23 de maio de 2014

Da Finlândia para Rondônia: Relato de parto normal hospitalar com doula em Ouro Preto do Oeste e outras histórias

Das coisas maravilhosas de se ter um blog, conhecer pessoas e sentir empatia imediata é, sem dúvida, uma das melhores! 

Hoje abrimos espaço em nossas leituras para os relatos de nascimento dos três filhos da Tuija. Grata eternamente pela honra.

Lindo a delicadeza com que ela nos traz suas histórias e agora, estas histórias pertencem ao universo e vão inspirar muitas e muitas outras mulheres! E observem, ao final, a comparação que ela faz dos serviços médicos em seu país e aqui no Brasil, onde foi atendida!

Vamos conhecer estas histórias?




Meu nome é Tuija, tenho 38 anos e sou mãe de três filhos. Sou finlandesa e moro em Rondônia há 7 anos. Os meus primeiros dois filhos nasceram na Finlândia e o caçula aqui em Rondônia.

Na Finlândia a prática é sempre que possível fazer parto normal; a cesárea é reservada somente para necessidades médicas. Por tanto, ao estar esperando a minha primeira filha, praticamente nem tive escolha: ia ser parto normal mesmo.

Durante a gravidez li bastantes coisas sobre o parto e procurei um hospital público que incentiva o parto ativo e a participação do pai. Antes do parto participamos de algumas palestras no hospital e tivemos ainda um encontro com uma das enfermeiras obstetras para fazer um plano de parto.


PRIMEIRO PARTO:

O primeiro parto começou com contrações leves de madrugada. Tentei dormir mais um pouco e fiquei monitorando a freqüência das contrações. Pelas 10 da manhã a bolsa rompeu e liguei para o hospital.

Eles me disseram que podia sair de casa, mas que não tinha pressa, pois as contrações ainda não eram muito freqüentes. Eu quis usar a banheira no trabalho de parto, mas quando chegamos ao hospital, as três salas com banheira estavam ocupadas e me deram um quarto convencional em outro andar do hospital.

Ao chegar ao hospital, eu estava com três centímetros dilatada e me sugeriram caminhar ou sentar na cadeira de balanço. Mas eu já estava acomodada na cama com a máscara de gás (óxido nitroso) nas mãos e não quis me desgrudar dela mais.

Algumas horas depois achei a dor muito intensa e pedi para receber a injeção epidural. Pouco depois, o anestesista chegou e depois da aplicação consegui dormir um pouco.

A dor cortou, mas as contrações também diminuíram com o epidural e tive que receber ocitocina para manter as contrações. Às seis da noite finalmente chegamos aos 10 centímetros e me disseram que podia começar fazer força para empurrar. Como eu ainda estava sob o efeito da epidural, não sentia muito as contrações e também não sentia nenhuma vontade natural de empurrar.

As obstetras observaram o monitor das contrações e me avisaram quando era hora de empurrar. Foram 15 minutos de trabalho ativo e a Luana nasceu. Ela ficou comigo somente 15 minutos porque precisaram limpar o pulmão dela (tinha inalado líquido amniótico com mecônio).

Ela também tinha uma infecção de estafilococos e precisou de antibióticos durante os primeiros cinco dias. Por causa dos tratamentos dela eu demorei para poder começar a amamentar. Tive bastante dificuldade porque ela não sabia como pegar o peito direitinho (tinham dado mamadeira para ela na outra ala do hospital) e eu não estava preparada para isso. Finalmente, com a ajuda da minha mãe (que é enfermeira obstetra) conseguimos e acabou dando tudo certo. Eu estava feliz com o meu parto mesmo com todas as invenções, mas não sabia que poderia ser muito melhor ainda...






SEGUNDO PARTO:

Dois anos depois nasceu o Lucas! Eu já tinha sentido contrações na noite anterior, mas elas sumiram depois de um banho quente. Na segunda noite das contrações, o banho quente já não fez efeito e eu liguei para a minha mãe para que ela viesse ficar com a Luana, caso o meu marido e eu precisássemos sair à noite para o hospital.

A minha mãe chegou, colocamos a Luana para dormir e assistimos televisão juntas. Tomei outro banho quente e lá pelas 10.30 da noite a minha mãe fez o toque. Estava 4 centímetros dilatada com a bolsa intacta ainda.

Liguei para o hospital e me disseram que poderia ficar em casa ainda, já que eu estava bem acompanhada por enfermeira obstetra própria. Uns 15 minutos depois, as contrações ficaram muito mais freqüentes e intensas e liguei para o hospital de novo avisando que eu não agüentava mais ficar em casa. Eles disseram que poderia ir então.

