantão chamou pelo meu nome para o médico me examinar, minha doula, que tem entrada permitida pela Lei Das Doulas, entrou comigo. Porém, assim que entramos e o medico a viu.. o circo dos horrores começou.

Primeiro, que a falta de educação era maior que qualquer coisa e, segundo, que quando entrei na sala de parto o médico não me cumprimentou, apenas me disse para tirar a calcinha e deitar para ele me examinar. Então eu disse: “Boa noite Dr., eu já estou em trabalho de parto”. Ele, como se não tivesse me ouvido, olhou para a doula e disse grosseiramente, “Quero que você saia e fique lá fora, pois eu preciso trabalhar”. Ela disse: “Dr. eu sou a doula dela, posso acompanhá-la”. Ele muito friamente, sem se importar em me respeitar, sem se importar com o que eu estava sentindo disse: “Não me importa o que você é, só quero que saia”. Eu que já estava deitada na maca para ser examinada indaguei: “Mas Dr. ela é minha doula, deixa ela ficar”, mas ele continuou dizendo que se ela continuasse, ela que faria meu parto, queria até que ela assinasse que ela era responsável por mim e pelo meu parto.

Juro que tentei me manter calma, mas pelo teor da situação, naquele momento o medo já havia tomado conta de mim, eu fiquei com medo do que ele poderia fazer comigo ou com meu bebê. Porém não havia mais para onde ir, nem o que se fazer. Deixei-o me examinar e ele por pura implicância disse que eu só havia dilatado 2 cm e que seria impossível eu ter parto normal. O único alivio foi ouvir o coraçãozinho do meu bebê, que se mantinha normal e saudável.

Assim que saímos da sala do médico, cogitamos a ideia de ir para outra cidade, mas vários medos rondavam minha cabeça, as contrações já eram bem fortes e eu tinha medo de não conseguir chegar até outro hospital. Eu já não era mais a mesma, meu corpo deu os sinais de que havia algo de errado comigo. A adrenalina tomou conta de mim e toda minha tranquilidade começou ir embora.

A adrenalina ativa a atividade do neocortex e inibe o processo de parto! O desencadeia a adrenalina? Medo, mau humor, conflitos, dúvidas, inseguranças, excesso de toques, preocupações e etc.

Foram todos esses sentimentos que começaram a me assombrar naquele momento. Demos entrada no leito, porém uma crise de choro tomou conta de mim, eu sentia medo de toda aquela situação. Comecei chorar e uma crise de tremores se espalhou pelas minhas pernas, eu não conseguia controlar aquele tremor, fiquei assim por mais ou menos 1 hora, sendo assim, meu trabalho de parto retroagiu, minhas contrações simplesmente pararam. Eu me lembro de ter cochilado por um tempo, o tremor havia passado e as contrações voltaram, foi então que decidi continuar lutando.

Porém eu não conseguia mais fazer o trabalho de parto como antes e, sabe, eu me culpava muito por isso, mas não era culpa minha, eu havia perdido toda energia na sala daquele médico. Minha doula Suelen tentava me acalmar e me animar e me dar forças, minha amiga Elisandra fazia o mesmo. Assim seguimos madrugada adentro, ali sozinhas, eu contava apenas com o apoio delas, meu esposo, coitado, não podia entrar, estava lá do lado de fora, o médico sei lá por onde andava, e as enfermeiras não gostavam da presença da doula ali.

Eu necessitava daquele momento de respeito à fisiologia do meu corpo, precisava me sentir protegida, segura, apoiada, confortável e relaxada, precisava sentir que era ali que eu devia estar, que era ali que meu filho nasceria, mas era tudo confuso. Às 02:00 da madrugada escutamos os batimentos cardíacos do bebê e estava tudo bem, 140 batimentos por minuto, e o médico fez o toque, com a rispidez de sempre e disse que estava apenas 5 cm.

Voltei para o quarto e lutei bravamente para não desistir, fiz todo o possível, não incomodamos ninguém, apenas seguimos no trabalho de parto, claro que eu já não estava como antes, com toda aquela felicidade, pois era tudo muito confuso, mas o propósito era o mesmo, eu acreditava bravamente que era possível sim meu filho nascer de um parto normal. Não era capricho, era apenas respeito ao nascimento, ao ato de parir.

Às 07:00 da manhã do dia 13/01 já na troca de plantão, uma enfermeira chegou e disse: “Nossa! Ela esta muito cansada, coitada, onde esta o médico que ainda não examinou?” Ela me levou para uma sala de espera que ficava ao lado da que o médico examinava as pacientes. Novamente ele, o médico, expulsou minha doula, meu Deus que tristeza! Que desespero eu sentia naquele momento, eu precisava de alguém comigo, precisava de um apoio, porém o médico disse para a doula sair, ele disse: “Vamos, saia daqui! Não te quero aqui! Se não sair eu não vou fazer o meu trabalho, eu não vou fazer o parto dela”.

Para não causar mais conflitos, a doula olhou com muita tristeza para mim e disse: “Deise, eu vou ter que sair, pois tenho medo do que ele pode fazer com você”. Eu estava apavorada, mas tive que aceitar, não tinha para onde ir, nem o que fazer. Então o médico mais uma enfermeira me levaram para a maca para poder ser examinada, eu mal tinha forças para subir na maca, estava apavorada, mas o sentimento de trazer meu filho ao mundo era maior.

É importante dizer que, não tenho nada contra a cesárea, assim como não tenho nada contra o parto natural, sou a favor de todas as mães terem seus filhos da forma que desejam, com respeito e sem serem coagidas.

Novamente o médico fez o toque e ele me disse que estava 9 cm dilatado, faltava apenas 1 cm, eu sentia muita dor, mas a felicidade era maior, pensei “meu Deus, sou capaz de conseguir, falta somente 1 cm”. Porém novamente ele veio com sua negatividade e disse: “Eu acho que não vai dar certo, vamos ver, não sei”. Pensei: "porque ele esta fazendo isso comigo, o que eu fiz para ele? Como pode alguém que estuda para ajudar as pessoas fazer isso?".

Ele pediu uma pinça para enfermeira e sem me informar nada, rompeu minha bolsa, assim, do nada, invadiu meu corpo como se eu não estivesse ali. Então me levaram para o quarto ao lado, o médico mandou eu deitar e apoiar os pés na cabeceira da cama, eu pensei: como assim? É aqui que fazem os partos normais? Não há uma sala separada e preparada? Pois é, não havia! Seria ali mesmo, o médico olhou para mim e disse: “olha, não sei se vai dar certo, mas você pode continuar tentando, você fez suas escolhas, preferiu ficar com elas (doula e amiga enfermeira), elas fizeram tudo errado com você e agora você terá que sofrer as consequências, talvez o seu útero tenha rompido e o seu feto não consiga". Eu super assustada perguntei se podíamos ouvir o bebê e ouvimos, estava tudo bem com o bebê, ele era forte e os batimentos cardíacos estavam em 140 por minuto.

Mas isso não foi o suficiente para o Dr. ele continuou indagando: “Olha já vou te falar, teremos que fazer a episiotomia se não você pode se rasgar toda”, a enfermeira disse a mesma coisa e ainda completou: “O seu bebê é grande será impossível não fazer”. O médico continuou dizendo: “Eu tenho mais estudo que essa menina (ele se referia a doula), tenho livros e livros de estudo e ela o que tem?"


Agora eu te pergunto, aonde foi que ele estudou que aprendeu a tratar uma paciente assim? Aonde ele aprendeu fazer uma cirurgia assim?

Enquanto eles falavam todas essas coisas, eu estava ali gritando de dor, eu pedi varias vezes para levantar, eu queria levantar, eu queria agachar, sentia meu corpo pedindo isso, então ele veio e de novo fez o toque, meu Deus eu já havia perdido as contas de quantas vezes ele já havia feito e de como era horrível, então ele disse: “Seu colo do útero ainda esta duro, não vai dar tempo, vamos ter que fazer cesárea”. Como assim, colo do útero duro? Eu não compreendia nada naquele momento, mas não tinha mais para onde ir, a não ser a mesa de cirurgia.

Fui carregada para o centro cirúrgico, lá eu mal consegui subir na mesa de cirurgia, sentia muita dor e o desespero era maior que qualquer outra coisa. Eu chorava, mas tive que engolir o choro e me calar. Lembro-me perfeitamente de ter apenas três pessoas na sala, a enfermeira, o médico e outro médico auxiliar. Foi o mesmo médico que aplicou a anestesia em mim, achei estranho, mas naquele momento a única coisa que eu queria era ver o fim de tudo aquilo, era ver meu filho bem.

Ele disse: “Fique quieta se não eu posso te machucar”, logo depois me deitaram, eu tremia muito, já na mesa de cirurgia, era uma mistura de sentimentos, lembro de que assim que me abriram ouvir o médico auxiliar disser: “Estava ou não encaixado?” Pela minha conclusão ele quis dizer que sim, quis dizer que meu filho já estava nascendo, só precisava de tempo e eu, de apoio, de ajuda.

