12 de novembro de 2013

O Renascimento do Parto em Cacoal Rondônia


por Cariny Cielo

A FACIMED, a Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal – Rondônia, aprovou o projeto de extensão “O Renascimento do Parto em Cacoal” de autoria da enfermeira obstétrica Tânia Roberta Furtado que é professora do curso de enfermagem da instituição.

O curso é coordenado pela enfermeira Janice Segura, que acompanha o projeto. O objetivo é estimular a participação dos acadêmicos na exibição do filme nas sessões do Cine Art Cacoal. A proposta é realizar debates, inclusive em salas de aulas, acerca do filme, como forma de amadurecer o assunto em Rondônia.

Tal participação é de extremo valor e importância uma vez que envolver a classe acadêmica é valioso para levantar discussões de qualidade, promover reflexões e enriquecer o pensamento dos futuros profissionais.

O tema é relevante e a comunidade acadêmica é uma força motriz, fomentadora de mudanças e de conscientização.

São, ainda, colaboradores do projeto: o médico Flávio Ferrari, professor do curso de medicina da instituição e a educadora perinatal Cariny Cielo, membro da rede Parto do Princípio.



Para saber mais:

CACOAL É A PRIMEIRA CIDADE DE RONDÔNIA A EXIBIR O FILME "O RENASCIMENTO DO PARTO"

Em exibição inédita no Estado de Rondônia, dia 18 de novembro, o Cine Art de Cacoal, de propriedade de Paulo Roberto Bezerra, trará o filme nacional "O Renascimento do Parto" que já é um dos documentários de maior bilheteria na história do cinema nacional e exibido em mais de 40 cidades.

O filme bateu o recorde brasileiro de crowdfunding (financiamento coletivo), foi selecionado para festivais internacionais de cinema em Los Angeles, China, Venezuela e Colômbia, selecionado para o XIV Projeta Brasil Cinemark entre os 28 melhores filmes de 2013 segundo a Rede Cinemark e convidado pela Secretaria Geral da Presidência da República para ser exibido no Palácio do Planalto diante ministros e autoridades.

O filme aborda, de maneira sensível e muito tocante, uma questão de saúde pública: o excesso de cesarianas e a mercantilização do nascimento no Brasil, que é campeão de nascimentos por cirurgia no mundo. Rondônia, neste aspecto, carrega o vergonho título de primeiro lugar do país, por três anos consecutivos, conforme dados do DATASUS.

Cine Art estreará o filme em Cacoal, cidade que é polo universitário dos cursos de medicina, enfermagem e técnico em enfermagem, embora o tema seja de interesse geral e de imensa relevância mormente tratar-se de tema que envolve todos direta ou indiretamente.

"Foi uma longa jornada conseguir o contato com a distribuidora do filme, mas estou vendo que todo esforço tem valido a pena. A equipe do filme é formada por pessoas espetaculares que estão neste projeto apenas por amor", conta Camila Duarte, gerente do Cine Art Cacoal que ficou sabendo do projeto através da Parto do Princípio, rede nacional de mulheres em prol da maternidade ativa

Imperdível: Dia 18 de novembro, segunda-feira, às 20:00 em pré-estreia para convidados e a partir do dia 19 de novembro, todas as noites às 22:00 horas.

Assista o trailer


7 de novembro de 2013

Relato de parto da Eva: parto normal hospitalar


A Eva chama o próprio de parto de uma 'Saga'! É um termo que descreve bem tudo o que teve que lutar para conseguir um atendimento digno no momento do nascimento de sua filha. Ela sofreu desde violências verbais do médico - antes, durante e, até mesmo, depois do parto - até condutas de rotina reconhecidamente desaconselhadas pela Organização Mundial de Saúde.

Estaríamos avançando bastante na qualidade de atendimento às gestantes se houvesse a cultura do Plano de Parto. Ele é recomendado pela OMS há décadas, mas ainda é desconhecido no Brasil!

Eva, mesmo conhecedora de seus direitos, ela sofreu violência obstétrica. Como ela mesmo diz "não conseguia chorar, só olhava para onde eles estavam com a minha filha. Podia ter sido um parto lindo! Me preparei para isso. Só que cai nas mãos de um açougueiro. Mesmo com toda força e informação, ainda assim fui vítima do sistema.".

E, para quem sofre violência obstétrica, saiba aqui, como denunciar...





Eu e o meu marido, fomos namorados a 5 anos atrás. Terminamos e ficamos esses longos 5 anos sem nos ver. No dia 23 de janeiro do ano passado nos reencontramos e decidimos voltar. No meio do ano, passei por um estresse muito grande, que desencadeou uma doença que até então eu não sabia nada a respeito.

Herpes Genital, mas, além disso, também sofri um aborto espontâneo. Eu não sabia que estava grávida, não tinha sintoma nenhum de gravidez. A primeira crise de herpes, eu tratei como se fosse uma infecção urinaria. O médico nem me examinou, perguntou o que eu sentia e me receitou antibióticos para infecção. A segunda crise, eu estava com poucas semanas de gestação, (uma gestação que até então eu não sabia). Certa tarde eu senti uma cólica muito forte e de repente uma água quente saiu de mim, acompanhado de um sangue bem vivo. Liguei para um amigo enfermeiro e disse que estava sentindo, ele me disse que isso poderia ser um sintoma de aborto, passou na minha casa e me levou para a maternidade, o que confirmou a suspeita. Ao me examinar, a enfermeira notou algumas erupções na parte genital e perguntou se eu tinha herpes genital. Herpes? Como assim? Genital? Claro que não! Sempre me cuidei, isso é doença de quem tem vários parceiros sexuais. Nunca! (vim de uma família “moralista” e doenças sexualmente transmitidas, tinha essa visão. Mas aprendi que nem sempre é assim). Em fim... Era herpes, perdi um bebê, pus fim no meu relacionamento, entrei em depressão.

Mas depois de um tempo, eu e meu namorado, hoje marido, decidimos superar isso juntos. Algum tempo depois engravidei novamente, dessa vez decidimos cuidar muito dessa gravidez. Tornou-se a famosa “gravidez preciosa”. Fomos ao primeiro G.O e ele pediu uma série de exames, constatou que eu tinha DIABETES GESTACIONAL.



Fomos ao segundo G.O e ele disse que eu tinha pré disposição a ter diabetes gestacional e que tinha que controlar o açúcar. Ambos já sabiam que eu também tinha Herpes Genital. Com o passar dos meses fui ganhando peso exageradamente, tive VÁRIAS infecções urinarias, VÁRIAS crises de Herpes Genital, tive também um forte sangramento com 4 meses (não encontraram o motivo).

Lia sobre partos normais, vi que se a mulher estivesse com a herpes ativa, poderia passar para o bebê na hora do parto, isso me preocupava muito. Falei da minha aflição para uma amiga que também era enfermeira e ela me olhou com uma cara de dó e disse: se você quiser, eu consigo uma cesárea para você. E eu pensei, mas e os benefícios do parto normal para o bebê? Eu não vou nem tentar? Sou tão covarde assim?

Também ouvi uma pessoa da família dizer: você não vai ter força para parir essa criança e vai morrer você e ela entalada. (Ninguém da minha família sabe sobre a herpes).

Essa frase me assombrou por muitos meses. Até que eu e o meu marido decidimos conhecer a casa Bello Parto, meu marido ficou encantado com os vídeos e comentários sobre os benefícios do parto normal. Eu ainda estava assustada.

O primeiro G.O que consultamos disse que eu havia ganhado muito peso e isso significava que o bebê já estava muito grande. Disse: você não vai conseguir ter um parto normal assim, bebê tem que crescer é fora da barriga.

Segundo G.O: se você quiser, a gente pode marcar a cesárea a partir de 35 semanas.

Eu: 35 semanas? Mas o bebê já vai estar desenvolvido com 35 semanas?

Segundo G.O: sim! A partir de 35 semanas o pulmão já está maduro.

Meu marido não deixou. Ainda bem!

Resolvemos procurar uma terceira opinião.

Terceira G.O: Você tem herpes? Vou colocar essa observação no seu cartão de gestante, porque em lugar nenhum do mundo, alguém faz parto normal em uma mulher que tem herpes genital, ativa ou não. Você vai matar seu bebê se tentar, isso pode passar pra ela na hora do parto, ir para o cérebro, olhos, boca, ela pode desenvolver uma meningite e morrer! Bebê não tem imunidade, esquece essa ideia de parto normal. Quando você estiver com 39 semanas, vamos agendar sua cesárea.