Chegamos ao hospital às 11 da noite e uma enfermeira muito simpática nos recebeu. Desta vez havia vaga nos quartos com banheira e como ela tinha visto na minha pasta que eu queria estar na água ela já estava enchendo a banheira. Tomei um banho e ela fez o toque. Eu ainda estava com 4 centímetros e resolvi entrar na banheira.

Ao lado da banheira eles tinham instalado o gás e aquilo junto com a água me ajudou muito a relaxar. Durante o trabalho de parto ficamos praticamente a sós com o meu marido porque ao mesmo tempo havia duas outras mães em trabalho de parto e a enfermeira estava sozinha porque era de noite.

Ela vinha sempre que tocávamos a campainha, mas também não tinha nada a fazer. Eu simplesmente estava no trabalho de parto e a água estava me ajudando bastante. Depois de algumas contrações bem intensas e dolorosas senti uma vontade enorme de empurrar. Tinha passado somente uma hora e meia desde que chegamos ao hospital. Falei para o meu marido que achava que o bebê ia nascer e ele tocou a campainha.

Chegou um enfermeiro que queria que eu saísse da banheira para fazer o toque. Recusei e falei que a outra enfermeira havia feito toque comigo sentada na beira da banheira, dentro da água. Ele então fez o toque sem eu precisar sair da água e saiu correndo sem falar nada. Depois disso, tudo passou muito rápido! O enfermeiro voltou com a enfermeira e ela me disse que ia furar a bolsa porque o bebê já estava nascendo. Eu lembro que ela falou: "furei a bolsa... e ai vem o bebê." Foi rápido assim mesmo!

Precisei empurrar uma vez com força e Lucas deslizou para dentro da banheira. Eu estava com os olhos fechados, mas o meu marido disse que ele ainda escapou das mãos da enfermeira e deu uma voltinha na água até ela conseguir pegar ele.

Já nasceu aprontando! Colocaram o Lucas sobre o meu peito e a enfermeira me pediu para levantar. Nunca pensei que seria capaz, mas com a ajuda da enfermeira e do meu marido sai da banheira, atravessei o quarto e deitei na cama. E tudo isso com o Lucas nos meus braços. A placenta nasceu sem muito esforço e levei uns quatro pontos. Fiquei o tempo todo com o Lucas e amamentei ele logo. A enfermeira deixou a gente a sós e trocamos de quarto só mais tarde, depois da primeira amamentação e de um descanso.






TERCEIRO PARTO, EM RONDÔNIA:

Oito anos depois do nascimento do Lucas eu estava grávida de novo, mas desta vez, já estávamos morando no Brasil, mas precisamente em Jaru, interior de Rondônia. Fiquei feliz ao achar um médico em Ouro Preto do Oeste, uma cidade vizinha, que atendia pelo nosso plano de saúde e aceitava fazer um parto normal. E fiquei mais feliz ainda ao descobrir que Kadja, secretária super simpática do médico, ainda era doula!

Bem no final de gravidez fiz um plano de parto por conta própria, e a Kadja o entregou tanto para o médico como para a pediatra e para as enfermeiras. O parto começou, de novo, de madrugada, mas simplesmente senti um desconforto nas costas.

De manhã já estava sentindo contrações leves de uns 15 em 15 minutos. Era um dia muito especial porque era o aniversário de 8 anos do Lucas e em casa sempre comemoramos com um café da manhã gostoso. Ele recebeu os presentes e depois de cantar os parabéns falei que ele ia ter mais um presentão porque parecia que o irmão dele ia nascer naquele mesmo dia.

A minha mãe (que estava nos visitando da Finlândia para receber o terceiro neto dela) fez o toque e constatou 4 centímetros de dilatação. Como o parto do Lucas tinha sido muito rápido, não perdemos tempo e já saímos de Jaru para Ouro Preto para evitar qualquer surpresa no caminho.

Chegamos ao hospital pelas 10 da manhã e entramos no quarto. Sentei horas e horas em cima da bola de pilates, li revistas, assistimos televisão com o meu marido, comi frutas, tomei suco e meu marido até saiu para comprar um milk shake porque tive vontade de tomar um.

De vez em quando meu marido fazia massagem nas minhas costas e no meu pescoço e tomei alguns banhos quentes também. O médico entrava regularmente para verificar o coração do bebê e para fazer o toque.

O parto avançava normalmente com contrações boas e regulares e eu me sentia tão bem que nem pensei em pedir o epidural. Do mesmo jeito dos partos anteriores pensei que cada contração fosse como uma onda que ia e voltava e eu simplesmente tinha que respirar e deixar me levar pelas ondas.