Quando ouvi o choro do meu bebê, eu só queria velo, ver se estava bem, logo à enfermeira o levou e eu não via a hora de tudo terminar para eu sair dali e ver meu filho, ver como ele estava. Meu esposo que foi impedido de entrar, mesmo tendo um documento e assinado e protocolado pelo diretor do hospital, onde era permitido a sua entrada, mas é claro, isso também não foi respeitado, ele estava do lado de fora, desesperado em saber noticias nossas.

Era tão desesperador, quando sai, me senti derrotada, culpada, fracassada. Olhei para o meu esposo e chorei, pedi perdão por não ter conseguido, ele me olhou e disse: “Calma meu amor, você foi guerreira e o nosso filho é lindo”. Eu não queria encarar ninguém e dizia à todo tempo “eu não consegui, me perdoem”.

Tinha que lidar com tanta coisa, um momento era para ser de total felicidade, na minha cabeça era de total fracasso. Estava feliz e aliviada de ver meu filho bem, mas como mulher e mãe, me sentia um fracasso. No mesmo dia, muitas enfermeiras foram até o meu quarto, perguntaram sobre o parto e quando eu contava o ocorrido elas não se surpreendiam, diziam que para haver um parto ali com respeito, precisava de muita mudança.

A enfermeira que estava com o médico quando dei entrada no hospital me visitou no dia seguinte, ela me relatou que sabia que o medico não faria a cesárea só de pirraça, pois não gostava da doula e que ele me deixaria sofrer ate o último momento e depois faria à cesárea, disse também que isso já havia acontecido outras vezes e que já ate tiveram que empurrar a cabeça de bebés que estavam coroando, eu fiquei sem palavras. Quando ela saiu eu pude concluir que eu não era a primeira e não seria a última vitima a passar por todas essas atrocidades, muitas mulheres passam por coisas terríveis dentro daquele hospital, triste a nossa realidade.

Quando você passa por algo tão traumático é uma luta diária para superar, você tem que lidar com muitas dores, mais a dor maior é a da alma, essa é a mais difícil de ser curada, essa dor lateja todos os dias dentro de você. Nos primeiros dias eu chorava a todo tempo, chorava escondido porque não queria que me vissem sofrer. Olhava para aquela cirurgia horrorosa e me sentia um grande fracasso, demorei a entender que a culpa não era minha, e que na verdade eu era a grande vitima. Todo dias peço a Deus para vencer cada novo dia, fico pensando até quando vamos ser desrespeitadas e maltratadas dessa forma? Infelizmente esse não foi o relato que sonhei escrever, mas foi o que me obrigaram.

 











Ana Deise Félix Oliveira tem 29 anos, mora em Rolim de Moura e é casada. Tem um filha fruto de um relacionamento anterior e o Heitor, cuja história de nascimento trazemos aqui.

23 de abril de 2014

A cesárea protege o meu períneo?


por Cariny Cielo

Dentre os argumentos para se optar por uma cirurgia ao invés de um parto natural, é a ideia de que a cesárea protege o períneo e evita problemas futuros com incontinência urinária, perda de tônus na musculatura vaginal e consequente diminuição no prazer feminino - e do masculino, enfim...

Conheço mulheres que não entraram em trabalho de parto, tiveram bebês por meio de cirurgia e, ainda assim, no alto de seus 50-60 anos tiveram que se submeter a cirurgias de períneo, assim como mulheres que tiveram vários filhos de parto normal e não relatam sequer perda de tônus, mesmo com a idade avançada.

Também li que, em 2001, no Congresso da Sociedade Internacional de Incontinência, em Paris, a Dra. Linda Cardoso apresentou um trabalho, mostrando claramente que a gravidez, assim como a paridade e a multiparidade, aumentam a incidência de incontinência urinária nas mulheres. No entanto, não ficou definido se o parto normal provoca mais incontinência do que a cesariana.

Nós mulheres estamos mais predispostas a ter problemas com períneo do que os homens por questões anatômicas, assim como as que gestam ficam mais propensas do que as que nunca tiveram filhos, já que na gestação, não só o aumento do volume abdominal, mas também a presença da cabeça do bebê insinuada na pelve podem causar danos na musculatura do esfíncter feminino.

A enfermeira obstétrica Maíra Libertad alerta para o fato de que as pesquisas de qualidade mostram benefícios da maioria das técnicas de preparo ou proteção perineal para prevenção de laceração de 3º e 4º grau - envolvendo o esfíncter anal ou reto - que são as mais raras, algo em torno de 0,5 a 2,5%, dependendo do estudo. Assim como a episiotomia (o famoso 'pique') não é mais recomendável em nenhuma situação, pois não comprovou proteger, nem mesmo mitigar lacerações. A imensa maioria de lacerações são de graus 1 e 2, e menores que a invasão de uma episiotomia na vagina.

E que fique sempre bem claro que muitas lacerações são decorrentes de más condutas durante o parto como: orientar a gestante para fazer 'força comprida', manobra de empurrar a barriga (banida em vários países), posições horizontais para parir, excesso de toques e 'massagem' perineal, episiotomia prévia... entre outros.

Uma coisa é certa: a região do assoalho pélvico precisa de atenção assim como toda e qualquer musculatura. E não deveria receber cuidados apenas na gestação, embora a mulher gestante costume gostar de pensar, cuidar e preparar o períneo.

A proposta aqui é investigar mitos (assim como fizemos na pergunta ‘A cesárea protege meu bebe de uma paralisia cerebral?'), novamente, chamo especialistas para responder a seguinte questão: A cesárea protege meu períneo?

Quem responde é a Camila Patriota, fisioterapeuta especializada em Saúde da Mulher.




Antes de responder diretamente a pergunta, se faz necessário compreender alguns conceitos.

Ao pensar em gravidez é importante que a mulher tenha um conhecimento do próprio corpo e das estruturas que estão envolvidas e que sofrerão as transformações ao passo que o bebê se desenvolve.

Os órgãos pélvicos, útero e seus anexos (tubas uterinas e ovários) bem como a bexiga estão localizados na região pélvica, parte compreendida entre o tronco e os membros inferiores. Esta área do corpo atua em importantes funções, como a proteção destes órgãos, sua articulação com os membros inferiores possibilita a locomoção do indivíduo e ainda serve como ponto de fixação de alguns músculos, dentre eles os músculos que formam o assoalho pélvico. Sendo assim a função muscular baseia-se na sustentação destes órgãos pélvicos, atuando também, nas funções de continência urinária, continência fecal e funções sexuais. Ou seja a partir do momento que este grupo muscular evolui com uma diminuição da força é possível que ocorra as incontinências urinária e fecal, o desabamento dos órgãos pélvicos (prolapsos) e até mesmo algumas disfunções sexuais.

E o que seria o períneo? Ao contrário do que muitos pensam ou deduzem, o períneo não é um órgão. Trata-se de uma região anatômica compreendida entre a vagina e o ânus. Internamente, é neste local que é possível detectar o centro tendíneo do períneo, região onde os músculos que recobrem a pelve inferiormente (assoalho pélvico) se encontram, formando um centro de estabilização desta região.


O que se percebe é que existem muitos mitos e tabus que cercam a área pélvica, principalmente a região do períneo, assim como os mitos dos tipos de parto: cesárea ou normal.

Durante a gravidez, ao tempo que o útero se expande junto com o bebê, os músculos do assoalho pélvico ficam sobrecarregados. Desta forma é esperado que a gestante relate pequenos escapes de urina aos esforços (tosse, espirro ou mudanças de postura) e que tema a laceração durante o trabalho de parto, temendo ficar com a vagina “flácida”.

O que deve ser esclarecido é que na verdade estas condições podem ser evitadas com exercícios simples de treino muscular focado no assoalho pélvico, conhecidos como exercícios de kegel. O treino muscular proporciona o aumento da força, melhora da resistência e da consciência corporal quanto ao recrutamento adequado da musculatura, facilitando o entendimento da gestante em saber acionar os músculos para exercer uma contração ou um relaxamento. É indispensável que a escolha pelo parto normal ou pela cesariana seja provida destes cuidados e orientações.

Em caso de parto, durante o período expulsivo, tais músculos sofrerão uma distensão máxima para facilitar a passagem do bebê. Caso não tenham sido preparados através de um programa adequado de treinamento (e caso as condições deste parto sejam negativas em relação à proteção perineal), poderão evoluir para o rompimento parcial de suas fibras, causando a laceração. Tal condição pode ser um dos fatores que irá contribuir para futuros prolapsos de órgãos pélvicos, conhecidos popularmente como “queda da bexiga ou bexiga caída”, queda do útero ou retocele (desabamento do reto). A escolha pela cesárea protegerá a mulher da laceração, mas não irá evitar a condição do prolapso, se a musculatura estiver enfraquecida, seja pela ausência de exercícios ou até mesmo pelo número de gestações.