Chorei muito nesse dia, me senti tão culpada. Meu Deus, o que nós fizemos, eu não devia ter engravidado, vou ter que submeter a uma cirurgia se eu quiser sair da maternidade com um bebê VIVO nos braços?

Novamente, meu marido me acalmou e disse: vamos procurar uma 4ª opinião, 5ª, 6ª,7ª, 8ª até o dia da neném nascer. E outra, se for realmente para fazer uma cesárea, vamos esperar o dia da Letícia (nome que ele escolheu para a bebê...rsrs), deixa as contrações vir e ai vamos para a maternidade. Nessa altura, eu já estava com 36 semanas de gestação.

Por indicação de uma amiga, fomos ao 4º G.O.

Chegamos lá com todos os exames em mãos, desde o primeiro beta positivo. Ele leu todos!

Eu e o meu marido: Doutor, nós temos:

"1) Herpes genital.

2) Diabetes gestacional.

3) O ultimo médico disse que o bebê está enorme

4) Na ultrassom com um médico disse que ela tá sentada.

5) Tivemos várias infecções urinaria, crise de herpes, risco de aborto e etc...

Mas ainda assim queremos um parto normal!"

O médico: "Muito bem! No parto normal a recuperação é melhor..."


O Doutor pediu novamente o exame de diabetes (que deu negativo).

Pediu uma ultrassonografia com Doppler (que mostrou que estava tudo bem com a minha princesa) .

Disse que se eu tivesse crise de herpes iríamos tratar com remédio, para que eu ficasse bem até o dia do parto. E só em último caso, se eu tivesse com erupções iríamos para a cesárea.

Fez um exame chamado streptococcus (graças a Deus estava tudo bem, também).

Fizemos as perguntinhas básicas para saber se ele era o cara certo. (risos).

Nós: doutor a epísio é necessário em todos os casos?

Dr.: Só em alguns casos.

Nós: doutor, eu posso recusar a ocitocina?

Dr.: Sim! Mas em alguns casos ela também é necessária, espero que não seja o seu. Faça bastante caminhada para estimular o trabalho de parto.

Nós: doutor e se eu quiser peridural? Vocês vão atender ao meu pedido?

Dr.: Menina, a dor do parto não é tão ruim assim não. Calma! Você aguenta. Mas se você quiser, precisa começar a procurar um anestesista, porque tem alguns que não gostam de fazer porque é complicado aplicar em mulher que está tendo contrações.

Nós: doutor, você esperar o cordão terminar de pulsar?

Dr.: se vocês quiserem, sim!

Nós: doutor, quer casar com a gente? (risos).

Mas infelizmente no dia do parto ele estava dando aula.

Quarta feira dia 23 de outubro às 5:00 da manhã, acordei com um dor de barriga leve. Resolvi virar para o lado e dormir mais um pouco. Estava com 38+6.

Às 6:00 da manhã acordei novamente com aquela dorzinha de barriga, então decidi levantar e ir ao banheiro... Tomei banho e voltei para cama. De repende uma dor diferente, vindo das costas para a barriga. Comentei isso em um grupo do facebook, o Cesárea não obrigada, elas me disseram que eu podia estar entrando em trabalho de parto. Resolvi ter certeza, liguei para aquela amiga enfermeira do inicio desse texto. Ela disse que sim! Eu estava em trabalho de parto, mandou eu ligar imediatamente para o meu G.O.

Que alegria, eu ria a cada contração, meu marido estava trabalhava a noite e ainda estava por chegar. Fui passar minha roupa, me arrumar, tomar café da manhã e não avisei à família porque não queria que ninguém entrasse em pânico. (Minha mãe só ficou sabendo depois que ela nasceu).

Meu marido chegou, todo nervoso, apesar de ter se preparado tanto. Eu estava calma e feliz, sorridente e ele apressado. Eu falava: - calma amor, essas coisas levam horas. Acho melhor a gente esperar, isso demora em torno de umas 8 horas. Eu li sobre isso...

Me marido: - Não! Vamos agora para o hospital, vou ligar pro G.O

Mas como havia dito antes, ele estava em aula. Disse que assim que saísse da sala de aula, estaria indo pra lá.

Chegamos no hospital às 9:30 da manhã, contrações irregulares, leves, durava apenas um minuto e depois passava. Mas não doía tanto quanto eu imaginava.

Fomos encaminhados para o médico de plantão.

Entramos na sala, eu com um sorriso enorme, meu marido nervoso, mas com cara de felicidade e falamos que estávamos com leves contrações. Ele foi ver o meu histórico hospitalar, viu por alto.

Não viu que eu tinha herpes (eu também não falei, pois não estava com crise no momento). Não viu nada sobre a tal “diabetes gestacional” e etc...

A minha princesa estava perfeitamente encaixada, tudo uma maravilha. Ele fez o exame de toque e disse: "Está completa! Ela vai nascer agora."

Eu e o meu marido olhamos um pro outro e começamos a rir. Como assim? As contrações nem estão tão forte assim.

Médico: ela vai nascer agora, vamos levar a senhora para sala de parto, se não ela nasce aqui. Vai ser cesárea?

Eu: Não! Vai ser normal.

Médico: não existe isso de parto normal, o nome é parto transpélvico. Mas a 2 mil anos atrás inventaram a cesárea, você sabia disso?

Eu: sabia! Mas o meu parto vai ser normal, ou transpélvico como o senhor disse.

Médico: tudo bem, então vou encaminhar a senhora para a sala de parto enquanto seu marido vai ajeitar os documentos da sua internação.

Minutos depois entra um pessoal com uma maca e me manda vestir a roupa do hospital.

Eu disse: - não posso ir andando? Preciso caminhar para ajudar na hora do parto.

Médico: eita mulher corajosa, quero ver até onde vai durar essa coragem toda. (risos).

Pois bem! Fui na maca e o circo dos horrores começou.

Chegamos na sala de parto me mandaram deitar na cama e colocar as pernas nos apoios.

Uma posição extremamente desconfortável.

Eu disse: quero me sentar!

A enfermeira: essa posição é melhor mãe.

Eu: melhor pra quem? Sobe essa cama agora, eu estou com falta de ar. (a falta de ar, era desculpa pra elas me ajeitarem naquela cama)

Uma enfermeira veio com o soro para por em mim.

Eu disse: soro? Mas eu preciso ter mobilidade e se eu quiser andar, ou levantar? Moça eu não quero ocitocina. Ok? Por favor!

A enfermeira: é só soro, caso você precise ir para a cesárea, já vai estar puncionada.

Aquilo me deu um medo...

Eu: enfermeira, cadê meu marido?

Enfermeira: está ajeitando os documentos da sua internação.

Mas eu não entendia porque ele estava demorando tanto. Elas estouraram minhas duas veias boas, obs. Eu mesmo já aplique soro em mim por essas veias. Enquanto isso, nada do meu marido chegar. De repente o médico entra na sala, o que só me deixa mais nervosa.

Eu: - o que o senhor tá fazendo aqui, cadê o meu G.O? Onde está o meu marido?

Médico: eu não sei de nada, só sou funcionário aqui.

Eu : - se o meu marido não entrar por essa porta, eu saio daqui e vou atrás dele.

Eles achavam que eu estava blefando até eu começar a me levantar. Uma enfermeira, falou: calma, nós vamos atrás do seu marido, ele vai vestir uma roupa e já ele chegar aqui. Mas a senhora precisa se acalmar.

Eu: eu estava calma até vocês estourarem as únicas veias boas que eu tinha, para colocar esse soro inútil aqui. Acho melhor meu marido entrar nessa sala, vocês não sabem do que sou capaz.

Minutos depois meu amado marido chega na sala... Aquilo foi um tranquilizante. Eu me sentia um pedaço de carne em um açougue e sem testemunha. Mas ele finalmente estava ali, como prometeu, do meu lado para receber a nossa filha.

De repente eu escuto a enfermeira perguntar para o médico.

Doutor você vai querer bisturi ou tesoura para fazer a epísio?

Médico: tesoura!

Eu: epísio? Não, eu não quero epísio. Não precisa! (pensei, nós nem tentamos ver se ela passa ou não, porque fazer antes?)

Médico: vou fazer sim! Aqui quem manda sou eu.

Eu: eu não quero epísio! No meu corpo mando EU! Você não vai fazer epísio em mim.

Médico: olha depois a senhora vai aparecer no meu consultório falando que seu marido tá dizendo que você parece uma canoa.

Eu olhei pro meu marido e ele disse: não doutor! O senhor não vai fazer epísio nela, não é necessário.

