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9 de agosto de 2013

Maternidade Ativa: Guia bem humorado para vencer o mau humor decorrente de cuidar da própria sujeira: PARTE I: Rol não exauriente!


Eu e o meu balde rolante: um caso de amor

por Cariny Cielo

Hoje faz um mês que estamos cuidando da nossa própria sujeira!

Não é algo que nos dê um Nobel (esse fica pro futuro), mas é algo que percebi que é recheado de conceitos e pré-conceitos. No Brasil parece ser cultural que ter alguém para cuidar da nossa sujeira é chique! E este ‘parece’ tem dados reais: o Brasil é o país numero um do mundo em empregados domésticos...

A ideia de ter alguém cuidando das minhas imundices enquanto eu trabalho e toco a vida era simplesmente absoluta e nada ao meu redor me fazia pensar que poderia ser diferente. Até que essa coisa toda de ser mãe e começar a questionar tudo (e ter um irmão mais novo pentelho que mora do exterior e me traz papos fresquinhos sobre o outro lado de muitas coisas), fez-me parar para questionar também isso: 
Péraí-páratudo! Eu fui criada dependente de terceirizar o serviço doméstico! Culturalmente moldada, entalhada e esculpida para depender de terceirização de serviços domésticos. E estou perpetuando esta ideia criando meus filhos igualmente dependentes deste modelo.

Com o pontapé inicial que partiu do macho alfa e os empurrões que recebi do meu irmão, eu comecei a desenvolver questões profundíssimas que nem valem contar aqui... 

Mentira, valem sim! Como, por exemplo:

1. O serviço doméstico ser resquício da nossa cultura escravocrata;
2. Como ser absurdo que alguém que lava nossos fundos não possa usar nosso banheiro ou dividir com a gente o elevador;
3. Que uma lei que surgiu recentemente para garantir o mínimo aos empregados domésticos foi rechaçada por muitos que eram, na verdade, exploradores de pessoas;
4. Que não é justo que uma mulher deixe sua própria casa e seus próprios filhos para cuidar da limpeza da nossa casa, perpetuando as mazelas do capitalismo;
5. Que não estou educando meus filhos para a vida, se não os coloco responsáveis pela própria sujeira, pela organização de seu próprio espaço e se os ensino que o zelo pelo próprio ambiente em que vivem depende de um terceiro;
6. E algumas outras bem pessoais que guardei para o divã... ou para um livro... enfim...

Sobre isto leia o instigante texto ‘Mucamas, Criadas ou Domésticas’ do historiador Ricardo Corrêa Peixoto (Colunista do Brasil Escola, pesquisador e estudioso da História dos Marginais, autor de diversos artigos e ensaios sobre exclusão social, transição Império-república, escravismo-capitalismo.)

Eu não estou dizendo que nunca mais precisarei de ninguém (no estilo ‘nunca mais sentirei fome nesta vida’ da Scarlet do filme ‘E o Vento Levou’). Não! Afinal, eu tenho três filhos, eu trabalho fora, eu sou preguiçosa, eu blá blá blá... 

Mas uma mudança brutal processou-se dentro de mim de forma que, quando (e se) eu tiver alguém, esse alguém virá me ajudar e não cuidar-da-minha-casa-por-mim. É uma diferença abismal! Assim como acontece com nossa babá que está no seio familiar há uns 15 anos e me ajuda a cuidar dos meus filhos... não cuida deles no meu lugar. Parece bobo? Não é não... Uma faxina é muito mais valorizada e melhor remunerada do que o vínculo trabalhista doméstico.

Depois deste importante primeiro passo, descobrimos um mundo novo! Um mundo de pessoas que cuidam da própria sujeira!!! Bingo!!! Onde tava esse povo todo pra me abrir os olhos quando eu achava legal ser patroa??? Recebi ajuda de todo lado, e ainda recebo e sinto falta de não ter dado valor às dicas da minha mãe quando ela me mandava limpar o chão... (sorry mamy!).