Muitos são os fatores que podem interferir na integridade da região perineal. São eles: número de gestações, parto, traumas cirúrgicos, atividade física e alteração hormonal. Independente da escolha da via de nascimento, exercícios físicos focados em condicionar os músculos do assoalho pélvico são essenciais para a manutenção da integridade desta região e de suas funções.

E importante: A gestante que evolui com um parto natural ou cesárea deve dar continuidade ao programa de exercícios na fase pós parto, voltando a manter o condicionamento dos músculos da região pélvica e de outras regiões do corpo, afim de retomar a forma física de maneira saudável e adequada, respeitando sua individualidade.




Camila Patriota Ferreira é graduada em fisioterapia (2008) pela Faculdade São Lucas/ PVH. Tem especialização em fisioterapia em saúde da mulher (2009) pela Universidade Estadual de Campinas Unicamp SP e é docente da faculdade Interamericana de Porto Velho/Uniron PVH (desde 2012)



Imagem do texto Oficina de Períneo 

1 de novembro de 2013

A cesárea protege meu bebê de uma paralisia cerebral?


por Cariny Cielo

É muito comum ouvirmos de profissionais da área da sáude, principalmente os que trabalham com crianças com paralisia cerebral, que, em 90% dos casos, a razão da deficiência foi decorrente do parto normal, usando muitas vezes o termo 'o bebê passou da hora' ou o 'médico esperou demais pra fazer a cesárea' ou ainda 'a mãe insistiu que queria um parto normal'. Neste caso, é natural que uma gestante opte por uma cirurgia para proteger o filho das temidas ocorrências de paralisia cerebral... mas, será isto verdadeiro? A cesárea protege o bebê de uma paralisia cerebral?

A despeito dos casos que você irá ouvir, a despeito das histórias assustadoras, a despeito do caso do filho do Diogo Mainardi, não é a via de parto (se normal ou cirúrgico) que evita ou determina uma paralisia cerebral... veja alguns números aqui.

E, enquanto eu divulgo o CERNIC (Centro de Reabilitação Neurológica Infantil de Cacoal) e um linque de artigos acadêmicos sobre paralisia cerebral, eu vou tentar ser o máximo simples nas colocações que resumem este post. Porque eu também sou mãe e porque também comungo das pirações que gestantes carregam acerca da integralidade da saúde e da e perfeição de um filho, quando o gestam dentro de si, na carne e na mente...

E também não sou boba de não chamar médicos pra esclarecer estas dúvidas... quero ouvir deles!!!

Então vamos lá:

Parte I: Da Ciência

1. Segundo a médica Carla Andreucci Polido (currículo aqui) 70% das encefalopatias perinatais são de etiologia anteparto, relacionadas à restrição do crescimento fetal intra-útero, síndromes hipertensivas e condições crônicas fetais.
Das causas intraparto, destacam-se:
1. CESARIANAS,
2. parto instrumental,
3. febre intraparto,
4. cesariana de emergência.

Ou seja: assistência inadequada ou demora na tomada de condutas. O maior risco intraparto para encefalopatia perinatal é, na verdade, assistência inadequada, e não via de parto. Veja aqui.

"No Brasil somos forçadas a uma cesárea ou um parto normal violento (cheio de intervenções de rotina e reconhecidamente desnecessárias). Assim, se o parto carecer de assistência adequada, você pode encontrar desfechos perinatais adversos".

E, por Melania Amorim: "lembrem, somente os casos de paralisia cerebral do tipo quadriplégica espástica ou discinética são associados com o parto, embora não sejam exclusivas de problemas no parto!"

Não é minha opinião e nem mesmo a opinião das médicas... são dados estatísticos. Cabe a cada um refletir se quer ficar com a ciência ou com as famosas crendices que ilustram o imaginário de todos quando o assunto é algum evento do universo mamífero feminino. Já viram mãe dizer que tem 'leite fraco'? Pois é, podemos ficar neste depoimento recheado de mito e de condutas erradas que fizeram esta mãe acreditar que o próprio leite não sustentou o filho ou podemos compreender que cientificamente comprovado o leite materno é o melhor alimento até os 6 meses e não existe leite fraco.


2. O filho do Diogo Mainardi NÃO ficou com paralisia cerebral por conta da via de parto. O problema foi causado por uma amniotomia precoce, ou seja rompimento artificial da bolsa, muitíssimo mal indicada e pelo atraso em indicar uma cesariana de emergência, não teve nada a ver com parto normal! Palavras da Doutora Melania Amorim que explica tudo aqui.
Voltemos ao assunto da intervenção na fisiologia do parto! Porque entenda que "a melhor estratégia de prevenção primária de prolapso de cordão, nos casos de gestação única com feto em apresentação cefálica é NÃO realizar amniotomia de rotina, mesmo que presentes condições para praticá-la, isto é, dilatação avançada e apresentação fetal encaixada na pelve".

A revisão sistemática disponível na Biblioteca Cochrane NÃO recomenda a amniotomia como procedimento de rotina na assistência ao parto, uma vez que não há quaisquer efeitos benéficos associados com essa prática.
Compreenda a bola de neve: rompimento artificial de bolsa + falta de estrutura para assistência de emergência: cada intervenção desnecessária e má indicada feita num trabalho de parto aumenta o risco, sempre. Romper bolsa não deveria NUNCA ser procedimento aplicado de rotina...

Em resumo: Não deixem que estourem artificialmente sua bolsa durante o trabalho de parto! Este procedimento só deve ser feito com indicação muito precisa por profissional que conhece e aplica medicina baseada em evidências científicas.


3. Um argumento lógico e bem basiquinho que eu uso bastante, bem simples e que destrói o blá blá blá de mitos igual uma tsunami: a taxa de cesarianas só cresce no Brasil e no mundo... MAS a taxa de asfixia perinatal está mantida! Ou seja, não, cesariana não é fator de proteção.

Melania diz: "Eu só quero dizer que se cesariana prevenisse paralisia cerebral não teríamos mais tantos casos de paralisia cerebral sendo atendidos nas diversas clínicas! Estamos com mais de 53% de cesáreas neste país e no setor privado em algumas cidades elas ultrapassam 90%! Por acaso caiu a taxa de paralisia cerebral???"

"Por outro lado, os partos violentos e cheios de intervenções desnecessárias estão sim associados com maior risco de asfixia perinatal. É contra esse tipo de parto que nos posicionamos, também. A alternativa à cesariana não pode e não deve ser um parto traumático e violento, esse é um falso dilema. A assistência ao parto normal DEVE ser humanizada e baseada em evidências científicas atuais!"

Evidências científicas: aqui e aqui




4. Dra. Melania reforça que "há séculos que se definiu que parto vaginal não se associa a risco aumentado de paralisia cerebral e que apenas 10% dos casos de paralisia cerebral se devem a problemas no parto. Eu tenho uma aula recheada de evidências sobre o assunto. Para definir se foi associada com o parto, a paralisia cerebral tem que preencher 4 parâmetros, sem isso tudo é suposição ou mitologia, médica ou popular. Aqui os critérios:

a) Evidência de acidose metabólica, cordão umbilical, sangue arterial fetal obtidas no momento do parto (pH inferior a 7 e défice de base, de 12 mmol / L ou mais),
b) o início precoce de encefalopatia neonatal moderada ou grave em lactentes nascidos a 34 de gestação, ou mais semanas ,
c) paralisia cerebral do tetraplégico ou discinético tipo espástica, e
d) a exclusão de outras etiologias identificáveis​​, tais como trauma, distúrbios de coagulação, condições infecciosas ou doenças genéticas.

Veja aqui a revisão sistemática. Para entender um pouco mais a fisiopatologia aqui e mais referências aqui e um estudo interessante da PUC/PR aqui.

"E lembrem: somente os casos de paralisia cerebral do tipo quadriplégica espástica ou discinética são associados com o parto, embora não sejam exclusivas de problemas no parto."

A maior causa de paralisia cerebral é a prematuridade. Nos casos restantes, anomalias fetais, problemas maternos e complicações da gravidez respondem como os principais agentes etiológicos, podendo ainda haver etiologia multifatorial.


Parte II: Dos mitos...

Maíra Libertad, enfermeira obstétrica e uma das administradoras do Portal Parto no Rio de Janeiro, traz um fato interessante: "Entendam a dramaticidade do quadro. Eu conheci outro dia uma pessoa que jurava ter uma criança da família com "paralisia cerebral" por conta do parto. A família inteira acreditava nisso. Que o parto tinha demorado, que ela ficou abandonada com dores por X horas (possivelmente um parto violento pela descrição). Aí eu por acaso encontrei essa criança supostamente com 'paralisia cerebral por conta do parto' e me choquei ao notar que, possivelmente, se tratava de uma síndrome genética (pelas características, fácies etc.). A família vive a vida sem saber que o bebê possivelmente nasceu com uma síndrome, algo congênito, não-relacionado com o parto, e acredita (e profissionais de saúde reforçam!) que é "PC causada pelo parto".