Médico: tudo bem! Mas vou usar esses quatro enfermeiros aqui como testemunhas de que a senhora se recusou a um procedimento médico.

Eu: tudo bem!

Quando ele começou a me limpar, imaginei ele vai fazer a epísio. Mas graças a Deus ele não fez.

Minutos depois eu começo a sentir uma aceleração no coração e as dores da contração voltam com toda a intensidade do mundo, minha bolsa estoura. Eu olho para o meu braço que estava com soro e pergunto: o que vocês fizeram comigo.

Uma enfermeira responde: calma mãezinha, isso é só um remédio para acelerar o parto.

Eu: mas eu disse que não queria... Olhei pro meu marido aterrorizada com a dor, comecei a chamar o nome dele e ele foi me acalmando e pedindo pra eu respirar fundo quando viesse as contrações. Comecei a fazer o que o meu marido disse.

O médico começo a tentar me abrir com as duas mãos. Sim! A palavra é essa. Parecia que ele queria me rasgar.

Eu sentia as suas luvas secas tentando me abrir. As dores das contrações só aumentavam, parecia uma tortura. Eu sentia a pele da minha vagina se esticando com os puxões do médico, ele usava as duas mãos. E eu gritava! Gritava de dor. O medico dizia, você pode gritar, desde que faça força.

Então eu fiz força! Muita força. Força para aquela dor acabar, força para ver minha filha nos meus braços... de repente uma coisa boa... eu senti, juro que senti! Era maravilhoso... senti a cabeça da minha filha passando pelo meu canal, ela se encolhia, estava bem apertada... Tão suave, um momento tão nosso. Ouvi meu marido dizendo a cabeça dela tá saindo amor, força!

Por um instante, parecia que só havia eu, ela e o meu marido naquela sala. Eu estava vivendo o nosso momento...

Mas depois senti as luvas secas do doutor novamente dentro de mim, ele já conseguia tocar nos cabelos da minha filha, então começou a tentar me rasgar de novo. Tentava abrir espaço com aquelas luvas secas, como se realmente quisesse me rasgar ao meio.

Meu marido falava, empurra amor, ela já tá nascendo, estou vendo a cabeça.

Eu empurrei com toda força que eu tinha. Eu gritava de dor, de raiva daquele médico, de amor pela minha filha. Era uma explosão de sentimentos e no fim, ela nasceu.

Toda essa tortura durou 5 minutos, horário 10:20 da manhã, mas parecia uma eternidade.

Quando ela nasceu eu pedi calma, calma, não cortem o umbigo dela agora. Mas eles cortaram imediatamente, eu disse: dá ela pra mim, me dá ela aqui.

O médico: não, você está suja.

Só depois de aspirarem ela, dar injeção foi que um enfermeiro ouviu meu pedido e entregou ela pra mim.

Apesar do esforços do médico, NÃO HOUVE LACERAÇÃO, NÃO PRECISEI DE PONTOS.

Minha filha, Letícia Brasil da Cruz veio ao mundo através de um parto “transpélvico”, porque com toda certeza isso não foi um parto normal. Minha filha ficou alguns dias na incubadora porque estava com dificuldade de respirar sozinha, segundo o pediatra, isso foi por conta de uma infecção urinaria que tive 30 dias antes do parto, passou para a neném ainda na gestação e não durante o parto. Amém!




Dias depois Médico vem à minha sala para me dar alta e diz ao meu marido: "se eu fosse você, comprava um cinto, dava 4 dobras nele e acertava essa mulher. Porque era pra ter tirado esse bebê a uma semana atrás, com 38 semanas. Ela não estaria assim, se tivesse feito uma cesárea."

Eu disse: ah tá! Então quer dizer que se eu tivesse tirado minha filha antes do tempo, através de uma cirurgia, ela não estaria em uma incubadora?

Médico: não é antes do tempo, era o tempo certo. Ela só está assim, porque a senhora ficou segurando ela.

Eu: Mas na ultima quinta-feira é que estaríamos completando 39 semanas de gestação. Tá bom doutor, obrigada, você já me deu alta. Valeu mesmo. Tchau! Vou ali ver minha filha.

FIM DA SAGA.!





1 de novembro de 2013

A cesárea protege meu bebê de uma paralisia cerebral?


por Cariny Cielo

É muito comum ouvirmos de profissionais da área da sáude, principalmente os que trabalham com crianças com paralisia cerebral, que, em 90% dos casos, a razão da deficiência foi decorrente do parto normal, usando muitas vezes o termo 'o bebê passou da hora' ou o 'médico esperou demais pra fazer a cesárea' ou ainda 'a mãe insistiu que queria um parto normal'. Neste caso, é natural que uma gestante opte por uma cirurgia para proteger o filho das temidas ocorrências de paralisia cerebral... mas, será isto verdadeiro? A cesárea protege o bebê de uma paralisia cerebral?

A despeito dos casos que você irá ouvir, a despeito das histórias assustadoras, a despeito do caso do filho do Diogo Mainardi, não é a via de parto (se normal ou cirúrgico) que evita ou determina uma paralisia cerebral... veja alguns números aqui.

E, enquanto eu divulgo o CERNIC (Centro de Reabilitação Neurológica Infantil de Cacoal) e um linque de artigos acadêmicos sobre paralisia cerebral, eu vou tentar ser o máximo simples nas colocações que resumem este post. Porque eu também sou mãe e porque também comungo das pirações que gestantes carregam acerca da integralidade da saúde e da e perfeição de um filho, quando o gestam dentro de si, na carne e na mente...

E também não sou boba de não chamar médicos pra esclarecer estas dúvidas... quero ouvir deles!!!

Então vamos lá:

Parte I: Da Ciência

1. Segundo a médica Carla Andreucci Polido (currículo aqui) 70% das encefalopatias perinatais são de etiologia anteparto, relacionadas à restrição do crescimento fetal intra-útero, síndromes hipertensivas e condições crônicas fetais.
Das causas intraparto, destacam-se:
1. CESARIANAS,
2. parto instrumental,
3. febre intraparto,
4. cesariana de emergência.

Ou seja: assistência inadequada ou demora na tomada de condutas. O maior risco intraparto para encefalopatia perinatal é, na verdade, assistência inadequada, e não via de parto. Veja aqui.

"No Brasil somos forçadas a uma cesárea ou um parto normal violento (cheio de intervenções de rotina e reconhecidamente desnecessárias). Assim, se o parto carecer de assistência adequada, você pode encontrar desfechos perinatais adversos".

E, por Melania Amorim: "lembrem, somente os casos de paralisia cerebral do tipo quadriplégica espástica ou discinética são associados com o parto, embora não sejam exclusivas de problemas no parto!"

Não é minha opinião e nem mesmo a opinião das médicas... são dados estatísticos. Cabe a cada um refletir se quer ficar com a ciência ou com as famosas crendices que ilustram o imaginário de todos quando o assunto é algum evento do universo mamífero feminino. Já viram mãe dizer que tem 'leite fraco'? Pois é, podemos ficar neste depoimento recheado de mito e de condutas erradas que fizeram esta mãe acreditar que o próprio leite não sustentou o filho ou podemos compreender que cientificamente comprovado o leite materno é o melhor alimento até os 6 meses e não existe leite fraco.


2. O filho do Diogo Mainardi NÃO ficou com paralisia cerebral por conta da via de parto. O problema foi causado por uma amniotomia precoce, ou seja rompimento artificial da bolsa, muitíssimo mal indicada e pelo atraso em indicar uma cesariana de emergência, não teve nada a ver com parto normal! Palavras da Doutora Melania Amorim que explica tudo aqui.
Voltemos ao assunto da intervenção na fisiologia do parto! Porque entenda que "a melhor estratégia de prevenção primária de prolapso de cordão, nos casos de gestação única com feto em apresentação cefálica é NÃO realizar amniotomia de rotina, mesmo que presentes condições para praticá-la, isto é, dilatação avançada e apresentação fetal encaixada na pelve".

A revisão sistemática disponível na Biblioteca Cochrane NÃO recomenda a amniotomia como procedimento de rotina na assistência ao parto, uma vez que não há quaisquer efeitos benéficos associados com essa prática.
Compreenda a bola de neve: rompimento artificial de bolsa + falta de estrutura para assistência de emergência: cada intervenção desnecessária e má indicada feita num trabalho de parto aumenta o risco, sempre. Romper bolsa não deveria NUNCA ser procedimento aplicado de rotina...

Em resumo: Não deixem que estourem artificialmente sua bolsa durante o trabalho de parto! Este procedimento só deve ser feito com indicação muito precisa por profissional que conhece e aplica medicina baseada em evidências científicas.