E nessa onda eu ouvi toda sorte de coisa! De “você enlouqueceu?” a “teu marido não vai te ajudar”, “você vai fazer tudo sozinha porque homem não gosta de limpar casa”... felizmente, aqui em casa, meu marido faz até parto (pééééééém), então, uma limpadinha de banheiro, varrer, passar pano, organizar, pra ele é fichinha! Este obstáculo machista do patriarcado nós tiramos de letra...

Na verdade o maior obstáculo à vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” é a minha total falta de jeito com a dinâmica do negócio, porém, observei que isso é algo que melhora com repetições sucessivas e aprimoramentos, no método tentativa e erro... ainda com muitos erros!

E, como eu nasci vendo graça em tudo, no que eu posso contribuir com a humanidade é criando – e a partir desta data, tornando público – o inédito, o nunca antes divulgado...

Guia bem humorado para vencer o mau humor decorrente de cuidar da própria sujeira 
PARTE I: Primeiro Decênio de Regras:


DISPENSE A TERCEIRIZAÇÃO DO SERVIÇO DOMÉSTICO E: 

Art. 1º. Descobrirás que não é preciso varrer e passar pano na casa todos os dias.
Três dias havia se passado sem a empregada doméstica e eu não via necessidade de limpar o chão. É sério, não é porquice! Eu pisava no chão e não sentia grânulos e nem havia poeira. E com esta descobri o que apelidei de ‘balde rolante’. Fiquei sabendo que o pessoal mais cool não varre e passa pano, vai logo de vassoura mágica ou esfregão com balde rolante... sim, “varrer e passar pano, varria e passava pano a sua vó”.
Nesta vibe eu também resolvi ouvir a minha mãe, ao menos uma vez nestes 34 anos, e passamos a usar o aspirador de pó. É a tarefa preferida do mais velho, de seis anos, que já a faz quase sem supervisão (atenção: não tente isso em casa).

Art. 2º. Lavar banheiro de madrugada passará a ser um divertido programa a dois.
De repente, essa coisa que cuidar da própria casa pega a gente e... em plena madrugada de sexta-feira, estamos num buteco rindo da vida estamos lavando o banheiro! Sim, qualquer hora é hora de limpar e se fazer sozinho pode ser uma penitência, fazer a dois ficará divertido... tomando vinho colonial feito no quintal da casa da vó do marido então, é pura soberba!

Art. 3º. Se o cantinho atrás do sofá estiver sujo, a culpa é só sua.
Tirando raras exceções, o dono é o mais capaz de cuidar bem do que lhe pertence. Este artigo é uma a dica preciosa para quem tinha dificuldades em encontrar alguém que limpasse bem a casa (que era o meu caso!). Veja a lógica: sua casa continua meio sujinha, mas você não está alimentando a chaga do capitalismo e está economizando um dinheiro todo mês. O mais importante é a ideia de que a responsabilidade é nossa, pelo limpo e pelo sujo, que não posso dizer “Olha a imundice aqui! A fulana limpa minha casa igual a cara dela, mas todo mês tenho que pagar direitinho senão já viu, né?”. E se estiver sujo tudo bem, a casa é sua, ninguém tem nada a ver com isto e quando você estiver a fim, você limpa (eu gosto mais desta última).

Art. 4º. Verás que tu não estás só.
Uma legião levantou-se em coro pra me apoiar. Com dicas de produtos (todos caseiros, mais baratos e que não vão corroer a sua mão) e de instrumentos (existe um mundo de vassouras, pás, escovas, buchas, panos e afins ao seu dispor). Além de uma chuva de incentivos. Você vai conseguir! Você tirará de letra! Ah, e uma liberdade! Você vai aprender a gostar! É claro que rola uns “às vezes é um saco”, mas, ótimo, eu gosto mesmo é dazamigas verdadeiras, das chapas, que me falam também do lado chato, feio, fedido das coisas pra eu poder encarar o bom e o ruim. E isso me lembra de umas gentes que eu adoro quando me vêem em algum lugar sozinha com meus três meninos e, ao invés de dizerem ‘nossa, que super mãe, que lindo, que meigo, que fofo, que cor-de-rosa’... Não! Elas me dão um olhar de verdadeira empatia, como se entendessem mesmo o que eu vivo, como se também soubessem o que é criar de verdade os filhos, botar a mão na massa, como se lessem minha mente e soltam um “nossa, que dureza, né? Mas dá de se divertir!”. Essas são das minhas!
Encontrei blogs só sobre cuidar da própria sujeira aqui, aqui e aqui. E gente que também rompeu com o sistema, sobreviveu e voltou pra contar como foi!
#tamujunto