Veja a história deste coreógrafo que, em entrevista, afirma ter paralisia cerebral em razão de parto. No entanto, notem na reportagem que ele mesmo informa que nasceu prematuro, aos 6 meses...

Diversos outros artigos, como este - que aborda apenas a via de parto e sequer leva em conta a idade gestacional - alimentam com mitos o imaginário da sociedade e, em especial, da gestante que busca sempre o melhor para seu filho.

Como fazer um levantamento acerca do resultado 'paralisia cerebral' levando-se em conta apenas a via de parto, se a prematuridade é um fator determinante? Independente do bebê ter nascido de parto normal ou cesárea, se ele foi prematura, ele estava em risco... pela prematuridade!

Das causas de paralisia cerebral a mais frequente é a falta de oxigenação que pode ocorrer antes, durante ou logo após o parto e só 10% estarão ligadas ao tipo de parto, mas sim à falta de acompanhamento pré-natal, questões sócio econômicas e saúde da mãe. (Cervo, 1985)

No entanto, é fato que as cesáreas acarretam:
a) quatro vezes mais risco de infecção puerperal,
b) três vezes mais risco de mortalidade e morbidade materna,
c) aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal,
d) recuperação mais difícil da mãe,
e) maior período de separação entre mãe/bebê com retardo do início da amamentação e
f) elevação de gastos para o sistema de saúde (OMS, 1997).

Você vai ouvir muitos mitos relacionados aos eventos femininos!

Você ouvirá que menstruar é ruim, que amamentar pode tornar os seios flácidos, que a prima da vizinha amamentou e ficou com anemia, que a tia do seu colega de trabalho tinha leite fraco, que a avó do seu amigo precisa medicar a menopausa, que o médico salvou a vida do bebê da sua prima que nasceu roxo, que fulana perdeu o bebê porque passou do tempo na barriga, que a moça do banco teve que fazer períneo porque ficou frouxa depois de um parto normal, que o marido da amiga reclamou que a mulher perdeu o tônus da vagina depois de 3 partos normais, que fazer cesárea protege o períneo da mulher, que o bebê passou a dormir a noite toda depois da mamadeira, que chupeta é melhor que dedo, que  episiotomia preserva o períneo, que 40 semanas é o fim da gestação, que parir é coisa de índia, que cesárea é a evolução do parto... eu me perderia de escrever... mas nada disto faz parte da ciência e da verdadeira medicina baseada em evidências científicas!

Cabe a cada um decidir em quê vai acreditar e confiar seus pensamentos...



E, enquanto isto, a vida segue para muitos com paralisia cerebral... mas agora você sabe por a + b que, em cerca de 90% deles, o parto não tem nada a ver com isto! E viva a vida!!!

Amazônia Adventure: Paralisia Cerebral não impediu Carlos Silva de realizar seu sonho

Mãe de Uma criança especial: O que é paralisia cerebral?

9 de setembro de 2013

Cesárea ou parto normal? Cinco 'petit' respostas para mulheres que querem saber mais...


por Cariny Cielo

É todo dia que recebo questionamentos sobre cesárea ou parto normal. Eu queria demais poder dar a resposta acima, mas enquanto o filme não estreia por aqui, eu resolvi tornar pública a carta que costumo mandar pra quem me pergunta: "O que é melhor, cesárea ou parto normal?"

Vamos lá:

A primeira coisa: nosso cenário nacional e, principalmente, estadual (Rondônia) de prestação de serviços de obstetrícia é precário. Hoje, a mulher sente-se na obrigação de escolher OU uma cesárea (cirurgia de grande porte com 5 vezes mais riscos para o binômio mãe-bebê) OU um parto normal violento (ceivado de violência obstétrica). Em resumo, se você quiser ter uma experiência positiva de parto, de empoderamento feminino, de saúde e segurança para você e para seu bebê, terá que brigar. É bom brigar e lutar estando grávida? Não, não é... mas estamos bem numa era de transição de valores e, provavelmente nossas netas não precisarão passar por isto. (Oremos!)

Segundo: Tudo que você conhece a já ouviu falar de 'parto normal' provavelmente é o parto normal 'tecnocrata', ou seja, onde práticas de rotina da medicina são utilizadas como se as mulheres fossem linhas de montagem. É a fisiologia à serviço da tecnologia e não o inverso, como deveria ser. Vivemos uma época remota em que morriam mesmo muitas mulheres e bebês em partos sem assistência e rumamos pro extremo oposto disto, acreditando que as intervenções médicas no nascimento seriam a garantia de segurança. Hoje, grandes movimentos internacionais de Humanização do Nascimento e Parto concluíram estudos dizendo que não, mecanizar o nascimento não fez bem e agora vimos que podemos/devemos ter o melhor dos dois mundos: o respeito ao fisiológico e a segurança dos avanços médicos. O principal disto tudo é que a Org. Mundial de Saúde já rechaçou a grande maioria das práticas 'de rotina', mas somos nós que devemos lembrar isto ao médico. Exemplos: episiotomia (o famoso pique, não deve ser feito). Soro na veia, lavagem intestinal, posição deitada, corte abrupto do cordão umbilical, ocitocina sintética, manobra de kristeler (empurrar a barriga da mãe pro bebê nascer), ácido nos olhos do bebê (este eles fazem até nos nascidos de cesárea).

Terceiro: a 'escolha' pela cesárea não pode ser uma escolha baseada na segurança do bebê e da mãe já que ela é mais arriscada que um parto normal (dados! não é o que eu acho). No entanto, as mulheres escolhem a cesárea para fugir de um parto normal violento. Existem inúmeros benefícios ao bb que nasce de parto normal (mesmo um parto normal violento é mais saudável do ponto de vista físico pro bb do que uma cesárea), embora os médicos vão lhe dizer que não exista diferença nenhuma. E esta é a outra parte: os médicos mentem muito pras mulheres, seja por má fé, seja por arrogante ignorância mesmo. Uma reflexão quanto a isto: Temos a taxa número 1 de cesáreas do mundo e também é nossa a taxa de maior número de bebês nascidos prematuros (12%) (que precisam de UTI neonatal ou alguma ajuda inicial pra respirar). Estamos tirando os bebês antes da hora e engordando os bolsos dos hospitais! Nenhum bebê está pronto para nascer enquanto não disparar mensagem químicas que dão início ao trabalho de parto. Qualquer coisa antes disto, é tirar um bebê com o pulmão ainda não 100% preparado para respirar. As implicações disto, muitas vezes, não são vistas de início, mas podemos observar um 'booom' de alergias e doenças na primeira infância que praticamente são uma pandemia nacional. Novamente, os laboratórios e hospitais agradecem!

Quarto: O feto que passou pelo canal do parto é 'colonizado' pelas bactérias necessárias à formação do sistema imunológico. Ao que parece, a ciência está apontando para o grande e maior problema das cesarianas: o fato de não haver colonização imediata do bebê pelas bactérias do canal de parto. A ausência dessas bactérias no momento do parto trazem repercussões para o resto da vida, desde obesidade, doenças auto-imunes, entre outros. Estamos, no Brasil, recebendo uma nação de bebês que virarão adultos com doenças crônicas. O sistema privado já pode começar a contabilizar os lucros. A OMS recomenda que as taxas de cesárea girem em torno de 10 a 15%, RO está com quase 70%... são raros os casos em que a mulher realmente precisa de uma cirurgia. Nenhum médico que conheço em Porto Velho vai saber disto tudo... E te garanto que para QUALQUER argumento dele, eu te mostrarei dados reais da Ciência Baseada em Evidências Científicas. Nada disto é minha opinião pessoal, embora eu seja uma entusiasta do nascimento digno, são dados científicos. Nenhuma mulher que pariu e teve uma experiência ruim vai te recomendar. Todos vão dizer que a cesárea é a 'evolução' do parto. Você ouvirá contos aterrorizantes de partos trágicos e de cesáreas salvadoras... Eu estou aqui pra te contar a outra história disto tudo!

Quinto. Eu não te conheço mas, agora, vou arriscar um papo de mulher, de emoção e não de razão! O parto é um evento sexual da vida da mulher, ele não só não irá comprometer sua saúde sexual, como pode melhorá-la. Parir nos traz novamente ao posto de fêmea. Conhecer o próprio corpo, como ele funciona, como fazer ele funcionar em benefício do fisiológico. E ser fêmea é aquele posto que a gente costuma precisar sufocar - muitas vezes a vida toda - para sobreviver numa sociedade que pede mulheres sempre lindas, cheirosas e sorridentes, que tudo conseguem, que tudo suportam... É no parto que a gente se lembra que somos mamíferas, gestamos, parirmos e amamentamos nossa criar... Te garanto que o parto pode ser um evento empoderador e digno e que o nascimento deve ser, precipuamente, um momento de manifestação do amor. Te empresto livros, tenhos DVDs excelentes, te indico leituras na blogosfera materna para que sua escolha final, seja, realmente, informada. E não vendida pelo médico, pelo sistema ou pelo inconsciente coletivo. Fico aguardando teus contatos, se vc quiser.