3. Um argumento lógico e bem basiquinho que eu uso bastante, bem simples e que destrói o blá blá blá de mitos igual uma tsunami: a taxa de cesarianas só cresce no Brasil e no mundo... MAS a taxa de asfixia perinatal está mantida! Ou seja, não, cesariana não é fator de proteção.

Melania diz: "Eu só quero dizer que se cesariana prevenisse paralisia cerebral não teríamos mais tantos casos de paralisia cerebral sendo atendidos nas diversas clínicas! Estamos com mais de 53% de cesáreas neste país e no setor privado em algumas cidades elas ultrapassam 90%! Por acaso caiu a taxa de paralisia cerebral???"

"Por outro lado, os partos violentos e cheios de intervenções desnecessárias estão sim associados com maior risco de asfixia perinatal. É contra esse tipo de parto que nos posicionamos, também. A alternativa à cesariana não pode e não deve ser um parto traumático e violento, esse é um falso dilema. A assistência ao parto normal DEVE ser humanizada e baseada em evidências científicas atuais!"

Evidências científicas: aqui e aqui




4. Dra. Melania reforça que "há séculos que se definiu que parto vaginal não se associa a risco aumentado de paralisia cerebral e que apenas 10% dos casos de paralisia cerebral se devem a problemas no parto. Eu tenho uma aula recheada de evidências sobre o assunto. Para definir se foi associada com o parto, a paralisia cerebral tem que preencher 4 parâmetros, sem isso tudo é suposição ou mitologia, médica ou popular. Aqui os critérios:

a) Evidência de acidose metabólica, cordão umbilical, sangue arterial fetal obtidas no momento do parto (pH inferior a 7 e défice de base, de 12 mmol / L ou mais),
b) o início precoce de encefalopatia neonatal moderada ou grave em lactentes nascidos a 34 de gestação, ou mais semanas ,
c) paralisia cerebral do tetraplégico ou discinético tipo espástica, e
d) a exclusão de outras etiologias identificáveis​​, tais como trauma, distúrbios de coagulação, condições infecciosas ou doenças genéticas.

Veja aqui a revisão sistemática. Para entender um pouco mais a fisiopatologia aqui e mais referências aqui e um estudo interessante da PUC/PR aqui.

"E lembrem: somente os casos de paralisia cerebral do tipo quadriplégica espástica ou discinética são associados com o parto, embora não sejam exclusivas de problemas no parto."

A maior causa de paralisia cerebral é a prematuridade. Nos casos restantes, anomalias fetais, problemas maternos e complicações da gravidez respondem como os principais agentes etiológicos, podendo ainda haver etiologia multifatorial.


Parte II: Dos mitos...

Maíra Libertad, enfermeira obstétrica e uma das administradoras do Portal Parto no Rio de Janeiro, traz um fato interessante: "Entendam a dramaticidade do quadro. Eu conheci outro dia uma pessoa que jurava ter uma criança da família com "paralisia cerebral" por conta do parto. A família inteira acreditava nisso. Que o parto tinha demorado, que ela ficou abandonada com dores por X horas (possivelmente um parto violento pela descrição). Aí eu por acaso encontrei essa criança supostamente com 'paralisia cerebral por conta do parto' e me choquei ao notar que, possivelmente, se tratava de uma síndrome genética (pelas características, fácies etc.). A família vive a vida sem saber que o bebê possivelmente nasceu com uma síndrome, algo congênito, não-relacionado com o parto, e acredita (e profissionais de saúde reforçam!) que é "PC causada pelo parto".

Veja a história deste coreógrafo que, em entrevista, afirma ter paralisia cerebral em razão de parto. No entanto, notem na reportagem que ele mesmo informa que nasceu prematuro, aos 6 meses...

Diversos outros artigos, como este - que aborda apenas a via de parto e sequer leva em conta a idade gestacional - alimentam com mitos o imaginário da sociedade e, em especial, da gestante que busca sempre o melhor para seu filho.

Como fazer um levantamento acerca do resultado 'paralisia cerebral' levando-se em conta apenas a via de parto, se a prematuridade é um fator determinante? Independente do bebê ter nascido de parto normal ou cesárea, se ele foi prematura, ele estava em risco... pela prematuridade!

Das causas de paralisia cerebral a mais frequente é a falta de oxigenação que pode ocorrer antes, durante ou logo após o parto e só 10% estarão ligadas ao tipo de parto, mas sim à falta de acompanhamento pré-natal, questões sócio econômicas e saúde da mãe. (Cervo, 1985)

No entanto, é fato que as cesáreas acarretam:
a) quatro vezes mais risco de infecção puerperal,
b) três vezes mais risco de mortalidade e morbidade materna,
c) aumento dos riscos de prematuridade e mortalidade neonatal,
d) recuperação mais difícil da mãe,
e) maior período de separação entre mãe/bebê com retardo do início da amamentação e
f) elevação de gastos para o sistema de saúde (OMS, 1997).

Você vai ouvir muitos mitos relacionados aos eventos femininos!

Você ouvirá que menstruar é ruim, que amamentar pode tornar os seios flácidos, que a prima da vizinha amamentou e ficou com anemia, que a tia do seu colega de trabalho tinha leite fraco, que a avó do seu amigo precisa medicar a menopausa, que o médico salvou a vida do bebê da sua prima que nasceu roxo, que fulana perdeu o bebê porque passou do tempo na barriga, que a moça do banco teve que fazer períneo porque ficou frouxa depois de um parto normal, que o marido da amiga reclamou que a mulher perdeu o tônus da vagina depois de 3 partos normais, que fazer cesárea protege o períneo da mulher, que o bebê passou a dormir a noite toda depois da mamadeira, que chupeta é melhor que dedo, que  episiotomia preserva o períneo, que 40 semanas é o fim da gestação, que parir é coisa de índia, que cesárea é a evolução do parto... eu me perderia de escrever... mas nada disto faz parte da ciência e da verdadeira medicina baseada em evidências científicas!

Cabe a cada um decidir em quê vai acreditar e confiar seus pensamentos...



E, enquanto isto, a vida segue para muitos com paralisia cerebral... mas agora você sabe por a + b que, em cerca de 90% deles, o parto não tem nada a ver com isto! E viva a vida!!!

Amazônia Adventure: Paralisia Cerebral não impediu Carlos Silva de realizar seu sonho

Mãe de Uma criança especial: O que é paralisia cerebral?

Marcha Nacional Pela Humanização do Parto Em Porto Velho Rondônia


por Cariny Cielo

Dia 19 de outubro, em Porto Velho, rolou uma movimentação em prol do respeito ao nascimento. Foi a Marcha Nacional Pela Humanização do Parto que ocorreu simultaneamente em várias cidades do país.

É a terceira vez que Porto Velho organiza marcha e cada vez ela fica mais visível e envolve mais pessoas. Já falamos de marcha por aqui.

Ano passado, tivemos  Marcha do Parto em Casa em Cacoal e em Porto Velho, um movimento igualmente nacional em resposta às represarias sofridas pelo médico humanista Jorge Kluhn e, depois, Porto Velho organizou a primeira Marcha Nacional Pela Humanização do Parto.

Aos poucos as mulheres - e homens - de nosso Estado vão se dando conta de que o parto mais científico é o parto menos tecnológico e de que a mudança tem que partir das sujeitas do direito: nós mulheres!

A barriga que ilustra este post é da Helena que trouxe seu relato aqui. Ela é uma mulher que vem galgando cada vez mais respeito para si, desde quando se deu conta de que a forma de atendimento que recebeu no nascimento de seu primeiro filho foi uma terrível violência obstétrica!

Te espero na próxima marcha... até lá, emocione-se com as fotos!!!




Marido da Mileide orgulhando-nos ao se
envolver na causa e a filhota, ativista mirim...






Mais um ativista mirim... 



A doula Alyssa da Slingue, Helena e sua
bebê e a doula Izabela, da Bello Parto




Helena gestando e já lutando pelos seus direitos.





Ativistas mirim!!!
"Se a mamãe marcha eu vou também!"




Olha que show!!!




Preparativos... 




Pausa para um mamá... 




Turma animada!

29 de outubro de 2013

Relato de parto da Helena: parto normal hospitalar depois de uma cesárea



A Helena foi a primeira a se favorecer de um grupo de parto humanizado no Estado de Rondônia. Ela foi assistida em casa e depois no hospital, durante o trabalho de parto e parto, pelo Grupo Buriti, um embriãozinho de equipe de assistência humanizada que passou em Porto Velho feito raio de foguete.
Era formado pela Elis Freitas, doula, pela Paula Gerhardt, psicóloga e pelas enfermeiras obstétricas Sandra Schultz e Francine Colombo.