Art. 5º. Lavar a louça não é, de todos, o pior.
Era a tarefa que eu menos gostava... ao ponto de, quando morava sozinha, meu então namorado-hoje-marido lavar o que encontrava na pia com receio de crescer alguma vida não identificada e me atacar à noite... Mas, hoje, vejo com bons olhos essa coisa de lavar copos, talheres, pratos... e passamos todos a sujar menos também. Claro, se é chato limpar, a gente cuida pra não sujar supérfluos. As crianças jogam os restinhos de comida dos pratinhos na lixeira e colocam o prato na pia. Qualquer pessoa que passa pela pia e encontra algo, já lava, pra não acumular. E assim surgiu a outra regra...

Art. 6º. Não deixarás acumular
Como a vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” ainda está em fase inicial, não posso traçar muitos comentários sobre acumular e nem sobre cumprir a risca esta regra. Mas, sim, ‘não acumular’ é uma palavra de ordem quando o assunto é cuidar da própria sujeira! Como a casa tem dois pisos (aff, se eu soubresse antes...) acabamos criando pequenas mini-centrais de limpeza com produtos e ferramentas sempre à mão, nos dois andares. Não fica muito bonito, mas e daí? A casa é minha e eu faço o que eu quiser e eu uso essa frase pra quase tudo agora! Sempre que passamos e vemos algo, já limpamos na hora ou... apenas olhamos e rimos (às vezes choramos)! Hahahaha

Art. 7º. Conhecerás teu lado chantagista.
Eu já me peguei chantageando a mim mesma, tipo: “mulher, se você não limpar este banheiro, eu te acharei a pessoa mais porca do mundo”, ou ainda, “você já passou aqui três vezes só esta manha e não limpou as prateleiras, se você não limpar, vou ligar pra sua sogra vir lhe visitar hoje e justo hoje ela irá apoiar a bolsa nesta prateleira!”. 
Até antes da vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você” eu não era chantagista, nem meu cônjuge. Nós jamais praticaríamos esse ato imoral ou criminoso que consiste em ameaçar ou revelar coisas ou informações sobre uma pessoa, um grupo ou corporação a não ser que a pessoa ameaçada cumpra exigências, geralmente para proveito próprio, feitas pelo ameaçador. Até que...

Art. 8º. Aprenderás que se deve limpar sempre de cima pra baixo.
Nessa de libertar-se da dependência de terceirização do serviço doméstico, eu já fiz toda sorte de baboseiras aprendendo a limpar minha casa; mas um dia, eu me superei: limpei com esmero as prateleiras de baixo... até perceber, limpando as de cima, que a sujeira desce e suja tudo de novo. Isso vale pro teto, pras teias de aranha, pro pó que dá nos móveis... enfim. Aqui, vale um adendo: eu me considerava uma mulher inteligente, articulada, super esperta, até ser vencida pelas trapalhadas feitas, mas eu tenho me perdoado dizendo para mim mesma que não é limitação de raciocínio é só falta de prática (às vezes dá certo, e eu me convenço, às vezes não e eu me xingo: burra, burra, burra!).

Art. 9º. Necessitarás de reconhecimento imediato
Serviço doméstico é um serviço que não se vê. Só se vê quando ele não foi realizado... então, percebi que quem limpa quer ser imediatamente reconhecido pelo o grandioso feito recém realizado. É assim com quem cozinha e gosta de ouvir um sonoro ‘está delicioso!’. Notei que assim que deixei o banheiro brilhando – à custa de um vidro de vinagre (só fui aprender a economizar e dosar depois) – ninguém me elogiou, ninguém notou a belezura, mimimi. Da mesma forma, outro dia, o marido deu um grau na cozinha toda. Como eu não estava em casa e não pude ver a performance, assim que entrei em casa e passei reto sem uma palavra, ele soltou: Não vistes que limpei toda a cozinha?! Percebemos, então, que elogios e reconhecimentos devem ser adotados como moeda corrente na vivência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você”. A boa convivência e o casamento agradecem.