E chega! Você pode achar que eu sou desequilibrada e talvez seja mesmo! hahaha"

13 de agosto de 2013

Relato: "Para o que a minha experiência servir, estarei aqui disposta a contar"

"Saudade dessa barriga de 40 semanas!"

Lembram da Lorenna? Há um mês recebi uma mensagem de uma leitora me perguntando sobre o segundo filho dela. Claro que a convidei novamente, pra trazer sua história pra nós e, mais uma vez, foi um presente! Há quem prefira não falar... mas há quem veja o tesouro que é compartilhar experiências!

Eu já me peguei pensando que não sei o que é mais bonito: se os partos e seus relatos ou as jornadas, os passos dados, as escolhas feitas pelas mulheres. Todo o trabalho interno de desenrolar fios, de conhecer-se... mais e melhor. Quando lemos um relato, ele é uma ínfima parte, só um petisco, de toda a caminhada feita na essência...  E isso é lindo, isso é o que fica. Isso é a própria vida. Depois que o relato ganha forma e vai embora, ficam os ganhos adquiridos, ficam os degraus que subimos... nesta incessante jornada rumo ao que é Eterno...

Acredito que histórias como a da Lorenna são exemplos da falta que faz o profissional humanizado, o profissional que trabalha baseado em evidências científicas. Em Rondônia somos muito carentes deste serviço. Afinal, a jornada por um nascimento respeitoso e digno é somente da mulher? É uma caminhada solitária em que o médico é mero espectador e, muitas vezes, o boicotador? Não! O médico aqui talvez tenha sido a 'mão-dada' que faltou. Foi o 'confia, eu te apoio' que não veio. Foi o 'vamos? eu vou contigo' que não teve... a parcela que cabe ao médico, a parte da conta que deveria ser paga pelo profissional de saúde, já que ele é nossa reserva de cautela. Ficam lágrimas, mas fica a vivência, fica a jornada de fé, ficam as dores e as delícias de viver o que mais importa: o Amor.

Gratidão pelo privilégio de fazer parte disto tudo e parabéns pela corajosa jornada...

<3

Quando meu mais velho estava prestes a completar 3 anos, percebemos que havia chegado a hora, vamos ter mais um bebê!! Uma coisa era certa, não iria ser como foi na primeira vez, que não escolhi nada, não lutei por nada, me deixei levar. Como se para nascer uma mãe, bastasse estar grávida e deixar vir ao mundo da forma que fosse, e tudo estaria certo!

Com 39 semanas decidi que era hora de parar, desacelerar e entrei com meu pedido de licença maternidade. Não queria ter horários para acordar, dormir, almoçar, queria deixar rolar, queria ser só do meu bebê, estava apenas à sua espera, estava entregue a ele, para qualquer hora que ele quisesse chegar eu estivesse ali, aonde deveria. Queria estar em casa, de vestido e não de calça, descalça e não de sapatos! Queria dar atenção ao meu pequeno de 4 anos, avisar quem estava chegando, brincar com ele!! Arrumei todas as coisinhas aos poucos, sem pressa, pensei em todos os meus passos, o que faria se....tudo acontecesse!!! Repassei com meu marido tudo que até aquele momento tinha aprendido, lido, me informado.

Até essas 39 semanas tinha feito tudo diferente da minha primeira gravidez (que não fiz nada!). Participei de cursos, roda materna, li livros que comprei ou peguei emprestado, estava conhecendo um mundo sobre nascimentos que mal sabia que existia. Entrava madrugada adentro lendo relatos de partos, assistindo partos, e me emocionava a cada nascimento, é um espetáculo a parte, íntimo, queria um para mim!

Nesses encontros de grávidas, conheci pessoas incríveis que já tinham passado por essas experiências, com toda dedicação esclareciam, incentivavam, derrubavam mitos que a gente cria e escuta por aí! Nas reuniões da roda materna, percebi que ainda tinha muitas dúvidas sobre aonde seria o parto, qual hospital? Aqui em Porto Velho, Rondônia, só havia um que teria uma sala para parto normal adequada, apesar de o meu médico ter falado que o parto poderia ser até no apartamento de tudo estivesse evoluindo bem. Também tem a maternidade municipal que na época visitei, e achei o máximo, porém algumas coisas fez com que eu não escolhesse ir para lá, por exemplo: só poderia ter um acompanhante, aí eu teria que escolher entre meu marido e minha mãe, e eu queria os dois, também poderia pegar o plantão de qualquer médico. Queria pelo menos garantir que o médico que estivesse comigo, me conhecesse e soubesse o que eu queria para meu parto. Então decidi que iria ser no hospital particular mesmo, com o meu médico mesmo.....mas no fundo, me sentia meio só nessa caminhada...apesar do apoio que estava recebendo, precisava de alguém que estivesse na mesma sintonia que eu, que pudesse lutar comigo!! Aí recebi uma mensagem da Elis (Doula) uma das responsáveis pela criação do Grupo Buriti que realizava a roda, disse que me acompanharia se eu quisesse: "siiimmm, quero e muito", trocamos mensagens. É diferente saber que alguém que conhece todo o processo de trabalho de parto vai estar com você, só de pensar que ela estaria comigo, não me senti mais só, tive um renovo. Sou muito agradecida pelas mensagem que trocamos, enfim eu estava acreditando em mim!!

E a semana ia se passando....minha mãe chegou! Veio para passar 20 dias só comigo! Com ela, as coisas são tão mais fáceis, mais leves! Ela é meu aconchego! Minha sogra também já tinha chegado há 1 semana, e na próxima semana meu marido entrava de férias por 20 dias, mais 10 dias de licença paternidade, tínhamos combinado assim, ele também ia se envolver, diferente como foi da primeira vez!! A minha equipe formada!!

Minha mãe e minha sogra inventavam receitas e chazinhos com pouco de canela nesse começo!!Também estavam presentes nesses dias minha avó e a sogra da minha irmã, todos na sintonia, relatos de partos não faltavam. Dona Adenir pariu 8, minha vó 7, minha mãe 3, minha sogra 2, de tudo aconteceu nesses partos, nem todos bebês sobreviveram, e dá para saber porque muitas mulheres foram desencorajadas a terem seus partos, e esse medo foi passado adiante...elas sofreram violências, manobras, e intervenções que deixaram cicatrizes até na memória delas, pela forma de relatarem o que passaram!! Muito diferente dos partos humanizados que li, e que aí sim, foram de total respeito ao nascimento e à vida!!

E aí, chegaram as 40 semanas, eu me sentia o máximo, caminhava, agachava, levantava, me exercitava, prestava atenção no que comia, não tinha inchaço nem mal estar, conversava com o bebê (o Henrique), lembrava ele que eu estava a disposição dele, pronta!

Fazia minhas orações, minhas leituras, e conversava muito com uma amiga, uma irmã, que me lembrava que o controle de todas as coisas vem lá do alto, que os anjos estavam a minha disposição... "Porque aos seus anjos dará ordem ao seu respeito, para te guardarem em todos os seus caminhos" (Salmos 91.11).

Meu coração era só sossego, e o Henrique dentro de mim era só agitação. ele mexia muito, vigorosamente, sem brincadeira, ele conseguia empurrar as coisas que estavam encostadas na minha barriga, ai que saudade disso!!!

Contei para Elis que iria numa nova consulta, acho que a última, ela me alertou que ele iria querer marcar a cesariana. Por ele marcava mesmo, e olha que dizem que ele incentivava o parto normal, de verdade, não achei isso! Quem luta por isso é só a mãe, o médico não, apesar de falarem que é o melhor!

Ele quis analisar o colo do útero, e pediu que eu prestasse atenção se o bebe estava ativo, anotasse num papelzinho quantas vezes mexia durante uma hora após cada refeição. O útero estava amolecido e fino, ou seja, estava se preparando, não estava estagnado, ótimo! Naqueles próximos dias a lua ia mudar, e ele disse: acho que desse final de semana não passa!!Levei o papelzinho para casa, e perdi as contas de quantas vezes ele mexia, mexia demais, e larguei essa história de papel para lá, eram incontáveis as mexidas, teriam que ser mais de 20 vezes por dia....ultrapassava isso nos primeiros 10 min!!Fiquei pensando se isso era realmente necessário...ahh, ele também me pediu para ir na maternidade municipal no dia do plantão dele, para verificar os batimentos do bebe num aparelho (esqueci o nome) durante um minuto...fui para não dizer que não fui, pois eu sabia e sentia q tudo estava muuuito bem!!