A Helena é professora de yoga, tem dois filhos e está gestando o terceiro, uma menina. Aqui teremos o relato do nascimento de seus dois filhos, ocorridos em situações de vida bastante diferentes e com desfechos igualmente distintos.

O primeiro relato é o cuja foto ilustra este post, sobre o nascimento do Luan, um parto normal após cesárea. Emocionante a garra e como ela oscila entre pensamentos do mundo da razão e sentimentos do instintivo feminino. Obrigada por compartilhar e nos dar este presente!!!

Em seguida vem a história do nascimento do Argeu, recheado de violência obstétrica e que marcou a Helena e marca, diariamente, milhares de mulheres em todo país!

Como sempre, um relato é como mergulhar na vida do outro... e só colher bons frutos!


<3



Nascimento do Luan

Depois de 11 anos que tive meu primeiro filho me veio uma forte vontade de engravidar e, depois de longas conversas com meu marido, decidimos então ter mais um filho, tentar a nossa menininha.

Depois de 8 meses que deixei de tomar pílula engravidei e aí contamos para o nosso filho mais velho que ficou muito feliz e disse que queria cortar o cordão. Fiquei surpresa com a sua reação e só lá pelo quinto mês de gestação fiquei sabendo que teria mais um menino.

A gravidez percorreu tudo tranquilamente e foi então que em pesquisas na internet fiquei sabendo sobre doulas e o seu trabalho maravilhoso. E na minha busca sobre informações sobre parto normal achei a Elis que na pagina informava que ela morava em outra cidade e, por ironia do destino, a própria me achou no facebook. Foi então que começou a nossa relação, até que um dia a Elis me pergunta o que eu achava do parto em casa. Nossa, no momento levei um baita susto! Imagina parir em casa? E foi então que respirei e pensei, isso seria uma ótima ideia! O desafio seria convencer o marido. Contei para ele, que se espantou com a ideia, mas não quis demonstrar, foi então que pensei em falar no assunto só mais perto do fim da gravidez.

Tive então a minha primeira consulta com a doula que foi super atenciosa comigo, e logo depois de uns meses concretizamos a ideia do parto em casa e me reuni com a equipe que ficaria comigo, foram todas muito simpáticas e divertidas. Nossa! Assisti a muitos vídeos de parto e me emocionei com cada um deles, estava a cada dia mais preparada para o parto em casa.

Lá pelas 36 semanas tive uma consulta com o médico (o mesmo da gravidez anterior) que me pediu um ultrassom e disse que iria marcar a cirurgia, dei um pulo da cadeira e disse que não ia marcar nada, que ia esperar. O médico, com um tom cínico, pergunta: "esperar o quê?". Saí da sala dele bufando de raiva e tinha decidido que lá eu não voltaria, que meu filho ia nascer a hora que ele quisesse.

Mais uma vez a tranquila Elis me disse para voltar com ele e não me preocupar. Mesmo com raiva marquei a ultrassom. Em casa, tive uma conversa com o bebê e pedi para ele nascer logo se estivesse pronto, e acho que ele me escutou pois antes do dia marcado para a ultrassom 'desnecessária', com 38 semanas e 3 dias, às 4h da manhã do dia 4/12/12, começo a sentir umas contrações que incomodavam e não me deixavam dormir, comecei a monitorar o tempo umas 3 horas e as contrações vinham de 5 a 10 minutos e lá pelas 7h saiu o tampão. Mandei mensagem para as 3 mosqueteiras avisando que havia iniciado o trabalho de parto. Lá pelas 10h, as 2 enfermeiras apareceram em casa com seus aparatos e a minha doula querida estava no hospital sendo atendida, tadinha, aperreada achando que ia perder o melhor da festa.

As meninas, então, monitoraram o ritmo das contrações, fizeram o toque e a princípio estava confirmado o trabalho de parto. E então vai pra bola e bebe chá e chega a linda doula, faz massagem. As contrações estavam bem fraquinhas, mas só descobri isso depois, a gente nunca sabe como vai ser as tão temidas contrações.

E então vai caminhar , rebolar na bola, agachar a cada contração, ouvir o coração do bebê. Lá pelas 16h resolvi deitar para ver se conseguia cochilar um pouco, me deitei por uns 5 minutos e bolsa estourou, me levantei achando que tinha feito xixi, mas logo confirmamos que era a bolsa mesmo. Depois disso desisti de dormir... lá vamos nós novamente caminhar. Nossa! Meus vizinhos ficaram bem assustados me vendo caminhar debaixo de um sol escaldante de domingo com uma barriga imensa e se agachando a cada contração.

Decido então ficar um pouco na banheira que estava montada em casa e meu filho mais velho, ansioso que estava, dividiu a banheira comigo também. Ele ficava toda hora perguntando porque o bebê não queria nascer.

Às 20h fizemos outro toque e descobrimos que ainda estava com 1cm de dilatação e que meu colo era posterior. Fiquei muito desanimada com esta informação, mas busquei lá no fundo uma animação para continuar, pois não queria fazer uma cesárea.

Lá pelas 22h insisto para meu filho ir dormir, e fui eu me sentar na beira da cama para fazê-lo dormir, tentando disfarçar as contrações. Então, às 24h, as meninas falam que eu deveria ir para o hospital, pois já tinha muito tempo com a bolsa rota, teria que entrar com a medicação. Eu, um tanto contrariada, fui para o hospital. Acorda o marido e filho para ir para o hospital! A pior coisa do mundo é contração e estar em um carro em movimento. 

Demos entrada no hospital e eu ainda estava com 2cm. Fui para a sala de parto, onde tinha uma bola e um banheiro com água quente. Fiquei na bola por um tempo, mas não conseguia ficar na bola pois incomodava muito sentar. Então fiquei na cama, meio sentada, meio deitada, sabia que aquela posição não me favorecia muito, mas estava tão cansada que não conseguia me mover.

Meu marido sabendo que ainda ia demorar um pouco, logo se deitou para descansar. E aí, depois sei lá de quanto tempo, apareceu uma médica e fez o toque. Estava com 3cm, que decepção! Eu só pensava comigo mesma: 'eu vou ter este bebê de parto normal, não quero fazer cirurgia'. Aí monitoram o bebê para ver se estava tudo bem... e estava, então, continuamos a jornada.

Depois de mais um tempo vem um médico e faz o toque: 3cm! Queria gritar "isso NÃOOOOOOO!!!". O louco me diz que eu tinha que fazer força quando viessem as contrações. Eu pensei 'que loucura! Estou com 3cm e ele quer que eu faça força'. Depois disso nem escutei mais nada do que ele dizia. Quando começou a amanhecer, tive forças para andar e logo que comecei a andar as contrações engrenaram e pioraram. Minha nossa! Como eu gritei! Pensava comigo: 'do que adianta ser uma yogue e não ter controle do seu corpo?'. Mas logo desencanei e deixei-me entrar na partolândia. Não tava mais nem aí se ia incomodar alguém com meus gritos.

Mais um toque: 5cm! Nossa, vi uma luz no fim do túnel. Sabia que já estava perto, me animei. Mais caminhada e agora eram 3 passos, uma contração. Fui para o banheiro tentar aliviar com a água quente, mas não adiantou. Comecei a chamar por Deus e quando olho para a porta do banheiro, tinha uma enfermeira me olhando, ela disse: 'se ela tá chamando por Deus, é porque tá nascendo'. Fui fazer o toque e estava com 9cm! Estava na hora! Arrumaram a cama pra eu subir e sentei no banquinho de parto. Olho para frente e vejo uma das minha 3 mosqueteiras sorrir! Mais uma contração e 10cm! Ela perguntou se eu queria descer e sentar com o banquinho no chão e eu disse que sim. Mais uma contração e lá vem! Ela me pergunta se quero voltar para a cama, digo que não, que dali eu não saía! Eu nem me imaginava levantar e subir aquela escadinha que parecia que tinha uns 10 degraus.

E lá vem mais contração e a mosqueteira decidi colocar sua roupa de trabalho. Eu penso: 'pra onde ela vai? O bebê tá nascendo'. E olha que quase ela perde de vê-lo nascer! Nossa tinha tanta gente naquela sala, enfermeiros, pediatra, estagiários... aquilo não me incomodou, achei até engraçado. Todos querendo ver o meu bebê nascer.