Art. 10º. Limparás a casa longe da internet
Esta regra vem como colaboração de uma amiga querida. Caso você ainda não tenha notado, é impossível limpar a casa e ser popular nas redes sócias ao-mesmo-tempo-agora e, embora saibamos que muita gente consegue fazer várias coisas e ainda compartilhar tudo ao mesmo tempo com o cybermundo... isso não se aplica à faxina. 
Eu pensei até em criar tutoriais no youtube para registrar com mais detalhes toda essa nossa saga pela libertação da dependência na terceirização dos serviços domésticos, mas percebi que: ou eu assoviava ou chupava a cana!

Fiquei chupando a cana e perdi a oportunidade de ficar super famosa e dar palestras pelo país afora. Mas tô bem, tô aqui e, logo mais, nos próximos aniversários da experiência “O Mundo Sem Ninguém Limpando a Casa Pra Você”, trago outros decênios de regras.



#tadiotto&cielolaboratórios


27 de maio de 2013

Reflexões: O amor e o sexo na era do espetáculo

Imagem daqui!

por Cariny Cielo

Uma pessoa muito querida me mostrou um texto interessante – e polemico – sobre os benefícios da relação extraconjugal. Eu acredito que textos têm uma vida própria e, de algum lugar mágico, eles clamam por serem escritos, por serem expostos e explodirem, tornando-se concretos, ganhando vida...

Há tempos um texto sobre amor e traição grita dentro de mim, rogando ser escrito... Eu li o texto da Navarro e milhões de palavras explodiram na minha mente... segundo ela, relações fora do casamento seriam boas para a manutenção do casamento. Vamos pensar? Eu sou profundamente fiel, monogâmica e estável. Consigo amar e sentir atração sexual, paixão pela mesma pessoa, sem problemas, sem ser uma frustrada ou estar bloqueando algum desejo.

Acho que a nossa sociedade estragou o sexo e o transformou num espetáculo. Não é mais o sexo pra conexão, pra brincadeira, pra união do casal, pra descarga de carmas, pra relaxamento, pra meditação. É o sexo da quantidade, dos acessórios, das metas, do ranking...

Todos monitoram a vida de um casal e imaginam se eles transam sempre, se transam bem, se usam brinquedinhos, se fazem de tudo e mais um pouco... os próprios casais não tão seguros de suas escolhas e preocupados também com esse excesso de publicidade, talvez acabam por questionar, e muito, a própria vida sexual que levam, imaginando que a dos solteiros ou a dos que tem casamentos 'abertos' sejam infinitamente melhor e mais gratificante... mas será?

A questão de que 'trair' faz o casamento melhor está, na minha opinião, no vício por adrenalina, no vício por eterna angústia que algumas pessoas têm... Veja o que diz um psicoterapeuta sobre relações sexualmente abertas e amor livre:

“É fascinante, assustador, maravilhoso, doloroso, prazeroso, novo, imprevisível, incontrolável, rico, maluco, romântico, caótico, aventureiro.”

Isso não tem nada a ver comigo! Mas consigo perfeitamente compreender que tem muita gente doida por isso! Concorda?

Eu, muito particularmente falando, não vivo atrás de loucura, susto, maluquice, romance, caos e aventura... Quero pé no chão, quero o natural, sem artifícios, quero o amor real, aquele que ama o bom e o ruim, o saudável e o doente... o sexo um dia ótimo, outro dia bem comum, sem floreios, sem rebusques, sem adornos, sem adereços, sem nada de fora.

O sexo, eu costumo dizer, que é a única coisa no mundo que mesmo ruim, é bom! Até aquele dia que é básico, que você não se conecta tanto, que não está tão disponível, mesmo assim, é bom... foi fisicamente bom, ativou a circulação, conectou o casal, lavou o amor...