Já era quinta-feira, e final de semana ia mudar a lua. A Elis tinha ido viajar e deixou o número da Paula (psicóloga) também do grupo Buriti. Traz paz só de olhar para ela! Nos falamos por telefone e, qualquer coisa, eu ligaria para ela! Continuei caminhando, tomando chazinhos de canela, agora mais concentrado rsrs! Pessoas ligavam para saber do menino, e a resposta era: “ainda” na barriga!!

Aí desejei muito que algo acontecesse nesse final de semana, falei com o Henrique, falei com Deus....pedi muito!! Sexta se foi, sábado, domingo...meu coração ia ficando apertado, meu semblante triste, respirava fundo várias vezes, já não falávamos de parto, de contrações, do que fazer se....
Já se passavam 41 semanas, fui para internet, fui atrás de um relato, uma explicação, uma solução, por incrível q pareça não achava nada, podia ter ligado para alguém, mas eu e minha dificuldade de pedir ajuda!!

Fui dormir, ou tentar, fiquei pensando, chamando pelo meu filho!! Acordei na segunda, com o coração pequeno, eu tinha me preparado e lido sobre tantas coisas que poderia acontecer, mas não tinha me preparado para chegar em 42 semanas, chegar na fase de risco, segundo o médico. Desde o começo eu nem cogitei isso, pois isso ocorre com poucas mulheres, e não me coloquei nesse grupo!! Ah, como era angustiante, queria minha mãe, meu colo, oramos juntas, choramos juntas!!

Percebi que havia receio de todos, medo de complicações, o clima começou a ficar diferente...nostálgico, nem receitas novas mais elas faziam, fiquei sabendo depois que minha irmã ligou até para meu médico, mas ele não atendeu! Aquela segunda-feira não podia terminar sem alguma decisão, meu marido veio até mim, pediu para que nós fossemos no dia seguinte no médico, eu concordei. Chegando lá ele falou a possibilidade de indução, já tinha lido, e não me imaginava fazendo isso, deitada, sorinho na veia, esperando o remédio fazer efeito, e despertar meu bebe. E eu monitorada,sei lá de quanto em quanto tempo....não, para mim soava mais coisa ruim do que boa!!

Todos queriam uma resposta, então cedi... e resolvemos marcar a cesariana. Aí ele me perguntou para quando, minha vontade era dizer: daqui 1 semana, mas não queria surtar a família que esperava ansiosamente em casa. Fica para amanhã então, dia 31 de Outubro, dia das bruxas. Todos vibravam, o sorriso voltou a reinar no rosto das pessoas. Naquela noite desejei mais do que nunca a vinda do meu bebe, mas ele dormiu tranquilo e não houve nenhuma mudança. Pela manhã arrumamos as coisas, dei um cheiro profundo no meu pequeno que ficava com a vó, e disse: "volto logo, com uma surpresa para você, te amo". 
E como sempre ele responde com toda doçura e sorrindo: "eu também te amo".

Chegamos no hospital umas 9h, fomos para o apartamento, e tudo me incomodava, eu me sentia no lugar errado, me sentia traindo a mim mesma, traindo as mulheres e mães do grupo! Não disse nada a ninguém, o coração estava apertado, chorei com meu marido!! Queria que o mundo conspirasse contra aquilo, e algo desse errado, os médicos não fossem, que acabasse a energia, sei lá! Duas horas depois do combinado mais ou menos 12h, o meu médico liga falando que não achou nenhum pediatra nem anestesista, será a conspiração?!! Adiamos para 16h, olha Henrique, essa é a hora!!! Mas Henrique estava mais preocupado em mexer suas perninhas!

Fomos para o centro cirúrgico, desligaram o ar, recebi a anestesia. Estava com muito medo, e ainda meu marido não tinha entrado, achei que fosse passar mal, coloquei a mão no rosto, logo amarraram minhas mãos, putz!, o que eu poderia fazer demais?? Meu marido chegou, e respirei mais fundo, e resolvi fechar os olhos, tapar meus ouvidos para aquelas conversas absurdas diante do acontecimento, para eles tanto faz o que está tirando, um bebê, uma vesícula, um apêndice!! 

Entrei em oração, me concentrei, falei com Deus, lembrei dos anjos, eles estavam ali, me cuidando, lembrei do amor de Deus, do amor que lança fora o medo! Na mesma hora, senti a presença deles, Deus era comigo!!Nunca tinha sentido tamanha paz, eu parecia estar dormindo, eu estava nas mãos Daquele que me criou e fez brotar vida dentro de mim! E uma coisa Ele me atentou: o receba com alegria, o seu milagre!!

O mínimo que poderia fazer pelo meu filho nesse momento era demonstrar o tamanho da minha alegria pela sua chegada. Meu coração se inflou novamente...foi quando seu choro forte me fez despertar! Ele era lindo, a cara do irmão, tinha o peso e altura do irmão, só que com o narizinho achatado, pois estava bem encaixadinho. Chegou chorando, de olhos abertos, fazendo xixi e cocô! Aí o trouxeram pertinho de mim, falei baixinho com ele, os olhinhos dando aquelas piscadinhas bem lentas, ele se acalmou, prestando atenção na voz, que ele conhecia! Pedimos para que ele ficasse conosco ali, mas não deixaram, ele tinha que trocar a roupinha, que doida essa mãe!!

Daí em diante, eu era só peito, só alegria, passamos a noite, eu, Henrique e vó Pupinha em claro, o leite já tinha descido, ele já mamava, e eu me doava, foram dois meses de peitos feridos, dia sim dia não no banco de leite, foi uma luta, porém era o peito de uma mãe muito mais forte do que antes, que não estava disposta a desistir por nada. Hoje está com 9 meses e ainda mama muito!!!
O nascimento do Henrique poderia ter sido diferente sim, hoje eu creio que existiam outros caminhos e outras decisões que poderiam ser tomadas. A primeira coisa que eu faria diferente, era não comunicar a todos a famosa "Data Provável do Parto" (DPP), pois todos dão limites à gestação, o limite padrão. Porém a DPP é uma previsão retirada de uma tabela baseadas na data da última menstruação, que supõe a data da ovulação! Cada mulher é única, cada ciclo é único, e para muitas mulheres isso é irregular, então nem sempre é possível tabelar, que dirá datar o dia ideal para seu bebê nascer! Nosso corpo é muito mais inteligente que isso. O nosso costume de acreditar e confiar na suprema medicina, nos faz esquecer da singularidade do nosso corpo e de cada nascimento. Eu deveria ter confiado mais no que eu estava sentindo, que tudo estava bem, poderia esperar! Eu deveria ter recorrido a quem respeita o tempo do nascimento, e exposto minhas questões, eu sei que teriam pessoas que lutariam comigo. Mas já virei essa página, isso já não posso mudar na minha estória! Mas sei que novas mães virão, novas lutas, e muitas dúvidas, e para o que a minha experiência servir, estarei aqui disposta a contar.


Henrique com 9 meses!!



16 de julho de 2013

Relato: A história da Clara e de uma dor que não foi em vão...


A Clara Crispim chegou até mim assim, numa mensagem:

“Cariny, tava no site da Rede Parto do Princípio e escolhi, aleatoriamente, um depoimento de parto pra ler. Li o seu! Queria te agradecer só pelas suas palavras. TUDO que você disse naquele texto retrata o que estou passando. E quando vi que você teve seu bebê em Porto Velho, me senti mais amparada ainda! Tento perder todas as inseguranças que implantaram em minha cabeça no decorrer de todos esses anos. E palavras como a sua me dão a nítida certeza de que agora quem vai decidir como meu bebê virá ao mundo sou eu. Tenho 2 cesáreas (contra minha vontade) e tinha muito medo de ‘estourar meu útero’ numa tentativa de parto normal. Mas NADA mais me assusta! Estudei, me informei e vejo histórias de mulheres como você que mudaram toda minha concepção a respeito do assunto e do mundo! OBRIGADA!”

Eu comemorei! Afinal, era mais uma mulher saindo da matrix!

Esquecemos uma da outra e, meses depois, fiquei seduzida pela estória dela quando li um pequeno relato que ela escreveu assim que seu terceiro menino nasceu. Inundada com a revolução que vem junto com as chegadas e partidas da vida, ela fez um texto corajoso – de gente grande, como se diz por aí – assumindo suas escolhas, lamentando perdas e comemorando vitórias!

Vitória por ter sido protagonista da própria estória e não mera observadora. Vitória por ter se empoderado e feitos escolhas corajosas, escolhas verdadeiras e não se permitir levar pela maré do falso. Vitória por ser adulta e assumir a parte que lhe cabe em cada um dos desfechos que viveu na estória da chegada do seu caçula. Vitória por inspirar outras mulheres a sair da artificialidade e buscar a carne, o sangue, o suor e as lágrimas, em trocar de conhecer a verdade. Vitória por promover o homem, chamar o companheiro e dar o poder, também a ele, de apostar na vida. Vitória por ter coragem de tirar a venda dos olhos e olhar a luz para, assim, desejar dar à luz.