Mais contração... escuto alguém falar: 'olha pra cá e dá um sorriso', pensei que ele queria que eu sorrisse nessa hora. Esbocei então um sorriso, que depois que vi a foto, vi que era realmente um sorriso de uma mãe que estava prestes a receber seu bebê do jeito que ela sempre sonhou!!

Então mais uma contração, sinto meu mundo se abrir e escuto 'tá nascendo, tô vendo o cabelinho'. Mais algumas contrações, sinto o bebê escorregar de mim: "Olha o bebê, mãe!". Eu vi aquele bebê lindo, cheio de dobrinha. Peguei-o no colo e senti sua pele quentinha, seu cheiro indescritível, seus olhos tentando ver aquele mundo estranho... que momento maravilhoso foi aquele primeiro encontro mãe e filho.

Ele então foi para o colo do pai para ser examinado e vestido e foi o momento da placenta sair tão macia, que coisa mais linda é uma placenta! Enquanto o bebê recebia seus primeiros cuidados, a enfermeira cuidava de mim. Levei alguns pontinhos e logo veio meu bebê para o meu colo e amamentei e ficamos um bom tempo naquele momento só nosso.

e foi assim que nasceu Luan com 3860kg, 52cm no dia 5/12/2011 às 12:45h.

Agradeço a meu marido que com toda sua paciência aguentou ficar comigo no hospital e respeitou o meu desejo pelo parto normal. Às 3 mosqueteiras: Elis, Sandra e Francine, por terem deixado de ficar com suas famílias num domingo para me guiar no trabalho de parto.


... e onze anos antes...

Nascimento do Argeu.

Minha história como mãe começa quando engravidei aos 17 anos naquela época não tinha internet em casa onde eu pudesse buscar informações sobre a gravidez então fiz meu pré-natal com médico tio do meu marido, a gravidez foi super tranquila, tive muitos enjoos no começo que me fizeram emagrecer(estava bem gordinha na época), quando os enjoos passaram tudo ocorreu tranquilamente.

A previsão do médico era para o dia 7 de fevereiro, mas no dia 02 saiu o tampão e eu como marinheira de primeira viagem fui em busca do médico que estava de plantão no Hospital de Base, o tampão saiu sem qualquer indicio de dor, mas como vi sangue na calcinha me assustei e lá fui eu para o hospital, chegando lá ás 11h da manhã a sala da maternidade cheia de grávidas, com dor e sem dor, uma que estava do meu lado tinha acabado de romper a bolsa e logo foi atendida, em seguida fui atendida pelo medico que fez o toque e sem olhar pra mim fala pra enfermeira "essa aqui fica" e lá vem a enfermeira com uma mangueira que enfia em mim sem aviso para uma lavagem de rotina, sai da maca para vestir a roupa do hospital me sentido violada e perdida. Me colocaram num quarto com a moça que citei acima, a pobre estava lá sentido dor e deitada de lado, eu não sentia dor nenhuma e como não sabia como era pensei que era assim mesmo, a qualquer momento poderia sentir as dores do parto, bom as horas se passaram, e eu já tinha ido no banheiro para um xixi, andado pelo quarto e quando menos espero a moça do lado grita "vai nascer" e eu pensei e agora vou atrás de alguém, depois de alguns minutos atrás do médico achei a sala de descanso deles e avisei que a moça tava parindo e lá acudiram ela tadinha.

 Bom e eu continuei lá sem dor nenhuma. Até que meu médico se dignou a aparecer e perguntou como eu estava, bom eu disse que não sentia dor nenhuma, aí ele decidiu me operar sem ao menos me dizer o porque.

Como pensava que o médico que tinha a autoridade sobre mim, fiquei calada e aceitei. E logo veio as enfermeiras que saíram nem sei de onde, me preparar para a cesárea. Enfiaram uma sonda em mim, me aplicaram soro e me levaram para a sala de cirurgia. Lá, tentei sentar naquela mesa super estreita morrendo de medo de cair e logo veio o anestesista, que me enfia a agulha nas costas sem me avisar e sem me segurarem a cabeça e, quando me mexi, a agulha entortou e levei uma bronca do médico porque havia me mexido, mas quem não se mexeria?

Logo a anestesia fez efeito e me deitei, me amarraram os braços e me sedaram. Acordei depois com o chorinho do Argeu. Tinha nascido e numa rapidez o enfermeiro me mostrou e eu vi aquela coisinha branca de olhos arregalados e azuis, e só o vi depois quando me levaram para o quarto. O enfermeiro, meio sem jeito, até tentou me ajudar a dar o peito, mas como se amamenta sedada?

Me levaram para o quarto onde já tinham outras mães com seus bebês, eu não consegui ver meu bebê, que estava chorando e eu não podia fazer nada. só peguei meu bebê no outro dia que a anestesia passou e pude pegar meu bebê.

Depois disso tinha decidido que não ia mais engravidar, pois não queria passar por tudo isso novamente.
E assim nasceu Argeu, 3100kg, 51cm, 2/2/2001 ás 17h.

28 de outubro de 2013

Relato de parto da Mileide: parto natural hospitalar



Mileide Campanha está estreando o nosso novo ambiente!!!

O blog "Parto em Rondônia" será um espaço para tratar sobre maternidade ativa em nosso Estado - tão carente de projetos nesta área. Iremos reunir aqui textos, ações, relatos, entrevistas... e tudo que tiver no entorno da maternidade ativa.

A Mileide participou de alguns cursos da Bello Parto e procurou focar-se em realizar seus desejos, ou seja, empoderar-se...

Vamos conhecê-la!

<3


Meu nome é Mileide, tenho 27 anos e estou casada com meu marido Rafael, 32 anos, há 3 anos. Estamos juntos, contando com o namoro, há 10 anos e sempre quisemos ter filhos e uma família bem grande, porém, minha gravidez não foi planejada. Mesmo assim, ficamos muitíssimo felizes com a notícia, e ainda mais quando soubemos que teríamos uma linda menina em alguns meses!! Ela se chama Rebeca e nasceu de um lindo parto normal no dia 03 de agosto de 2013, para colorir de rosa as nossas vidas!!!

Durante a gravidez eu continuei me exercitando, como sempre fiz: natação, pilates e caminhada (essa última mais durante o último mês). Engordei 16 kls ao todo e desde o início eu e o meu marido desejamos que meu parto fosse normal. Minha mãe almejava que eu fizesse uma cesariana, porque ela já tinha feito duas, mas eu não deixei que isso me influenciasse, tudo com o apoio do meu marido.

Uma cesariana era desnecessária porque minha gravidez foi muito tranquila e saudável. Minha bebê então, sempre forte e saudável também!

Fiz 39 semanas numa sexta-feira e não sentia nada, nenhum sinal de que minha bebê estava para chegar, a não ser pelos pés inchados que se instalaram dois dias antes e não queriam mais desinchar. Fora isso, não sentia nem a mínima cólica, o que me deixava ansiosa e apreensiva porque queria que meu parto fosse normal e a médica já tinha avisado que esperaria somente até a quadragésima semana para fazer o parto.

Fui dormir meio desapontada. Foi então que na meia noite de sábado comecei a sentir as contrações: pequenas dores nas costas bem suportáveis. Parecia uma dor de barriga, vontade de fazer cocô mesmo. Fui no banheiro e elas passaram um pouco. Até pensei que não estava em trabalho de parto. Me deitei e as dores voltaram. Elas vinham de meia em meia hora, eram pequenas e irradiavam das costas para o pé da barriga. Bem suportáveis, como pequenas cólicas. Assim, duvidando que eram realmente as contratações, eu consegui dormir entre uma dor e outra. Às 3:40 senti um chutão da minha bebê e um "ploc". Minha bolsa tinha estourado! Só que o líquido veio com sangue vivo, deixando a água que escorria rosada. Corri para o hospital com receio por causa do sangue, mas fui examinada pelo médico platonista e a bebê estava bem, com os batimentos cardíacos ótimos e eu estava com 4 cm de dilatação.

As dores vinham de 10 em 10 min. Depois de 5 em 5, logo de 3 em 3 minutos, durando 1 minuto cada. Assim, para acelerar o trabalho de parto, eu fiquei caminhando pelo corredor do hospital, acompanhada pela minha mãe e irmã e pelo marido querido. Quando vinham as contrações eu parava de andar, me apoiava no meu marido e eles me faziam uma massagem bem forte na lombar, o que aliviava um pouco a dor. Desde o início, a cada hora, os enfermeiros mediam minha pressão e verificavam os batimentos da bebê.