Apesar de estar com o meu marido acabei me fechando no meu próprio mundo cada vez que fechava os olhos para receber mais uma contração. Pelas 4 da tarde o médico fez mais um toque e disse que já estava 9 centímetros dilatada. Fiquei tão feliz porque achei que o dia tinha passado rápido e tinha sido até fácil e o bebê já ia nascer. Pouco sabia eu... Desde aquela hora passaram mais quatro horas esperando esse último centímetro!

A bolsa estava ainda inteira e o bebê estava chegando de rosto primeiro (o que constatamos quando ele nasceu) e isso fez com que a reta final desse tanto trabalho assim! Naquelas alturas eu já estava bastante cansada e tinha muita vontade de dormir.

Meu marido sugeriu que eu deitasse um pouco, mas a posição era muito desconfortável e não consegui ficar na cama. Fazer o toque ficava cada vez mais doloroso e depois de uma das vezes a doula Kadja entrou no quarto.

Ela me deu umas dicas boas e ensinou ao meu marido como ele podia apertar as minhas coxas na hora da contração para me aliviar. Ela me deu aquela força que eu precisava para as últimas horas do trabalho de parto. Depois que a Kadja saiu o médico entrou mais uma vez e disse que ia romper a bolsa porque o bebê já estava quase nascendo.

Ele saiu do quarto para pegar os instrumentos e para se trocar e assim que ele fechou a porta a bolsa rompeu com direito a um barulho alto e jatos de água para todos os lados. Eu simplesmente fechei as pernas porque tive a sensação de que o bebê ia cair naquele mesmo momento. Meu marido pediu para que eu subisse na cama, mas eu não conseguia me mexer. Passaram somente alguns minutos, que pareciam uma eternidade, e o meu marido saiu para o corredor para chamar o médico.

Ele chegou correndo junto com a pediatra e uma enfermeira e eu consegui deitar na cama. Duas contrações mais tarde o Davi nasceu e foi colocado sobre a minha barriga. Tive algumas lacerações e precisei pontos. Enquanto eu estava sendo suturada, o meu marido acompanhou os primeiros cuidados do Davi e vestiu ele. Quando saí da sala de cirurgia (onde fui levada somente para suturar, o parto em si aconteceu no quarto mesmo) os dois estavam me esperando e pude amamentar Davi.




Os meus três partos foram um pouco diferentes, mas cada um deles foi uma experiência sem igual. Eu vejo parto natural como um rito de passagem para me transformar em mãe daquela nova vida que está nascendo. Cada vez tenho sentido dor, mas cada vez também tenho sentido uma felicidade e uma satisfação enormes ao receber o bebê nos meus braços e ao ver meu marido participar do parto e cortar o cordão umbilical.





As experiências em dois países muito diferentes na verdade foram bastante parecidas. As instalações do hospital e a atenção e os cuidados que recebemos aqui no Brasil não deixaram nada a desejar comparando com Finlândia. A única diferença grande é que o padrão que aqui existe no hospital particular lá se encontra na rede pública.






19 de maio de 2014

Semana Mundial Pelo Respeito ao Nascimento pela primeira vez em Rondônia


Pela primeira vez em Rondônia, a Semana Mundial Pelo Respeito ao Nascimento será comemorada com uma exposição de emocionantes fotos, organizada pela Parto do Princípio, sobre o nascer no Brasil.

O evento acontece no município de Cacoal, nos dias 19 a 23 de maio, graças à Faculdade de Ciências Biomédicas de Cacoal - FACIMED que cedeu o hall de entrada da instituição para a exposição das fotos.

A Parto do Princípio é uma rede de mulheres, consumidoras e usuárias do sistema de saúde brasileiro, que oferece informações sobre gestação, parto e nascimento baseadas em evidências científicas e recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS). Temos como principais propósitos: promover os benefícios do parto humanizado, do parto ativo, do protagonismo da mulher no parto e lutar contra a banalização da cesárea em várias frentes de ação. Somos mais de 200 mulheres atuando voluntariamente em 21 estados brasileiros mais o Distrito Federal.

A Semana Mundial pelo Respeito ao Nascimento (SMRN) é uma iniciativa da Alliance Francophone pour l’Accouchement Respecté (AFAR) e da European Network of Childbirth Associations e tem ocorrido em vários países desde 2004 . Neste ano acontecerá de 19 a 25 de maio de 2014 e o tema abordado será “Parir é Poder!”.