Tem aquele outro dia em que é espetacular e estes ficam guardadinhos na nossa memória sexual, mas nem todos os dias são assim... e nos dias que não é assim, é uma delícia também... porque tem que ser ruim? Porque esse medo do comum?

Concordo que, muitas vezes, um caso fora da relação possa dar um 'up' no relacionamento. Até porque balança as estruturas, põe em risco, faz os dois abrirem os olhos e se olharem de verdade, talvez até pela primeira vez. Às vezes a mulher passa a se cuidar mais, a se amar mais... às vezes o homem volta a se preocupar como peso, com o vigor, fica mais observador e cuidadoso da relação.
Inclusive, se o casal souber passar a adiante e compreender que só entra um terceiro numa relação a convite dos dois, ou seja que não há vítimas nem culpados, que os dois aceitaram e permitiram o ingresso do terceiro, o casamento pode progredir, e muito, depois de uma traição. O amante passar a ser, no meu entender, um bode expiatório, sabe? Para 'acordar' o amor...

Como temos dificuldade em perdoar, em lavar a alma, em viver e superar crises, como crescer dói, preferimos o divórcio, e dali uns anos estamos novamente vivendo o morno do amor, com o novo amor que, de amante, passou a ser a rotina. Acabou a adrenalina novamente, acabou a paixão... e lá vai o outro atrás, de novo, de um ‘novo’.

Eu tive uma amiga cujo marido era extremamente fetichista, tarado mesmo... a gente pode até pensar que “nossa, que legal um homem tarado que te pega na cozinha lavando louça, te joga na mesa, te chama de lagartixa”, mas ela era bem estressada com isso... sabe porque?

Porque cansa! Porque não é natural, não é 'em paz'. E a guerra, embora sirva pra catarse, ela cansa, exaure, esgota...

Ela queria um homem que a quisesse também com camiseta furada, com calcinha bege e queria não ter que pensar todos os dias no espartilho, na calcinha sexy, nas velas, enfim... Ela queria na cama fofinha e não sempre em pé no jardim... ela queria conexão com ela e não com os vibradores, os chicotes... ela queria o sexo por si só e não o sexo de performance... ela não queria ele olhando pro espelho, ela queria ele olhando pra ela, ou olhando pra dentro de si.

Eu vejo, pela minha própria vivência de sexo, que a sexualidade serve para a gente viver várias energias diferentes... ser mais loba, mais sexy, ser mais calma, mais mansa, assumir as rédeas e num outro dia se deixar levar... enfim... é uma caminhada junta, que, no meu ver, se deve fazer juntos, para que o sexo fique cada vez melhor... porque eu cresço como mulher quando me solto e meu parceiro cresce como homem. Porque eu posso surpreendê-lo e ele pode me surpreender também... porque eu não sou a mesma e não me deito com o mesmo homem todas as vezes... porque eu posso ser muitas, e porque, para o sexo, infinitas são as possibilidades do amor...

Pra quê procurar outras pessoas se podemos ter e ser várias dentro de nós mesmas em busca de proporcionar prazer ao outro? Eu entendo que deve ser difícil ficar na monogamia, porque isso envolve muita intimidade. E intimidade gera exposição e exposição gera insegurança, vulnerabilidade.

E muitos casais estão juntos, mas não tem intimidade. Não se abrem ao outro, não se expõem, não pedem, não experimentam, não mostram as feridas, não se mostram em carne viva... esse é o desafio! Arranjar outro é não me expor de verdade a nenhum dos dois... (ou dos três, dos quatro!).

Eu estou há 8 anos com um homem e ainda me surpreendo com ele. Ainda me surpreendo comigo mesmo e com o que ele faz de mim e eu faço dele. Será que será assim pra sempre? Daqui 20 anos estarei ainda conectada sexualmente com ele? Quem sabe?

Mas vivo pensando que nossa sexualidade é algo vivo, que evolui, que muda, que cai, que sobe, tem que ter uma maré, uma descoberta... tem o inverno, tem o verão... aceito o inverno numa boa não como um 'mau sinal', mas como parte do pacote 'ser humano'. E desfruto do verão, aposto nele...