Até os 7 cm de dilatação (8h da manhã) as dores eram totalmente suportáveis e eu estava muito feliz porque sabia que em algumas horas minha filha estaria em meus braços! Só a partir dos 8 cm é que as dores ficaram mais fortes. Foi então que resolvi ir para o chuveiro bem quente, e deixava a água cair sobre minha lombar. Isso me aliviou um pouco, mas quando as dores atingiam um pico eu cheguei a duvidar se iria conseguir. Eu achava que iria desmaiar de dor, nem cheguei a pensar em pedir anestesia, porque antes minha médica já havia avisado que não haveria anestesista presente no momento do parto e que se fosse realmente necessário ele seria acionado e demoraria a chegar.

Não pedi cesariana porque estava decidida que faria normal, já que já tinha sentido todas aquelas dores por tanto tempo. Mas duvidei que me corpo aguentaria tamanha dor e nessas horas eu olhava para meu marido e perguntava: - Eu vou conseguir??? E ele sem hesitar respondia: -Cooom certeza! Você é forte e já está quase acabando! Nossa bebê tão amada e esperada está chegando! Isso me ajudava a recuperar as forças e a não querer desistir.

Com as últimas dores vinha uma vontade de fazer força. Tentei ficar de cócoras mas a dor aumentou. Tentei ficar de quatro em cima da cama, mas doeu mais. Nisso, minha médica veio verificar a dilatação mais uma vez e me pediu que deitasse de barriga para cima na cama. Pediu que eu segurasse minhas pernas flexionadas e as puxasse em direção à minha cabeça. Meu marido segurava minha cabeça e a puxava em direção ao meu peito, tirando-a do travesseiro. Quando vinham as contrações, minha irmã fazia a respiração bem forte perto do meu ouvido, assim eu a escutava respirando e a imitava respirando também.

O pediatra que pegaria a bebê chegou e me pediu que fizesse uma força bem longa de fazer cocô quando as contrações viessem. Porém, nas primeiras tentativas eu parava de fazer a força quando a contração terminava. Foi então que ele falou para segurar a força mesmo que a contração fosse embora. Assim eu fiz, e ao mesmo tempo tendo que respirar. Fiz duas vezes a maior força da minha vida e minha filha nasceu às 10 horas, em ponto.

Quando ela saiu só senti uma ardência, e a dor das contrações parou na mesma hora. O que dói são as contrações finais e ter q fazer a força junto com a contração.

Assim que nasceu, minha filha foi colocada em meu peito e a felicidade invadiu minha alma!!! Comecei a conversar com ela e a dizer o quanto ela foi esperada e ela parou de chorar na hora e ficou me olhando!!! Durante esse período a médica fez os pontos. Não injetaram ocitocina em mim, nem fizeram episiotomia. Mas tive vários pontos em razão da laceração. Meu marido ficou comigo até o fim, o que foi primordial porque no fim achei que não conseguiria!

Sempre tive muito medo do parto, nunca quebrei uma unha, mas é incrível como nascemos preparadas para parir. Faria tudo de novo! Foi uma experiência maravilhosa, que serviu para me mostrar o quanto nós mulheres somos fortes!










25 de setembro de 2013

A amamentação e as chagas do patriarcado



por Cariny Cielo


Aí você nasce, vindo de um meio que é conforto puro. Conforto térmico, conforto gravitacional, conforto auditivo, conforto visual, um toque gostoso, o sacolejo ritmado, a explosão de sons que tranquilizam, a paz profunda...

Alimentava-se quase que ininterruptamente, sem nenhuma ressalva. Assim que queria, como bem lhe aprouvesse, dava goladas generosas de líquido amniótico. Não havia dia, nem noite. Era o tempo sem hora.

Passada a tensão que todo o ritual traz, seja ele de partida ou de chegada, você conhece, enfim, sua mãe.

Mas agora o tempo é outro! É o tempo dos relógios, é o tempo das medidas, dos padrões. É o tempo do engessamento, do reto, do limpo, do direito... é o tempo da razão. E assim, surgem as regras, a rotina imposta. Surge a distancia, o silêncio, a inércia.

Você é, então, deixado em um berço, sem aquele som, sem movimento, sem alimento. E você busca, em completo desespero, aquele conforto que vivenciou e que te trazia tanta paz. Você estava no paraíso e agora... Bem vindo! Você chegou na sociedade patriarcal!

A invenção do patriarcado foi a negação do ventre materno, do seu dom de dar a vida e de tudo mais relacionado ao feminino: a emoção, o instinto, o calor, o conforto, o contato, a empatia, o colo, o doar-se. Mulheres e homens sufocados, buscando na razão, o que só a emoção explica... e é por isso que você sofre.

Sua mãe provavelmente não tem na própria mãe um esteio para apoiar-se nesta jornada. Ela também não amamentou. E não há mais mulheres ao redor, não há tias, primas, irmãs... as famílias são agora núcleos fechados, valoriza-se o indivíduo e não o coletivo. Não existe comunidade pois estão todos distantes, fechados em suas próprias paredes.

Você não sabe falar, é um bebê fisiologicamente prematuro e busca desesperadamente por aquele ambiente de paz que tem em seus registros de memória mais primitivos. E aí você chora. Chora por ser a única forma que conhece de se fazer visto e ouvido. Você carrega os milhões de anos que o tornaram um ser humano e sabe que chorar é a chance de ser acalentado, de ser livrado do perigo... são registros muito primitivos, do instinto, da chama essencial do que que nos faz humanos, da fagulha divina.

Ela sabe que você é um grande presente, mas, distante que está de seus instintos femininos por tê-los sufocados a vida toda para encaixar-se nos ideais impostos, acha que é nos livros que aprenderá como lhe acalentar. Ingênua ignorância. Você está aqui para lembrá-la de que ela é instinto, ela é mamífera, ela é bicho, ela é mais um ser vivo neste vasto planeta... com toda a fisiologia à serviço da vida. E é aí que ela racha. Racha porque não sabe mais ser natural. Realizamos grandiosos feitos com nosso maravilhoso neocórtex, mas o nosso primitivo ainda grita dentro de nós... grita por respeito, por validação, por liberdade. Muitas vezes é só no momento do conceber, gestar, parir e amamentar, que a mulher se dá conta, enfim, de que é um ser mamífero, dotado de razão, de intelecto caminhando lado a lado com a emoção e o instinto.

Sua mãe busca os anseios femininos, mas nem sempre os encontra. Sua mãe está confusa, perdida, ama com o corpo e alma, mas não consegue se conectar com a alma feminina, essencial para as tarefas de cuidado e empatia.

Seu pai também passou anos recebendo mensagens de que emoções são sinais de fraqueza e, por isso, ele quer ser forte, ele quer compreender com a cabeça, não com o coração. O coração foi calado, endurecido e posto sem segundo plano. Talvez por isto mesmo, por ser o macho, o homem, o pai, ele tenha ainda mais dificuldade em exercer a empatia com você... que chora, clamando por um colo.

Qualquer livro que diga algo diferente de 'ouça seu filho'; ouça o que este bebê quer dizer'; 'esqueça todas as regras e seja pai e mãe desta criança que é única no mundo todo' é inimigo do aleitamento, é inimigo do feminino, é inimigo do natural, é inimigo da vida.

Eu sei que é impossível para você aguardar por três longas horas para saciar sua fome de alimento e de vida. Eu sei que é insuportável mamar e ser privado do seio pela arbítrio do relógio, de um tempo que até poucos dias você sequer conhecia. Nem eu consigo ficar 3 horas sem comer ou beber algo, imagino como deve ser desesperador para você que acabou de chegar por aqui e está em período de simbiose profunda com a sua mãe. Você acha que é o que ela é, sequer se compreende indivíduo. Eu entendo, entendo porque lhe é impossível aceitar a separação dos corpos. Entendo seu grito. Separar te soa como morrer.

Eu sei que você precisa mamar o leite anterior, que te mata a sede, mamar o leite posterior, que te mata a fome e, mais ainda, eu sei que você precisa mamar para sentir que está vivo, eu sei que você precisa daquela bolha de amor, daquela energia pulsante te dando boas vindas. Sei que o leite posterior é produzido quando a amamentação está disponível em sua plenitude, sem regras, sem rigidez.

Mas regra e rigidez são ferramentas do patriarcado. Esse modo de vida contrário a própria vida. E é por isso que ela não consegue te ouvir. Ela é amor, mas é um amor sem pernas e braços para ir ao teu encontro e te pegar no colo.