Poderia ter doído menos, Clara. Sim! Você poderia ter ouvido, friamente, as palavras de fora que te insistiam em dizer que a cirurgia é a melhor escolha da mulher. Sim, você teria sentido menos dor. Mas não porque doa menos, mas porque agir contrário aos nossos sentimentos internos nos entorpece, nos deixa anestesiadas... e a dor surgiria depois, disfarçada em alguma das inúmeras fantasias que criamos para nossas dores internas mal curadas. É preciso coragem para enfrentar os próprios fantasmas...
Muitos podem analisar os fatos como uma tentativa em vão... como uma perda. Mas só os sábios tiram proveito da dor. Enquanto caminhamos feito zumbis, ora fugindo da dor, ora perseguindo o prazer, há quem escolha a dor como caminho e os ganhos com esse auto conhecimento são verdadeiros tesouros!

Não é difícil imaginar porque razão uma mulher, quando for ter seu primeiro filho, não queira sentir dor. Passou anos recebendo mensagens fortíssimas de que dor não é bom, dor não serve para nada, dor é inútil, dor deve ser combatida. Então, como encarar um rito de passagem como o parto que tem a fama de ter a 'pior dor do mundo'? Ficou todos os anos de seus ciclos menstruais sentindo cólicas e tomando analgésicos para elas, sem contudo procurar descobrir porque seu útero gritava mês a mês. Assim faziam sua mãe, suas tias, suas amigas. Quando a enxaqueca a acometia, corria para a farmácia e não para dentro de si. Porque razão esta mulher iria aceitar a dor do parto? "Não! De jeito nenhum, isto é grotesco, selvagem, animal... eu quero parto sem dor, quero filho sem dor". Ledo engano; o filho doerá de qualquer jeito, pois nossos filhos nos jogam na cara tudo aquilo que somos e o que não somos. A dor é inevitável, o sofrimento é que é opcional. Vai doer, é o ônus assumido por estarmos aqui, mas nós podemos escolher se queremos ou não sofrer com esta dor.

No livro ‘Quando o corpo consente’, há um trecho que me tocou profundamente e que ilustra a escolha da Clara. Diz lá que a dor do parto é a dor que carregamos dentro de nós. Sim, eu mesma já cheguei às portas da maternidade com muitas dores, cicatrizes mal curadas, e tudo aquilo viria a mim, de qualquer jeito, de uma forma ou de outra. Foi então que eu pensei: se a dor é minha, então ela é minha parceira de vida, vou trazê-la, vou exorcizá-la, vou vomitá-la... e assim, eu recebi a dor como uma dádiva de Deus, uma ferramenta esplêndida da natureza. Ela veio e depois se foi... dois anos depois, pari sem dor, meu terceiro menino. A Clara também chamou para si a sua dor e, assim, fez-se mais sábia! Caminhou radiante na transposição do rio de sua vida...

Vamos de Clara agora. Se você se apaixonar pelas palavras desta mulher que abre o coração com simplicidade e paixão, espere até ver as fotos...


1º ATO: “Eu adoraria ter ido até o fim, mas tudo acontece na melhor das formas.”




As pessoas têm me perguntado como foi meu parto, se foi normal como eu queria, se eu consegui... Eu consegui! Consegui entender o poder de uma mulher, sua autonomia, sua soberania. Consegui sentir o poder da decisão, o poder/querer. Levantei dia 24/12 às 6 horas da manhã impulsionada pela primeira contração. E eu não tinha dúvida, o show estava começando. O meu show. O show da vida. Fui à maternidade às 9hr, já com dores imensas e encontrei meu primeiro obstáculo. O médico que me atendeu disse que só esperaria até as 11 horas, caso eu não tivesse a dilatação necessária, ele me operaria. Bem, essa decisão era minha, não dele.

Voltei pra casa e lá fiquei até às 19 horas. Foram as MINHAS horas. Foram insuportáveis e deliciosas horas.... era eu e meu bebê numa comunicação intensa... era a magia da dor de ser mãe... era ISSO que eu queria.

Sentir a vida se expressar pelo meu corpo. Tive o privilégio de ter três excelentes profissionais me acompanhando (eterna gratidão). E mais três pessoas que nunca mais serão as mesmas na minha vida... Quando a dor me venceu, foram eles que me lembraram que havia mais que dor naquele momento... minha mãe, meu marido e a madrinha do Henrico.

Estas pessoas foram reposicionadas nos meus sentimentos... Tive muita energia positiva jorrada em cima de mim o dia todo... pessoas rezavam, firmavam, mentalizavam, cuidavam e esperavam.. comigo, por mim e para que meu sonho fosse realizado. Nem consigo expressar o meu afeto por todas estas pessoas que se permitiram sonhar comigo. Mesmo com seus receios, suas crenças, suas experiências. Mesmo com os “nãos” estas pessoas andaram de mãos dadas comigo, e energizaram meu dia... São pessoas de LUZ.

Às 19 horas voltei à maternidade. Neste momento eu fui vencida. Pelo medo. O outro médico que me consultou mediu 8 cm de dilatação. Quando soube que eu já tinha feito 2 cesáreas anteriores, imediatamente me encaminhou para a terceira. Assim, sem respostas, sem esclarecimentos, sem delicadeza. Disse que meu trabalho de parto havia se estendido por muito tempo e que havia risco a partir de então (Bem, de acordo com o outro médico havia risco desde às 11 horas da manhã). Com um toque que demorou 2 segundos ele pôde concluir isso? Eu nunca vou saber se havia riscos de verdade, ou o tamanho deste risco. Uma operação (cesárea) é muito arriscada, afinal é um procedimento cirúrgico. Mas pra este risco, este médico estava preparado, este risco ele queria correr, e não aceitava correr o MEU risco comigo. E eu não podia decidir arriscar sozinha, eu precisava daquele médico, do conhecimento dele. Era da vida do meu bebê que estávamos falando. Eu estava frágil. Decidi operar. Senti a dor e a delícia de participar ativamente do MEU parto.

Protagonizei. Fui dona da decisão de não ir até o fim... tentei ser mais cautelosa que durona. Aprendi isso com a maternidade. Meu bebê nasceu após 15 horas de trabalho de parto. Nasceu de cesárea. Me ensinou nestas 15 horas tanto sobre tanta coisa. Transformou minha vida. Eu adoraria ter ido até o fim. Mas como diz Chico Xavier “tudo acontece na melhor das formas”.


2º Ato: A maternidade depois das escolhas...




Ser mãe é? Não acredito que exista uma definição para isso. Sou mãe de três meninos lindos e até hoje não defini o que é ser mãe.

Trabalho, estudo, cuido de casa, dos filhos, acho tempo pra me divertir e cuidar da saúde. Como? Sendo mãe! É que mãe é um pouco médica, um pouco enfermeira, um pouco professora, um pouco vidente, um pouco nutricionista, um pouco psicóloga... com tantas atribuições, é possível imaginar como uma mãe consegue dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo né?

Fui mãe pela primeira vez aos 19. Inexperiente, solteira, sem formação, morando com os pais. E pasmem, engravidei por que quis. Por que me bateu muito forte uma vontade de ser mãe. Sofri muito. Ser mãe menina é muito doloroso. Mas aprendi, de um jeito difícil, mas aprendi. O mundo modernizou-se, mas ainda há o preconceito com a mãe solteira, com a gravidez na adolescência.

Nove anos depois, me casei então nasceu meu segundo filho. Outra realidade, gestação completamente diferente, curti cada momento desde o “beta”. Desta vez houve chá de bebê, chá de fralda, book, dvd da ultrasson, desejos de grávida atendidos, tudo que uma gestação tem direito, foi lindo. Acontece que no meu peito, havia uma brecha. E eu descobri a resposta para aquele vazio na terceira gestação. Três anos depois, descobri que esperava meu terceiro filho.

Dentro de mim eu sempre soube que o melhor para uma mãe e seu bebê era um parto natural. Esta informação esteve sempre lá. Mas de alguma forma eu não a usei. Sempre deixei os profissionais que cuidavam de mim, decidir o que era melhor. E desta vez eu decidi que o parto era MEU. Aos 31 anos e terceira gravidez eu decidi parir. E por que desta vez? Acho que agora eu tinha maturidade para impor a uma sociedade e médicos cesaristas , a minha real vontade. E assim comecei a minha busca árdua e incansável.

Dona de duas cesáreas anteriores (completamente desnecessárias), morando numa cidade com pouquíssimas opções de médicos, com carência de estrutura própria para parto, e com muitas pessoas ao meu redor que não concordavam com minha decisão de parir.