Vários parceiros vão me dar o que? Uns 30% deles? Enquanto posso caminhar pra ter 100% de um ou, inversamente, eu me dou 20-30% pra vários, ao passo que posso traçar uma jornada para conseguir me doar 100% para um... num terreno seguro, num lugar conhecido meu e da minha psiquê. E, na medida que aceito esse um, eu cresço pois o outro me dá as ferramentas necessárias pro meu aprimoramento pessoal, pro meu crescimento...

Não adianta dizer que se ama e se entrega totalmente a alguém que acabamos de conhecer... e que isso traria satisfação pessoal e solucionaria os problemas da nossa sociedade da traição! Porque o amor é profundo... e as relações extraconjuguais estão ainda no raso do amor. Tanto prova que assim que elas se aprofundam, muitas vezes perdem a graça, perdem o glamour, e confundem os amantes que antes estavam alucinados com o novo! O novo agora é velho e lá vem a vida novamente nos chamando a amar o velho... a aceitar a calmaria...

Existe o rompante de amor? Existe! Tem a paixão avassaladora que volta e meia nos visita. Mas o amor é vertical. Ele é pra baixo, ele é fundo... ele penetra... o amor é estável, é rotineiro, mas é na vivência do amor natural que provamos da maré da paixão...

O exercício da criatividade, ativando o chacra básico, nosso centro básico de energia, o fogo kundalini, permite uma vivência de auto-conhecimento poderosíssima, principalmente para nós mulheres inseridas numa sociedade patriarcal e machista...

A criatividade está diretamente relacionada com sexualidade. Nosso fogo criativo é nosso fogo sexual. Porque será que a natureza pôs a criatividade tão intrinsecamente ligada à sexualidade? Porque o sexo é nossa conexão (com o outro, com a gente) e, ao mesmo tempo, nossa desconexão (do mundo, da razão, da casca). Ele nos eleva espiritualmente, emocionalmente, mas nos lembra que somos bicho. Nos liga e nos desliga... é o intelecto e o instintivo... a loucura dos que se amam... a diversão e o deleite do amor...

A falha não está na monogamia. Ainda que sejamos forçados a concordar que, na imensa pluralidade de indivíduos no mundo, ela pode não servir para todos, não é ela a vilã dos relacionamentos. Não é ela a destruidora de casamentos.

Não acredito que a raiz da traição esteja na obrigatoriedade da monogamia. Porque trair o outro, é, antes ainda, uma traição de si mesmo. É atestar que não se está seguindo a vida que se gostaria de seguir.

O que estraga o amor monogâmico talvez seja nós mesmos, viciados que estamos em espetáculos! Tudo, inclusive, o sexo, tem que ser adornado, enfeitado, fantasiado, ainda que o conteúdo seja de qualidade duvidosa. É isso que vemos o tempo todo nas revistas, na TV... a pornografia de baixo calão e misógina, a coisificação da mulher, a indústria do sexo maquiado. Toda uma parafernália vendida como condição necessária para se atingir um orgasmo!

Tem a posição certa, a posição melhor. O brinquedinho infalível. O gel, o óleo, a bolinha, o cheirinho. Ninguém mais quer saber do cheirinho verdadeiro e único, que só seu parceiro tem! Vamos maquiar o cheiro também. Com um é pouco? Melhor chamar mais gente. Ereção natural? Que nada, uma pílula e você fica a ponto de bala por horas. Tá com a cabeça cheia? Toma esse remedinho que o sexo fica ótimo.

Esquecemos que sexo é tão natural, tão fisiológico que beira o grosseiro...

E esta pressão do sexo maquiado recai com muito mais força e violência sobre nós, mulheres. Nossa roupa íntima deve estar a serviço do sexo e não do conforto. É nossa obrigação manter a ‘chama acessa’ do casamento. É imposta, à mulher, a responsabilidade por seduzir...

A sedução deve ser natural, inerente ao casal que se ama. Sem artifícios, sem tanto espetáculo, sem esforço, sem preocupação com performance. Volta e meia é possível maquiar? Claro que sim e é ótimo! Mas, como sempre, esquecemos a medida e partimos pro excesso... e ao que me parece o caminho de volta é bastante tortuoso!