Para comemorar a SMRN, a Parto do Princípio está preparando uma exposição que ocorrerá simultaneamente em várias cidades, com fotos em preto e branco de mulheres brasileiras no momento do nascimento de seus filhos.

São fotos de mulheres que tiveram seus desejos de parto e nascimento respeitados, transmitindo assim, imagens positivas do evento do nascimento, na intenção de mostrar que quando a mulher tem a possibilidade de escolher o local de parto, seus acompanhantes e a maneira como quer dar a luz, este processo se torna muito mais positivo e transformador. Por retratarem um momento tão emocionante, e a fim de respeitar os expectadores e a privacidade das mães, as imagens selecionadas são ao mesmo tempo discretas e significativas.

A cada ano, o movimento ganha novas vozes, consolidando-se como uma manifestação expressiva de mulheres e homens que buscam resgatar o nascimento como um evento natural e marcante para a formação do ser.

Impossível não se emocionar com as fotos!



Onde? Na Facimed Cacoal, Avenida Cuiabá, n. 3087, Bairro Jardim Clodoaldo. Telefone 3441-1950
Quando? Dias 19 a 23 de maio.
Que horas? Manhã, tarde e noite.


 



7 de maio de 2014

Maternidade Ativa: Eu conserto: o quebrado e a jornada...


 por Cariny Cielo


Ele veio com aquelas mãozinhas gordinhas de crianças de 5 anos e me mostrou o estrago: "você me desculpa?" Disse ele, que havia estragado um presente que ganhei de uma amiga, lindo, feito em madeira e pintado à mão.

A frustração invadiu-me de imediato e, não, eu não consegui desculpar, nem esconder o aborrecimento, nem oferecer compreensão ou entendimento, sequer fui sincera, apenas me chateei e me afastei... é... eu achei que já estava curada de todas as dores e de todas as marcas que o patriarcado deixa nas mulheres e que, muitas vezes, não deixam que nasçamos prontas para a maternidade, mas não estava. Minhas emoções procuraram empatia e harmonia dentro de mim, mas não encontraram e eu fracassei.

Foi então que eu fui me dando conta de que eu poderia ter rido alto, pensado rápido em colar ou remendar, e fazer mais um troféu, em memória da infância gostosa e das emoções em montanha russa que é a energia da vida crescendo em meio à nossa vida. Diante da magnitude que é despir-se, na alma, para receber verdadeiramente um filho em nossas vidas, um bibelô é só um bibelô. E foi então que eu chorei.

Chorei, pensando nas mulheres pelo mundo que adorariam ter um filho para contar suas estripulias por aí... e não podem. E pensei nas infinitas coisas de meus pais, das que lembro e das que não lembro, que eu provavelmente destruí, sem remorso, e que viraram pó na história gostosa da minha infância...

Me veio na lembrança a dor dilacerante que vi nos olhos de amigas que perderam um filho ainda na tenra infância, antes mesmo dele ser capaz de te invadir a vida e estragar coisinhas, fazer artes pela casa. Percebi a angústia de tantas que dormem todas as noites sem saber onde estão seus filhos pequenos, levados pela maldade do mundo, quando poderiam estar em casa, riscando paredes e quebrando enfeites pras mães contarem no trabalho, orgulhosas, o quanto são arteiros.

E pensei nos milhões de meninos e meninas que têm a infância roubada seja pela guerra, seja pela fome, pela exploração de seus corpos e de suas almas inocentes e que não têm deixado registros nas memórias de suas mães. Quanta perda irreparável, quanto débito, quanta carência... registros precisos que serão buscados no futuro e de onde só se poderá retirar o silêncio e a dor.

Tirando todo o resto, se pudéssemos apagar, arrumar, remendar tudo... a única coisa que fica é a emoção. E a emoção vira sentimento que, por sua vez, cria registros profundos. Se forem emoções boas, lembraremos com alegria e êxtase; se forem emoções ruins, teremos o amargor a assombrar na memória.

E eu me dei conta de que quero lembranças boas, eu quero aquela nostalgia gostosa que dá paz no peito e enriquecerá minha velhice e por isso, eu olho esse filho, e me olho, e me reviro e, então, me encontro.

E é aí que eu cresço, e é aí que eu vejo que não está tão ruim assim. E eu o desculpo e perdôo a mim. E eu colo o que foi quebrado. Colo fisicamente, numa bela metáfora, o conserto que faço na alma, constatando que a jornada está sendo bem caminhada, sim! E me orgulho, e respiro.

Começa tudo outra vez, estamos indo de volta pro amor...

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