Contei com a minha insistência e com apoio incondicional do meu marido, da minha mãe, da minha comadre e de poucos amigos. Busquei informações na internet, li artigos científicos, vi vídeos e relatos de mulheres sobre o VBAC (vaginal birth after cesarean - quando a mulher tem um parto normal após ter tipo uma ou mais cesarianas). Entrei em contato com pessoas renomadas estudiosas do assunto no Brasil inteiro. Estava sedenta por informação e apoio. E consegui. Mas na minha busca conseguia um sim para cada dez nãos. Desta forma acabei desistindo. Pensei: “correr atrás desse sonho vai dar muito trabalho”. E desisti. Mas continuei exaltando as pessoas que podiam parir (e me entristecia quando percebia que essas pessoas escolhiam operar com data e hora marcada. Por que eu que não podia e queria tanto uma oportunidade destas).

Minha mãe escutava minhas lamentações e nada podia fazer a não ser me encorajar. Meu marido também de mãos atadas até concordou em me deixar parir em outra cidade longe dele caso eu conseguisse apoio profissional. Minha comadre tirou um dia pra correr atrás de ajuda comigo. Cercamos uma médica que levanta a bandeira do parto normal. Quando falamos com ela sobre o meu desejo de tentar parir tendo duas cesáreas anteriores ela me fuzilou com o olhar, e com as palavras também. Chorei. E cada vez que fazia uma tentativa de encontrar apoio era a mesma coisa. Testas franziam e os ‘nãos’ soavam. Com medo de continuar me frustrando sempre, achei melhor parar de tentar.

Um dia uma prima me marcou numa publicação do facebook sobre uma tal Roda Materna. Aconteceria dali duas semanas mais ou menos. Pensei em ir, mas no fundo sabia que uma nova frustração viria. Mas se eu não fosse ia ficar com o sentimento de covardia me torturando. Fomos eu e meu marido. Encontramos uma psicóloga e uma doula que ouviram atenciosamente a minha história (quase como um desabafo). Claro que eu estava esperando as testas e os olhares, afinal o que uma louca que tem duas cesáreas quer fazer numa roda onde se discute o parto normal? Quer tentar ter um parto normal? Impossível! Não para aquelas profissionais. Ali eu encontrei o restinho da força que eu precisava para enfrentar todas as caras de reprovação e retomar a busca ao meu sonho.

O Grupo Buriti estava realizando a sua segunda reunião materna. Então eu fui abençoada com esta descoberta que também era uma novidade. Encontrar com outras mães que já haviam tido parto normal, com enfermeira, com doula, com psicóloga, com mãe que também já tinha cesárea anterior, com toda essa energia positiva, foi determinante na minha luta. Agora eu já tinha argumento, já tinha apoio e me faltava um médico. Mas eu tinha um plano. Através da minha comadre, entramos em contato com uma assistente social da maternidade municipal. E esta mesma nos garantiu que ali apenas era realizado parto normal. Mesmo que a mãe já tivesse cesárea, se no trabalho de parto tudo ocorresse bem, podia ir pra lá que o parto seria normal. Nos disse que isso já acontecera naquela maternidade várias vezes. Então pensei: “vou fazer o pré-natal todo na rede particular e quando for ter o bebê, vou para a maternidade municipal. Tá resolvido”. E assim foi.

Meu médico marcou a data do meu parto para o dia 17/12/12. Lógico que eu não aceitei. Disse que ligaria para ele para dizer que data seria melhor pra mim e aquela foi minha última consulta com ele. Mas eu já começava a entrar em pânico, pois completei 41 semanas e nada de TP. Então eu comecei a enfraquecer. Tinha medo de passar da hora de nascer, de algo acontecer ao meu bebê e a culpa ser minha. As pessoas que não apoiavam minha idéia de parto normal, já começavam a me dizer que aquilo tudo era uma loucura, que eu estava sendo inconsequente e teimosa. Mas esperei mesmo assim.
Dia 24/12/12, às 06:00 horas, senti minha primeira contração. Pulei da cama. 41 semanas e 4 dias. Abençoado seja este filho que me presenteia no natal. Meu show estava começando. Catei a vassoura e fui limpar a casa, afinal eu só voltaria pra lá com meu bebê no colo e tinha de estar tudo perfeito. Dei banho no cachorro. Curtia minha dor como se fosse um carinho em meu ventre. Acordei meu marido, pedi que ele mantivesse a calma, pois um trabalho de parto demoraria no mínimo duas horas. Pedi que ele lavasse a louça, pois naquela altura minha dor já não me permitia. Tirei o lixo e saímos. Fomos para a casa da minha mãe por volta das 08:30 da manhã.

Às 09:00 fui para a maternidade ver se estava tudo bem com o bebê. Aquela dor já me possuía por inteiro. Eu tinha certeza que o bebê já estava para nascer. Quando o médico me disse que eu estava com 1 cm de dilatação parecia mentira. E disse que como eu tinha duas cesáreas anteriores, mas queria muito ter o parto normal, ele esperaria até às 11:00 horas pro meu trabalho de parto evoluir e eu dilatar tudo. Caso não ocorresse, ele me operaria.

Voltei pra casa da minha mãe (frustrada pra variar) esperançosa que minha dilatação seria rápida. Enquanto eu buscava um conforto pra amenizar as dores da contração, fui presenteada com a visita das meninas (psicóloga, doula e enfermeira) da roda materna. E a visita virou o meu apoio do dia inteiro. Às 11:00 horas, quando eu devia voltar pra maternidade, havia dilatado apenas mais um centímetro.

Então, segurando as mãos do meu marido, da minha mãe e da minha comadre, decidi que iria esperar dilatar tudo e então eu voltaria para maternidade para ter meu parto normal. E foi através destas mãos que, quando eu quis desistir fraquejando para a dor, eu descobri que o apoio deles era tão grande quanto meu sonho. Eu tinha a melhor equipe do mundo ao meu lado. As melhores profissionais e a energia positiva que se podia sentir de longe.

Foram 15 horas de trabalho de parto. Quinze deliciosas horas de dor, medo, ansiedade. As quinze horas que determinavam quem eu seria dali pra frente. O parto transforma a mulher. Nenhuma mulher deveria se privar desta experiência. Eu repaginei a minha vida naquela data. Foi um momento de descoberta de limites, de valores, de sentimentos.

Abro um parêntese agora. Paula, Elis e Sandra eu nunca nesta vida vou conseguir dizer a vocês o tamanho da minha gratidão.

Quando a enfermeira me falou que eu havia atingido 8 cm de dilatação, eu decidi que era hora de voltar à maternidade. E neste momento eu perdi a rédea. O médico que agora era outro, quando viu no meu registro que eu já havia passado pro duas cesáreas agiu como um ogro. Indicou para uma cesárea de urgência e naquele momento ele esqueceu que é de pessoa que ele cuida, não de objeto, pela forma que passei a ser tratada o resto da noite. Não tive força para contradizê-lo. Não conseguia lutar com a minha insegurança sentindo tanta dor. Eu precisava daquele médico. Mas ele não precisava de mim na véspera de natal, com “a casa cheia”. O choro e o rosto do meu filho que “nascia” as 21:00 horas foi o lenço para lágrimas que não sei se um dia deixarão de cair dos meus olhos.

Sou mãe do Vitor, que me ensinou que ser mãe é amadurecer. Sou mãe do Alef, que me ensinou que ser mãe é dedicar. Sou mãe do Henrico, que me ensinou que ser mãe é lutar.

Tenho pena dos homens. Nunca saberão a delícia de gerar e parir. Pelo menos uma destas eu senti, e a outra eu sonho quando durmo, como se tivesse sido a minha realidade.

E mesmo assim, aqueles pobres homens que me tomaram um sonho, nunca chegarão perto de entender o que é ser mulher, mãe. Nunca entenderão a grandeza de ser igual àquela que os deu a oportunidade de existir. Podiam fazer parte de um espetáculo pelo menos como coadjuvante e teriam a honra de participar do milagre da vida.








































Todas as fotos foram tiradas por Elis Freitas, fotógrafa, mãe e fundadora do primeiro grupo de apoio a gestantes de Rondônia, o Grupo Buriti, em Porto Velho, juntamente com Paula Camargo Gerhardt, psicóloga e mãe e que hoje é parceira no grupo de apoio a gestantes Bello Parto, também em Porto Velho.



*Em tempo (19/07): Um leitor chamou a atenção para o uso da palavra 'estória' ao invés de 'história' e apresentou-me uma pesquisa. De fato, a palavra tem uma polêmica e foi criada para ter uma conotação de 'criada', 'inventada', 'sugerida', uma obra de ficção. Já a história é uma narrativa que faz parte dos fatos ocorridos na vida, uma obra não ficcional. Então, que se mude o título do post, já que de fictícia a história da Clara não tem nada! Valeu!
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