Viciados que estamos em adrenalina, em olhar o do outro, em desejar o que não se tem. Nossas vidas estão todas sendo expostas através das redes, e vemos a vida de todos também. O sexo saiu do nosso quarto e está estampado pra todos os lados. A intimidade não é mais íntima, é exposta, é mostrada, é imitada e invejada! Nossa relação sexual não mais nos pertence! Vivemos angustiados na buscar pelo ‘ter’. E, nesta busca, o orgasmo também virou item de consumo... no melhor estilo: ‘quanto mais, melhor!’. O outro, por sua vez, é apenas um mecanismo de conquista do tão almejado orgasmo!

Um resumo? embora esse tema seja inesgotável e não garanto que não volto aqui pra escrever mais...

Eu gosto muito e me faz bem comer feijão com arroz de rotina, bem caseiro, bem conhecido e bem temperadinho, bem no meu paladar. Feito especialmente pra mim, pra me agradar, sem imitações, sem corantes, nem conservantes, sem estimulantes de paladar! E, volta e meia, é uma delícia se surpreender com grandes banquetes à luz de velas inesquecíveis e estasiantes...

E como vai o seu feijão com arroz?


2 de maio de 2013

Reflexões: O amor e seus votos...

Imagem daqui


por Cariny Cielo

Este texto nasceu há dois anos atrás, quando eu estava grávida do caçula e precisa de uma mão amiga pra me guiar naquela que foi a maior jornada de fé na vida que já vivi...

Estava abandonado na relação de rascunhos e, como estou escarafunchando todas as gavetas e metamorfoseando todo esse blog, resolvi trazê-lo a tona!!!

Liga o som na música 'Endless love' e pega o lenço...


Nós amamos, no cotidiano da vida, de várias maneiras. Debaixo da rotina boba do acordar-trabalhar-comer-dormir, corre, pelos subterrâneos de nossas almas, a chama do amor que temos pelo nosso homem, pelos nossos filhos, por nós mesmos, por Deus, pelo mundo. O variar dos acontecimentos, as tormentas próprias de um mundo de dualidades não alteram estes amor verdadeiro. No entanto, ele morre, nasce, cresce, diminui, muda de astral... tudo ao sabor da maré da vida eterna.

Com uma frase, talvez despretenciosa, um amor fez-me assinar votos de eternidade quando segurou minha mão e pulou, junto comigo, no ‘familiar’ abismo do desconhecido.

Cansado de me ver peregrinar pelo direito de parir um filho com dignidade, ele sentenciou: “Eu sou a única pessoa que não vai te decepcionar na hora”. Sim, a única certeza que temos hoje, eu e meu bebê, é a de que o pai dele estará lá, ele estará lá por nós, o que quer que esse "lá" signifique. E foi assim que, de repente, esse homem cresceu mais para mim, ganhou mais forma. Quem faria um voto desses? “Sim, eu vou com você rumo ao desconhecido; eu mancharei minhas mãos com o sangue do teu corpo; eu viverei contigo o evento mais feminino do universo: o parir; eu serei teu esteio naquilo que sequer conheço; eu acredito em ti; eu acredito no invisível; eu acredito no que está totalmente fora de mim”.

Foi aí que me dei conta do que dizem os livros sagrados quando trazem que homem e mulher transmutam-se em um só corpo e em um só espírito. Ainda que outro, completo e alheio a mim, ele é um comigo, na mais profunda acepção do significado de unicidade.

De onde vem esta coragem que só de eu sentir, enche-me de emoção por ver, quase que concretamente, a confiança e a fé absoluta num propósito? Nós temos o amor cotidiano. Aquele que briga, que cansa, que cai, que levanta. Aquele que exige esforço, dedicação. Aquele que se esforça para enxergar o bom, aquele que aceita o ruim, como parte do acordo. Mas, volta e meia, sou assolada por estas manifestações de amor que me foge ao entendimento concreto, ao entendimento do homem e mulher de Marte e Vênus. Aquele que nos tira do lugar-comum e nos leva para outra dimensão, onde só existe luz; e o mundo, como o vemos, não é nada mais do que poeira cósmica.
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