Eu sei como é a solidão fria, silenciosa e inerte do berço e que isto não se parece em nada com aquele estado de deleite em que vivias. É preciso um ouvido carinhoso e alguém que cuide de sua mãe para que ela possa, enfim, te ouvir e, se entregando a ti, te compreender. Ela foi educada para ser invencível, para ser perfeita e tua insistente exigência soa para ela como uma espoliação. 

Seu choro motiva nela culpa e derrota... mas ninguém tem culpa. Nem tu que está sendo apenas o que é, nem ela que está fazendo aquilo pelo qual foi talhada para fazer. 

Quanto à derrota, bom... todos perdem... perdem a vivência única de bem receber um recém chegado, cheio de mistérios e encantos. Perdem de viver com leveza o bom e o ruim deste grande encontro. Perdem a delícia de desfrutar e se conectar com aquela energia que é pura inocência. E perde você que, não se alimentando bem, perde peso, perde sossego e pode perder o seio, assim que um médico pouco comprometido lhe receitar leite artificial...

Como curar esta chaga? É justamente no momento de cisma da mulher - quando ela se vê mãe - que esta ferida mais dói. Surge a dor da saudade que se sente na nossa parcela mulher mais verdadeira e livre, aquela que levamos anos para sufocar. E a cura? A cura, nos dizeres de Mirela Faur, virá com encontros de homens e mulheres em círculos e vivências comunitárias, para despertar e alinhar mentes, corações e espíritos em ações que visem a cura e a transmutação das feridas da psique, infligidas pelo patriarcado.

Apaziguar a si mesmo, harmonizar seus relacionamentos, vencer o separatismo, reconhecer e honrar a interdependência de todos os seres, evitar qualquer forma de violência, dominação, competição ou discriminação são desafios do ser humano contemporâneo, no nível pessoal, coletivo e global. Incentivando a parceria e a integração entre os gêneros.

Mas hoje, agora, já, eu digo que é preciso mais contato, mais toque. É preciso mais devoção, é preciso mais entrega despretensiosa. É preciso mais linguagem de mãe. É preciso mais ajuda sincera e sem julgamentos. É preciso um amor despido, um amor de carne, osso e alma. É preciso um 'colocar-se do lugar de'.

É preciso mais colo sem tempo e um seio sem relógios...

Eu sei o quanto você deseja calor, embalo e colo, mas você chegou por aqui em tempos difíceis...


Imagem: arquivo pessoal

9 de setembro de 2013

Cesárea ou parto normal? Cinco 'petit' respostas para mulheres que querem saber mais...


por Cariny Cielo

É todo dia que recebo questionamentos sobre cesárea ou parto normal. Eu queria demais poder dar a resposta acima, mas enquanto o filme não estreia por aqui, eu resolvi tornar pública a carta que costumo mandar pra quem me pergunta: "O que é melhor, cesárea ou parto normal?"

Vamos lá:

A primeira coisa: nosso cenário nacional e, principalmente, estadual (Rondônia) de prestação de serviços de obstetrícia é precário. Hoje, a mulher sente-se na obrigação de escolher OU uma cesárea (cirurgia de grande porte com 5 vezes mais riscos para o binômio mãe-bebê) OU um parto normal violento (ceivado de violência obstétrica). Em resumo, se você quiser ter uma experiência positiva de parto, de empoderamento feminino, de saúde e segurança para você e para seu bebê, terá que brigar. É bom brigar e lutar estando grávida? Não, não é... mas estamos bem numa era de transição de valores e, provavelmente nossas netas não precisarão passar por isto. (Oremos!)

Segundo: Tudo que você conhece a já ouviu falar de 'parto normal' provavelmente é o parto normal 'tecnocrata', ou seja, onde práticas de rotina da medicina são utilizadas como se as mulheres fossem linhas de montagem. É a fisiologia à serviço da tecnologia e não o inverso, como deveria ser. Vivemos uma época remota em que morriam mesmo muitas mulheres e bebês em partos sem assistência e rumamos pro extremo oposto disto, acreditando que as intervenções médicas no nascimento seriam a garantia de segurança. Hoje, grandes movimentos internacionais de Humanização do Nascimento e Parto concluíram estudos dizendo que não, mecanizar o nascimento não fez bem e agora vimos que podemos/devemos ter o melhor dos dois mundos: o respeito ao fisiológico e a segurança dos avanços médicos. O principal disto tudo é que a Org. Mundial de Saúde já rechaçou a grande maioria das práticas 'de rotina', mas somos nós que devemos lembrar isto ao médico. Exemplos: episiotomia (o famoso pique, não deve ser feito). Soro na veia, lavagem intestinal, posição deitada, corte abrupto do cordão umbilical, ocitocina sintética, manobra de kristeler (empurrar a barriga da mãe pro bebê nascer), ácido nos olhos do bebê (este eles fazem até nos nascidos de cesárea).

Terceiro: a 'escolha' pela cesárea não pode ser uma escolha baseada na segurança do bebê e da mãe já que ela é mais arriscada que um parto normal (dados! não é o que eu acho). No entanto, as mulheres escolhem a cesárea para fugir de um parto normal violento. Existem inúmeros benefícios ao bb que nasce de parto normal (mesmo um parto normal violento é mais saudável do ponto de vista físico pro bb do que uma cesárea), embora os médicos vão lhe dizer que não exista diferença nenhuma. E esta é a outra parte: os médicos mentem muito pras mulheres, seja por má fé, seja por arrogante ignorância mesmo. Uma reflexão quanto a isto: Temos a taxa número 1 de cesáreas do mundo e também é nossa a taxa de maior número de bebês nascidos prematuros (12%) (que precisam de UTI neonatal ou alguma ajuda inicial pra respirar). Estamos tirando os bebês antes da hora e engordando os bolsos dos hospitais! Nenhum bebê está pronto para nascer enquanto não disparar mensagem químicas que dão início ao trabalho de parto. Qualquer coisa antes disto, é tirar um bebê com o pulmão ainda não 100% preparado para respirar. As implicações disto, muitas vezes, não são vistas de início, mas podemos observar um 'booom' de alergias e doenças na primeira infância que praticamente são uma pandemia nacional. Novamente, os laboratórios e hospitais agradecem!

Quarto: O feto que passou pelo canal do parto é 'colonizado' pelas bactérias necessárias à formação do sistema imunológico. Ao que parece, a ciência está apontando para o grande e maior problema das cesarianas: o fato de não haver colonização imediata do bebê pelas bactérias do canal de parto. A ausência dessas bactérias no momento do parto trazem repercussões para o resto da vida, desde obesidade, doenças auto-imunes, entre outros. Estamos, no Brasil, recebendo uma nação de bebês que virarão adultos com doenças crônicas. O sistema privado já pode começar a contabilizar os lucros. A OMS recomenda que as taxas de cesárea girem em torno de 10 a 15%, RO está com quase 70%... são raros os casos em que a mulher realmente precisa de uma cirurgia. Nenhum médico que conheço em Porto Velho vai saber disto tudo... E te garanto que para QUALQUER argumento dele, eu te mostrarei dados reais da Ciência Baseada em Evidências Científicas. Nada disto é minha opinião pessoal, embora eu seja uma entusiasta do nascimento digno, são dados científicos. Nenhuma mulher que pariu e teve uma experiência ruim vai te recomendar. Todos vão dizer que a cesárea é a 'evolução' do parto. Você ouvirá contos aterrorizantes de partos trágicos e de cesáreas salvadoras... Eu estou aqui pra te contar a outra história disto tudo!

Quinto. Eu não te conheço mas, agora, vou arriscar um papo de mulher, de emoção e não de razão! O parto é um evento sexual da vida da mulher, ele não só não irá comprometer sua saúde sexual, como pode melhorá-la. Parir nos traz novamente ao posto de fêmea. Conhecer o próprio corpo, como ele funciona, como fazer ele funcionar em benefício do fisiológico. E ser fêmea é aquele posto que a gente costuma precisar sufocar - muitas vezes a vida toda - para sobreviver numa sociedade que pede mulheres sempre lindas, cheirosas e sorridentes, que tudo conseguem, que tudo suportam... É no parto que a gente se lembra que somos mamíferas, gestamos, parirmos e amamentamos nossa criar... Te garanto que o parto pode ser um evento empoderador e digno e que o nascimento deve ser, precipuamente, um momento de manifestação do amor. Te empresto livros, tenhos DVDs excelentes, te indico leituras na blogosfera materna para que sua escolha final, seja, realmente, informada. E não vendida pelo médico, pelo sistema ou pelo inconsciente coletivo. Fico aguardando teus contatos, se vc quiser.

E chega! Você pode achar que eu sou desequilibrada e talvez seja mesmo! hahaha"

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...